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Cria do Salgueiro, Rihanna de Castro se torna coreógrafa de ala feminina

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Foto: Eric Souza @oeric.souza/Divulgação Salgueiro

O Salgueiro viu Rihanna Castro (@rih.castro) ainda criança. Viu seus primeiros passos na arte, acompanhou sua formação, sua descoberta, sua transição e a artista que ela se tornou. Agora, aos 38 anos, a mulher preta, trans e cria do Morro do Andaraí inicia um novo capítulo dessa história. No Carnaval de 2027, ela será responsável pela coreografia da primeira ala da escola, formada exclusivamente por mulheres. A novidade ganha ainda mais significado na semana do Dia da Igualdade da Mulher, celebrado nesta quarta-feira. Para Rihanna, ocupar esse espaço de criação dentro da escola onde cresceu é mais do que uma conquista profissional. É também sobre pertencimento. “Eu não escolhi fazer arte. A arte me escolheu. A arte me salvou de várias formas. Isso é muito gratificante para mim. Estou muito grata por essa oportunidade”.

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Rihanna chegou ao Salgueiro em 2001. Passou pelo Aprendizes do Salgueiro, escola mirim da Academia, integrou o Maculelê e tornou-se assistente de Carlinhos do Salgueiro, a quem chama de mestre e atribui parte importante de sua formação artística.

Foi dentro da escola também que viveu diferentes momentos da construção de quem é hoje. Ao revisitar essa história, ela se emociona. “O Salgueiro viu a minha transição toda. Me viu chegar aqui criança, me viu gay e hoje está me vendo como uma travesti à frente de uma ala coreografada. Isso é muito gratificante. Isso é muito importante”.

Em uma trajetória construída entre ensaios, espetáculos e carnavais, Rihanna viu muitos talentos nascerem dentro do Salgueiro. Também viu artistas precisarem sair de suas escolas para encontrar oportunidades em outros lugares. Por isso, poder dar um novo passo justamente na casa onde foi formada torna a conquista ainda mais especial. “Eu sempre falava: ‘Calma, a minha hora vai chegar’. Nunca perdi a fé. Fui muito resiliente. Via todo mundo crescendo e pensava: ‘A minha hora vai chegar’. E aqui estou hoje. Chegou”.

A nova função não representa sua estreia na criação. Rihanna já passou por comissões de frente, desenvolveu trabalhos coreográficos e atua há cerca de uma década como assistente de Carlinhos do Salgueiro. Mas ela admite que estar à frente de uma ala da Academia tem outro peso. “A pressão muda. O nível sobe. Vai ser uma experiência desafiadora, mas eu gosto de desafio. Estou muito feliz e muito ansiosa. Tenho um caminho longo no Carnaval e uma história aqui dentro”.

No Carnaval de 2027, essa história também encontrará a de Xica da Silva. Com o enredo “Laroyê Xica da Silva: a história por trás da história”, o Salgueiro levará para a Avenida uma narrativa atravessada pelo protagonismo de uma mulher negra. E Rihanna estará à frente de uma ala composta somente por mulheres.

Para quem chegou ainda criança e encontrou na escola espaço para aprender, criar e se reconhecer, o novo desafio carrega um significado que ela resume sem hesitar. “O Salgueiro me abraçou desde criança. Me deu confiança, apoio e força. Eu acredito que vai dar muito certo. Tem que dar muito certo, porque eu mereço”.

Sidnei Carrioulo acelera reconstrução do Águia de Ouro: ‘Entramos para brigar pelo campeonato’

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Foto: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

O presidente Sidnei Carriuolo tem arregaçado as mangas para conduzir o projeto do Águia de Ouro de maneira intensa. O baque do rebaixamento de uma escola de samba é forte, mas o dirigente tratou de erguer a cabeça rapidamente e transmitir essa mentalidade à comunidade. O principal discurso é de brigar pelo título, e não apenas pelo retorno ao Grupo Especial. Para isso, reforços foram contratados: Tiguês e Serginho, como diretores de harmonia. O carnavalesco Leandro Barboza juntamente ao enredista Tiago Freitas, além uma nova dupla de mestre-sala e porta-bandeira, formada por Alex Malbec e Nathalia Guimarães. O mestre Rodrigo Moleza foi mantido, único maestro a conquistar quatro notas 10 no quesito no Grupo Especial. Os intérpretes Douglinhas Aguiar e Serginho do Porto, com entrosamento máximo, também ficam para liderar o carro de som. O Águia de Ouro também abriu mão do processo de eliminatórias e encomendou o samba-enredo, que vem sendo elogiado. Todas essas movimentações estão alinhadas ao discurso de Sidnei Carriuolo de levar a escola novamente ao topo da tabela. O mandatário conversou com o CARNAVALESCO e abordou essas e outras questões.

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Projeto aprovado

Sidnei esbanjou felicidade ao falar do projeto, enaltecendo os protótipos apresentados e a melodia escolhida para o samba-enredo do Carnaval 2027. “Eu estou feliz, porque a plástica das fantasias ficou muito legal. O samba também empurra a escola para a frente, um samba que exige do componente. E, para mim, o mais importante é a reação da comunidade. Eles são o meu termômetro. Estão felizes tanto com as fantasias quanto com o samba. Isso nos dá tranquilidade e faz a gente acreditar em um bom desfile”, disse.

Samba encomendado

Nos últimos anos, o Águia de Ouro realizava eliminatórias internas e adequava a letra do samba-enredo junto à sua ala musical. Segundo Sidnei, o formato de encomenda chegou à Pompeia para que o samba-enredo ficasse de acordo com as características da escola. “A verdade é que samba não tem mistério: ou você acerta, ou não acerta. Quando não acerta, às vezes é melhor fazer outro do que ficar tentando consertar. A gente também tem uma preocupação muito grande de fazer um samba que tenha a cara da escola. Não adianta ser um samba bonito se, quando você ouve, parece que é de outra escola. Por isso a gente trabalha bastante em cima dele, até que fique com a nossa identidade. O enredo também ajudou muito. Quando você tem uma letra boa, a melodia flui com mais facilidade. Quando aparecem palavras muito difíceis ou pouco usuais, fica mais complicado construir uma melodia agradável. Acho que o enredo facilitou bastante o trabalho dos compositores”, explicou.

Nova cara para a escola

Mudanças e chegadas aconteceram na Pompeia para o Carnaval 2027, como as contratações de Tiguês e Serginho, do carnavalesco Leandro Barboza, do enredista Tiago Freitas e da porta-bandeira Nathalia Guimarães, além da manutenção do mestre Moleza, que foi o único mestre nota 40 do Grupo Especial. O presidente falou sobre os novos integrantes. “A gente vai avaliar as mudanças mesmo depois do desfile. Essa é a verdade. Mas, neste momento, estou muito satisfeito com o trabalho que começamos a fazer. As coisas estão seguindo um novo caminho, e a gente espera um resultado positivo. Às vezes, o carnaval é bonito, impressiona no papel, mas não encaixa na avenida. Essa é a verdade. Já tivemos carnavais maravilhosos que chegaram à avenida e não aconteceram. Também tivemos o contrário: carnavais que não pareciam tudo isso, mas chegaram à avenida e deram certo. O trabalho que está sendo feito pelo Leandro, pelo Tiago, que é o enredista, pelo Tiguês e pelo Serginho está seguindo um caminho muito legal. Está dando uma nova cara para a escola, sem perder as nossas tradições e o nosso jeito de ser. O trabalho está evoluindo muito bem”, comentou.

Trabalho forte

Em um carnaval mais cedo, como o de 2027, aumenta a dificuldade para confeccionar um desfile. Porém, para o dirigente, não há muitos empecilhos, pois o trabalho vem sendo realizado de forma intensa. “A gente, psicologicamente, ainda não acredita em um carnaval tão cedo. É muito louco. O carnaval acontece antes do habitual, e isso muda toda a percepção do calendário. Quando a gente percebe, já não é mais julho, é agosto. Esse é o grande desafio. Por isso estamos antecipando o trabalho. Quero que, até o Natal, as coisas já estejam praticamente dominadas. Graças a Deus, o Águia de Ouro é uma escola que tem crédito. Isso nos ajuda muito, porque conseguimos adquirir material para trabalhar. Em relação à mão de obra, vamos administrando um pouco para cada um, para que ninguém fique sem receber. Quando chega a verba pública, conseguimos quitar tudo, pagar todo mundo, e fica tudo certo”, declarou.

Briga pelo campeonato

Por fim, o mandatário do Águia de Ouro enfatizou a briga pelo título do Grupo de Acesso 1. “Se não for para disputar o título, nem faz sentido desfilar. A gente entra para brigar pelo campeonato. Sempre com o maior respeito, porque conhecemos as dificuldades e sabemos da qualidade das escolas que estarão na disputa. Todas nos preocupam, e isso é positivo. Essa preocupação faz com que a gente trabalhe ainda mais. É dessa forma que estamos conduzindo o nosso carnaval: conscientes de que teremos grandes adversários, todos com condições de conquistar o título. Isso nos obriga a redobrar a atenção, o cuidado e o trabalho em cada detalhe”, concluiu.

Jacarezinho aposta em renovação para voltar à Sapucaí após ano marcado por dificuldades

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Foto: Fernanda Portella/Divulgação Jacarezinho

Após um Carnaval 2026 marcado por dificuldades e acontecimentos que deixaram a comunidade machucada, a Unidos do Jacarezinho inicia uma nova fase com o objetivo de reconstruir sua trajetória na Sapucaí. A escola apresentou seu projeto para o Carnaval 2027 apostando em renovação e organização. O enredo, desenvolvido pelo carnavalesco Carlos Eduardo, o Cadu, terá como tema Oxumarê e ganhou um significado ainda mais especial ao ser relacionado aos 60 anos de fundação da agremiação. A direção decidiu que vai encomendar o samba-enredo. O presidente Valdir By Toko destacou ao CARNAVALESCO que o principal desafio da nova gestão é recuperar a confiança da comunidade e mostrar, por meio de trabalho e responsabilidade, a força histórica do Jacarezinho.

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“É o desafio de uma comunidade machucada por tudo o que aconteceu no último carnaval. Mas é uma comunidade que tem uma força muito grande, muito grande mesmo. Estamos falando da segunda maior comunidade do Rio de Janeiro, uma comunidade que tem um grande número de negros, que tem uma força muito grande no samba. Isso tem que ser respeitado e mostrado. Mas mostrado com gestão, trabalho e responsabilidade”, afirmou.

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Presidente do Jacarezinho. Foto: Miguel Correia/CARNAVALESCO

Valdir também garantiu que a prioridade da escola será a construção do carnaval. “Vocês podem contar que todas as moedas do Jacarezinho vão ser para o carnaval. E aí, sim, a gente vai mudar essa história”.

Cadu vê ligação entre Oxumarê e os 60 anos da escola

De volta ao Jacarezinho, o carnavalesco Cadu assume o desenvolvimento do Carnaval 2027 cercado por expectativa. O artista, que possui uma história anterior com a agremiação, contou que recebeu o convite com alegria, mas também com a consciência da responsabilidade diante do momento vivido pela escola.

“Eu realmente estava esperando. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo dentro da comunidade, dessa mudança de diretoria, mas havia algo dentro de mim que me fazia entender que esse chamado iria chegar. E chegou. Agora, o Jacarezinho precisa, sim, fazer um grandíssimo carnaval para conseguir não somente ficar na Sapucaí, mas também demonstrar o poder que a escola e essa comunidade têm”, revelou.

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Carnavalesco Cadu. Foto: Miguel Correia/CARNAVALESCO

A escolha de Oxumarê ganhou um significado especial durante o processo de pesquisa. Ao desenvolver o enredo, a equipe percebeu que os 60 anos da iniciação de Oxumarê coincidiam com os 60 anos da Unidos do Jacarezinho. Para Cadu, a sucessão de coincidências apontou para algo maior.

“No começo era: ‘Oh, uma coincidência!’. Depois: ‘Oh, outra coincidência!’. E depois: ‘Oh, outra coincidência!’. Até que eu entendi e acho que a escola e a equipe criativa também entenderam, que não são coincidências. era o momento certo e ncessário para fazer esse enredo. E, claramente, a gente está abençoado pela Casa de Oxumaré, na Bahia. Axé!”, explicou.

Cadu também aposta que a escola poderá surpreender na Série Ouro. “Acredito que, depois de tudo de triste que aconteceu no carnaval passado, ninguém está esperando muito da escola. Mas podem ter certeza de que a gente vai fazer um grande espetáculo, à altura que essa comunidade merece, à altura que os carnavalescos merecem e à altura que a própria escola merece”.

