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Análise: Salgueiro apresenta disputa equilibrada e sambas ganham força na terceira noite de eliminatórias

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Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

O Salgueiro realizou no último sábado a terceira noite de eliminatórias de sambas-enredo para o Carnaval 2027, marcada pela junção das chaves branca e vermelha na disputa. Em um dia de alto nível, os dez sambas apresentados mostraram diferentes caminhos para contar a história de Xica da Silva e sua relação com a Pomba Gira, combinando força melódica, referências históricas, ancestralidade e religiosidade. Com apresentações consistentes e momentos de grande resposta da quadra, a disputa começa a ganhar contornos cada vez mais definidos. A seguir, confira a análise do CARNAVALESCO dos dez sambas.

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Parceria de Liesbeth Nunes: O samba 05, assinado por Liesbeth Nunes, PJ do Samba, Roberto Felinto, Diego Pomar, Vitor França, PC Lopes, Krys Fonseca, Vera Guedes, Cláudia Rejane e Andressa Castro, abriu a noite com uma proposta mais melódica e menos explosiva, mas apresentou bom desempenho ao longo da passagem. Interpretada por Niu Souza, a obra aposta em uma Xica da Silva de personalidade forte, atravessada pela ancestralidade, pela resistência e pelo poder simbólico da Pombagira. A composição entra na quadra já estabelecendo esse tom de enfrentamento: “Arreda! Voltei pra botar fogo no congá / De saia vermelha e incorporada, é Mojibá!”. A abertura tem impacto e apresenta a personagem dentro do universo religioso que conduz parte importante da narrativa. O “Laroyê! Abre a roda que dona da roda baixou!” reforça essa atmosfera e cria uma chamada que favorece a participação do público. A letra encontra um de seus melhores momentos no trecho “Fui encruzilhada entre açoite e liberdade / Não se prende na corrente, ideais de majestade”. A imagem da encruzilhada sintetiza os conflitos que atravessam a trajetória de Xica e dá à composição uma dimensão poética interessante. Na sequência, “Se a mentira me vestiu de ilusão e fantasia / A justiça vem à tona hoje em verso e poesia” transforma a própria narrativa em instrumento de reparação histórica. É uma passagem que sustenta o caráter afrontoso do samba sem abandonar a construção literária. O refrão do meio é o trecho em que a obra ganha maior dimensão cênica e narrativa. “Quando a gira girou! / Fiz da avenida meu terreiro / Aquela que encantou o mundo inteiro / Desfilando luxo e esplendor” apresenta a imagem de Xica ocupando a avenida como espaço de afirmação. A ideia se conecta diretamente à força da personagem caracterizada como Pombagira, que, durante a apresentação, rodopiou pelo palco e circulou entre os torcedores, levando a proposta do samba para além da letra. Outro ponto de interesse aparece na parte final da segunda estrofe. “Nos olhos dos meus filhos refletiu o meu amor / Lutando sem perder a identidade / No ouro das Gerais plantei herança em cada mulher / Semeio a esperança” humaniza a personagem e amplia sua importância para além do luxo e da imagem construída em torno de Xica da Silva. O refrão principal concentra a identidade da parceria: “Xica da Silva / Consagrada no chão desse terreiro / Emana axé da Academia / A Pombagira mulher, do meu Salgueiro”. É um fechamento direto, com forte associação entre personagem, entidade e escola. A repetição do nome de Xica facilita a assimilação, e o último verso estabelece uma assinatura clara para o samba. Na apresentação, a obra contou com uma torcida participativa e com elementos cênicos que ajudaram a materializar sua proposta. A presença da Pombagira, especialmente nos momentos de maior interação com o público, acrescentou força visual à passagem. Musicalmente, o samba não teve uma explosão tão acentuada quanto outras propostas podem apresentar, mas manteve um andamento seguro e uma melodia que permitiu o desenvolvimento da narrativa. No conjunto, o samba 05 apresenta como principais trunfos a identidade temática, a força poética de alguns versos e a maneira como transforma a Pombagira em elemento central da construção de Xica da Silva. A obra consegue unir ancestralidade, resistência, representação e afirmação feminina, com um refrão principal de fácil identificação. É um samba que aposta mais na construção da personagem e no desenvolvimento melódico do que na explosão imediata, mas encontra força justamente na coerência entre letra, interpretação e proposta cênica.

Parceria de Bernardo Nobre: O samba 07, assinado por Bernardo Nobre, Thiago Meiners, Leandro Pereira, John Bahiense, João Moreira, André de Souza, Ribeirinho, Diego Alba, Jonathan Tenório e Luiza Vieira, apresentou uma obra consistente. Com Pitty de Menezes, Igor Vianna e Chicão na defesa, a obra manteve bom rendimento nas três passadas e mostrou uma construção melódica que cresce gradualmente até alcançar seu principal momento de explosão. A composição começa apresentando Xica em um cenário de terreiro e encruzilhada. “Ô dona Xica aos pés do Morro do Salgueiro / Porteira aberta convidava pro terreiro” coloca a personagem diretamente no universo simbólico da escola. A sequência, com referências ao Exu, ao atabaque, às rosas vermelhas e ao marafo, cria uma ambientação forte e bastante visual. O trecho “Quem governa minha rua, malandragem de mulher” reforça a personalidade desafiadora de Xica e prepara um dos momentos de maior apelo popular da obra. “Tá pra nascer, meu Deus / Quem enfrenta uma moça igual a ela” funciona como uma chamada de forte identificação. O refrão do meio é um bom momento da obra: “Pombogira ê pombogirá / A flor mais bela na gira / Na reza do congá ou na capela”. A melodia conduz bem a passagem e encontra um bom equilíbrio entre a temática religiosa e a exaltação da escola. O verso “Vi meu povo deslumbrante / A corte do Orun num instante / Desceu pra ver o Salgueiro em seu apogeu” amplia a dimensão da cena e transporta a narrativa para uma celebração da própria agremiação. Na segunda parte, o samba ganha densidade ao tratar da representação de Xica e das marcas deixadas pelo racismo. “O capricho da negrura / A ribalta eternizou / Fez da noite ironia / A nobreza revirou” trabalha a contradição entre o destaque alcançado pela personagem e os limites impostos pela sociedade de seu tempo. A composição segue por um caminho mais crítico em “A tinta apagou os moralistas / O amor a te fazer protagonista”, transformando a trajetória de Xica em uma resposta aos discursos que tentaram diminuir sua importância. O fechamento dessa passagem é particularmente adequado ao universo do Salgueiro: “Pra que sejamos arte em reparação / Por essa banda, onde mora a justiça / Mais uma vez o samba é revolução”. A melodia encontra seu maior ponto de força na preparação para o refrão principal. Depois de uma construção progressiva, o samba desemboca em “Malelê malelê / Kaô kabecilê”, criando uma mudança de intensidade que favorece a explosão da apresentação. A associação entre Pomba Gira e Xangô, padroeiro do Salgueiro, é um dos principais acertos da obra: “Meu Salgueiro corre gira, mojubá laroyê / Toca o barravento, firma o alujá / Na casa de Xangô, eu vim Pombogirar”. No conjunto, o samba 07 se destaca pela regularidade da apresentação, pela boa condução melódica e pela capacidade de criar momentos de participação do público. A principal força está justamente na forma como a composição une religiosidade, identidade salgueirense e discurso de afirmação negra. O refrão principal é seu grande ponto de impacto, mas a obra chega até ele bem construída, fazendo da progressão musical e narrativa um dos seus principais trunfos.

Parceria de Raoni Ventapane: Evandro Mallandro defendeu a composição de Raoni Ventapane, Dudah, Thales Nunes, Daniel Guimarães, Clara Ferreira, Denis Moraes, Vitor Menezes, Wibson Fernando, Carlinhos e Hugo Oliveira. Com Zé Paulo Sierra ausente, Evandro assumiu a interpretação e, mesmo precisando consultar a letra durante a apresentação, manteve bom desempenho e sustentou a obra ao longo das passagens. O samba começa construindo uma Xica diretamente ligada ao universo da encruzilhada e da Pomba Gira. “Daí-me licença, povo da encruzilhada / Sou do verbo gargalhada, voz de toda Pombagira” estabelece a personalidade da personagem e prepara uma sequência de versos que reforça seu caráter insubmisso: “A fogueira pra mentira, a coragem que inspira / Corpo-espelho da ralé, o retorno que atiça”. A passagem concentra força poética e apresenta uma Xica que transforma enfrentamento e resistência em elementos de sua identidade. A composição também aproxima a personagem da história do Salgueiro. “Com Arlindo fiz história, meu torrão eternizei” é uma referência direta ao samba de 1963, criando uma ponte entre a trajetória de Xica e a memória da própria escola. A sequência “O passo marcado, do morro à nobreza / No peito a certeza da revolução / Aquela que manda, que rompe barreiras / O luxo na cara da segregação” resume bem a proposta da obra: apresentar a ascensão da personagem sem apagar as contradições sociais e raciais que marcaram sua trajetória. O refrão do meio é um dos momentos mais interessantes do samba. A repetição de “Ela é Maria, Mariá” traz uma referência à tradição dos pontos de Pomba Gira e cria uma passagem de forte identidade melódica. “Na tela incorporei / As regras eu rasguei” amplia a construção da personagem para suas representações no imaginário popular, enquanto “Liberdade da mulher nas curvas de Zezé / Não é roteiro a bel-prazer de quem quiser” trabalha a ideia de autonomia feminina. A segunda metade ganha peso histórico com “Herdei a coragem da Costa da Mina / Transgredi a minha sina nas ladeiras do Arraial”. A letra apresenta a ancestralidade como elemento fundamental para compreender a trajetória de Francisca. “Meu sangue é herança ancestral / Francisca parda, mercadoria / Venci a chibata, ganhei alforria” sintetiza a violência do período escravista e a transformação da personagem em símbolo de resistência. O grande momento da obra está justamente no fechamento: “Arreda homem que aí vem Salgueiro / Arreda homem que aí vem Salgueiro / Sou a Xica macumbeira, Pambunjila! Mojubá! / A faísca que acende a Furiosa no gongá”. É um refrão de forte apelo, com uma melodia vibrante e uma associação muito clara entre Xica, a Pomba Gira e a bateria salgueirense. A repetição de “Arreda homem” funciona como chamada coletiva e dá ao samba uma conclusão explosiva. Na apresentação, a obra teve bom rendimento geral, apesar das dificuldades pontuais. O trecho “A fogueira pra mentira…” também apresentou alguma irregularidade na segunda passada, mas não comprometeu o desempenho do conjunto. No conjunto, o samba se destaca pela força do refrão principal, pela variedade de referências e pela construção de uma Xica marcada pela insubmissão. A ligação com a história do Salgueiro, as referências à Pomba Gira e a abordagem da ancestralidade dão identidade à composição. Seu principal trunfo está na capacidade de transformar diferentes momentos da trajetória de Xica em uma narrativa musical crescente, que encontra no refrão final seu ponto máximo de impacto.

Parceria de Xande de Pilares: Charles Silva defendeu com segurança a composição de Xande de Pilares, Fred Camacho, Betinho de Pilares, Miguel Dibo, Renato Galante, Jorginho Via 13, W. Correa, Orlando Ambrosio, Jefferson Oliveira e Rafael Gigante. O samba 06 apresentou uma das performances mais fortes da noite, sustentado por uma melodia potente e por uma construção que cresce gradualmente até desembocar em um refrão principal de grande impacto. A composição organiza a trajetória de Xica da Silva a partir do encontro entre a personagem histórica e a Pomba Gira apresentada pelo enredo. Um dos melhores momentos aparece justamente na preparação para o refrão principal: “Francisca da Silva de Oliveira / A Xica da Silva Teles”. Além de apresentar o nome completo da personagem, o trecho carrega uma referência particular ao endereço da quadra do Salgueiro, localizada na Rua Silva Teles. É um detalhe que aproxima a narrativa de Xica da identidade territorial da escola e transforma uma informação histórica em elemento de conexão com a comunidade. A melodia cresce de maneira natural e prepara a quadra para uma mudança de intensidade, fazendo do refrão principal o grande ponto de explosão da apresentação. O fechamento é particularmente eficiente ao recuperar características fundamentais de Xica e transformá-las em afirmação. A alcunha “Chegou a Xica que manda” funciona como síntese da personalidade apresentada ao longo da obra e ganha força quando associada ao refrão. É uma escolha simples, de fácil assimilação e com potencial para ser cantada coletivamente. Na apresentação, Charles Silva manteve boa condução e sustentou o crescimento do samba. A defesa teve segurança, ritmo e empolgação, permitindo que a melodia alcançasse seus principais momentos sem perder intensidade. No conjunto, o samba 06 foi um dos destaques da noite. A força da melodia, a boa construção narrativa e, principalmente, a preparação eficiente para um refrão principal muito potente fizeram da obra uma das apresentações mais completas da disputa. O detalhe envolvendo “Silva Teles” acrescenta identidade à composição, enquanto o fechamento reafirma a personalidade de Xica e entrega um momento de grande impacto coletivo.

Parceria de Ian Ruas: Grazzi Brasil, Dowglas Diniz e Vitor Cunha defenderam a composição de Ian Ruas, Caio Miranda, Zé Carlos, David Carvalho, Luiz Fernando, Luana Rosa, Fabiano Mattos e Carlão. O samba 09 teve uma apresentação segura nas três passadas e se destacou pela boa melodia e pela capacidade de sustentar a intensidade sem perder rendimento. A obra encontrou equilíbrio entre narrativa e força musical, com um refrão principal que funcionou como seu principal ponto de impacto. A composição escolhe caminhos menos literais para apresentar Xica da Silva. Em vez de se limitar aos episódios mais conhecidos da trajetória da personagem, a letra amplia o olhar para as diferentes formas como sua imagem foi construída ao longo do tempo. “Tal qual a trama da atriz / Que encenou, de uma vida, um capítulo só” é um exemplo dessa abordagem, ao fazer referência às representações de Xica no cinema, no teatro e na televisão sem citar diretamente essas linguagens. A composição avança para uma afirmação mais ampla no refrão principal: “Toda mulher tem direito à própria história / Meu Salgueiro é a memória que eu voltei pra consagrar”. O trecho consegue conectar Xica à discussão sobre o direito de mulheres negras contarem e preservarem suas próprias trajetórias. Ao mesmo tempo, o verso final estabelece uma ligação direta com o Salgueiro, colocando a escola como espaço de memória e consagração. Musicalmente, o samba apresenta uma melodia bem construída e consegue manter a cadência intensa ao longo da apresentação. O refrão principal é o grande ponto de força da obra, com uma estrutura que favorece o canto coletivo e ganha dimensão especialmente quando os intérpretes aumentam a intensidade da defesa. A melodia também ajuda a impedir que a narrativa fique excessivamente pesada, criando movimento entre os diferentes momentos da composição. No conjunto, o samba 09 se coloca entre os destaques da noite pela combinação de boa melodia, narrativa criativa e força dos refrões. A obra encontra personalidade ao abordar Xica por ângulos menos óbvios, especialmente na discussão sobre sua representação e sobre o corpo da mulher negra. Com uma defesa consistente e um refrão principal de impacto, a parceria apresentou uma passagem equilibrada e de alto rendimento.

Parceria de Rafa Hecht: Pixulé, Marquinho Art’Samba e Leonardo Bessa defenderam a composição de Rafa Hecht, Samir Trindade, Thiago Daniel, Deco, JP Figueira, Clairton Fonseca, Laura Roméro, Guiga Corrêa, Geraldo M. Felicio e Jefinho Rodrigues. O samba 11 apresentou uma obra de grande potência, com boas variações melódicas e um refrão principal explosivo. O refrão do meio começa com uma declaração de identidade: “Eu voltei pra ficar e dizer quem eu sou / Pra escandalizar, zombar de quem me julgou”. O tom afrontoso combina com a personagem construída pelo samba e encontra continuidade em “Já vou avisar, ninguém vai impedir / E quem é de santo, cuidado pra não cair”. A composição assume a voz de uma Xica desafiadora, que não aceita ser novamente silenciada. A parte seguinte é uma das mais densas da obra. “Da Costa da Mina, os meus / Francisca da Silva, sou eu” recupera a ancestralidade, enquanto “Da arte dos catopês, da elite e das ralés” amplia a trajetória da personagem para diferentes espaços sociais. A sequência “Dancei no peito do contratador / Roguei aos pés de nosso senhor / Pari liberdade, me reconheci / E dei aos meus filhos caminho a seguir” humaniza Xica e apresenta sua trajetória também a partir da maternidade, da sobrevivência e da conquista de autonomia. O samba ganha ainda mais dimensão espiritual em “Me encantei, ouvi os aflitos / Do Orum, voz dos oprimidos”. A imagem da personagem ouvindo os oprimidos conecta sua trajetória histórica à dimensão religiosa do enredo. “Na gargalhada estremecer, a cada gira eu renasço / Nunca temer, o meu destino eu faço” reforça a ideia de renascimento e autonomia, antes de a composição entrar em uma passagem de maior apelo popular. “Abre a roda, abre a roda, deixa a nega trabalhar / Sou formosa e dou carinho, também sei fazer chorar” cria uma mudança de dinâmica e prepara o samba para seu fechamento. A sequência “Abre a roda, abre a roda, sou apenas diferente / Se bater de frente, a Furiosa vai passar!” funciona como chamada para a chegada do refrão principal e recupera uma característica importante do Salgueiro: a associação entre a personagem e a força da bateria. O refrão principal é o grande trunfo musical da obra: “Faz ebó, veste vermelho e firma o ponto / Deixa que o meu segredo eu conto / A dona da casa protege o terreiro / Ninguém faz macumba igual meu Salgueiro”. A melodia é forte, o trecho tem fácil assimilação e concentra os principais símbolos do samba. “Ninguém faz macumba igual meu Salgueiro” é especialmente eficiente por trazer uma afirmação direta da identidade da escola e provocar a participação da torcida.

Parceria de Marcelo Adnet: Wander Pires defendeu a composição de Marcelo Adnet, Gustavo Albuquerque, Babby do Cavaco, André Capá, Bruno Zullo, Igor Marinho, Pedro Ayres, Sergio Pimentel, De Lima e Fabiano Paiva. O samba 15 apresentou uma passagem segura, com melodia agradável, boa sustentação e um refrão principal direto, de fácil assimilação. A composição abre colocando Xica dentro do universo da Pomba Gira: “Baixei de novo, sou eu Exu-mulher / Baixei pro morro inteiro festejar / Laroyê, axé”. A escolha de iniciar com a entidade já estabelece o tom do samba e cria uma conexão imediata com a proposta do enredo. A composição encontra um momento de forte apelo no trecho “Tá pra nascer nesse mundo de meu Deus / Homem que vai aguentar uma mulher igual a eu”. A passagem dialoga com a tradição dos pontos de Pomba Gira e apresenta uma Xica provocadora, independente e consciente de sua força. O refrão do meio é um dos pontos altos da obra. “Avisa na casa grande, meu nome é Francisca / Filha de Maria da Costa da Mina” resgata a identidade da personagem e sua ancestralidade. Na sequência, “Vivi em Taís, Isabel e Zezé / Arreda, moço, Xica dá o que quiser!” estabelece uma ponte entre a figura histórica e suas diferentes representações artísticas, além de fazer uma referência direta a Jorge Ben. O trecho ganha força justamente por reunir história, cultura popular e memória da personagem em poucos versos. Um dos versos mais interessantes aparece na transformação da rosa em instrumento de resistência: “A rosa que achei na encruzilhada / Virou faca afiada na voz das multidões”. A imagem combina o universo da Pomba Gira com a ideia de enfrentamento e transforma um símbolo tradicionalmente associado à entidade em metáfora de luta. A construção desemboca no pré-refrão “Quero ver bater de frente com a escola de Xangô!”, que aumenta a intensidade e prepara a chegada do refrão principal. Na apresentação, Wander Pires conduziu o samba com segurança e manteve a quadra envolvida durante toda a passagem. A melodia favoreceu a interpretação e permitiu que os diferentes momentos da letra fossem apresentados sem perda de ritmo. O refrão principal, apesar de mais simples em sua construção, funcionou justamente pela objetividade e pela facilidade de ser acompanhado pelo público. No conjunto, o samba 15 apresenta como principais qualidades a boa melodia, a narrativa bem organizada e a capacidade de criar momentos de identificação. O refrão do meio é seu trecho mais elaborado e interessante, enquanto o refrão principal aposta na simplicidade para ganhar força coletiva. Com uma apresentação estável e sem quedas de rendimento, a parceria entregou uma passagem consistente e mostrou boa capacidade de comunicação com a quadra.

Parceria de Gui Salgueiro: Luana Pinheiro e Guto defenderam a composição de Gui Salgueiro, que apresentou uma boa passagem pela quadra, com andamento seguro e uma melodia que consegue alternar momentos de maior intensidade com trechos mais narrativos. O samba 18 aposta na construção de uma Xica marcada pela força, pela ancestralidade e pela capacidade de romper com os papéis impostos a ela, enquanto aproxima a personagem da identidade do Salgueiro. A composição constrói uma imagem de Xica associada à nobreza negra. “Nas encruzilhadas do tempo / ‘Cavalas’ de garra e talento / Pra história certa escrever, elegi / Nobreza preta, requinte e luxo” apresenta a personagem por meio de uma perspectiva de afirmação e conquista. A passagem seguinte, “Meu torrão amado, meu velho Tijuco / Com grande beleza, por vezes temida”, situa a narrativa em Diamantina e ajuda a contextualizar o ambiente em que Xica construiu sua trajetória. O “Ôôô ôô, baixei na avenida” funciona como uma chamada eficiente e cria uma transição natural para o refrão do meio. É um recurso simples, mas que dá identidade à obra e aproxima o samba da tradição dos grandes momentos de canto coletivo do Salgueiro. O refrão do meio começa com força: “Voltei à rua pra vencer / Sou fogo no gongá / Do luar ao sol nascer, quem manda é Xica”. A melodia cresce e apresenta uma personagem determinada, antes de avançar para uma referência marcante à sua relação com a cultura e a arte: “Pés descalços, marquei passo no Municipal / Venço o preconceito, ganho o carnaval”. O trecho associa a trajetória de Xica à ocupação de espaços historicamente restritos à população negra. O final da segunda parte amplia o legado da personagem: “Deixei de herança arte e ciência / As joias e a educação com devoção”. A composição evita limitar a herança de Xica ao luxo e introduz conhecimento, cultura e educação como elementos de permanência. “Encontro no Orun a liberdade / Mãos dadas com a ancestralidade / Renasço estrela no meu pavilhão” conclui essa trajetória, aproximando a personagem da espiritualidade e, finalmente, do próprio Salgueiro. O refrão principal é direto e de fácil identificação: “O toque do tambor chamou, eu regressei / Sou rainha desse ilê, minha palavra é lei / Paixão encarnada, amor verdadeiro / Sou Xica da Silva e do Salgueiro”. Na apresentação, Luana Pinheiro e Guto tiveram bom desempenho e mantiveram a obra estável nas passagens. O andamento favoreceu a compreensão da letra, e a melodia ofereceu segurança aos intérpretes, principalmente nos momentos de transição entre as partes. O samba não depende de uma única explosão para funcionar: sua força está na construção progressiva e na maneira como a narrativa vai ganhando significado até chegar ao refrão final. No conjunto, o samba 18 apresenta uma composição bem estruturada, com boa melodia e uma narrativa que percorre a religiosidade, a história e a representação de Xica da Silva. Seu principal mérito está em dar voz à personagem e apresentar sua trajetória como resultado de resistência, estratégia e ancestralidade. Com uma defesa segura e um refrão principal de fácil assimilação, a parceria entregou uma apresentação consistente e de boa qualidade.