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Foto: Fernanda Portella/Divulgação Jacarezinho

O trabalho de desenvolvimento do enredo começou há pouco mais de um mês e envolveu pesquisas, conversas e contato com a Casa de Oxumaré, na Bahia. Mesmo com o tempo reduzido, Cadu afirma que o processo avançou de maneira natural. “Tudo fluiu de um jeito tão natural que a gente está muito satisfeito e muito feliz com o que conseguiu construir e com o que vai conseguir construir daqui até o carnaval”, destacou.

Organização e estrutura para acelerar a construção do carnaval

Diretor de carnaval, Jurandir Baptista também assumiu o projeto motivado pelo desafio de reconstruir a escola. Segundo ele, o convite para trabalhar no Jacarezinho foi recebido com entusiasmo justamente pela possibilidade de participar de uma retomada.

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Diretor de carnaval, Jurandir Baptista. Foto: Miguel Correia/CARNAVALESCO

“É um desafio que eu aceitei com muito orgulho. A Unidos Jacarezinho é uma escola que, quando te liga, independentemente do grupo em que ela esteja, você se sente balançado e com vontade de participar desse projeto. A gente demorou, de fato, a dar a largada. Como eu tenho falado, demoramos a largada na nossa corrida do carnaval, mas, depois que larga, a gente corre. Não no desespero, mas no sentido de otimizar processos, entender as relações de tempo de que a gente precisa”, contou.

A estrutura do carnaval também avançou. Como a escola não poderá contar com as alegorias utilizadas anteriormente, a direção precisou reorganizar o planejamento.

“Infelizmente, a gente não tem mais as que tinha no ano passado, por tudo o que foi noticiado e veiculado pela imprensa sobre o incêndio e tudo mais. A gente fez a aquisição de três alegorias e está estruturando essas alegorias. Eu me arrisco a dizer que, hoje, a gente está no mesmo patamar de organização e construção de carnaval que as outras escolas. Desde, como eu falei, a construção do enredo, passando pelas alegorias, barracão, construção de fantasias e protótipos. A gente já iniciou a elaboração dos nossos protótipos”, afirmou.

Bateria quer aprender com os erros e buscar os 40 pontos

À frente da bateria, os mestres Darllan e Pelezinho trabalham para transformar as dificuldades do último desfile em aprendizado. Amigos de longa data e criados dentro da quadra do Jacarezinho, os dois afirmam que o objetivo é identificar as falhas e aprimorar o trabalho.

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Mestres Darllan e Pelezinho. Foto: Miguel Correia/CARNAVALESCO

“Eu e o Pelezinho já somos amigos há muito tempo. A gente cresceu junto aqui dentro da quadra, então estamos conseguindo nos alinhar e ver o que foi falha, o que podemos mudar e modificar para conquistar a nota 10. É um julgamento muito árduo, temos que trabalhar e não deixar nenhuma coisinha de lado, não deixar nenhuma ponta solta, para conseguir conquistar os 40 pontos”, explicou Darllan.

Pelezinho reforçou que a prioridade é olhar para frente. “O erro já ficou no passado. Agora é daqui para frente. A tendência é sempre melhorar, aprimorar cada vez mais e também aprender com os erros que tivemos no último carnaval”.

Ailton Santos chega ao 22º ano à frente da voz do Jacarezinho

Intérprete oficial da Unidos do Jacarezinho ao lado de Matheus Gaúcho, Ailton Santos também vê o Carnaval 2027 como uma oportunidade de renovação. Será o 22º ano consecutivo em que ele levará a voz da escola para o Carnaval do Rio.

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Intérprete Aílton Santos. Foto: Miguel Correia/CARNAVALESCO

“Antes de tudo, é uma emoção muito grande. Pelo 22º ano consecutivo, levar a voz da Unidos Jacarezinho para o carnaval do Rio de Janeiro, na Série Ouro, é motivo de muito orgulho. Em relação ao Carnaval de 2026, eu acho que o enredo de 2027 tem tudo a ver com o momento que estamos vivendo, porque fala de renovação. Nós temos que esquecer o que passou e pensar à frente, pensar no futuro. E, se Deus quiser, com Oxumarê, nós vamos arrebentar e fazer um excelente desfile”, afirmou.

Serginho do Porto volta à Unidos da Ponte após 32 anos e promete ser ‘revolucionário’ no Carnaval 2027

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Foto: Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

A história de Serginho do Porto se mistura com a trajetória da Unidos da Ponte. Aos 17 anos, o intérprete chegou à escola de São João de Meriti e, 32 anos depois, está de volta para defender o samba-enredo da agremiação no Carnaval 2027. O reencontro foi marcado por emoção, principalmente diante da quadra lotada para receber novamente um dos nomes importantes da história da azul e branca. O convite para o retorno partiu do presidente Tião Pinheiro e de Gustavo Barros, gestor administrativo. Para o cantor, voltar à escola representa mais do que uma nova oportunidade profissional: é o reencontro com uma parte importante de sua própria história.

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“Depois de 32 anos a gente volta para a nossa escola. Que emoção dessa quadra lotada. Eu vim para a Unidos da Ponte com 17 anos de idade. A história da Ponte se confunde com a minha história. Isso me faz muito bem, muito bem. Eu acho que é um momento muito especial na minha vida”, afirmou o intérprete.

Elogios ao samba-enredo

De volta à escola, Serginho também terá a missão de conduzir o samba-enredo desenvolvido pelos compositores Claudio Russo, Silvio Romai, Juão Nyn, Marquinho Beija Flor, M. Borboleta, Jorginho da Flor, Herval Neto, Mateus Pranto, Gabriel Simões e Raphael Gravino para o Carnaval 2027. O intérprete revelou que ainda não havia trabalhado com uma obra encomendada, mas fez questão de elogiar a composição escolhida pela Unidos da Ponte.

“Eu não tinha trabalhado ainda, mas falo para você: é um dos melhores sambas do carnaval do grupo da Série Ouro. Vocês vão estar aqui para ouvir, o samba é muito bom!”, afirmou.

Entre os trechos da obra, o intérprete apontou o refrão final como seu favorito. A passagem, segundo Serginho, dialoga diretamente com o significado de seu retorno à escola. “É o refrão final. Porque ele ergue a Ponte para fazer revolução. E eu volto para ser revolucionário nessa escola!”, destacou.

Marquinho Beija-Flor destaca facilidade para criar samba a partir do enredo

Um dos compositores responsáveis pelo samba-enredo, Marquinho Beija-Flor, também comentou o processo de criação da obra. Para ele, a força do enredo apresentado pela Unidos da Ponte facilitou o trabalho da parceria, que já atua junta há alguns anos.

“O processo de produção do samba foi muito tranquilo. Um dos motivos que nos deu essa tranquilidade foi o enredo. Quando o compositor abraça o enredo, ele vê o enredo como uma grande proposta para que se faça um samba, fica muito mais fácil. A gente entendeu que foi um presente esse enredo. Um enredo importante, um enredo que se faz necessário nos dias de hoje”, explicou.

Marquinho destacou ainda a sintonia entre os integrantes da parceria durante o processo de composição.

“Todos os meus parceiros são muito competentes. Foi um processo de produção bem tranquilo. A gente acha que atingiu os objetivos, tanto da parceria quanto do proposto pela escola”, afirmou.

Carnavalesco pediu uma obra com a ‘cara do enredo’

Segundo Marquinho, o carnavalesco Nicolas Gonçalves deixou os compositores à vontade para desenvolver a obra, mas fez um pedido específico: que o samba fosse capaz de apresentar ao público a proposta do enredo de maneira clara e, ao mesmo tempo, tivesse momentos de irreverência.

“O carnavalesco deixou a gente bem à vontade. Ele pediu que a gente fizesse uma viagem por esse enredo. Em um processo criativo, um processo que desse a letra do samba com cara do enredo. Que as pessoas, ao ouvirem a letra do samba cantada, tivessem uma facilidade do entendimento da proposta do enredo. Ele também pediu que a gente fizesse um samba bonito, mas que, ao mesmo tempo, fosse um samba jocoso, que brincasse um pouco com algumas coisas que o enredo permitisse, sem ser vulgar. A gente acha que conseguiu trazer para a Unidos da Ponte um grande samba. Acho que é um samba que vai se posicionar muito bem dentre os sambas da Série Ouro, quiçá do Grupo Especial também”, contou.

O compositor ressaltou que a história apresentada pela escola poderá ser uma novidade para parte do público e acredita que a Unidos da Ponte terá um papel importante ao levá-la para a Avenida.

“Um enredo que vai trazer para muitas pessoas uma história nova. Eu tenho certeza que vai ser muito bem recebido. Acho até que já está sendo bem recebido”, disse.

Na avaliação de Marquinho, os refrões são os principais destaques da obra. O compositor acredita que as melodias têm força para contribuir diretamente com a evolução da escola durante o desfile.

“A parte que a gente mais curte do samba são os refrões. A gente acha os refrões muito fortes, com melodias que impulsionam muito ou podem vir a impulsionar o desfile, uma melodia valente, uma melodia vibrante”, afirmou.

Ele explicou ainda a diferença entre os dois refrões da composição. “O refrão do meio é um pouco mais alegre, um pouco mais brincalhão. E o de baixo é o enredo, com uma mensagem sendo mostrada através da letra e com uma melodia muito valente. A parceria está muito satisfeita com o samba por completo. A Unidos da Ponte está feliz e o povo do Carnaval, o povo do samba, vai ficar feliz porque essa história é uma história que precisava ser contada. Precisava ser entendida, compreendida, e eu acho que vai ser um marco a partir de agora o que a Unidos da Ponte vai fazer nesse carnaval”, destacou.

‘Toca o aguerê’ e ‘Arriba la Mocidade!’: Parcerias de PC Feital e Jefinho Rodrigues se destacam nas quartas da Mocidade

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Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A Mocidade recebeu mais uma noite de apresentações de alto nível na quadra histórica da Vila Vintém. Nas quartas de final, seis sambas se apresentaram, e cinco seguem para a semifinal, que ocorrerá no próximo sábado, 29. A disputa escolherá o samba-enredo para o tema “Latinamente Independente – Nosso norte é o Sul em Remanifesto”, desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos. Confira a análise do CARNAVALESCO sobre a noite de apresentações.

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Parceria de Jefinho Rodrigues: O samba da parceria de Jefinho Rodrigues foi o segundo a se apresentar na quadra histórica da Vintém, defendido por Wander Pires. A composição é uma das que mais se atêm ao que está descrito na sinopse, recuperando diversos elementos apresentados pela escola, como “Os filhos do sol”, “A flecha de Oxóssi é farol”, “A caça agora vira caçador” e “Vamos sulear”. A letra é relativamente simples e bastante fiel à ordem narrativa, e é na melodia que encontra seu principal diferencial. O refrão “Arriba la Mocidade / Leva mi corazón / Faz valer tua verdade, teu chão / Mostra pro mundo que só a gente tem / Dá-lhe ritmo caliente / Molho da Vila Vintém” não apresenta uma construção lírica especialmente complexa, mas é elevado por uma melodia muito forte e indutiva. A frase melódica permanece facilmente na cabeça, fazendo com que mesmo quem não memorize todos os versos reconheça imediatamente seu desenho. Na quadra, essa característica apareceu com força. O refrão principal funcionou bem, assim como a estrofe que segue: “Coragem! Pra revolucionar / Filhos do sol / A flecha de Oxóssi é farol / Estrela guia do nosso destino”. Distinguem-se também os versos “Vamos sulear”, “Nosso jeito é dar um jeito / Quando a vida desatina / Gambiarra criativa”, que foram muito cantados pelo público. Além destes, “Meus valores não têm preço / O futuro que eu mereço / O passado me ensina” apresentou um desenho melódico que chama a torcida e foi valorizado musicalmente pela interpretação, funcionando bem na maior parte das execuções. O irreverente verso “‘Ai, se’ te pego aqui, volto a te devorar” também encontrou boa resposta da comunidade. Entretanto, “o amor serpenteou, o vento anunciou / a luz tá no saber de Pachamama” passou com menos força, tendo perda de intensidade no canto do público em algumas passadas. Houve uma leve perda de energia do público na quarta passagem, mas o rendimento geral foi bom, firmando-se como um grande destaque da noite. Antes da performance, as baianas já se alocaram à frente do palco, e as passistas se juntaram ao canto enérgico no início da apresentação. Além dos segmentos, os torcedores formaram um grupo volumoso, que cresceu até o fim da performance. O canto contagiou também integrantes da diretoria e o próprio intérprete da escola.