Parceria de Moisés Santiago: Tem-Tem Júnior e Rafael Tinguinha defenderam a composição de Moisés Santiago, Sereno FDQ, Rodrigo Feijú, Aldir Senna, Mateus Pranto, Marquinho Bombeiro, Marcelo Martins, Alexandre Cabeça, Sandro Nery e Marcelo Batista. O samba 01 apresentou forte desempenho e encontrou na melodia e, principalmente, no refrão principal, seus maiores pontos de força. A composição apresenta Xica como uma entidade que atravessa a história da escola: “A entidade eternizada por Arlindo / Por Anescar e Noel Rosa de Oliveira / Fiz Isabel me incorporar / Pra revolucionar a cultura brasileira”. A referência aos compositores do histórico samba de 1963 estabelece uma ponte direta com a tradição salgueirense e reforça a ideia de que Xica não é apenas uma personagem do enredo, mas uma figura que faz parte da memória da Academia. O refrão do meio é um dos grandes momentos da obra. “Axé! Pode preparar a gira / O meu corpo tem dendê / Canjira, magia de enfeitiçar / Me chamaram de mucama, mas nasci pra ser sinhá” concentra força melódica e apresenta uma Xica que se recusa a aceitar o lugar que lhe foi imposto. A oposição entre “mucama” e “sinhá” é direta e resume a transformação social da personagem, sem perder a dimensão de enfrentamento. A ancestralidade aparece em “Da Costa da Mina herdei a força pra vencer”, enquanto “Mãe corajosa, a mecena de poder” amplia a personagem para além da figura de luxo e sedução. A sequência “A nega de tanta fé, Francisca de devoção / Enfrentei a casa-grande e zombei da opressão” reforça a leitura de uma Xica que utiliza fé, inteligência e coragem para desafiar as estruturas de seu tempo. O samba cresce novamente na passagem “Bate tambor nesse chão que me consagrou / Toda falange de vermelho e branco baixou / Voltei… voltei pra abraçar o meu povo na encruza”. Na apresentação, Tem-Tem Júnior e Rafael Tinguinha tiveram atuação potente e conseguiram explorar os principais momentos da composição. A melodia ofereceu espaço para variações de intensidade, e os intérpretes sustentaram bem o crescimento do samba até o refrão final. O desempenho foi especialmente eficiente nos trechos de maior apelo coletivo, quando a obra assume um caráter mais afirmativo. No conjunto, o samba 01 se destacou pela força da apresentação, pela identidade salgueirense e por uma composição que trabalha bem a relação entre Xica, Pomba Gira e a memória da escola. O refrão principal é seu grande trunfo, mas a obra chega até ele construída por uma narrativa consistente, com referências históricas e versos de forte afirmação.

Parceria de Marcelo Motta: Tinga e Wic, acompanhados pelos cantores de apoio, defenderam a composição de Marcelo Motta, Dudu Nobre, Pedrinho da Flor, Leonardo Gallo, Jorge Arthur, Julio Alves, Gilberth Castro, Josy Pereira, Bruno Dallari e André Braga. O samba 08 fechou a noite com uma apresentação vigorosa e mostrou bom desempenho dos intérpretes, sustentado por uma melodia consistente e refrões de forte apelo. A obra aposta principalmente na negritude, na resistência e na dimensão religiosa de Xica da Silva. A abertura já apresenta a personagem dentro do universo afro-religioso: “Deu meia-noite / Galo canta na calunga / É Xica quem faz macumba”. A repetição do verso dá identidade imediata ao samba e estabelece uma atmosfera de terreiro. “A majestade do terreiro” sintetiza essa construção e prepara a sequência de referências às diferentes representações de Xica: “Eu sou a potência transgressora de Zezé / O corpo de Taís / Mil faces de mulher”. Esse trecho é importante porque amplia a personagem para além de uma única representação. Xica aparece como uma figura reconstruída por diferentes mulheres e linguagens, mas que preserva uma essência de transgressão. “Giro de Pambunjila, que vence quizila / Pra ser quem quiser” reforça a dimensão espiritual e, ao mesmo tempo, estabelece uma ideia de liberdade que atravessa toda a composição. O grande momento dessa parte é “Chama Padilha, Mulambo, que tem demanda”. A estrutura repetitiva aproxima o trecho de um ponto afro-religioso e cria uma resposta imediata da quadra. Na terceira passada, a maioria dos presentes acompanhou o trecho com palmas, potencializando sua força. A escolha funciona tanto musicalmente quanto dentro da narrativa, porque transforma a convocação das entidades em um momento de afirmação coletiva. Outro recurso interessante aparece em “Apesar da dor”, que utiliza uma interpolação rítmica em alusão à melodia do samba salgueirense de 1963. A referência é discreta, mas funciona como diálogo musical com a memória da escola. Na sequência, “Do tempo colono / Amor imposto, o preço é alforria” retoma a violência da escravização e mostra que a ascensão de Xica esteve inserida em uma estrutura marcada pela desigualdade. A parte final reúne maternidade, religiosidade e resistência: “Por toda Maria que não teme dono / Na fé, senhora, mãe fiel do meu rebento”. A composição então retorna ao universo espiritual em “Encantada, do Orum / Nessa casa me apresento”. O fechamento “Francisca da Silva, a fúria contra injúria / Incorporada vermelho fundamento” transforma Xica em uma entidade de combate, antes de concluir com a ideia de reparação: “Que finda apagamento nessa encruzilhada”. O refrão principal é outro ponto forte da obra: “Vira no santo, iaiá, virou Salgueiro / Nessa canjira, Pomba Gira, Aluvaiá / Ninguém segura o meu povo macumbeiro / Laroyê, sou eu, emojubá!”. A construção reúne movimento, religiosidade e identidade salgueirense. “Ninguém segura o meu povo macumbeiro” é especialmente eficiente por assumir de maneira frontal uma expressão historicamente utilizada de forma pejorativa e transformá-la em orgulho coletivo. Na apresentação, Tinga e Wic mantiveram bom desempenho e sustentaram a intensidade durante as três passadas. Mesmo sem a formação completa dos intérpretes habituais da parceria, a defesa funcionou bem e valorizou os principais recursos da obra. O encerramento foi vigoroso e deixou os refrões como os momentos de maior comunicação com a quadra. No conjunto, o samba 08 se destaca pela personalidade, pela força dos refrões e pela abordagem aguerrida da negritude de Xica. A composição utiliza referências religiosas, históricas e musicais sem perder seu eixo central de resistência. A convocação de Padilha e Mulambo e a interpolação de “Apesar da dor” são recursos criativos que elevam a apresentação, enquanto o refrão principal entrega um fechamento forte e diretamente conectado à identidade do Salgueiro.

‘Furacão’ e ‘ventania’: Parcerias de Lequinho e Arlindinho se destacam nas quartas da Mangueira

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Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A disputa acirrada da Verde e Rosa entra na reta final. A escola segue na missão de escolher o tema para o enredo ‘Oyá por nós’, que exaltará a orixá Oyá, divindade que representa figura central na história da agremiação. Os três sambas restantes se apresentaram nas quartas de final no Palácio do Samba, no último sábado. O intérprete Dowglas Diniz comandou as quatro primeiras passadas dos sambas. Em seguida, as apresentações foram retomadas pelos intérpretes de cada parceria, que tocaram a disputa até então. Além disso, o diretor de carnaval da Mangueira, Dudu Azevedo, convidou a todos a demonstrarem a torcida por cada samba que desejassem: os que torcessem para determinado samba deveriam ir para frente do palco durante sua apresentação. A seguir, o CARNAVALESCO analisa as apresentações.

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Parceria de Lequinho: Além da performance de Dowglas, o samba voltou a ser interpretado por Tinga. Abrindo a noite de apresentações, a parceria de Lequinho apresentou uma composição que traz um olhar mais poético sobre Oyá, suas transformações e amores. A multiplicidade de Iansã e os traços que influenciam suas filhas e a Estação Primeira de Mangueira são sintetizados no verso “Quando toca o adaró, somos tantas numa só”. De melodia mais aguerrida, o samba consegue traduzir e abarcar a força da orixá, do enredo e da temática abordada pela Mangueira em 2027. Entre os destaques melódicos estão os desenhos de “Iyá Mesan Orun… / Treme-terra / Desce o morro, sobe o rum… é guerra / Bate o oguê que o sangue tem dendê / Tá pra nascer quem manda nela!”, que levantam os versos, provocam o canto e funcionaram muito bem em quadra. O trecho “Desce o morro, sobe o rum” chegou a gerar uma pequena coreografia de parte do público, trecho bastante indutivo ao movimento. Outro destaque melódico está na estrofe “Afulelé adê ô, deixa incorporar / Olonifé de Ogum, forja pra lutar / Paixão que atiça, fogo de akará / No coração de Xangô, deixa ela girar”, por seu contorno melódico. O trecho também provocou movimentos “para um lado e para o outro” com as mãos do público e giros no ‘comando’ “deixa ela girar”. Um ponto alto lírico é a valorização das transformações da orixá, que têm papel-chave na narrativa a ser contada na Sapucaí, presentes na estrofe “O tambor do recomeço / Quando vira a encruzilhada / Sou rebeldia de Oluafefé / Pele de búfalo no corpo de mulher / Afulelé adê ô, deixa incorporar”, em uma abordagem menos literal e mais poética. A composição também encontra espaço para trabalhar a diversidade de Oyá a partir de suas relações e dos elementos que atravessam sua trajetória, como Ogum e Xangô, ampliando criativamente possibilidades oferecidas pela narrativa que será abordada.

Entretanto, alguns versos como “É que eu sou preta macumbeira e de Oyá” e “O Brasil da intolerância eu despacho no ebó” denotam uma perda de força poética, quebrando um pouco a coesão lírica dos demais versos. Ao mesmo tempo, a simplicidade dessas frases acabou funcionando muito bem com o público. Diretas e de fácil assimilação, ganharam força por sua funcionalidade e estiveram entre os trechos mais cantados durante a apresentação. Além delas, “Eparrey, meu povo é trovoada” também se destacou pela força do canto da comunidade, especialmente em “Eparrey”, a saudação a Oyá. O refrão principal “Oyá Tetê, Oyá Tetê, Oyá / Oyá Tetê, Oyá Mangueira Yabá / Ê mamãe, traz de novo teu axé / Relampejou pra vitória, motumbá lé!” é explosivo e foi cantado por toda a quadra com muita energia em quase todas as passadas, tornando-se o grande destaque da apresentação e o refrão de maior força a passar pelo Palácio do Samba nesta noite. A composição se vale da referência à cantiga que invoca a mudança e a rapidez de Iansã e encontra um recurso criativo ao aproximá-la do desejo de vitória dos mangueirenses no verso final “Relampejou pra vitória, motumbá lé”. A referência a “Oyá Tetê” é um dos recursos criativos e melódicos que mais contribuem para a força da obra: a repetição é fluida, indutiva e funciona como um dos pontos de maior energia da performance.

A harmonia vocal do carro de som também foi um destaque, com desenhos vocais bem construídos, respeitando as variações melódicas e trechos como o verso “Colo de Ketu, solo do gueto, força de orixá”, além de entregarem, ao todo, uma defesa muito enérgica. No entanto, algumas intercorrências aconteceram: o intérprete Dowglas trocou as palavras do verso “Ela dança no ilê axé, dá caminho no axexê” por “Afefê”, termo semelhante ao de um verso anterior; alguns dos microfones do carro de som “estouraram” em determinados momentos da performance. Porém, nada disso prejudicou a compreensão e a qualidade do canto, principalmente do intérprete Dowglas Diniz, que não teve seu microfone afetado. Tanto na passada liderada por Dowglas quanto nas demais, os intérpretes mantiveram a energia em alta. Houve uma leve queda de intensidade no canto da sexta para a sétima passada, já com os intérpretes da disputa tocando a apresentação, mas a performance retomou a força e se manteve firme até o final. O canto da quadra também foi um diferencial. O público era volumoso, conforme convocado pelo diretor de Carnaval antes das apresentações, de forma que restava pouco espaço entre o palco e os torcedores, o que limitou a mobilidade para coreografias e a descida do intérprete para cantar no meio da quadra. Os torcedores acompanharam a música por completo, de forma unânime, em todas as passadas. Na boca do povo, o samba já era entoado espontaneamente antes do início da performance. Além do público, baianas e baluartes cantaram e dançaram muito o samba bem à frente do palco. Apesar da leve queda de energia apontada, a parceria teve um rendimento excelente e enérgico, tanto pela defesa dos intérpretes quanto pela sinergia com o público, passando pela quadra como um verdadeiro furacão.