Parceria de Paulo César Feital: Zé Paulo Sierra e Juan Briggs deram voz à composição da parceria de Paulo César Feital. O samba dá um peso histórico à proposta da sinopse ao recuperar a resistência dos povos originários e dos africanos escravizados diante dos processos de colonização, aproximando figuras como Oxóssi, padroeiro da escola, e Ogum, associado à tecnologia, metalurgia e guerra, dessa ideia de retomada de poder. A letra olha para a América Latina de forma ampla, mas mantém presente a crítica ao processo de colonização europeia e à permanência de relações de dominação entre Norte e Sul globais. A composição se destaca, assim, por sua abordagem histórica à narrativa. Seu ponto mais alto em termos de lirismo, coesão e criatividade está nos versos “Eu sonhei com Obatalá e Tupã lá no Orum / Caetés na Casa Branca e a Colômbia e o Peru / Na soberania plena, todos juntos somos um / Pindorama era o quilombo dos saberes de Ogum”. A estrofe reúne referências distintas em sua construção e consegue traduzir musicalmente a ideia de uma América Latina soberana, atravessada pelos saberes dos povos originários e africanos. O refrão principal também estabelece uma relação muito forte com a identidade da Mocidade: “Toca o agueré pra fazer revolução / Toca o agueré e respeita essa nação / O meu norte sempre foi nossa pátria mãe gentil / Mocidade Independente do Brasil”. “Toca o agueré” traz uma referência diretamente ligada a Oxóssi e, dentro da narrativa, coloca o orixá como uma das forças que conduzem a revolução proposta pelo enredo. Já “nossa pátria mãe gentil” resgata uma expressão presente em sambas importantes da escola, especialmente no samba vencedor de 2017, e pode reativar no torcedor uma memória associada a momentos de vitória. Na quadra, o verso “Toca o agueré” confirmou, na prática, o potencial de identificação da canção. O refrão foi um dos mais cantados da noite, garantindo o destaque da parceria de Feital nesta fase da competição. A letra também encontra força no coloquialismo. Em “Tome tenência / Que meu filho vire o mundo de cabeça pra baixo”, o samba incorpora uma expressão popular e aproxima o remanifesto da linguagem cotidiana, acrescentando irreverência à narrativa. O rendimento foi excelente, com uma defesa enérgica e segura. O desempenho também foi crescente, contagiando, além da torcida expressiva que ocupava o meio da quadra, quem estava pelas mesas e nos camarotes. O canto se manteve firme até o fim da exibição, entoado do início ao fim em cada passada por sua torcida. Na quadra, “Toca o agueré” já demonstrava sua capacidade de mobilização antes mesmo do início da apresentação. A torcida foi a primeira a puxar espontaneamente um trecho do samba antes da primeira passagem, especialmente esse verso. Diretoria, musas, baianas e integrantes da bateria também cantaram bastante o samba.

Parceria de Léo Peres: Defendida por Bruno Ribas e Igor Pitta, a composição da parceria de Léo Peres adota uma construção mais descritiva para desenvolver o remanifesto proposto pela Mocidade. A letra percorre diferentes elementos da narrativa, passando pela América Latina, pelos povos originários, pelos quilombos e pela própria Zona Oeste com teor poético: “Do luar da cordilheira ao suor dos cafezais / Das aldeias irmanadas convoquei os rituais / Divindades da mãe terra, os saberes e mistérios / De quilombos e ogãs / O hemisfério se levanta, a Zona Oeste se agiganta e reescreve o amanhã”. Entre os momentos de maior força lírica está “vade retro, invasor! Kaô! Laroyê! ‘Ai, se eu te pego!’ no maculelê”, que funcionou muito bem na quadra, sendo um dos versos mais cantados pelos “independentes” e de ênfase melódica dos cantores. A composição também assume a ideia de remanifesto em “Quero poesia das canções inconformadas / De batizar e honrar quem são nossos heróis”, reforçando a intenção de reescrever a narrativa a partir daqueles que foram historicamente colocados à margem. O refrão principal “Dale Mocidade, canta, incendeia a avenida / Se a latinidade é forte, o Sul vira Norte, gracias à la vida” mostrou sua força desde antes da apresentação, com os torcedores gritando “Dale”. São versos que apresentam melodia interessante e dão força ao canto dos sambistas, especialmente em “Dale Mocidade”. Vale como um destaque da apresentação, rendendo muito bem em todas as passadas. Já o verso “inverte o mapa, muda o destino” apresentou uma melodia interessante, também trabalhada pela defesa. A performance do carro de som também se distingue, com belas harmonias vocais e divisão de vozes, que engrandeceram a experiência. Entretanto, o trecho “a gente dá um jeito e vinga esse chão / sem perder a ternura, mãos que se ajudam” teve uma queda de energia na quinta passagem. O canto dos versos “Que a reza dos tambores, ‘vieja negra’, nos conceda proteção pelas veredas. Oh! Morena, só quem bole ‘las caderas’ sabe a força da paixão!” foi menos uniforme na segunda passagem, apesar de a torcida se manter animada. Na quarta, houve uma leve queda de rendimento, especialmente neste trecho. A exibição teve um bom rendimento, apesar das leves quedas, valendo-se da força de seu refrão principal. Teve uma torcida numerosa e muito animada, com a presença das baianas da escola à frente do palco, cantando e dançando.

Parceria de Richard Valença: A penúltima parceria a pisar no palco foi cantada por Tinga, Charles Silva e Tem Tem Jr. A composição da parceria de Richard Valença também parte do sentido histórico do enredo, mas assume uma postura ainda mais direta e combativa diante do colonialismo e do imperialismo. “Samba originário, canibal que tem fome de reparação / Latino quilombo, flecha do caboclo imortal / Das mentiras de Cabral e no peito de Colombo” já apresenta a disposição de confronto que atravessa a obra. Na sequência, “Retupiniza esse filme americano que se diz republicano / Mas nos tacha covardia / Inflama a luta na alma de cada irmão / Pro nosso corpo não ser mais capitania” reforça esse caráter de enfrentamento, colocando a letra em uma espécie de “dedo na cara” do poder colonial. É uma composição simples e direta, mas justamente por isso consegue ser bastante incisiva, transformando a ideia de resistência em palavras de ordem que atravessam a letra. O refrão principal é um dos pontos mais interessantes da composição: “O mapa que vira, virou / Refez o passado / Independente não vai ser colonizado / O mapa que vira, virou / Nos faz ir além / São outros quinhentos na Vila Vintém”. A expressão “são outros quinhentos” funciona como um recurso criativo ao trazer para a narrativa uma construção popular, recebida com muito entusiasmo pelos presentes. Já a escolha de “vira, virou” estabelece uma referência especialmente interessante à memória musical da Mocidade, já que as palavras remetem a um de seus sambas mais conhecidos. O refrão principal foi muito bem cantado pelos torcedores, enquanto a estrofe “samba originário, canibal que tem fome de reparação, latino quilombo / flecha do caboclo imortal nas mentiras de Cabral e no peito de Colombo…” também teve boa resposta na segunda passagem, embora tenha perdido força na terceira. A melodia acompanha o caráter de luta da letra e apresenta diversos momentos de destaque. Em “Inflama a luta na alma de cada Hermano pro nosso corpo não ser mais capitania” e “Eu sou o som, o calor, o jeitinho, amor sem fronteiras”, há desenhos melódicos bem trabalhados e marcados pelos intérpretes, o que ajuda a chamar a comunidade para o canto. “Viva la revolução” também funcionou com o público, embora tenha apresentado uma queda de adesão na terceira passagem. A energia dos próprios intérpretes acompanhou a oscilação da quadra, com uma leve queda de rendimento entre a quarta e a quinta passagens. Isso também foi visto no verso “Em cada ylê, a soberania forjou o saber de ser anarquia”, que apresentou uma redução no canto nesse momento. Em geral, a apresentação obteve um bom rendimento. Começou enérgica, com leve decaimento ao longo das passadas, assim como a animação da torcida. Mesmo com a queda gradual de energia, a apresentação teve momentos de força, especialmente no refrão principal, que lhe rendeu um bom momento de destaque nesta noite. Reuniram uma torcida menos volumosa em comparação às anteriores, mas tiveram a participação de integrantes da ala de passistas, que reforçaram o canto. Além delas, alguns membros da bateria também cantaram alguns trechos da obra.

Parceria de Santana: Fechando a noite de quartas de final, a obra foi interpretada por Dowglas Diniz e Leonardo Bessa. O samba da parceria de Santana encontra em Oxóssi um dos principais caminhos para desenvolver a proposta do enredo. Vai além da dimensão de evocar o orixá padroeiro da Mocidade e aproveita características que dialogam diretamente com a narrativa: Oxóssi como caçador, guerreiro e figura associada à inteligência estratégica. É válido pensar também na presença do orixá no Brasil, onde sua tradição africana se desdobra e se ramifica a partir do contato com as crenças indígenas, dando peso à coerência narrativa e ao nível criativo da composição. O lírico se reforça na melodia aguerrida, que aumenta o ar de “luta” da canção. Essa leitura aparece de forma eficiente no refrão do meio: “Okê, okê, okê arô / okê, okê arô / Se ontem eu fui à caça, hoje eu sou o caçador”. É uma construção simples, mas que se reforça ao evocar Oxóssi e chamar a identidade dos independentes, além de ser indutiva – o que se comprovou na noite de apresentação, sendo um dos trechos mais cantados pelos sambistas. Vale destacar também, tamanho o potencial lírico, que a cantora Lara Vidal abriu a performance entoando este refrão com vocais poderosos, abrilhantando a defesa. A composição também apresenta uma leitura mais poética da sinopse. “Não se aprisiona o sonho de quem tira um sorriso da dor / Riquezas da mãe natureza, obra do criador / Ogum, a saga do povo guerreiro / Forjou no aço meu terreiro / Tecnologia ancestral” é um dos trechos que melhor traduz essa escolha. O refrão principal segue pelo mesmo caminho: “Sangue latino revestido de alegria / Até o fim demonstro minha identidade / O sol que brilha, amanhã um novo dia / Virei o mundo pela minha Mocidade”. “Até o fim demonstro minha identidade” ainda recupera uma expressão associada a um dos sambas mais importantes da escola, criando uma referência capaz de provocar a memória afetiva dos torcedores. Mesmo com a quadra se esvaziando no fim da noite, o refrão pôde mostrar seu potencial, sendo bem cantado ao longo das passadas. A performance teve um rendimento regular. O público acompanhou bem diferentes trechos para além do refrão, embora tenha apresentado algumas oscilações. Na terceira passagem, “Das veias abertas, na flecha um destino / Troveja o hino que faz despertar…” teve pouco canto da comunidade, e o rendimento voltou a cair na quarta. A torcida era bem menos volumosa que a de outras parcerias, mas conseguiu participar de diferentes momentos da execução.

Análise: Parcerias de Wanderley Monteiro, Cecília Cruz e Dudu Nobre são destaques na reta final da Portela

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Fotos: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

A reta final da disputa de samba-enredo da Portela para 2027 já deixou claras as obras favoritas. Na noite de eliminatórias que reuniu as chaves azul e branca, as parcerias de Wanderley Monteiro, Cecília Cruz e Dudu Nobre se destacaram entre os 12 sambas apresentados, entregando as exibições mais fortes e emotivas em torno da homenagem a Monarco, o eterno baluarte de Oswaldo Cruz e Madureira. A semifinal está marcada para domingo, dia 30 de agosto. Em 2027, a Portela abre a terça-feira de carnaval com o enredo “Ao Mestre com Carinho”, em homenagem a Monarco. A seguir, o CARNAVALESCO analisa as apresentações da noite.

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Parceria de Valtinho Botafogo: Primeiro samba a se apresentar na noite, a obra de Valtinho Botafogo, Madalena, Xande de Pilares, Savanna, Cardosinho, Dinny Peçanha e Bernini teve Juan Briggs à frente do microfone. A composição descreve a trajetória de Monarco de modo linear, com os momentos de sua história bem resolvidos, e traz momentos bonitos como o trecho: “No cavaquinho dedilhou tantos amores / Partido-alto, ala de compositores”. O refrão do meio descreve com beleza a relação do baluarte com a agremiação, e o samba segue bem construído a partir daí. Há uma virada melódica interessante no pré-refrão principal, que prepara o terreno para o ponto alto da obra, o refrão principal: “Voa minha águia mostra a essa gente / Que o Monarco da Portela está presente / Em Madureira floresceu sua raiz / O filho da majestade “Hildemar Diniz””. O samba começa muito bem, com as primeiras passadas executadas com segurança. No entanto, o andamento cai um pouco ao longo da apresentação; a execução parece exigir uma constância no canto que vai se perdendo aos poucos. É uma exibição regular.

Parceria de Dudu Nobre: Defendido por Pitty de Menezes e Carlos Junior, o samba de Dudu Nobre, Rubens Gordinho, Rafa Cria, Mario Presida, Bruna Dallari, André Ricardo Katar e Minuetto Moreira teve uma apresentação animada e de muita força, consolidando-se como o primeiro destaque da noite. O maior destaque do samba está na melodia: lírica, envolvente e gostosa de cantar do início ao fim, sem quedas de rendimento ao longo da execução. Esse lirismo melódico dialoga com o lirismo da letra, construída no formato de carta da Portela à Monarco. Já no primeiro refrão a parceria apresenta seus versos mais bonitos: “E você compositor virou mestre no caminho / Te abracei de colo, de mãe e carinho / Ensinei, aprendi, que toda águia tem que voltar pro seu ninho”. Esses versos conversam, de maneira flecheira, com o momento atual da escola no ciclo rumo a 2027; o retorno ao ninho nessa homenagem ao baluarte, em busca de melhores resultados. Como ponto de atenção, a ser analisado pelos dirigentes da agremiação, é o quanto a letra atende a construção do desfile, uma vez que a letra, apesar de seu enorme lirismo, é um pouco inespecífica em relação à trajetória do próprio Monarco. O samba fala com destreza sobre a relação de mão dupla entre Portela e Monarco (o que a escola aprende com ele e o que ele aprende com a escola), mas a história do homenageado propriamente dita não aparece. Por fim, o refrão principal reforça o fator emoção: cresce, anima, e funciona bem como uma declaração de amor bem apresentada por Pitty e Carlos Junior, que imprimiram toda a beleza melódica da parceria em cada verso. É um samba com todas as condições para brigar até a final.

Parceria de Marcello Luz: Terceiro samba a se apresentar, a obra de Marcello Luz, Fred Lima, Zé Roberto, Wagner Escóssia, Hebinho da Portela, Ricardo Simpatia e Léo Lopes contou com os intérpretes Tem-Tem Jr. e Guto. O melhor momento do samba é o refrão principal, bem cantado e com um bom desfecho: “Oh! Minha águia abre as asas sobre o céu / Traz o Monarco pra Portela de novo / Quem é raiz atravessa o véu / E vive eterno no canto do povo”. Já o refrão do meio passa sem grandes destaques. No geral, o samba tem momentos em que o andamento se arrasta um pouco, o que faz perder intensidade ao longo da execução; uma apresentação irregular.

Parceria Cecília Cruz: Outro destaque da noite, com adesão expressiva de parte do público presente na quadra, foi o samba de Cecília Cruz, Cláudio Cruz, Luciano Fogaça, Fabinho Gomes, Gêmeos, Osmar Fernandes e Julio Pagé. O que mais chama atenção na letra como um todo é a ambiência construída em torno da história de Monarco, como nos seguintes versos: “O cheiro do feijão, um balé de pipas no céu / Cavaco, rei, tempo bom / Fruta do pé, doce mel”. É um recurso poético inteligente: em vez de narrar fatos da vida de Monarco, o samba evoca a sensorialidade da história de seu baluarte para os portelenses cantarem. O refrão do meio também é um dos pontos altos, muito bem cantado, de melodia envolvente com os versos: “Leva o peixe, freguesa / Bota tempero na mesa / Vem com a primeira, a roda vai começar / E a segunda é por mim / Refrão que pega é assim / Quando a pastora a voz entoar”. Já o refrão principal é o momento mais emocionante da composição, começando com os versos: “Minha maior alegria é poder te exaltar / Seu eu pudesse diria / Como foi bom te ouvir cantar”. O fechamento brinca com a própria impossibilidade de esgotar o fator emoção (“Se eu for falar de Monarco até posso chorar” e “Seu eu for falar de Portela não vou terminar”), trechos cantados coletivamente pelo público. Isso ocorre tanto pela simplicidade e fluidez do verso quanto por expressar com força o sentimento de reverência a um baluarte tão querido. No conjunto, o samba chega forte nesta reta final, como um dos grandes candidatos à briga na final.

Parceria Wanderley Monteiro: O terceiro destaque da noite foi o samba de Wanderley Monteiro, Vinicius Ferreira, Jefferson Oliveira, Hélio Porto, Orlando Ambrosio, W. Correa & Rafael Gigante, defendido por Wander Pires. Já no refrão principal, o samba traz com força o caráter emotivo que a Portela está apostando para 2027. A letra e a melodia constroem uma intimidade particular com o Monarco, presente já na cabeça do samba. O refrão do meio tem melodia bonita, fazendo o jogo entre Madureira e Oswaldo Cruz, territórios da Portela. Funciona bem para cantar, ainda que seja mais direto e perca um pouco em construção poética se comparado a outros trechos. Na segunda parte, o pré-refrão (“ao mestre com carinho”) traz uma variação melódica bonita, preparando o terreno para o refrão principal, o grande destaque do samba: “E por favor de amor, dos que não vão terminar / Falar de Monarco, meus olhos vão marejar / A “Velha Guarda” teu sorriso na lembrança / Eu sou Portela desde os tempos de criança!”. Cada vez que é cantando ganha mais vigor no canto. Cresce e explode, com a bateria correspondendo a esse efeito. Wander Pires, que defendeu o samba campeão do último Carnaval, soube explorar muito bem toda a carga emotiva presente nos versos e na melodia. A parceria já despontava em outras rodadas, e chega a essa reta final com muita força, consolidando uma excelente trajetória na disputa da Portela.

Parceria de Toninho Geraes: O samba de Toninho Geraes, Paulo César Feital, Eli Penteado, Alexandre Fernandes, Victor do Chapéu, Marcéle Sàlles e Juninho Luang teve como intérpretes o trio Dowglas Diniz, Igor Vianna e Wantuir. O refrão principal, apesar da referência clara a uma das músicas do Monarco, não tem força de refrão: falta um desfecho que sintetize e emocione, no tom que a Portela está buscando para essa homenagem. Já o pré-refrão principal traz uma saudação bonita: “Comunhão de gente bamba / A fé em Nossa Senhora e São Sebastião / Embala toda gratidão / Nos braços da Majestade do Samba”. Trecho que homenageia os padroeiros da escola. Já em relação ao canto, tanto na primeira quanto na segunda parte, a sensação geral é de um samba que não dá respiro, dificultando a execução e podendo cansar o componente ao longo do desfile. No conjunto, é uma apresentação irregular, sem força para chegar até a final da disputa.

Parceria de Jorge do Batuke: Zé Paulo Sierra foi quem defendeu o samba de Jorge do Batuke, Márcio Carvalho, Luiz Matos, João Menna Barreto, Lucas Alves, J. Ferreira e Araguaci. A obra traz apenas um verso repetido como refrão principal (“A maior campeã do Carnaval”), antecedido por um trecho bonito que evoca diversas personalidades da escola: “Chamei Casquinha pra versar um bom partido / Mestre Candeia para nos iluminar / Os batuqueiros de Marçal são atrevidos / Deixa a Portela passar / Alô, Paulinho! Mete a mão nessa viola / Lá vem a água de Paulo e Natal / Com Manácea apresentando a velha guarda / Da maior campeã do carnaval”. Esse trecho passa muito bem e é um dos pontos altos do samba, bem executado por Zé Paulo Sierra. Entretanto, há uma questão de construção narrativa a ser observada: esse trecho final, somado ao refrão de verso único, não traz a dimensão de homenagem ao Monarco propriamente dita. Apesar da bonita homenagem aos baluartes da escola, Monarco fica de fora do refrão principal do samba que o homenageia. Isso merece atenção. Já o refrão do meio apresenta uma variação melódica interessante no trecho: “A Tabajara no alvorecer / Teu povo canta: corri pra ver! / Para ver quem era a força ancestral / Te fiz poeta no meu quintal”. No geral, uma apresentação bem conduzida por Zé Paulo Sierra, que passa de maneira correta, mas com questões narrativas importantes.

Parceria de Samir Trindade: O samba de Samir Trindade, defendido por Marquinho Art’Samba e Gera, tem uma característica saudosista, tanto na letra quanto na melodia, em relação à figura de Monarco, um tom emocionado pela saudade que se sustenta bem ao longo da composição. O refrão do meio é o momento de maior força do samba: “Coração em desalinho / A paixão aflora / Vejo o pai ao ver o filho / Cavaquinho chora / E a dor se esqueceu em canções tão belas / Daí mande um beijo meu pra Paulo da Portela”. É um trecho encantador, onde a força do samba se concentra com mais intensidade. Na segunda parte, outro momento de destaque marca o mesmo tom: “Monarco teu legado jamais vai embora / Pra sempre em minha memória / Ao espírito santo entrego o panamá”. Já o refrão principal deixa uma sensação de um fechamento sem a força necessária para arrematar o samba com o mesmo vigor dos trechos anteriores. A performance da noite também deixou a desejar em alguns pontos, especialmente na primeira parte e no início da segunda, com certa dificuldade de compreensão da letra em determinados momentos. Ainda assim, é uma apresentação com qualidade própria, cumpre seu papel, mas que, num quadro geral da disputa com sambas que já despontam, tem menos força para se destacar nessa reta final.

Parceria Diogo Nogueira: Tinga liderou a apresentação do samba de Diogo Nogueira, Cláudio Russo, Raphael Gravino, Júlio Alves, Adolpho Konder, Laura Roméro e Gabriel Simões. O samba une poesia e funcionalidade ao optar por uma construção em que Dona Olinda, esposa de Monarco, é a narradora da obra, subvertendo a proposta narrativa da sinopse. É um ponto de atenção para a direção da escola: como essa perspetiva narrativa dialoga com a construção do desfile. O grande destaque do samba é o refrão do meio, de swing envolvente, no momento em que cita outras duas baluartes da agremiação: “Vou pra Portela que o samba mandou me chamar / Vou-me embora pra Portela, já é hora de sambar / Bota fogo na panela, Madureira sabe bem / Tem feijão da Vicentina com tempero da Neném”. É o ponto mais forte da composição. Na segunda parte, o refrão principal cresce e é bem cantado, com uma construção mais poética e bom rendimento. Já a segunda parte, anterior ao refrão principal, é mais longa e apresentou trechos de difícil compreensão na apresentação de ontem. No geral, é uma apresentação que passa bem, mas com algumas questões pontuais que pesam no conjunto.

Parceria de Jamys Ferraz: A parceria de Jamys Ferraz, Robertinho Sorriso, Luciano Leal, Marcelo Paulista, Roberto Nascimento, Serginho JC e Léo Vicente foi levada por Sandro Ferraz. O refrão principal tem bom apelo, e a primeira parte do samba se destaca por uma beleza poética consistente, como no trecho: “Tem cheiro de infância e de terra molhada / Onde o samba ancorava na madrugada”. Em alguns momentos há certa dificuldade de compreensão da letra. O refrão principal, embora bonito, não fecha com a força emotiva esperada em uma homenagem à Monarco. Já o pré-refrão principal é um dos pontos mais fortes, muito bem cantado, e prepara bem a entrada do refrão: “Mestre, segue viva a sua lição / “Nada pode ser maior… que a instituição””. À medida que o samba avança, porém, as passadas perderam rendimento; uma apresentação irregular.

Parceria de Noca Neto: A obra de Noca Neto, Queiroga, Maralhas, Luciano Gomes, PC Lopes e Filipe Zizou alcança bom desempenho nas passadas, sobretudo com a entrada da bateria, e é bem defendida por Rodrigo Tinoco. Os dois refrões passam muito bem, e o principal contagia pelos versos: “Salve a velha guarda salve o nosso sentinela / “Corre pra ver”, tua Portela! / Eterna é a minha devoção / Ao mestre, com carinho e gratidão”. A melodia da retomada na segunda parte também é bonita. No entanto, o samba foi recebido de forma fria pela quadra, e a segunda parte apresenta uma construção mais literal e menos poética em boa parte do trecho, o que puxa o conjunto para baixo. Apesar dos bons momentos, o samba não pega como um todo.

Parceria de Naldo: O samba de Naldo, Bororó, Waguinho, Marcelo Fernandes, Mário Carvalho, Paulo Beckham e William Ramos faz uma belíssima homenagem a Monarco como baluarte, aquele que carrega os fundamentos da agremiação. É um samba mais cadenciado, com um bom refrão como grande destaque: “Lá vem Madureira! / A emoção vai reluzir na passarela / receba esta carta de amor / com carinho da sua Portela”. Uma boa defesa, bem conduzida, que passa com tranquilidade. O samba como um todo não embala tanto, mas cumpre bem o seu papel, com uma passagem correta. O refrão do meio também merece destaque, com boa construção melódica: “No solo sagrado de Oswaldo Cruz / Talento, menino, a flor que seduz / Com a melodia beijando o poema / É mestre Monarco entrando em cena”. Rendimento agradável como um todo e uma boa exibição.

Grazi Xavier celebra raízes em coroação como rainha de bateria da Unidos da Ponte

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Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

A Unidos da Ponte celebrou, neste domingo, a coroação de Grazi Xavier como rainha de bateria da escola para o Carnaval 2027. Em uma festa marcada pela presença da comunidade, a nova representante do pavilhão de ritmistas viveu uma noite especial ao assumir oficialmente o posto à frente da bateria da agremiação de São João de Meriti. Moradora de Éden, em São João de Meriti, Grazi ressaltou ao CARNAVALESCO a emoção de representar uma escola do município onde construiu sua história. Para ela, a coroação teve um significado que vai além do cargo de rainha de bateria.