Parceria de Arlindinho: Após a introdução com Dowglas Diniz, Bruno Ribas, Victor Cunha e Evandro Malandro voltaram a assumir os microfones principais para o samba da parceria de Arlindinho. A composição também se apropria de elementos centrais oferecidos pela narrativa da escola, explorando a força espiritual de Iansã, suas transformações e a relação entre a orixá, seus domínios e a Mangueira. As múltiplas características de Oyá aparecem de forma criativa em diferentes momentos da obra, especialmente ao relacionar sua força guerreira, o movimento e a transformação à própria identidade da escola. O samba traz uma melodia que valoriza a força e exalta o traço guerreiro da orixá, como bem dito no verso “No toque de guerra, a Mangueira vai passar”. A obra tem como uma de suas forças o refrão principal, contagiante e explosivo: “Ah, epahey, ela é Oyá, a bela Oyá / Ah, epahey, a minha mãe é Iansã / É quarta-feira, tem macumba na Mangueira / Batuquei a noite inteira / Amanheci campeã”, que se vale da referência lírica e melódica a uma conhecida canção em louvação a Iansã. Além disso, aproxima a narrativa da realidade da escola, que encerrará o carnaval no dia ritualístico dedicado à divindade, quarta-feira, recurso que induz ao canto e funcionou muito bem na quadra.

O refrão foi cantado intensamente pelo público em todas as passadas. Entretanto, perde força melódica e energia do público nos versos que seguem: “Dobra o adaró, rufa o alujá”. Alguns outros trechos melódicos merecem observação, como “Na fúria de um furacão / A fera vai se transformar”, cuja melodia não atende tão bem aos versos, apesar de ser bem trabalhada pelos intérpretes. O trecho “Faz ajeum, abará e acarajé / Chama yaô, o povo de santo e os filhos de fé” também apresenta uma variação rítmica interessante, bem executada pelos intérpretes. Outro destaque está em “Ô, gira a saia, vai começar o xirê / Bate cabeça”, que provocou o canto alto dos sambistas, além da “bossa” lírica em “Bate cabeça”, com a melodia levando o público a marcar as sílabas do verso. Além desses, o verso “No toque de guerra, a Mangueira vai passar” tomou força na interpretação dos cantores. Já os versos “Ventania na favela / Quem me protege é meu orixá / Armada de adaga e fio de conta / Pode vir demanda, eu vou derrubar” mostraram sua beleza, interpretados de forma que ‘acende’ nos ouvidos, e se tornaram um dos destaques do trabalho do carro de som, valorizados tanto na passada de Dowglas quanto na dos intérpretes da disputa. Mesmo antes da apresentação, o público já cantava o samba.

Entretanto, o canto não se mostrou tão uniforme nos trechos além do refrão principal, com essa irregularidade ficando mais clara a partir da segunda passada: nem todos cantavam o samba por completo; a falta de unanimidade diminuiu a intensidade da recepção. Na quinta e sexta passadas, houve pouco canto do público na estrofe “Oyá olhai por nós, Iyá Mesan guerreira / Tem fundamento no meu igbá / O céu vai relampejar, chegou a Estação Primeira”. A torcida convocada a ocupar a frente do palco tinha espaço suficiente para tomar impulso e pular junta em determinados momentos da performance, além de facilitar o trânsito quando o intérprete desceu para cantar junto ao povo. Apesar das oscilações, o canto se manteve até o fim da performance. Além disso, a convite da organização, o pai de santo Sandro Luiz e seus filhos surgiram no meio dos torcedores durante a quarta passada com Dowglas Diniz, e a “surpresa” elevou a energia da quadra. O samba e sua apresentação carregaram uma força própria e distinta, passando pela quadra como uma ventania. Houve um ótimo rendimento, batendo de frente com a performance anterior, embora sem alcançar a mesma intensidade e regularidade do canto.

Parceria de Chacal do Sax: Encerrando a noite de apresentações, Juan Briggs e Charles Silva defenderam o samba composto pela parceria de Chacal do Sax, após a performance de Dowglas Diniz. Pixulé, que liderou como voz principal ao longo da disputa, não esteve presente nesta noite. A composição se divide em dois momentos: entre os diversos atributos da divindade das tempestades e transformações, exalta seu domínio sobre os ventos e seu aspecto indomável; em seguida, destaca essas características, que também recaem sobre seus filhos e protegidos. A narrativa culmina no refrão, referência à cantiga “Oyá te te, Oyá te te Ayabá! / Oyá te te Oloyá, Oyá te te!”, que suplica atenção e mudança rápida da “mãe dos nove filhos”, senhora das mudanças e que nunca os abandona. Ao tratar de uma orixá marcada por transformações e mudanças, conforme apresentado pela sinopse, a obra se vale pouco da narrativa proposta em questões criativas. A multiplicidade de Oyá e as relações que foram fundamentais para suas transformações, dos aprendizados com seus amores ao domínio do fogo, da luta e das mudanças, a obra explora pouco esses elementos diante das possibilidades apresentadas, tornando sua abordagem um pouco mais redutiva.

A melodia, por sua vez, mais cadenciada, apresenta momentos agradáveis de ouvir, mas não possui o mesmo caráter arrebatador dos dois primeiros sambas. É uma composição mais voltada à fruição melódica, capaz de fazer o público dançar e acompanhar, ainda que sem o mesmo ‘punch’ das obras que a antecederam. Essa característica também apareceu na apresentação: poucas pessoas se reuniram inicialmente para torcer pelo samba, mas, conforme a defesa avançou, a melodia conseguiu envolver parte da quadra. Um ponto alto da obra é a boa capacidade de identificação, como pode ser visto nos versos “Senhora do ajerê / Acarajé já preparei pro ajeum! / Em cada Ilê-axé / Sagrado é o obé do axogum! / Dança, rainha, no afefé / Nas ruas e afoxés / Governa minha fé… Odara! / Fio de contas vermelho no peito / Não ouse me desafiar!”. A estrofe aprofunda a relação da divindade com seus filhos através de seus ritos, especialmente com suas filhas, como bem proposto pela escola: uma escola feminina, com dominância das filhas de Oyá. É uma passagem que bate forte na identificação do mangueirense. O mesmo aparece em “Quando ela passa, nada fica no lugar!”, um dos versos mais cantados durante a apresentação, e em “Eu não seria nada sem Oyá!”, também valorizado pela interpretação e que mostrou sua força com o público. O refrão principal, simples e funcional, “Ô, ô ogã, bate o daró ogã! / Eu sou Mangueira, ventania de Yansã / Iluminando essa favela inteira / Oyá por nós da Estação Primeira!”, também vingou na quadra.

Ainda assim, parte do público demonstrou dificuldade com a letra: alguns integrantes da torcida ainda cantavam lendo a folha de apoio e, em vários momentos, muitos torcedores entoaram “Olhai por nós da Estação Primeira” em vez de “Oyá por nós da Estação Primeira”. Apesar da torcida inicialmente menor, algumas pessoas foram se juntando a partir da segunda passada, com a animação a cargo do líder da parceria, energicamente convocando as pessoas que assistiam ainda sentadas às mesas. Na sexta passada, a torcida organizou um “trenzinho” circulando pela quadra, que contagiou e chamou mais pessoas, conseguindo levantar e sustentar o público até o final e retomando o fôlego da performance. Na sétima passada e novamente na última, o trecho “Em cada Ilê-axé / Sagrado é o obé do axogum! / Dança, rainha, no afefé / Nas ruas e afoxés” foi executado de forma um pouco truncada, enquanto “Acarajé já preparei pro ajeum!” gera uma queda melódica, o que ocasionou perda de energia no canto em algumas passadas. A apresentação obteve um rendimento regular, de forma decrescente. Vale notar que foi desfavorecida pelo impacto dos dois sambas que a antecederam. A diferença de energia entre as três obras pesou na recepção do samba de Chacal do Sax, que, embora tenha qualidade, não passou de forma ‘avassaladora’, com alto engajamento dos torcedores de forma geral, como os primeiros sambas. Também merece destaque a condução de Dowglas nas quatro primeiras passadas. Mesmo diante da recepção mais morna, o intérprete manteve a mesma energia para cantar, foi ao meio da galera e buscou o público. A atuação nos três sambas da noite mostrou não apenas energia, mas capacidade de adequar sua interpretação às diferentes propostas de cada composição.

Mancha Verde ousa com fantasias deslumbrantes e biblioteca para a comunidade

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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

A Mancha Verde, escola que desfilará no Grupo de Acesso I do Carnaval de São Paulo, organizou um grande evento neste sábado para marcar o ciclo do desfile de 2027 e, também, a posteridade da agremiação. Na data, a verde e branca apresentou as fantasias da escola de samba para o desfile de “Ruth Rocha: a Palavra que Ensina a Criança a Voar!”, assinado pelo carnavalesco Rodrigo Meiners. Além disso, a instituição também inaugurou a Biblioteca Ruth Rocha, idealizada e batizada em homenagem à escritora infantil tema do enredo para a apresentação de 2027. Sempre presente em eventos importantes para as escolas de samba paulistanas, o CARNAVALESCO prestigiou a agremiação e conversou com figuras importantes para o desfile de 2027. A Mancha Verde será a sexta escola a desfilar no Grupo de Acesso I de 2027 e tem samba-enredo assinado pela parceria de Pedroca, Aquiles da Vila, Gui Cruz, Fabiano Sorriso, Lucas Donato, Marcos Vinicius, Fábio Gonçalves, Cabide e Chico Maia.

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Ideias aos milhões

Ao responder sobre a inspiração estética para produzir os protótipos, Meiners fez questão de falar sobre a temática em si: “Esse enredo é uma vontade que eu tenho de fazer muito antes de me tornar carnavalesco. Eu venho de uma família oriunda do samba, desde criança eu acompanho o carnaval. E sempre quis assistir, um dia, um desfile com o visual mais infantil, que a criança conseguisse olhar e entender muito mais fácil o que está se passando. Eu cresci com essa vontade e tinha esse enredo guardado, juntamente como o enredo que eu fiz no Pérola Negra em 2025, do Exu Mulher, que eram dois trunfos meus que eu queria usar numa hora muito certa, ou que eu sentisse muita necessidade. Usei o Exu Mulher porque o Pérola precisava voltar pro Grupo de Acesso I, e esse ano eu propus ao presidente trazer a Ruth Rocha, porque a estratégia da reedição do ano passado, infelizmente, não deu certo porque a gente não subiu”, refletiu.

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Carnavalesco Rodrigo Meiners

O carnavalesco, logo na sequência, passou a falar do desfile de 2027: “Falando em fantasia, é um enredo muito legal, porque ele nos proporciona formas e cores muito diferentes. Quando a gente decidiu trazer esse enredo, na reunião que teve com a diretoria, eu disse que eles precisariam abrir a cabeça e entender que é um projeto diferente, que a gente vai ver tanto forma, quanto cor e quanto material, diferente do que as escolas costumam utilizar para enredos indígenas e afros. E isso é muito legal, porque a gente consegue trazer novidade pra dentro do Carnaval, mesmo estando no Grupo de Acesso I”, comentou.

O carnavalesco foi perguntado sobre quais eram os principais desafios ao confeccionar as fantasias da Mancha Verde para 2027: “Eu não tive dificuldade nem desafio em relação a propor um visual infantil, muito pelo contrário. Eu acho muito bacana ter a possibilidade embasada de trazer o diferente, que é a palavra que conduz o nosso projeto e os nossos processos esse ano. Eu realmente nunca fiz uma temática dessa: dos seis carnavais que eu já assinei, cinco foram afros ou indígenas”, relembrou.

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O próprio carnavalesco segue: “O maior desafio é falar de Ruth no Grupo de Acesso I, porque ela tem mais de 200 livros publicados. Até a gente achar um viés de narração para encaixar tudo, a gente demorou um tempo. Achamos: a gente não retrata os livros, a gente retrata as coleções. E todas as coleções dela cabem em 14 alas, três alegorias, um tripé, a composição de frente e três casais. A gente cita as coleções da Ruth, e cada coleção tem vários livros. Dentro dessas coleções, a gente pegou o livro que mais transmite a mensagem que aquela coleção quer transmitir. A gente parte desse caminho. Hoje, quando as fantasias começaram a desfilar, a gente apresentou cada uma e isso ficou muito claro. A coleção que significa um livro da coleção tem, em um personagem, a história que sintetiza o conceito que ela quer transmitir ao criar aquela coleção. O maior desafio foi esse, mas a gente achou essa solução e funcionou muito bem. Vai ser muito bom no Anhembi”, prometeu Meiners.