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“O sentimento foi de pertencimento, porque eu sou da comunidade. Me senti muito honrada. Eu sou de São João de Meriti, sou de Éden, tenho uma história com esse lugar. Quando recebi o convite, foi um misto de sentimentos, mas fiquei muito, muito feliz”, afirmou.

Apesar de acompanhar o carnaval desde a infância, Grazi entrou efetivamente para o mundo do samba apenas no ano passado. A experiência ainda é recente, mas ela garante que a dedicação para defender as cores da Unidos da Ponte será total.

“Para mim, representar a escola do meu município está sendo uma experiência nova. Eu entrei no carnaval no ano passado, mas sou uma pessoa muito dedicada. Acompanho o carnaval desde criança, só que nunca tinha participado diretamente. Sempre acompanhei pela televisão, e agora estou vivendo o carnaval por dentro”, contou.

A nova rainha também falou sobre a responsabilidade de estar à frente da bateria e prometeu empenho máximo durante a temporada rumo ao desfile de 2027.

“Prometo dar tudo de mim, tudo, tudo, tudo para representar a escola da melhor maneira possível”, declarou Grazi.

E se a coroação já chamou atenção, a rainha deixou no ar que a fantasia que levará para a Marquês de Sapucaí também será um dos destaques de sua participação no Carnaval 2027. Sem revelar detalhes, Grazi garantiu que haverá uma novidade.

“E sobre a fantasia, posso dizer que vai dar babado! Hoje, aqui, já vai dar babado. Vai ter uma cena inédita e vocês vão poder conferir tudo na avenida”, revelou.

Entre o samba e o ódio virtual: profissionais defendem artistas do carnaval diante de ataques nas redes sociais

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O carnaval é feito de gente. Intérpretes, passistas, mestres, casais de mestre-sala e porta-bandeira, carnavalescos, profissionais de barracão e tantos outros trabalhadores dedicam meses de suas vidas para colocar uma escola de samba na Avenida. Mas, em meio às disputas e paixões que movimentam o mundo do samba, as redes sociais vêm se transformando também em espaço para ofensas e julgamentos que ultrapassam os limites da crítica. Neste domingo, profissionais ligados a diferentes escolas do Rio de Janeiro utilizaram o X (antigo Twitter) para demonstrar preocupação com o ambiente criado nas redes. As manifestações surgem em um momento no qual artistas passaram a ser alvos frequentes de comentários agressivos, muitas vezes feitos por perfis que se escondem atrás do anonimato.

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Diretor de carnaval da Mangueira, Dudu Azevedo chamou atenção para o que classificou como preconceito presente em parte das manifestações virtuais. Na avaliação dele, opiniões publicadas nas redes acabam carregadas de preconceito e ódio contra profissionais que vivem a realidade das agremiações. “Somos muitos que ficamos felizes com as oportunidades dadas para nós que crescemos e vivemos aqui nas Escolas de Samba”, escreveu.

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A apresentadora do Rio Carnaval, Wic Tavares, também lamentou o cenário. Para ela, determinados comentários são apresentados como simples opiniões, mas escondem uma carga muito maior de hostilidade. “Triste demais o que anda acontecendo com os sambistas e profissionais do samba nas redes sociais. Não sei onde a gente se perdeu. São disfarçados de opinião, mas carregam tanto ódio por trás”, publicou.

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A discussão ganhou ainda mais força com a manifestação de profissionais que conhecem de perto o cotidiano das escolas. Diretor da ala de passistas da Vila Isabel, Gabriel Castro afirmou que o ambiente virtual tem reforçado uma divisão que, muitas vezes, não corresponde à realidade vivida dentro das agremiações.

“É por isso que a cada dia que passa tenho mais certeza que a maioria dos torcedores de internet por vezes escondidos atrás de um fake estão de um lado, eu estou de outro”, afirmou Castro.

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Diretor de barracão da Vila Isabel, Luiz Martins foi ainda mais contundente ao criticar o comportamento de parte dos usuários das redes sociais. Para ele, existe uma parcela que acompanha o carnaval pela internet movida mais pelo conflito do que pela paixão pelo samba.

“O quão tóxica virou essa galera que se diz sambista mas estão só pelo ódio de uma batalha dentro das escolas que só existe na cabeça dele”.

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As manifestações acontecem em uma semana marcada por dois episódios envolvendo intérpretes. Na sexta-feira, Diego Nicolau anunciou sua saída da Estácio de Sá, onde dividiria o carro de som com Guto no Carnaval 2027. Ao comunicar a decisão, o cantor agradeceu à comunidade do Morro de São Carlos, mas afirmou: “Infelizmente, hoje não me sinto mais à vontade em seguir esse sonho”. O episódio ganhou relevância justamente em um ambiente no qual os profissionais do varnaval relatam crescente pressão e hostilidade nas plataformas digitais. No último sábado, outro intérprete esteve no centro de publicações ofensivas nas redes: Dowglas Diniz, voz e cria da comunidade da Mangueira.

Opinião é fundamental

Criticar uma interpretação, samba, escolha artística ou o trabalho de uma escola faz parte do carnaval. O debate, inclusive, é fundamental. O problema começa quando a crítica deixa de discutir o trabalho e passa a atacar a pessoa e sua reputação. O artista não é um personagem de rede social. Existe um profissional com uma trajetória construída durante anos, muitas vezes dentro da própria comunidade. Existe família e uma carreira que pode ser afetada por uma publicação irresponsável. As manifestações de Dudu Azevedo, Wic Tavares, Gabriel Castro e Luiz Martins ajudam a colocar uma questão necessária no centro do debate: que tipo de ambiente o mundo do samba quer construir nas redes sociais?

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A paixão por uma escola não precisa significar ódio à outra. Torcer por um intérprete não exige destruir outro. Defender um samba não dá o direito de desqualificar quem escolheu uma composição diferente. O samba sempre foi território de encontro, resistência e pertencimento. As redes sociais podem ampliar essa potência, aproximando artistas, comunidades e torcedores, mas também podem produzir o efeito contrário quando o anonimato vira licença para ofender.

O carnaval precisa de crítica e debate. O que não precisa é de ódio. Quando a internet transforma sambista em inimigo, quem perde não é apenas o artista atacado. Perde o próprio carnaval.

Análise: Salgueiro apresenta disputa equilibrada e sambas ganham força na terceira noite de eliminatórias

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Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

O Salgueiro realizou no último sábado a terceira noite de eliminatórias de sambas-enredo para o Carnaval 2027, marcada pela junção das chaves branca e vermelha na disputa. Em um dia de alto nível, os dez sambas apresentados mostraram diferentes caminhos para contar a história de Xica da Silva e sua relação com a Pomba Gira, combinando força melódica, referências históricas, ancestralidade e religiosidade. Com apresentações consistentes e momentos de grande resposta da quadra, a disputa começa a ganhar contornos cada vez mais definidos. A seguir, confira a análise do CARNAVALESCO dos dez sambas.

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Parceria de Liesbeth Nunes: O samba 05, assinado por Liesbeth Nunes, PJ do Samba, Roberto Felinto, Diego Pomar, Vitor França, PC Lopes, Krys Fonseca, Vera Guedes, Cláudia Rejane e Andressa Castro, abriu a noite com uma proposta mais melódica e menos explosiva, mas apresentou bom desempenho ao longo da passagem. Interpretada por Niu Souza, a obra aposta em uma Xica da Silva de personalidade forte, atravessada pela ancestralidade, pela resistência e pelo poder simbólico da Pombagira. A composição entra na quadra já estabelecendo esse tom de enfrentamento: “Arreda! Voltei pra botar fogo no congá / De saia vermelha e incorporada, é Mojibá!”. A abertura tem impacto e apresenta a personagem dentro do universo religioso que conduz parte importante da narrativa. O “Laroyê! Abre a roda que dona da roda baixou!” reforça essa atmosfera e cria uma chamada que favorece a participação do público. A letra encontra um de seus melhores momentos no trecho “Fui encruzilhada entre açoite e liberdade / Não se prende na corrente, ideais de majestade”. A imagem da encruzilhada sintetiza os conflitos que atravessam a trajetória de Xica e dá à composição uma dimensão poética interessante. Na sequência, “Se a mentira me vestiu de ilusão e fantasia / A justiça vem à tona hoje em verso e poesia” transforma a própria narrativa em instrumento de reparação histórica. É uma passagem que sustenta o caráter afrontoso do samba sem abandonar a construção literária. O refrão do meio é o trecho em que a obra ganha maior dimensão cênica e narrativa. “Quando a gira girou! / Fiz da avenida meu terreiro / Aquela que encantou o mundo inteiro / Desfilando luxo e esplendor” apresenta a imagem de Xica ocupando a avenida como espaço de afirmação. A ideia se conecta diretamente à força da personagem caracterizada como Pombagira, que, durante a apresentação, rodopiou pelo palco e circulou entre os torcedores, levando a proposta do samba para além da letra. Outro ponto de interesse aparece na parte final da segunda estrofe. “Nos olhos dos meus filhos refletiu o meu amor / Lutando sem perder a identidade / No ouro das Gerais plantei herança em cada mulher / Semeio a esperança” humaniza a personagem e amplia sua importância para além do luxo e da imagem construída em torno de Xica da Silva. O refrão principal concentra a identidade da parceria: “Xica da Silva / Consagrada no chão desse terreiro / Emana axé da Academia / A Pombagira mulher, do meu Salgueiro”. É um fechamento direto, com forte associação entre personagem, entidade e escola. A repetição do nome de Xica facilita a assimilação, e o último verso estabelece uma assinatura clara para o samba. Na apresentação, a obra contou com uma torcida participativa e com elementos cênicos que ajudaram a materializar sua proposta. A presença da Pombagira, especialmente nos momentos de maior interação com o público, acrescentou força visual à passagem. Musicalmente, o samba não teve uma explosão tão acentuada quanto outras propostas podem apresentar, mas manteve um andamento seguro e uma melodia que permitiu o desenvolvimento da narrativa. No conjunto, o samba 05 apresenta como principais trunfos a identidade temática, a força poética de alguns versos e a maneira como transforma a Pombagira em elemento central da construção de Xica da Silva. A obra consegue unir ancestralidade, resistência, representação e afirmação feminina, com um refrão principal de fácil identificação. É um samba que aposta mais na construção da personagem e no desenvolvimento melódico do que na explosão imediata, mas encontra força justamente na coerência entre letra, interpretação e proposta cênica.

Parceria de Bernardo Nobre: O samba 07, assinado por Bernardo Nobre, Thiago Meiners, Leandro Pereira, John Bahiense, João Moreira, André de Souza, Ribeirinho, Diego Alba, Jonathan Tenório e Luiza Vieira, apresentou uma obra consistente. Com Pitty de Menezes, Igor Vianna e Chicão na defesa, a obra manteve bom rendimento nas três passadas e mostrou uma construção melódica que cresce gradualmente até alcançar seu principal momento de explosão. A composição começa apresentando Xica em um cenário de terreiro e encruzilhada. “Ô dona Xica aos pés do Morro do Salgueiro / Porteira aberta convidava pro terreiro” coloca a personagem diretamente no universo simbólico da escola. A sequência, com referências ao Exu, ao atabaque, às rosas vermelhas e ao marafo, cria uma ambientação forte e bastante visual. O trecho “Quem governa minha rua, malandragem de mulher” reforça a personalidade desafiadora de Xica e prepara um dos momentos de maior apelo popular da obra. “Tá pra nascer, meu Deus / Quem enfrenta uma moça igual a ela” funciona como uma chamada de forte identificação. O refrão do meio é um bom momento da obra: “Pombogira ê pombogirá / A flor mais bela na gira / Na reza do congá ou na capela”. A melodia conduz bem a passagem e encontra um bom equilíbrio entre a temática religiosa e a exaltação da escola. O verso “Vi meu povo deslumbrante / A corte do Orun num instante / Desceu pra ver o Salgueiro em seu apogeu” amplia a dimensão da cena e transporta a narrativa para uma celebração da própria agremiação. Na segunda parte, o samba ganha densidade ao tratar da representação de Xica e das marcas deixadas pelo racismo. “O capricho da negrura / A ribalta eternizou / Fez da noite ironia / A nobreza revirou” trabalha a contradição entre o destaque alcançado pela personagem e os limites impostos pela sociedade de seu tempo. A composição segue por um caminho mais crítico em “A tinta apagou os moralistas / O amor a te fazer protagonista”, transformando a trajetória de Xica em uma resposta aos discursos que tentaram diminuir sua importância. O fechamento dessa passagem é particularmente adequado ao universo do Salgueiro: “Pra que sejamos arte em reparação / Por essa banda, onde mora a justiça / Mais uma vez o samba é revolução”. A melodia encontra seu maior ponto de força na preparação para o refrão principal. Depois de uma construção progressiva, o samba desemboca em “Malelê malelê / Kaô kabecilê”, criando uma mudança de intensidade que favorece a explosão da apresentação. A associação entre Pomba Gira e Xangô, padroeiro do Salgueiro, é um dos principais acertos da obra: “Meu Salgueiro corre gira, mojubá laroyê / Toca o barravento, firma o alujá / Na casa de Xangô, eu vim Pombogirar”. No conjunto, o samba 07 se destaca pela regularidade da apresentação, pela boa condução melódica e pela capacidade de criar momentos de participação do público. A principal força está justamente na forma como a composição une religiosidade, identidade salgueirense e discurso de afirmação negra. O refrão principal é seu grande ponto de impacto, mas a obra chega até ele bem construída, fazendo da progressão musical e narrativa um dos seus principais trunfos.