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Cores e materiais

O carnavalesco também falou, mais especificamente, sobre a cromia que será utilizada na avenida: “É o primeiro desfile que eu faço, até por questão de outras agremiações que eu já passei, que a gente não tem limitação de cor para usar. Eu tenho ala azul, tenho ala rosa, tenho ala verde, tenho ala preta, tenho ala branca, tenho ala colorida, e isso foi muito legal. É o meu primeiro projeto que a temática e a escola me possibilitam usar todas as cores. Eu gosto muito de brincar com cor, comecei a trabalhar no Carnaval com o Max Lopes, no Rio de Janeiro, que me ensinou muito sobre cor, sobre formar uma palheta uniforme no desfile, em quem se vê aquela imagem de cima”, afirmou.

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Meiners também comentou sobre os materiais que têm mais destaque na confecção das fantasias para a Mancha Verde em 2027: “A minha projeção de carnaval é feita no computador. Eu, infelizmente, não tenho a habilidade de desenhar à mão. Minhas alegorias são em 3D, meus figurinos são no computador. E eu gosto muito do recurso do tecido digital. Nesse ano, todas as nossas fantasias têm o tecido digital. Eu crio uma estampa exclusiva, que me ajuda na identificação do personagem, do livro da Ruth e do tema em questão, e a gente reproduz essa estampa em tecido. Em todas as nossas alas, a base da costura parte do tecido digital. Isso além do pompom: o pompom é um objeto que se usa no carnaval, mas que eu acho que é muito infantil. A gente vai trabalhar bastante com muito pompom colorido em praticamente todas as fantasias”, revelou o carnavalesco.

Criações destacadas

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O artista citou algumas fantasias que, na visão do profissional, têm destaque no conjunto apresentado pela Mancha Verde: “Eu gosto muito da Ala das Baianas. É muito legal e tem um trabalho artesanal, uma coisa feita à mão, muito bacana. O tema delas é a Emília, a gente tem umas bonequinhas de pano bordadas à mão que vão vir presas na roupa. A gente tem uns botões também costurados à mão, que vão vir presos na roupa. É muito legal valorizar o trabalho desses artesãos do carnaval, que acabou ficando um pouco esquecido. E eu gosto muito da ala de Ação Justificada, que é uma fantasia que, quando passou aqui, as pessoas acharam até um pouco mais simples: foi uma ala do cubo mágico. Mas, pensando no que a gente vai fazer na pista com essa fantasia, vai ser um dos pontos altos do desfile. É a ala do começo da trajetória da Ruth, em que ela criava os brinquedos interativos, que eram brindes da revista Recreio. A nossa ala justificada é isso. A gente vai ter uma e o potencial que ela tem de surpreender e encantar na avenida”, prometeu o profissional coreografia muito legal com essa ala na pista. Eu, que já sei, consigo gostar muito dessa fantasia: eu sei o que ela vai virar”, prometeu o profissional.

Presidente satisfeito

Paulo Rogério de Aquino, popularmente conhecido como Paulo Serdan, presidente da Mancha Verde, mostrou-se bastante feito com o conjunto de fantasias apresentado pela agremiação: “Não foi difícil me convencer a fazer algo diferente. Desde o começo da ideia, da apresentação do enredo do Meiners, eu já sabia que a gente ia caminhar por um outro lado. O Rodrigo tem um poder de convencimento bom, mas a gente dialoga muito. Eu estou muito satisfeito! Estou bem feliz com tudo que a gente está fazendo. De verdade mesmo, não é conversa jogada ao vento, não: ele acertou bastante. Nesse nosso diálogo, a gente tem ajudado bastante ele. O Meiners apresentou o desenho de um terceiro carro, a gente conversou bastante, ele mudou, a gente conversou mais, aí ele fez um outro carro, que ficou sensacional. Está servindo bastante para ele também. No ano passado, nesse último Carnaval, ele ficou um pouco engessado por ser um enredo que já existia, um samba que já existia. Ele está conseguindo aflorar bastante a criatividade dele agora. Agora ele está sendo o Rodrigo Meiners mesmo! A gente tem dialogado bastante, isso tem dado muito certo. Eu estou bem feliz! O nosso segundo carro, no final desse mês aqui, no máximo, já está encapado. É muito legal o carro, é muito legal de verdade, mesmo. A ideia do carro, a concepção do carro, as cores do carro. Posso falar para o CARNAVALESCO que eu estou bem feliz, de verdade”, explanou o mandatário manchista.

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Paulo Serdan, presidente da Mancha Verde

No desfile de 2026, na reedição de “Pelas Mãos do Mensageiro do Axé a Lição de Odu Obará: a Humildade”, originalmente apresentado em 2012, a Mancha Verde foi premiada em duas categorias no Estrela do Carnaval, organizado e concedido pelo CARNAVALESCO: melhor conjunto de Fantasias e de Alegorias. O presidente da Mancha Verde, ao ser perguntado sobre a primeira impressão acerca dos projetos de Meiners, fez menção às premiações: “A gente está na briga para ganhar de novo! Está melhor que em 2026, para te falar a verdade. Esses últimos dias foram estressantes financeiramente falando: a gente começou muito cedo, em abril a gente já estava mexendo no barracão. Eu não mexo em nada, a gente vai dialogando e vai mexendo. Algo me encheu o olho, eu vejo que está lindo… como que eu vou mexer no projeto? Eu não tenho o direito de fazer isso. Nós vamos fazendo. O problema vai ser pagar tudo depois”, brincou o mandatário manchista.

Serdan falou mais a respeito do projeto da Mancha Verde para 2027: “Dos três carros, só o segundo que eu não mexi conversando com ele. O segundo ele acertou de primeira! Mostrou o desenho para nós e a gente fez teste de luz no carro, já. Depois disso, o cara dos efeitos especiais foi lá, imprimiu o desenho e trouxe para a gente. Eu brinquei com o Rodrigo e falei que vai demorar para ele arrumar uma outra entidade para entregar o que saiu na prática. Até a cor é idêntica ao que estava no projeto! A gente procura fazer o que é mesmo o certo”, refletiu o dirigente.

Evento diferente

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Ao contrário do que acontece na grande maioria dos eventos na Mancha Verde, tudo no último sábado foi realizado na parte externa da quadra. Dentre os grandes destaques, estavam a apresentação do novo casal mirim da escola, Bento Clemente e Amélie Clemente. Outro momento de muita emoção foi a inauguração da Biblioteca Ruth Rocha, voltada ao público infanto-juvenil e com cerca de 2000 obras já catalogadas, com estimativa de cerca de mais 2500 títulos ainda por entrar, e que contou com a presença de Mariana, filha de Ruth Rocha, e dos netos Pedro e Miguel. Paulo Serdan fez questão de trazer ao palco nomes responsáveis por tal conquista da comunidade manchista.

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A Festa dos Pilotos começou logo na sequência, embalada por um grande show de luzes. A apoteose das fantasias, que também contou com a participação do departamento de casais da verde e branca, teve a execução do samba-enredo da Mancha Verde para 2027, já cantado com força pela comunidade.

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Análise: Primeira eliminatória da Vila Isabel mostra força e diversidade na disputa de sambas

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A Unidos de Vila Isabel deu a largada para a sua disputa de sambas-enredo para o Carnaval 2027 com a apresentação das obras concorrentes, na última sexta-feira, na quadra da azul e branco. Quatorze parcerias se apresentaram na noite, com algumas apresentações de destaque. Seis sambas se classificaram para a próxima etapa, com oito obras ficando pelo caminho. A Vila desfilará no domingo de carnaval, 7 de fevereiro, exibindo o enredo “Torto Arado – Sobre a terra há de viver sempre o mais forte”. Abaixo, o CARNAVALESCO analisa o desempenho dos sambas classificados.

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Parceria de Moacyr Luz: Leozinho Nunes comandou o samba de Moacyr Luz, Gustavo Clarão, Inácio Rios, Márcio André Filho, Igor Federal, João Martins e Daniel Braga. A primeira parte possui uma melodia de bom balanço e fluidez, passou de forma correta, porém caiu um pouco na segunda passada, onde a passagem obteve menor fluidez. Na narrativa, destacam-se os versos “Eu sou um rio maior que o mar, sou o anzol maior que o peixe, e vi no sol, o corte e o fio, da mãe África eu sou o arrepio”. O refrão central “água negra, cachoeira de Dendê, boneca de milho, caruru pro Erê, eu faço a Vila encantada, no couro da batucada, de atabaque e xequerê” tem uma pegada de samba de roda e passou de forma deliciosa, sendo o ponto de ápice da apresentação. A segunda parte exibiu uma melodia redonda, permeando a escrita poética presente no setor, vide versos como “As duas meninas, silêncio e sina, abelha e o mel, a luta enraizada, no cabo da minha enxada, não conheço coronel”, dissecando com qualidade a saga das irmãs em busca de justiça. Essa melodia gerou um bom funcionamento. O refrão principal “é sangue preto parindo o amanhã, no fio da faca, desafio a morte, minha Vila rasga o chão, mãe guardiã, sobre a terra há de viver sempre o mais forte” tem ótima síntese do enredo e força narrativa, o que sustentou muito bem o desempenho. Uma apresentação com boa credencial, mas com uma leve queda durante a passagem, apesar do bom desempenho de Leozinho Nunes.

Parceria de Gustavinho Oliveira: Rafael Tinguinha e Juan Briggs cantaram a obra de Thales Nunes, Paulo César Feital, Gustavinho Oliveira, Danilo Garcia, Julio Alves, Marcelo Martins e Gabriel Simões. O refrão principal “Jarê, Jarê, vai descer o morro todo, o Brasil nasce de novo pela força da enxada, o quilombo é do povo, é a Vila incorporada” é extremamente valente e para cima, impulsionando o desempenho da obra. A primeira parte foca com poesia na forte ancestralidade que permeia o livro-enredo, com destaque para os versos “eu ando pelas águas pra cicatrizar, a velha mágoa, memória secular, zanzei em corpos pelo breu, de quem me recebeu na gira e no altar”. O refrão central “Eh Donana, caboclo vai caminhar, simbora do Caxangá, simbora Vila, ê Donana, encantado tem poder, incorpora no Dendê, incorpora Vila” também possui a característica de puxar o canto com valentia e funciona bem. A melodia é bem construída e tem momentos de maior dolência na segunda parte da obra, como nos versos “Velho curador, Santa Rita pescadeira, aqui estou eu, no terreiro vivo que me acolheu, e resiste em águas negras”. O trecho final “livrar do severo abandono, esta terra que tem dono, hoje tem macumbaria” encerra com força um samba redondo e bem construído, cujo desempenho foi de bastante firmeza, bem puxado pela dupla de intérpretes, que conseguiu um bom casamento harmônico de suas vozes.

Parceria de Marcelinho Moreira: Igor Vianna, Charles Silva e Tem-Tem Jr. comandaram o samba de Marcelinho Moreira, Kléber Cassino, Mano 10, Orlando Ambrósio, Miguel Dibo, Guilherme Karraz, JB Oliveira e Marcelo Rodrigues. Uma apresentação maiúscula, com um refrão principal forte e bonito melodicamente: “firma ponto de macumba, dona Vila Isabel, o povo do samba faz do livro o seu papel, cabo de marfim em punho corta o mal na raiz, feitiço teimoso de ser feliz”. A primeira parte possui uma ruptura melódica na virada dos versos “em Água Negra traz história pra contar” para “da vida o fio de corte amolado”; de resto, é bem resolvida e segura bem uma estrutura longa. Em letra, o setor é bem construído, narrando a vida dura no sertão e a religiosidade nos ritos de Jarê, como nos versos “hoje é dia de Jarê, de quintal enluarado, de ver nosso pai benzer recebendo os encantados, quando troca o chapéu grande por rendados e adê, a boca da mata sorri, alegria de Erê”, brincando com a alcunha de Zeca Chapéu Grande, pai de Bibiana e Belonísia. O refrão central se utiliza dos versos de um conhecido ponto, cantado também nas celebrações de Jarê, “Ogum, Ogum, tatará, tenha dó de mim, aê aê tatará, tenha dó de mim”, o que facilitou a recepção por parte da quadra. A segunda parte tem uma narrativa de bravura e evoca a força presente nas protagonistas e nas entidades que as amparam, vide os versos “pra cada filha da bravura a sede saciada, a mão do quilombo é de libertar, a mesma que ampara mas pesa na cara de quem abusar”, menos poética e mais literal. Essa força segurou bem o rendimento da obra, que fez duas passadas bem consistentes.