Parceria de Raoni Ventapane: Evandro Mallandro defendeu a composição de Raoni Ventapane, Dudah, Thales Nunes, Daniel Guimarães, Clara Ferreira, Denis Moraes, Vitor Menezes, Wibson Fernando, Carlinhos e Hugo Oliveira. Com Zé Paulo Sierra ausente, Evandro assumiu a interpretação e, mesmo precisando consultar a letra durante a apresentação, manteve bom desempenho e sustentou a obra ao longo das passagens. O samba começa construindo uma Xica diretamente ligada ao universo da encruzilhada e da Pomba Gira. “Daí-me licença, povo da encruzilhada / Sou do verbo gargalhada, voz de toda Pombagira” estabelece a personalidade da personagem e prepara uma sequência de versos que reforça seu caráter insubmisso: “A fogueira pra mentira, a coragem que inspira / Corpo-espelho da ralé, o retorno que atiça”. A passagem concentra força poética e apresenta uma Xica que transforma enfrentamento e resistência em elementos de sua identidade. A composição também aproxima a personagem da história do Salgueiro. “Com Arlindo fiz história, meu torrão eternizei” é uma referência direta ao samba de 1963, criando uma ponte entre a trajetória de Xica e a memória da própria escola. A sequência “O passo marcado, do morro à nobreza / No peito a certeza da revolução / Aquela que manda, que rompe barreiras / O luxo na cara da segregação” resume bem a proposta da obra: apresentar a ascensão da personagem sem apagar as contradições sociais e raciais que marcaram sua trajetória. O refrão do meio é um dos momentos mais interessantes do samba. A repetição de “Ela é Maria, Mariá” traz uma referência à tradição dos pontos de Pomba Gira e cria uma passagem de forte identidade melódica. “Na tela incorporei / As regras eu rasguei” amplia a construção da personagem para suas representações no imaginário popular, enquanto “Liberdade da mulher nas curvas de Zezé / Não é roteiro a bel-prazer de quem quiser” trabalha a ideia de autonomia feminina. A segunda metade ganha peso histórico com “Herdei a coragem da Costa da Mina / Transgredi a minha sina nas ladeiras do Arraial”. A letra apresenta a ancestralidade como elemento fundamental para compreender a trajetória de Francisca. “Meu sangue é herança ancestral / Francisca parda, mercadoria / Venci a chibata, ganhei alforria” sintetiza a violência do período escravista e a transformação da personagem em símbolo de resistência. O grande momento da obra está justamente no fechamento: “Arreda homem que aí vem Salgueiro / Arreda homem que aí vem Salgueiro / Sou a Xica macumbeira, Pambunjila! Mojubá! / A faísca que acende a Furiosa no gongá”. É um refrão de forte apelo, com uma melodia vibrante e uma associação muito clara entre Xica, a Pomba Gira e a bateria salgueirense. A repetição de “Arreda homem” funciona como chamada coletiva e dá ao samba uma conclusão explosiva. Na apresentação, a obra teve bom rendimento geral, apesar das dificuldades pontuais. O trecho “A fogueira pra mentira…” também apresentou alguma irregularidade na segunda passada, mas não comprometeu o desempenho do conjunto. No conjunto, o samba se destaca pela força do refrão principal, pela variedade de referências e pela construção de uma Xica marcada pela insubmissão. A ligação com a história do Salgueiro, as referências à Pomba Gira e a abordagem da ancestralidade dão identidade à composição. Seu principal trunfo está na capacidade de transformar diferentes momentos da trajetória de Xica em uma narrativa musical crescente, que encontra no refrão final seu ponto máximo de impacto.

Parceria de Xande de Pilares: Charles Silva defendeu com segurança a composição de Xande de Pilares, Fred Camacho, Betinho de Pilares, Miguel Dibo, Renato Galante, Jorginho Via 13, W. Correa, Orlando Ambrosio, Jefferson Oliveira e Rafael Gigante. O samba 06 apresentou uma das performances mais fortes da noite, sustentado por uma melodia potente e por uma construção que cresce gradualmente até desembocar em um refrão principal de grande impacto. A composição organiza a trajetória de Xica da Silva a partir do encontro entre a personagem histórica e a Pomba Gira apresentada pelo enredo. Um dos melhores momentos aparece justamente na preparação para o refrão principal: “Francisca da Silva de Oliveira / A Xica da Silva Teles”. Além de apresentar o nome completo da personagem, o trecho carrega uma referência particular ao endereço da quadra do Salgueiro, localizada na Rua Silva Teles. É um detalhe que aproxima a narrativa de Xica da identidade territorial da escola e transforma uma informação histórica em elemento de conexão com a comunidade. A melodia cresce de maneira natural e prepara a quadra para uma mudança de intensidade, fazendo do refrão principal o grande ponto de explosão da apresentação. O fechamento é particularmente eficiente ao recuperar características fundamentais de Xica e transformá-las em afirmação. A alcunha “Chegou a Xica que manda” funciona como síntese da personalidade apresentada ao longo da obra e ganha força quando associada ao refrão. É uma escolha simples, de fácil assimilação e com potencial para ser cantada coletivamente. Na apresentação, Charles Silva manteve boa condução e sustentou o crescimento do samba. A defesa teve segurança, ritmo e empolgação, permitindo que a melodia alcançasse seus principais momentos sem perder intensidade. No conjunto, o samba 06 foi um dos destaques da noite. A força da melodia, a boa construção narrativa e, principalmente, a preparação eficiente para um refrão principal muito potente fizeram da obra uma das apresentações mais completas da disputa. O detalhe envolvendo “Silva Teles” acrescenta identidade à composição, enquanto o fechamento reafirma a personalidade de Xica e entrega um momento de grande impacto coletivo.

Parceria de Ian Ruas: Grazzi Brasil, Dowglas Diniz e Vitor Cunha defenderam a composição de Ian Ruas, Caio Miranda, Zé Carlos, David Carvalho, Luiz Fernando, Luana Rosa, Fabiano Mattos e Carlão. O samba 09 teve uma apresentação segura nas três passadas e se destacou pela boa melodia e pela capacidade de sustentar a intensidade sem perder rendimento. A obra encontrou equilíbrio entre narrativa e força musical, com um refrão principal que funcionou como seu principal ponto de impacto. A composição escolhe caminhos menos literais para apresentar Xica da Silva. Em vez de se limitar aos episódios mais conhecidos da trajetória da personagem, a letra amplia o olhar para as diferentes formas como sua imagem foi construída ao longo do tempo. “Tal qual a trama da atriz / Que encenou, de uma vida, um capítulo só” é um exemplo dessa abordagem, ao fazer referência às representações de Xica no cinema, no teatro e na televisão sem citar diretamente essas linguagens. A composição avança para uma afirmação mais ampla no refrão principal: “Toda mulher tem direito à própria história / Meu Salgueiro é a memória que eu voltei pra consagrar”. O trecho consegue conectar Xica à discussão sobre o direito de mulheres negras contarem e preservarem suas próprias trajetórias. Ao mesmo tempo, o verso final estabelece uma ligação direta com o Salgueiro, colocando a escola como espaço de memória e consagração. Musicalmente, o samba apresenta uma melodia bem construída e consegue manter a cadência intensa ao longo da apresentação. O refrão principal é o grande ponto de força da obra, com uma estrutura que favorece o canto coletivo e ganha dimensão especialmente quando os intérpretes aumentam a intensidade da defesa. A melodia também ajuda a impedir que a narrativa fique excessivamente pesada, criando movimento entre os diferentes momentos da composição. No conjunto, o samba 09 se coloca entre os destaques da noite pela combinação de boa melodia, narrativa criativa e força dos refrões. A obra encontra personalidade ao abordar Xica por ângulos menos óbvios, especialmente na discussão sobre sua representação e sobre o corpo da mulher negra. Com uma defesa consistente e um refrão principal de impacto, a parceria apresentou uma passagem equilibrada e de alto rendimento.

Parceria de Rafa Hecht: Pixulé, Marquinho Art’Samba e Leonardo Bessa defenderam a composição de Rafa Hecht, Samir Trindade, Thiago Daniel, Deco, JP Figueira, Clairton Fonseca, Laura Roméro, Guiga Corrêa, Geraldo M. Felicio e Jefinho Rodrigues. O samba 11 apresentou uma obra de grande potência, com boas variações melódicas e um refrão principal explosivo. O refrão do meio começa com uma declaração de identidade: “Eu voltei pra ficar e dizer quem eu sou / Pra escandalizar, zombar de quem me julgou”. O tom afrontoso combina com a personagem construída pelo samba e encontra continuidade em “Já vou avisar, ninguém vai impedir / E quem é de santo, cuidado pra não cair”. A composição assume a voz de uma Xica desafiadora, que não aceita ser novamente silenciada. A parte seguinte é uma das mais densas da obra. “Da Costa da Mina, os meus / Francisca da Silva, sou eu” recupera a ancestralidade, enquanto “Da arte dos catopês, da elite e das ralés” amplia a trajetória da personagem para diferentes espaços sociais. A sequência “Dancei no peito do contratador / Roguei aos pés de nosso senhor / Pari liberdade, me reconheci / E dei aos meus filhos caminho a seguir” humaniza Xica e apresenta sua trajetória também a partir da maternidade, da sobrevivência e da conquista de autonomia. O samba ganha ainda mais dimensão espiritual em “Me encantei, ouvi os aflitos / Do Orum, voz dos oprimidos”. A imagem da personagem ouvindo os oprimidos conecta sua trajetória histórica à dimensão religiosa do enredo. “Na gargalhada estremecer, a cada gira eu renasço / Nunca temer, o meu destino eu faço” reforça a ideia de renascimento e autonomia, antes de a composição entrar em uma passagem de maior apelo popular. “Abre a roda, abre a roda, deixa a nega trabalhar / Sou formosa e dou carinho, também sei fazer chorar” cria uma mudança de dinâmica e prepara o samba para seu fechamento. A sequência “Abre a roda, abre a roda, sou apenas diferente / Se bater de frente, a Furiosa vai passar!” funciona como chamada para a chegada do refrão principal e recupera uma característica importante do Salgueiro: a associação entre a personagem e a força da bateria. O refrão principal é o grande trunfo musical da obra: “Faz ebó, veste vermelho e firma o ponto / Deixa que o meu segredo eu conto / A dona da casa protege o terreiro / Ninguém faz macumba igual meu Salgueiro”. A melodia é forte, o trecho tem fácil assimilação e concentra os principais símbolos do samba. “Ninguém faz macumba igual meu Salgueiro” é especialmente eficiente por trazer uma afirmação direta da identidade da escola e provocar a participação da torcida.