Parceria de Ricardo Mendonça: Evandro Malandro foi a voz principal do samba da parceria de Ricardo Mendonça, Jarbas Bittencourt, Diego Nicolau, Diego Jorge, Aldir Senna, Antônio Pontes e Gigi da Estiva. Outra apresentação de destaque na noite. A obra emenda uma sequência de três bis, sendo o de desempenho mais empolgante o dos versos “abre a sala de Angola, olha a Vila, lelê, abre a saia de Angola, olha a Vila, leleco”, enquanto o anterior “Quem ama a terra é quem tem que colher, quem ama a terra é quem tem que morar” retrata a imagética do enredo. O bis de cabeça que completa o conjunto “Samba vai virar jarê, samba vai virar jarê” tem a pegada de uma cantiga de roda e encerra muito bem a sequência de versos, que passou com enorme musculatura. A narrativa da primeira parte exalta a terra e a força daquele chão presente na Chapada Diamantina, como nos versos “Essa mesma terra onde Donana semeou, nascem duas rosas, fruto do amor, quando o verbo cala, fala o olhar, como o rio abraça o mar”. A parte central possui força mesmo sem um refrão, quando entra o ritual de jarê e a evocação aos orixás, com uma melodia bastante gingada e versos fortes: “Eparrei Oyá, ora iê iê mamãe Oxum, na gira, Cosme e Damião chamou Doum, andei na mata de Odê, pedi a cura, Atotô, traz a justiça em seu oxé, Obá Xangô”. Sobretudo, o samba não perdeu a pegada em momento algum da apresentação, mantendo-se firme e passeando melodicamente com qualidade, vide versos como “quanta injustiça, meu Deus, no encanto de Severo, o rio sangrou, eu me desfiz em chuva, pra só mais uma vez molhar tua boca e galopar teu corpo”, que conta a passagem com bastante lirismo. Um samba que une uma melodia muito qualificada e uma narrativa construída com poesia e visceralidade, união que gerou uma ótima apresentação.

Parceria de Martinho da Vila: Wander Pires liderou a apresentação da parceria de Martinho da Vila, Evandro Bocão e André Diniz. Mais um samba com forte desempenho, chamando a atenção na noite. A obra tem uma estrutura de um refrão “a semente que ficou é se juntar, dividir o que plantou, e se a vida derrubar, enxugue o pranto, te levanto pra lutar”, que é simples, bonito e funcionou bem, seguido de um trecho que, pela entrada e linha melódica, dá a impressão de ser o refrão principal, porém não tem bis: “nas páginas de um livro admirado, torto arado é retrato brasileiro, a nossa Vila, mais que uma escola, aguerrida quilombola, risca o chão desse terreiro”. Pela narrativa e melodia, acaba chamando até mais o canto do que o trecho anterior e deixa o samba em alta. A primeira parte apresenta variações melódicas interessantes, algumas conexões entre versos que fogem da linha mais comum, mas que deram ótimo funcionamento à obra, vide o trecho “tortuosa travessia que o destino reservou, e a poeira anuviou, a cobiça inebriante lapidava diamantes”. O refrão central “na brincadeira, o batuque do jarê, rodo na gira do corpo pra corpo benzer, à luz de um velho nagô, o lume de lampião, o caruru na tijela comendo com a mão”, que inverte os versos na repetição, destacou-se com um rendimento envolvente. A segunda parte protagoniza as irmãs da história nos versos “a professora dá a mãos à profetiza, nos dramas, na lida, na fé e no amor, mulheres destemidas não se calam, contra injustiças e grilhões”, numa narrativa mais descritiva. Wander Pires usou muito bem a linha melódica da obra e a potencializou.

Parceria de Raoni Ventapane: Pitty de Menezes e Dodô Ananias defenderam a obra da parceria de Raoni Ventapane, Didi Américo, Markinho da Vila, Wilson Mineiro, Robson Bastos, Elton Babu, Bernardo Nobre e Gabriel Coelho. Um fechamento em excelente nível, com grande desempenho dos intérpretes. O samba começa com um refrão principal “Ogum, Ogum, ouça a voz de quem te chama, Ogum, Ogum, lá da aldeia de aruanda, ô nagô Inã, partilhar é o caminho, me orgulho em ser a Vila de Martinho”, que teve um desempenho empolgante, com uma melodia gostosa de ouvir, além de citar o mestre Martinho da Vila, o que sempre cria uma conexão com os componentes e a quadra. A primeira parte já começa com uma solução melódica interessantíssima nos versos “por terras secas passei e feito anzol de pescar, cativa então mergulhei, não via o sol a brilhar”, e a obra continua sedutora nos versos subsequentes até chegar em outro excelente refrão, “tem boneca de milho na casa de barro, jarê, raízes que vem ‘benzê’, do velho nagô, vi curador cavalgando em cantoria, cada alma que descia, um lampião incendiou”, que cria uma imagética fantástica e poderosa sobre os ritos e o poder dos orixás na religião Jarê e também teve ótimo rendimento. Ele é seguido de outro refrão, no estilo de cantiga de roda: “é marinheiro, ventania e aluá, o peji foi convocado pra jogar rede no mar”. A melodia fica mais lírica na segunda parte nos versos que clamam a justiça social, como nos versos “se essa terra fosse minha, eu mandava partilhar, pra que cada Bebiana, tenha um canto pra plantar ou ensinar”. Os versos finais “Vila, a tua nobreza é raiz quilombola, dos versos de luta marcados na história, é samba que roda gira jarê, batuque que faz o terreiro tremer” possuem outro belo momento melódico, que se sobressai sobre a letra, que mostra menos soluções poéticas na parte final da obra. Pitty e Dodô passearam em cima da ótima melodia e fizeram o samba passar com extrema força, encerrando em alta a noite de apresentações da Vila.

Análise: Imperatriz apresenta disputa equilibrada e define sete sambas para a próxima fase da disputa

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Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

Após a primeira noite de eliminatória, a Imperatriz Leopoldinense já sabe quais parcerias seguem na briga pelo samba-enredo oficial da agremiação para o Carnaval 2027. Em uma noite marcada por uma safra boa e equilibrada, das dez obras que concorreram, três foram eliminadas: as parcerias de Guga Martins, Eduardo Medrado e Moisés Santiago. As outras sete avançam para a próxima etapa, marcada para a próxima sexta-feira, dia 28 de agosto, em Ramos. Em 2027, fechando a segunda-feira de Carnaval, a escola levará à Sapucaí o enredo “A Memória do Rei e o Sumiço de Dona Julia”, que narra a saga da boneca do Maracatu Nação Porto Rico. A seguir, a análise dos sete sambas classificados.

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Parceria de Zé Katimba: O samba de Zé Katimba, Inácio Rios, Jorge Arthur, Júlio Alves, Mirandinha Sambista e Igor Federal foi o segundo a se apresentar na noite, com defesa de Nêgo, Bruno Ribas e Juan Briggs. É um samba que encanta logo de cara pela forma como narra a saga de Dona Júlia. A obra é dividida em três refrões. O primeiro anuncia a chegada da corte de Maracatu que vem contar essa história; o do meio marca o momento em que o rei desencarna e a boneca some; e o principal, que saúda a saga e o “axé da Imperatriz”, é o mais potente dos três, com uma melodia que cresce e fecha a apresentação em ápice. A letra é muito bem escrita. Vale destacar os versos da primeira parte, “O cortejo é a festa coroada vem ver / A sagrada fé retinta que se pinta / Com as cores do poder”, que introduzem com beleza o princípio do Maracatu, já preparando o terreno para a saga que será contada. A segunda parte, que trata do momento em que a boneca é levada ao terreiro de Xambá até seu retorno ao Porto Rico, é mais longa e acaba causando certo distanciamento: por ser um trecho extenso, poderia imprimir mais variações melódicas para acompanhar melhor as diferentes fases dessa saga no trecho. Ainda assim, o samba conta muito bem a sinopse do carnavalesco e mantém a coerência narrativa até o crescimento final no refrão principal. Uma ótima apresentação.

Parceria de Jeferson Lima: A obra de Jeferson Lima, Rômulo Meirelles, Jorge Goulart, Luís Moreira, Alfredo Junior e Tuninho Professor foi a terceira a se apresentar na noite. Também estruturado em três refrões, com destaque para o primeiro, “Ê Macumba ê! Macumba! / Dona Santa, fundamento, no Òrun foi descansar / Ê Calunga ê! Calunga! / Dona Júlia, assentamento, seu Egun foi abraçar”, momento que dá fôlego e vigor à condução do samba. A terceira parte trata dos fundamentos pelos quais a boneca é reencantada para ser devolvida ao desfile do Maracatu Nação Porto Rico. É uma passagem que, logo no início, soa um pouco truncada na compreensão da letra, mas que segue seu curso até chegar ao refrão principal: “Gira, girou, deixa girar! / Calunga dança à luz da vida… / Gira, girou, deixa girar! / Tem carnaval além da despedida / Imperatriz é macumba na avenida”. A sensação é de que não há um fechamento que transmita a dimensão festiva da própria saga: Dona Julia some após a morte do Rei e retorna à rua no momento em que é reencontrada e reencantada. Um arco que culmina em reencontro, saudade e celebração. É esse contágio de festa e cortejo que o refrão principal não expressa plenamente.

Parceria de Mateus Pranto: O samba de Mateus Pranto, Laura Romero, Luizinho das Camisas, Ronnie Machado, Robson Bastos e Flavinho Avellar foi defendido por Dowglas Diniz e Rafael Tinguinha. A abertura já traz uma dimensão bonita do fundamento do Maracatu: “Toca o bombo de couro marcado e o gonguê / Venham ver a Velha África a reinar / Mbemba a Nzinga! Ê zambiapongo! / Bota o Rei do Congo no congá”. O trecho situa de onde parte a saga de Dona Júlia e para onde ela retorna; um ponto de partida que é também ponto de retorno. O refrão do meio funciona muito bem, questionando o paradeiro da boneca após o desencanto. A segunda parte, que carrega consigo uma grande estrofe, é muito bem cantada, e a letra chega com clareza, mérito dos intérpretes. A partir do verso “E a Leopoldina a referenciar”, acontece um crescimento sensível no samba, que vai culminando até o refrão principal. É justamente aí que fica a observação: o refrão é correto, mas não cresce além do que a condução já vinha entregando. Depois de todo aquele crescente, a expectativa é de que o refrão suba mais; e ele se manteve no mesmo patamar, sem entregar esse ápice. Ainda assim, é uma boa apresentação e performance dos intérpretes. Outra ótima apresentação.

Parceria de Renan Gêmeo: Sexto samba a se apresentar, a parceria de Renan Gêmeo, Rodrigo Gêmeo, Sandro Compositor, Silvio Mesquita, César Nascimento e Marcelo Adnet teve à frente os cantores Wantuir, Fredy Vianna e Tem-Tem Jr. O grande destaque da obra é o refrão principal, um trecho de dimensão festiva e cantado com força: “Oyá Igbalé, Oyá Igbalé Lariô / Oyá Igbalé, Oyá Igbalé Lariô / Leopoldina é nação, chão de terreiro / Imperatriz tem mironga de macumbeiro”. É um dos momentos altos da apresentação. A narrativa da saga segue uma distribuição correta: a primeira estrofe assenta a dimensão do Maracatu como “macumba na rua”, presente na sinopse do enredo, antes de trazer o momento em que o rei morre e a calunga se perde. O ponto de virada do samba acontece justamente quando a boneca é encontrada e levada, num primeiro momento, para o Terreiro de Xambá, um momento bem construído na condução da obra. A segunda parte segue contando o processo de reencantamento, com uma discussão poética interessante sobre esse reencontro. No geral, é um samba correto, com refrão forte, que passa bem na apresentação.

Parceria de Josimar: O samba 07 foi defendido por Pixulé, que fez uma introdução muito bem recebida na quadra da Imperatriz; o público completou o grito de guerra antes mesmo que o intérprete pudesse terminá-lo, um momento bonito e de conexão com o público. O samba de Josimar, Carlos Kind, Diego Jorge, PC do Rio, Kleber Di Cesar e Robert Farrow toca em todos os pontos que a sinopse propõe, mas falta a ele a construção de uma narrativa que conduza o ouvinte pelas nuances da história com mais singularidade. Essa falta de demarcação narrativa traz certa dificuldade para cantar e aprender a letra num primeiro momento; não por problema de interpretação, que é clara do início ao fim, mas pela forma como a história é construída, com muito texto. O refrão do meio e o refrão principal não decolam. No conjunto, é uma apresentação que passa sem deixar pontos altos claros para destacar.