Parceria de Marcelo Adnet: Wander Pires defendeu a composição de Marcelo Adnet, Gustavo Albuquerque, Babby do Cavaco, André Capá, Bruno Zullo, Igor Marinho, Pedro Ayres, Sergio Pimentel, De Lima e Fabiano Paiva. O samba 15 apresentou uma passagem segura, com melodia agradável, boa sustentação e um refrão principal direto, de fácil assimilação. A composição abre colocando Xica dentro do universo da Pomba Gira: “Baixei de novo, sou eu Exu-mulher / Baixei pro morro inteiro festejar / Laroyê, axé”. A escolha de iniciar com a entidade já estabelece o tom do samba e cria uma conexão imediata com a proposta do enredo. A composição encontra um momento de forte apelo no trecho “Tá pra nascer nesse mundo de meu Deus / Homem que vai aguentar uma mulher igual a eu”. A passagem dialoga com a tradição dos pontos de Pomba Gira e apresenta uma Xica provocadora, independente e consciente de sua força. O refrão do meio é um dos pontos altos da obra. “Avisa na casa grande, meu nome é Francisca / Filha de Maria da Costa da Mina” resgata a identidade da personagem e sua ancestralidade. Na sequência, “Vivi em Taís, Isabel e Zezé / Arreda, moço, Xica dá o que quiser!” estabelece uma ponte entre a figura histórica e suas diferentes representações artísticas, além de fazer uma referência direta a Jorge Ben. O trecho ganha força justamente por reunir história, cultura popular e memória da personagem em poucos versos. Um dos versos mais interessantes aparece na transformação da rosa em instrumento de resistência: “A rosa que achei na encruzilhada / Virou faca afiada na voz das multidões”. A imagem combina o universo da Pomba Gira com a ideia de enfrentamento e transforma um símbolo tradicionalmente associado à entidade em metáfora de luta. A construção desemboca no pré-refrão “Quero ver bater de frente com a escola de Xangô!”, que aumenta a intensidade e prepara a chegada do refrão principal. Na apresentação, Wander Pires conduziu o samba com segurança e manteve a quadra envolvida durante toda a passagem. A melodia favoreceu a interpretação e permitiu que os diferentes momentos da letra fossem apresentados sem perda de ritmo. O refrão principal, apesar de mais simples em sua construção, funcionou justamente pela objetividade e pela facilidade de ser acompanhado pelo público. No conjunto, o samba 15 apresenta como principais qualidades a boa melodia, a narrativa bem organizada e a capacidade de criar momentos de identificação. O refrão do meio é seu trecho mais elaborado e interessante, enquanto o refrão principal aposta na simplicidade para ganhar força coletiva. Com uma apresentação estável e sem quedas de rendimento, a parceria entregou uma passagem consistente e mostrou boa capacidade de comunicação com a quadra.

Parceria de Gui Salgueiro: Luana Pinheiro e Guto defenderam a composição de Gui Salgueiro, que apresentou uma boa passagem pela quadra, com andamento seguro e uma melodia que consegue alternar momentos de maior intensidade com trechos mais narrativos. O samba 18 aposta na construção de uma Xica marcada pela força, pela ancestralidade e pela capacidade de romper com os papéis impostos a ela, enquanto aproxima a personagem da identidade do Salgueiro. A composição constrói uma imagem de Xica associada à nobreza negra. “Nas encruzilhadas do tempo / ‘Cavalas’ de garra e talento / Pra história certa escrever, elegi / Nobreza preta, requinte e luxo” apresenta a personagem por meio de uma perspectiva de afirmação e conquista. A passagem seguinte, “Meu torrão amado, meu velho Tijuco / Com grande beleza, por vezes temida”, situa a narrativa em Diamantina e ajuda a contextualizar o ambiente em que Xica construiu sua trajetória. O “Ôôô ôô, baixei na avenida” funciona como uma chamada eficiente e cria uma transição natural para o refrão do meio. É um recurso simples, mas que dá identidade à obra e aproxima o samba da tradição dos grandes momentos de canto coletivo do Salgueiro. O refrão do meio começa com força: “Voltei à rua pra vencer / Sou fogo no gongá / Do luar ao sol nascer, quem manda é Xica”. A melodia cresce e apresenta uma personagem determinada, antes de avançar para uma referência marcante à sua relação com a cultura e a arte: “Pés descalços, marquei passo no Municipal / Venço o preconceito, ganho o carnaval”. O trecho associa a trajetória de Xica à ocupação de espaços historicamente restritos à população negra. O final da segunda parte amplia o legado da personagem: “Deixei de herança arte e ciência / As joias e a educação com devoção”. A composição evita limitar a herança de Xica ao luxo e introduz conhecimento, cultura e educação como elementos de permanência. “Encontro no Orun a liberdade / Mãos dadas com a ancestralidade / Renasço estrela no meu pavilhão” conclui essa trajetória, aproximando a personagem da espiritualidade e, finalmente, do próprio Salgueiro. O refrão principal é direto e de fácil identificação: “O toque do tambor chamou, eu regressei / Sou rainha desse ilê, minha palavra é lei / Paixão encarnada, amor verdadeiro / Sou Xica da Silva e do Salgueiro”. Na apresentação, Luana Pinheiro e Guto tiveram bom desempenho e mantiveram a obra estável nas passagens. O andamento favoreceu a compreensão da letra, e a melodia ofereceu segurança aos intérpretes, principalmente nos momentos de transição entre as partes. O samba não depende de uma única explosão para funcionar: sua força está na construção progressiva e na maneira como a narrativa vai ganhando significado até chegar ao refrão final. No conjunto, o samba 18 apresenta uma composição bem estruturada, com boa melodia e uma narrativa que percorre a religiosidade, a história e a representação de Xica da Silva. Seu principal mérito está em dar voz à personagem e apresentar sua trajetória como resultado de resistência, estratégia e ancestralidade. Com uma defesa segura e um refrão principal de fácil assimilação, a parceria entregou uma apresentação consistente e de boa qualidade.

Parceria de Moisés Santiago: Tem-Tem Júnior e Rafael Tinguinha defenderam a composição de Moisés Santiago, Sereno FDQ, Rodrigo Feijú, Aldir Senna, Mateus Pranto, Marquinho Bombeiro, Marcelo Martins, Alexandre Cabeça, Sandro Nery e Marcelo Batista. O samba 01 apresentou forte desempenho e encontrou na melodia e, principalmente, no refrão principal, seus maiores pontos de força. A composição apresenta Xica como uma entidade que atravessa a história da escola: “A entidade eternizada por Arlindo / Por Anescar e Noel Rosa de Oliveira / Fiz Isabel me incorporar / Pra revolucionar a cultura brasileira”. A referência aos compositores do histórico samba de 1963 estabelece uma ponte direta com a tradição salgueirense e reforça a ideia de que Xica não é apenas uma personagem do enredo, mas uma figura que faz parte da memória da Academia. O refrão do meio é um dos grandes momentos da obra. “Axé! Pode preparar a gira / O meu corpo tem dendê / Canjira, magia de enfeitiçar / Me chamaram de mucama, mas nasci pra ser sinhá” concentra força melódica e apresenta uma Xica que se recusa a aceitar o lugar que lhe foi imposto. A oposição entre “mucama” e “sinhá” é direta e resume a transformação social da personagem, sem perder a dimensão de enfrentamento. A ancestralidade aparece em “Da Costa da Mina herdei a força pra vencer”, enquanto “Mãe corajosa, a mecena de poder” amplia a personagem para além da figura de luxo e sedução. A sequência “A nega de tanta fé, Francisca de devoção / Enfrentei a casa-grande e zombei da opressão” reforça a leitura de uma Xica que utiliza fé, inteligência e coragem para desafiar as estruturas de seu tempo. O samba cresce novamente na passagem “Bate tambor nesse chão que me consagrou / Toda falange de vermelho e branco baixou / Voltei… voltei pra abraçar o meu povo na encruza”. Na apresentação, Tem-Tem Júnior e Rafael Tinguinha tiveram atuação potente e conseguiram explorar os principais momentos da composição. A melodia ofereceu espaço para variações de intensidade, e os intérpretes sustentaram bem o crescimento do samba até o refrão final. O desempenho foi especialmente eficiente nos trechos de maior apelo coletivo, quando a obra assume um caráter mais afirmativo. No conjunto, o samba 01 se destacou pela força da apresentação, pela identidade salgueirense e por uma composição que trabalha bem a relação entre Xica, Pomba Gira e a memória da escola. O refrão principal é seu grande trunfo, mas a obra chega até ele construída por uma narrativa consistente, com referências históricas e versos de forte afirmação.

Parceria de Marcelo Motta: Tinga e Wic, acompanhados pelos cantores de apoio, defenderam a composição de Marcelo Motta, Dudu Nobre, Pedrinho da Flor, Leonardo Gallo, Jorge Arthur, Julio Alves, Gilberth Castro, Josy Pereira, Bruno Dallari e André Braga. O samba 08 fechou a noite com uma apresentação vigorosa e mostrou bom desempenho dos intérpretes, sustentado por uma melodia consistente e refrões de forte apelo. A obra aposta principalmente na negritude, na resistência e na dimensão religiosa de Xica da Silva. A abertura já apresenta a personagem dentro do universo afro-religioso: “Deu meia-noite / Galo canta na calunga / É Xica quem faz macumba”. A repetição do verso dá identidade imediata ao samba e estabelece uma atmosfera de terreiro. “A majestade do terreiro” sintetiza essa construção e prepara a sequência de referências às diferentes representações de Xica: “Eu sou a potência transgressora de Zezé / O corpo de Taís / Mil faces de mulher”. Esse trecho é importante porque amplia a personagem para além de uma única representação. Xica aparece como uma figura reconstruída por diferentes mulheres e linguagens, mas que preserva uma essência de transgressão. “Giro de Pambunjila, que vence quizila / Pra ser quem quiser” reforça a dimensão espiritual e, ao mesmo tempo, estabelece uma ideia de liberdade que atravessa toda a composição. O grande momento dessa parte é “Chama Padilha, Mulambo, que tem demanda”. A estrutura repetitiva aproxima o trecho de um ponto afro-religioso e cria uma resposta imediata da quadra. Na terceira passada, a maioria dos presentes acompanhou o trecho com palmas, potencializando sua força. A escolha funciona tanto musicalmente quanto dentro da narrativa, porque transforma a convocação das entidades em um momento de afirmação coletiva. Outro recurso interessante aparece em “Apesar da dor”, que utiliza uma interpolação rítmica em alusão à melodia do samba salgueirense de 1963. A referência é discreta, mas funciona como diálogo musical com a memória da escola. Na sequência, “Do tempo colono / Amor imposto, o preço é alforria” retoma a violência da escravização e mostra que a ascensão de Xica esteve inserida em uma estrutura marcada pela desigualdade. A parte final reúne maternidade, religiosidade e resistência: “Por toda Maria que não teme dono / Na fé, senhora, mãe fiel do meu rebento”. A composição então retorna ao universo espiritual em “Encantada, do Orum / Nessa casa me apresento”. O fechamento “Francisca da Silva, a fúria contra injúria / Incorporada vermelho fundamento” transforma Xica em uma entidade de combate, antes de concluir com a ideia de reparação: “Que finda apagamento nessa encruzilhada”. O refrão principal é outro ponto forte da obra: “Vira no santo, iaiá, virou Salgueiro / Nessa canjira, Pomba Gira, Aluvaiá / Ninguém segura o meu povo macumbeiro / Laroyê, sou eu, emojubá!”. A construção reúne movimento, religiosidade e identidade salgueirense. “Ninguém segura o meu povo macumbeiro” é especialmente eficiente por assumir de maneira frontal uma expressão historicamente utilizada de forma pejorativa e transformá-la em orgulho coletivo. Na apresentação, Tinga e Wic mantiveram bom desempenho e sustentaram a intensidade durante as três passadas. Mesmo sem a formação completa dos intérpretes habituais da parceria, a defesa funcionou bem e valorizou os principais recursos da obra. O encerramento foi vigoroso e deixou os refrões como os momentos de maior comunicação com a quadra. No conjunto, o samba 08 se destaca pela personalidade, pela força dos refrões e pela abordagem aguerrida da negritude de Xica. A composição utiliza referências religiosas, históricas e musicais sem perder seu eixo central de resistência. A convocação de Padilha e Mulambo e a interpolação de “Apesar da dor” são recursos criativos que elevam a apresentação, enquanto o refrão principal entrega um fechamento forte e diretamente conectado à identidade do Salgueiro.

‘Furacão’ e ‘ventania’: Parcerias de Lequinho e Arlindinho se destacam nas quartas da Mangueira

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Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A disputa acirrada da Verde e Rosa entra na reta final. A escola segue na missão de escolher o tema para o enredo ‘Oyá por nós’, que exaltará a orixá Oyá, divindade que representa figura central na história da agremiação. Os três sambas restantes se apresentaram nas quartas de final no Palácio do Samba, no último sábado. O intérprete Dowglas Diniz comandou as quatro primeiras passadas dos sambas. Em seguida, as apresentações foram retomadas pelos intérpretes de cada parceria, que tocaram a disputa até então. Além disso, o diretor de carnaval da Mangueira, Dudu Azevedo, convidou a todos a demonstrarem a torcida por cada samba que desejassem: os que torcessem para determinado samba deveriam ir para frente do palco durante sua apresentação. A seguir, o CARNAVALESCO analisa as apresentações.