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Parceria de Me Leva: Grande apresentação da noite, o samba da parceria de Me Leva, Thiago Meiners, Gabriel Coelho, Herval Neto, Bernardo Nobre e Guilherme Macedo. O que chama atenção nesse samba é a forma como a narrativa é construída: já na introdução curta, “É baque virado do congo, cortejo de coroação / Essa loa traz mistérios de uma história feita à mão”, a obra condensa em poucos versos a dimensão do Maracatu e da própria calunga. A partir daí, o samba segue descrevendo o baque, o momento em que Dona Santa desencarna até chegar ao primeiro refrão: “Ô Babá… na imbuia, o egum da rainha / Epa Babá… Na madeira, o ori de Oxalá”. Trecho que fala do assentamento que o filho de Dona Santa fez na calunga Dona Júlia. É uma síntese poética muito inteligente de uma parte extensa da sinopse, que se resolve nos versos “Ao partir seu pai de santo foi guardada em desencanto / Onde a vida vira conto, que sumiu, se fez achar / Nas tradições do Xambá, retorna pro seu ilê / E o ritual vai novamente começar”. O samba faz uma virada nesse trecho de transição, que não chega a ser refrão, para entrar no refrão do meio, um dos pontos mais fortes da obra por trazer a dimensão ritualística do reencantamento da boneca. Os procedimentos ritualísticos entram no refrão com naturalidade, promovendo uma virada bonita na condução. Outro acerto: o samba não espera o pré-refrão ou o refrão principal para levar a boneca de volta à festividade do Maracatu; o retorno já começa a se anunciar antes disso, na passagem “Dama do Passo levou pro baque das ondas…”. Dali, o samba segue pedindo a passagem para que o povo do Orum desça ao Ayê e testemunhe essa grande celebração que a Imperatriz promove; o momento em que a ancestralidade se junta à escola na rua. É uma construção especialmente interessante porque, embora muito se tenha falado sobre a “macumba da Imperatriz” para 2027, o samba não se limita a citar a religiosidade; ele constrói uma narrativa que se fecha justamente com essa evocação, numa costura muito bem resolvida. Grande noite de Igor Vianna, com uma exibição excelente ao lado dos cantores de apoio.

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Parceria Hélio Porto: Tinga foi o responsável pela condução do samba de Hélio Porto, Miguel Dibo, Orlando Ambrósio, Marcelo Viana e Antônio Crescente. O samba se estrutura em três refrões, todos funcionando como pontos de virada na narrativa e na melodia. O primeiro “Vem nos valer! Ê desce do Orum / Fiz teu trono Dona Santa / Na boneca, guardo Egum / Awre Awre brilha no Ayé / Calunga de embuia que babá mandou fazer” traz uma melodia bonita, que abre uma respiração logo nesse primeiro momento do samba e é muito bem cantada. O segundo segue contando os rituais de reencantamento em torno da boneca, reforçando que “quem vai pra rua não vai só”. Bem cantado, mas sem a força do primeiro refrão. Já o terceiro refrão fecha a obra com a evocação do grande firmamento do ponto, pedindo que a ancestralidade esteja presente junto com a Imperatriz na avenida. É uma construção interessante, com letra correta que dá conta bem da proposta da sinopse. Uma atração muito bem defendida por Tinga, que fechou a noite com qualidade.

Com fácil leitura, Gaviões da Fiel mantém alto nível e apresenta fantasias para o Carnaval 2027

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Os Gaviões da Fiel promoveram na noite da última sexta-feira um evento para apresentar os protótipos das fantasias para o Carnaval 2027. A festa foi marcada por muitos pontos de Umbanda e pela exaltação às entidades da religião e aos orixás. Danças e coreografias relacionadas ao tema enriqueceram a apresentação realizada na sede da agremiação. Assim como nos anos anteriores, desde que Júlio Poloni e Rayner Pereira passaram a trabalhar juntos, o nível das fantasias apresentadas esteve em um patamar elevado. Os carnavalescos conseguiram intercalar o luxo de fantasias volumosas com materiais de menor requinte, mas que também proporcionaram um belo resultado visual. O mais importante é que todas as fantasias apresentaram uma leitura fácil do enredo. À medida que os artistas anunciavam os nomes das indumentárias, era possível identificar imediatamente a representação de cada uma delas. Ao final da apresentação, os componentes que vestiram os protótipos realizaram uma apoteose, desfilando pela quadra. Foi uma festa preparada com bastante estrutura e criatividade pelos Gaviões da Fiel. A “Torcida que Samba” será a segunda escola a desfilar no sábado de carnaval com o enredo “É noite de gira na casa de Ogum”, desenvolvido pelos carnavalescos Júlio Poloni e Rayner Pereira.

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Fácil leitura do tema

Júlio Poloni, um dos carnavalescos, falou sobre a facilidade de compreensão proporcionada pelas fantasias apresentadas nesta noite. “Deu para entender tudo. A gente não acredita que a leitura vai ser um problema. O nosso enredo, na verdade, é simples. O que a gente quer é que o público viva uma experiência, uma vivência de uma gira de Umbanda. Então, a gente traz as entidades, os orixás, as linhas de Umbanda e mostra o fundamento de tudo isso: o porquê, as razões e as consequências. É simplesmente para a gente curtir essa fé, essa religiosidade, que revela muito sobre o povo brasileiro e sobre nós, Gaviões da Fiel, sob a proteção de São Jorge. Esse povo de fé é o nosso caminho”, disse.

Quando se fala em Umbanda, o branco costuma ser uma das cores mais associadas à religião. No entanto, o que se viu nas apresentações foram diferentes combinações de cores, formatos e tamanhos. De acordo com Rayner, a busca pela inovação foi um dos motivos para a escolha. “É um desafio que a gente vem testando há alguns anos. A gente já tinha em mente mais ou menos o que seria. Em relação às cores, a gente montou toda uma paleta antes de desenhar qualquer coisa. Então, sem fugir muito do tema, mas também buscando inovar de alguma forma, chegamos a esse conjunto que apresentamos hoje”, contou.

Confiança da diretoria

Os Gaviões da Fiel têm gestões com duração de três anos. Na atual administração, que chegará ao seu último Carnaval em 2027, a diretoria não poupou esforços. Júlio demonstrou gratidão às lideranças da escola. “A gente tem muita gratidão, porque eles trabalham muito para dar as condições de que a gente precisa para fazer um grande espetáculo. Eles confiam na gente e dão a liberdade que precisamos para trabalhar. Isso tem nos motivado e, na verdade, possibilitado que a gente faça grandes projetos, com a confiança de que o resultado vai sair como tem saído. Essa sinergia é a chave do nosso sucesso. Nossos últimos desfiles tiveram muito sucesso. Está faltando um detalhezinho, que é o que a gente vai buscar este ano para realizar o nosso sonho”, declarou.

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Carnavalescos Júlio Poloni e Rayner Pereira. Foto: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

Além da diretoria, Rayner exaltou a participação dos demais segmentos para que o trabalho pudesse ser realizado. “É muita conversa. A gente sabe o limite do orçamento que pode gastar. Algumas vezes, tenta reforçar alguma coisa ou acrescentar um pouco mais aqui e ali, mas existe muita conversa e muita confiança. A gente deixa tudo muito claro entre presidente, diretor, harmonia e todo mundo que trabalha junto com a gente: o que temos e até onde podemos chegar. Então, tudo parte de uma junção entre o que eles querem e o que a gente pode fazer com a verba que temos. Acredito que tudo é uma questão de criatividade, de encontrar formas de apresentar um Carnaval ainda mais bonito, com a capacidade que a Gaviões merece, em um acordo entre a diretoria e a gente”, afirmou.

Predileção pelas indumentárias

Questionado sobre sua fantasia favorita, Rayner explicou os motivos de sua escolha. “Gosto muito das 17, mas eu puxo um pouco de sardinha para a baiana, porque foi a primeira fantasia que a gente idealizou e a primeira que desenhamos. A primeira que ficou pronta e a primeira que a gente conseguiu testar. Se você acompanhar de perto depois, vai perceber que ela é praticamente inteira feita em impressão 3D. Justamente para ter essa característica, principalmente pela leveza de todo aquele aparato que colocamos nela, sem forçar as senhoras que vão carregá-la. Fora essa, tem mais umas três ou quatro, além das 17”, comentou.

Júlio, porém, encantado com o conjunto apresentado, preferiu não escolher uma favorita. “É difícil escolher. Eu realmente não tenho uma favorita. Quando eu tiver, eu falo. Vou ficar em cima do muro!”, concluiu.

Liberdade de criação e o grande objetivo do título

Celso Ribeiro, membro da direção de carnaval dos Gaviões da Fiel, enalteceu o nível das fantasias e prometeu reproduzi-las, em sua maioria, de forma fiel aos protótipos apresentados. “Nós elevamos a régua. Como eu disse nos outros dois anos, 95% da reprodução nós vamos fazer para sair igual ao piloto. Esse é o nosso objetivo. A gente acaba mudando uma coisa ou outra que falta, mas vamos entregar isso para vocês. Pode esperar”, disse.

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Celso Ribeiro, membro da direção de carnaval dos Gaviões da Fie. Foto: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

O diretor afirmou estar contente com o trabalho dos carnavalescos e destacou que a ideia da diretoria é dar total liberdade de criação aos profissionais que assinam o carnaval da agremiação. “A gente já conhecia o trabalho deles. Estamos em uma gestão política dentro da escola e já conhecíamos o trabalho deles desde quando a outra gestão os contratou. Eu acho que eles estão crescendo junto com os Gaviões também. Eles estão em um nível muito alto de criação e de ideias, e a gente também deixa os dois à vontade para trabalhar. A gente não os prende. Essa liberdade faz com que criem melhor e desenvolvam as coisas de uma forma mais natural”, declarou.

Segundo o diretor, mesmo sendo o último carnaval desta diretoria, a política interna não preocupa neste momento. O foco está na busca pela quinta estrela para a Fiel Torcida. “Na verdade, hoje a gente nem pensa nisso. A gente faz uma gestão procurando viver o dia a dia. A política vai começar mesmo quando virar o ano e tal. O nosso foco é trazer o título para os Gaviões. Os Gaviões merecem”, finalizou.

Diego Nicolau anuncia saída da Estácio para o Carnaval 2027

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Foto: Álbum pessoal

A Estácio de Sá não contará mais com Diego Nicolau como um dos intérpretes oficiais para o Carnaval 2027. O cantor, que dividiria a função de intérprete oficial da escola com Guto, anunciou nesta sexta-feira sua saída da agremiação. Em uma publicação nas redes sociais, Diego agradeceu a recepção que recebeu da comunidade do Morro de São Carlos, mas afirmou que não se sente mais à vontade para seguir com o projeto.

“Seria por você. Por tudo que representa pra mim. Mas ainda não será dessa vez. Obrigado aos que me receberam no Berço do Samba com afeto. Infelizmente, hoje não me sinto mais à vontade em seguir esse sonho”, escreveu o intérprete.

Ao se despedir, Diego também agradeceu à Estácio e desejou sucesso à escola no próximo carnaval. “Obrigado @gresestacio! Que seja um grande Carnaval”, completou.

A chegada de Diego à Estácio havia sido anunciada como parte da preparação da escola para o Carnaval 2027. O intérprete dividiria o carro de som com Guto, formando a dupla responsável por conduzir o samba-enredo da agremiação na Marquês de Sapucaí. A Estácio de Sá busca retornar ao Grupo Especial e aposta em um projeto de reconstrução para a temporada. A escola levará para a Avenida um enredo desenvolvido para marcar um novo momento da agremiação.

Entrevistão: ‘Diretor de harmonia precisa ser o cara mais apaixonado da escola’, diz Rogério Félix

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Foto: Gustavo Lima/CARNAVALESCO

Com uma trajetória consolidada no carnaval de São Paulo, Rogério Félix se tornou um dos nomes de destaque da harmonia paulistana. Antes de chegar à Dragões da Real, onde já acumula 16 anos de história, o diretor iniciou sua caminhada na Leandro de Itaquera, ainda nos primeiros anos de fundação da agremiação. Da confecção de fantasias e alegorias ao comando de um dos setores mais importantes de uma escola de samba, Rogério acumulou experiências em diferentes agremiações e carregou aprendizados que ajudaram a moldar sua forma de trabalhar. No quadro “Entrevistão”, do CARNAVALESCO, o diretor relembra os personagens que influenciaram sua formação, fala sobre os desafios encontrados em sua chegada à Dragões da Real, revive momentos marcantes da história da escola e os obstáculos do segmento de diretor de harmonia nos dias de hoje.