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Parceria de Lequinho: Além da performance de Dowglas, o samba voltou a ser interpretado por Tinga. Abrindo a noite de apresentações, a parceria de Lequinho apresentou uma composição que traz um olhar mais poético sobre Oyá, suas transformações e amores. A multiplicidade de Iansã e os traços que influenciam suas filhas e a Estação Primeira de Mangueira são sintetizados no verso “Quando toca o adaró, somos tantas numa só”. De melodia mais aguerrida, o samba consegue traduzir e abarcar a força da orixá, do enredo e da temática abordada pela Mangueira em 2027. Entre os destaques melódicos estão os desenhos de “Iyá Mesan Orun… / Treme-terra / Desce o morro, sobe o rum… é guerra / Bate o oguê que o sangue tem dendê / Tá pra nascer quem manda nela!”, que levantam os versos, provocam o canto e funcionaram muito bem em quadra. O trecho “Desce o morro, sobe o rum” chegou a gerar uma pequena coreografia de parte do público, trecho bastante indutivo ao movimento. Outro destaque melódico está na estrofe “Afulelé adê ô, deixa incorporar / Olonifé de Ogum, forja pra lutar / Paixão que atiça, fogo de akará / No coração de Xangô, deixa ela girar”, por seu contorno melódico. O trecho também provocou movimentos “para um lado e para o outro” com as mãos do público e giros no ‘comando’ “deixa ela girar”. Um ponto alto lírico é a valorização das transformações da orixá, que têm papel-chave na narrativa a ser contada na Sapucaí, presentes na estrofe “O tambor do recomeço / Quando vira a encruzilhada / Sou rebeldia de Oluafefé / Pele de búfalo no corpo de mulher / Afulelé adê ô, deixa incorporar”, em uma abordagem menos literal e mais poética. A composição também encontra espaço para trabalhar a diversidade de Oyá a partir de suas relações e dos elementos que atravessam sua trajetória, como Ogum e Xangô, ampliando criativamente possibilidades oferecidas pela narrativa que será abordada.

Entretanto, alguns versos como “É que eu sou preta macumbeira e de Oyá” e “O Brasil da intolerância eu despacho no ebó” denotam uma perda de força poética, quebrando um pouco a coesão lírica dos demais versos. Ao mesmo tempo, a simplicidade dessas frases acabou funcionando muito bem com o público. Diretas e de fácil assimilação, ganharam força por sua funcionalidade e estiveram entre os trechos mais cantados durante a apresentação. Além delas, “Eparrey, meu povo é trovoada” também se destacou pela força do canto da comunidade, especialmente em “Eparrey”, a saudação a Oyá. O refrão principal “Oyá Tetê, Oyá Tetê, Oyá / Oyá Tetê, Oyá Mangueira Yabá / Ê mamãe, traz de novo teu axé / Relampejou pra vitória, motumbá lé!” é explosivo e foi cantado por toda a quadra com muita energia em quase todas as passadas, tornando-se o grande destaque da apresentação e o refrão de maior força a passar pelo Palácio do Samba nesta noite. A composição se vale da referência à cantiga que invoca a mudança e a rapidez de Iansã e encontra um recurso criativo ao aproximá-la do desejo de vitória dos mangueirenses no verso final “Relampejou pra vitória, motumbá lé”. A referência a “Oyá Tetê” é um dos recursos criativos e melódicos que mais contribuem para a força da obra: a repetição é fluida, indutiva e funciona como um dos pontos de maior energia da performance.

A harmonia vocal do carro de som também foi um destaque, com desenhos vocais bem construídos, respeitando as variações melódicas e trechos como o verso “Colo de Ketu, solo do gueto, força de orixá”, além de entregarem, ao todo, uma defesa muito enérgica. No entanto, algumas intercorrências aconteceram: o intérprete Dowglas trocou as palavras do verso “Ela dança no ilê axé, dá caminho no axexê” por “Afefê”, termo semelhante ao de um verso anterior; alguns dos microfones do carro de som “estouraram” em determinados momentos da performance. Porém, nada disso prejudicou a compreensão e a qualidade do canto, principalmente do intérprete Dowglas Diniz, que não teve seu microfone afetado. Tanto na passada liderada por Dowglas quanto nas demais, os intérpretes mantiveram a energia em alta. Houve uma leve queda de intensidade no canto da sexta para a sétima passada, já com os intérpretes da disputa tocando a apresentação, mas a performance retomou a força e se manteve firme até o final. O canto da quadra também foi um diferencial. O público era volumoso, conforme convocado pelo diretor de Carnaval antes das apresentações, de forma que restava pouco espaço entre o palco e os torcedores, o que limitou a mobilidade para coreografias e a descida do intérprete para cantar no meio da quadra. Os torcedores acompanharam a música por completo, de forma unânime, em todas as passadas. Na boca do povo, o samba já era entoado espontaneamente antes do início da performance. Além do público, baianas e baluartes cantaram e dançaram muito o samba bem à frente do palco. Apesar da leve queda de energia apontada, a parceria teve um rendimento excelente e enérgico, tanto pela defesa dos intérpretes quanto pela sinergia com o público, passando pela quadra como um verdadeiro furacão.

Parceria de Arlindinho: Após a introdução com Dowglas Diniz, Bruno Ribas, Victor Cunha e Evandro Malandro voltaram a assumir os microfones principais para o samba da parceria de Arlindinho. A composição também se apropria de elementos centrais oferecidos pela narrativa da escola, explorando a força espiritual de Iansã, suas transformações e a relação entre a orixá, seus domínios e a Mangueira. As múltiplas características de Oyá aparecem de forma criativa em diferentes momentos da obra, especialmente ao relacionar sua força guerreira, o movimento e a transformação à própria identidade da escola. O samba traz uma melodia que valoriza a força e exalta o traço guerreiro da orixá, como bem dito no verso “No toque de guerra, a Mangueira vai passar”. A obra tem como uma de suas forças o refrão principal, contagiante e explosivo: “Ah, epahey, ela é Oyá, a bela Oyá / Ah, epahey, a minha mãe é Iansã / É quarta-feira, tem macumba na Mangueira / Batuquei a noite inteira / Amanheci campeã”, que se vale da referência lírica e melódica a uma conhecida canção em louvação a Iansã. Além disso, aproxima a narrativa da realidade da escola, que encerrará o carnaval no dia ritualístico dedicado à divindade, quarta-feira, recurso que induz ao canto e funcionou muito bem na quadra.

O refrão foi cantado intensamente pelo público em todas as passadas. Entretanto, perde força melódica e energia do público nos versos que seguem: “Dobra o adaró, rufa o alujá”. Alguns outros trechos melódicos merecem observação, como “Na fúria de um furacão / A fera vai se transformar”, cuja melodia não atende tão bem aos versos, apesar de ser bem trabalhada pelos intérpretes. O trecho “Faz ajeum, abará e acarajé / Chama yaô, o povo de santo e os filhos de fé” também apresenta uma variação rítmica interessante, bem executada pelos intérpretes. Outro destaque está em “Ô, gira a saia, vai começar o xirê / Bate cabeça”, que provocou o canto alto dos sambistas, além da “bossa” lírica em “Bate cabeça”, com a melodia levando o público a marcar as sílabas do verso. Além desses, o verso “No toque de guerra, a Mangueira vai passar” tomou força na interpretação dos cantores. Já os versos “Ventania na favela / Quem me protege é meu orixá / Armada de adaga e fio de conta / Pode vir demanda, eu vou derrubar” mostraram sua beleza, interpretados de forma que ‘acende’ nos ouvidos, e se tornaram um dos destaques do trabalho do carro de som, valorizados tanto na passada de Dowglas quanto na dos intérpretes da disputa. Mesmo antes da apresentação, o público já cantava o samba.

Entretanto, o canto não se mostrou tão uniforme nos trechos além do refrão principal, com essa irregularidade ficando mais clara a partir da segunda passada: nem todos cantavam o samba por completo; a falta de unanimidade diminuiu a intensidade da recepção. Na quinta e sexta passadas, houve pouco canto do público na estrofe “Oyá olhai por nós, Iyá Mesan guerreira / Tem fundamento no meu igbá / O céu vai relampejar, chegou a Estação Primeira”. A torcida convocada a ocupar a frente do palco tinha espaço suficiente para tomar impulso e pular junta em determinados momentos da performance, além de facilitar o trânsito quando o intérprete desceu para cantar junto ao povo. Apesar das oscilações, o canto se manteve até o fim da performance. Além disso, a convite da organização, o pai de santo Sandro Luiz e seus filhos surgiram no meio dos torcedores durante a quarta passada com Dowglas Diniz, e a “surpresa” elevou a energia da quadra. O samba e sua apresentação carregaram uma força própria e distinta, passando pela quadra como uma ventania. Houve um ótimo rendimento, batendo de frente com a performance anterior, embora sem alcançar a mesma intensidade e regularidade do canto.

Parceria de Chacal do Sax: Encerrando a noite de apresentações, Juan Briggs e Charles Silva defenderam o samba composto pela parceria de Chacal do Sax, após a performance de Dowglas Diniz. Pixulé, que liderou como voz principal ao longo da disputa, não esteve presente nesta noite. A composição se divide em dois momentos: entre os diversos atributos da divindade das tempestades e transformações, exalta seu domínio sobre os ventos e seu aspecto indomável; em seguida, destaca essas características, que também recaem sobre seus filhos e protegidos. A narrativa culmina no refrão, referência à cantiga “Oyá te te, Oyá te te Ayabá! / Oyá te te Oloyá, Oyá te te!”, que suplica atenção e mudança rápida da “mãe dos nove filhos”, senhora das mudanças e que nunca os abandona. Ao tratar de uma orixá marcada por transformações e mudanças, conforme apresentado pela sinopse, a obra se vale pouco da narrativa proposta em questões criativas. A multiplicidade de Oyá e as relações que foram fundamentais para suas transformações, dos aprendizados com seus amores ao domínio do fogo, da luta e das mudanças, a obra explora pouco esses elementos diante das possibilidades apresentadas, tornando sua abordagem um pouco mais redutiva.

A melodia, por sua vez, mais cadenciada, apresenta momentos agradáveis de ouvir, mas não possui o mesmo caráter arrebatador dos dois primeiros sambas. É uma composição mais voltada à fruição melódica, capaz de fazer o público dançar e acompanhar, ainda que sem o mesmo ‘punch’ das obras que a antecederam. Essa característica também apareceu na apresentação: poucas pessoas se reuniram inicialmente para torcer pelo samba, mas, conforme a defesa avançou, a melodia conseguiu envolver parte da quadra. Um ponto alto da obra é a boa capacidade de identificação, como pode ser visto nos versos “Senhora do ajerê / Acarajé já preparei pro ajeum! / Em cada Ilê-axé / Sagrado é o obé do axogum! / Dança, rainha, no afefé / Nas ruas e afoxés / Governa minha fé… Odara! / Fio de contas vermelho no peito / Não ouse me desafiar!”. A estrofe aprofunda a relação da divindade com seus filhos através de seus ritos, especialmente com suas filhas, como bem proposto pela escola: uma escola feminina, com dominância das filhas de Oyá. É uma passagem que bate forte na identificação do mangueirense. O mesmo aparece em “Quando ela passa, nada fica no lugar!”, um dos versos mais cantados durante a apresentação, e em “Eu não seria nada sem Oyá!”, também valorizado pela interpretação e que mostrou sua força com o público. O refrão principal, simples e funcional, “Ô, ô ogã, bate o daró ogã! / Eu sou Mangueira, ventania de Yansã / Iluminando essa favela inteira / Oyá por nós da Estação Primeira!”, também vingou na quadra.

Ainda assim, parte do público demonstrou dificuldade com a letra: alguns integrantes da torcida ainda cantavam lendo a folha de apoio e, em vários momentos, muitos torcedores entoaram “Olhai por nós da Estação Primeira” em vez de “Oyá por nós da Estação Primeira”. Apesar da torcida inicialmente menor, algumas pessoas foram se juntando a partir da segunda passada, com a animação a cargo do líder da parceria, energicamente convocando as pessoas que assistiam ainda sentadas às mesas. Na sexta passada, a torcida organizou um “trenzinho” circulando pela quadra, que contagiou e chamou mais pessoas, conseguindo levantar e sustentar o público até o final e retomando o fôlego da performance. Na sétima passada e novamente na última, o trecho “Em cada Ilê-axé / Sagrado é o obé do axogum! / Dança, rainha, no afefé / Nas ruas e afoxés” foi executado de forma um pouco truncada, enquanto “Acarajé já preparei pro ajeum!” gera uma queda melódica, o que ocasionou perda de energia no canto em algumas passadas. A apresentação obteve um rendimento regular, de forma decrescente. Vale notar que foi desfavorecida pelo impacto dos dois sambas que a antecederam. A diferença de energia entre as três obras pesou na recepção do samba de Chacal do Sax, que, embora tenha qualidade, não passou de forma ‘avassaladora’, com alto engajamento dos torcedores de forma geral, como os primeiros sambas. Também merece destaque a condução de Dowglas nas quatro primeiras passadas. Mesmo diante da recepção mais morna, o intérprete manteve a mesma energia para cantar, foi ao meio da galera e buscou o público. A atuação nos três sambas da noite mostrou não apenas energia, mas capacidade de adequar sua interpretação às diferentes propostas de cada composição.