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Como começou sua história no carnaval e o que o levou a seguir o caminho da harmonia?

Rogério Félix: “Minha raiz é a Leandro de Itaquera, ainda na época da Tiradentes. Em Itaquera existiam a Falcão do Morro e a Leandro de Itaquera, e eu fazia parte da família Leandro. Estou praticamente desde a fundação da escola, participei dos primeiros desfiles, ajudando na confecção de fantasias e alegorias. Foi a Leandro que me deu a oportunidade de atuar nesse segmento. Fiz parte da equipe da Maria da Penha, que era a única mulher na função naquela época, e depois me tornei diretor de harmonia da escola”.

Quais pessoas mais influenciaram a sua formação como diretor de harmonia?

Rogério Félix: “Naquela época havia grandes nomes. O Edson Prado, da Leandro, foi quem mais acreditou em mim e dizia: “Esse garoto precisa ter uma oportunidade”. O Gilson Negão também foi uma grande referência. Tive o prazer de homenageá-lo recentemente no Conasamba, durante uma mesa de debates da qual participei. Para mim, é muito importante reconhecer publicamente aqueles que me ajudaram no início da caminhada. Também fui muito influenciado pela família Leandro de Itaquera, pela dona Marilene, pela Karen, por todos os filhos da família, além do Marco Aurélio Ruffin, que era carnavalesco na época. Nós praticamente começamos juntos, e ele me deu muitas oportunidades de criação. Tem muita gente que fez parte dessa história, peço até desculpas por não conseguir lembrar de todos os nomes. Mas essas foram as pessoas que estiveram mais próximas de mim dentro da Leandro de Itaquera. E, até hoje, continuo observando e aprendendo com os grandes nomes do carnaval. Eu os assistia na Tiradentes, depois no Anhembi, e sigo fazendo isso para aprender um pouco mais todos os dias”.

Antes da Dragões da Real, por quais escolas você passou e o que cada uma delas acrescentou à sua trajetória?

Rogério Félix: A Leandro de Itaquera me ensinou a fazer muito com pouco. Naquela época, nossos materiais mais nobres eram TNT, organza e tule. Fazíamos carros alegóricos com rodinhas de rolimã e estruturas feitas com latas de óleo. Essa era a nossa riqueza. A Leandro me ensinou a realizar o que precisava ser feito com os recursos que estavam disponíveis. Depois fui para a Tom Maior. Foi uma passagem muito especial. O presidente Marko faz muita falta. Era uma pessoa ímpar, que me ensinou demais. Foi um dos maiores desafios da minha carreira e uma escola pela qual tenho enorme carinho, principalmente pelo chão e pela comunidade. Carlão, Renê Sobral e tantas outras pessoas formavam uma verdadeira família. Fizemos desfiles memoráveis. Também tive uma passagem curta, mas transformadora, pela Mocidade Alegre. A presidente Elaine me acolheu de forma muito especial. Eu nem iria desfilar pela escola, mas ela me colocou para trabalhar ao lado do Júnior Dentista na harmonia. Foi uma honra fazer parte daquela equipe e realizamos um grande trabalho. Saí praticamente no ano em que a Solange assumiu a presidência. A Mocidade Alegre me ensinou muito sobre organização. Lá estudávamos bastante para sermos organizados em todos os processos. Depois passei um ano auxiliando a Dona Beth no Peruche e então cheguei à Dragões da Real. Naquele período recebi convites de escolas do Grupo Especial, mas escolhi uma escola do Grupo de Acesso. Muita gente não entendia essa decisão, mas havia algo na Dragões que me encantou. Quando cheguei à Dragões, encontrei uma família com muita vontade de crescer e sedenta por estrutura, estratégia e planejamento. Aceitei o desafio e, hoje, já se passaram 16 anos”.

Você está na Dragões desde a época em que a escola desfilava no Grupo de Acesso. O que significa ter acompanhado esse crescimento de perto?

Rogério Félix: “Foi uma sequência de desafios. Minha esposa estava grávida e eu assumi uma nova escola justamente na reta final da gestação. Era aquela dúvida: “Vai dar certo? Vamos encarar esse desafio?”. No fim, decidimos seguir em frente. Era uma escola que eu ainda não conhecia profundamente. Em algumas agremiações você já frequenta há anos e, quando assume um cargo, as pessoas já conhecem seu trabalho. Na Dragões, eu tinha essa preocupação. Mas, ao longo do ano, a comunidade abraçou o projeto, entendeu a proposta e tudo foi acontecendo de forma muito natural até chegar o carnaval. No dia do desfile vivemos muitas aventuras. Algumas esculturas ainda estavam no barracão enquanto montávamos as alegorias. Deu tudo certo, conseguimos colocar a escola na avenida, mas, quando chegamos à concentração, começou uma chuva absurda. Dentro da harmonia do Rogério Félix, ninguém usa capa de chuva. Se você não pode tomar chuva, fica difícil trabalhar comigo, porque a liderança precisa dar o exemplo. Se nós corrermos da chuva, os componentes também vão correr. Naquele ano fiquei na chuva com a minha esposa, Jussara Félix, que estava ao meu lado na cabeça da escola. Quando olhei para trás, a escola inteira tinha saído para se proteger. Como era meu primeiro ano, eu ainda não conhecia aquela reação. A água já batia na canela. Quando chegou a hora de entrar na avenida, eu simplesmente apitei e comecei a andar. Depois de alguns passos, pedi para a Jussara olhar discretamente para trás e ver se a escola estava vindo. Ela respondeu: “Pode seguir. Eles estão correndo para montar e já estão vindo”. Naquele instante eu pensei: “Essa escola é campeã”. Uma comunidade que enfrenta uma chuva daquela, organizada da maneira que ensaiou o ano inteiro, merece vencer. Até hoje, uma das fotos mais bonitas da Dragões é a ala das baianas desfilando debaixo daquela chuva. Costumo dizer que, naquele dia, a chuva quase não chegou ao chão, porque a energia da escola fez tudo evaporar. Foi um dos maiores desfiles da nossa história”.

Em 2012 veio o desfile em homenagem às mães, um dos mais emocionantes da história da escola. Como foi viver aquele momento, justamente na estreia da Dragões da Real no Grupo Especial?

Rogério Félix: “Foi um desfile muito forte para muita gente e, principalmente, para mim. Naquele ano completavam dois anos da morte da minha mãe. Eu sugeri uma homenagem especial e a ideia foi aprovada. Todos os diretores de harmonia desfilaram usando uma gravata com a foto de suas mães, enquanto as mulheres da equipe levaram um lenço com a imagem delas. Aquilo marcou tanto que muitos harmonias tatuaram um trecho do samba até hoje. Mas não era apenas um desfile. Era uma responsabilidade coletiva de homenagear nossas mães. Outra ideia que tivemos foi pedir aos componentes fotos de suas mães, vivas ou já falecidas. Todas essas imagens foram colocadas no último carro alegórico. A grande homenagem daquele desfile não era para uma celebridade, mas para as mães da comunidade. É claro que a Dragões ainda não tinha a estrutura que possui hoje. Muita gente fala em reeditar aquele desfile, mas seria outra realidade. Na época, nós mesmos fazíamos praticamente tudo: empapelávamos esculturas, pintávamos carros, cuidávamos dos acabamentos. Era um carnaval muito artesanal. Mesmo assim, quando entramos na avenida, tive a sensação de missão cumprida. Independentemente do resultado, a homenagem estava feita. Foi um dos desfiles mais emocionantes da minha carreira. Todo mundo saía da avenida dizendo: ‘Foi para você, mãe’. Acho que essa foi a maior vitória daquele carnaval. E é um samba que cantamos até hoje com muito orgulho”.

“Asa Branca”, em 2017, guarda uma memória muito afetiva para a comunidade da Dragões da Real. Qual foi o sentimento de fazer parte daquele acontecimento?

Rogério Félix: “Eu fazia parte da comissão de carnaval ao lado do Johnny, do Alex Fan e do Jorge Silveira. Éramos uma equipe. O Jorge Silveira foi um presente de Deus na minha vida. É um grande amigo e um profissional extraordinário. A Dragões foi uma das primeiras escolas a dar a ele a oportunidade de assinar um carnaval desse porte. Ele já era um grande nome, já fazia trabalhos importantes no Rio de Janeiro, mas aqui ganhou ainda mais projeção. Foi um desfile construído de forma muito coletiva. Muitas ideias surgiram durante o processo. Chegamos a desenhar uma fantasia para a ala das baianas, apresentamos à diretoria, mas percebemos que não funcionava. Voltamos atrás, desmontamos uma ala inteira e criamos outra. No abre-alas, por exemplo, eu queria uma abertura diferente. Precisávamos de um dragão que tivesse a identidade do Nordeste e do Brasil. Na minha profissão, trabalho com desenvolvimento de jogos eletrônicos e criação de personagens. Na época, usava muito Game of Thrones como referência. Em um documentário há uma cena com a ossada de um dragão na praia. Quando vi aquilo, pensei imediatamente: “A ossada do boi nordestino pode virar a ossada de um dragão”. Foi uma ideia ousada, porque muita gente achava que um dragão em forma de esqueleto poderia transmitir sensação de fraqueza. Também tivemos outros carros inesquecíveis, como o pau de arara e o da fogueira no encerramento do desfile. Algumas esculturas, inclusive, foram doadas ao CTN e permanecem lá até hoje. Sempre que passo em frente, lembro daquele carnaval. Foi um grande desfile. Talvez Deus não quisesse que aquele fosse o nosso primeiro título. Eu não compreendo totalmente, mas aceito. De qualquer forma, entrou para a história como um dos grandes carnavais de São Paulo. Mais do que isso: foi o desfile que definiu a identidade da Dragões da Real. Naquele ano nós deixamos de apenas apresentar um enredo e passamos a vivê-lo. Durante toda a temporada só tocava música nordestina na quadra, a comida era típica do Nordeste, toda a decoração seguia essa temática. O enredo fazia parte da rotina da escola. Desde então, sempre que escolhemos um tema, buscamos vivê-lo durante o ano inteiro”.

Entre todos os desfiles da Dragões, qual foi o mais marcante para você e por quê?

Rogério Félix: “É muito difícil escolher. O desfile de 2012 me emociona pela homenagem às mães. Já 2017 representa um sonho enorme. Até aquele momento, nosso objetivo era simplesmente entrar no Desfile das Campeãs. Naquele ano veio o primeiro vice-campeonato, e isso mudou o patamar da Dragões. Mas existem outros carnavais que também marcaram profundamente a minha trajetória. O desfile de Adoniran em 2022, por exemplo, me trouxe uma emoção diferente. Não foi pela alegria do resultado, mas pela experiência profissional. Naquele ano, praticamente todas as escolas tiveram problemas na pista e nós éramos a última a desfilar. A nossa largada era extremamente difícil. Quando entramos na avenida, o sol estava nascendo. A pista ficou completamente dourada. Olhei para trás do abre-alas e vi o sol iluminando a escola. Foi uma imagem inesquecível. Infelizmente, depois tivemos o acidente com a nossa porta-bandeira, e o título escapou. Ali prevaleceu o lado profissional. A dúvida era o que fazer. Nós precisávamos manter a escola concentrada. E o mais interessante é que o planejamento funcionou. Durante todo o desfile, apenas quem estava próximo ao casal soube do que havia acontecido. Pelo rádio, não deixamos a informação se espalhar. Chefes de ala, coordenadores e componentes seguiram normalmente. Quando a escola saiu da avenida, a comunidade estava cantando como se fosse campeã. Foi um momento muito duro emocionalmente, mas mostrou que o trabalho de preparação deu resultado. Ao mesmo tempo, também não posso deixar de lembrar de outros desfiles, como João Pessoa, África e, principalmente, da força do canto da comunidade neste último carnaval. Ouvir a arquibancada inteira cantar “Juremê, Juremá” é algo emocionante. Hoje tenho certeza de que estamos no caminho certo. Todos os anos trabalhamos para conquistar o título. Mas, quando ele não vem, a pergunta que fazemos é outra: a escola evoluiu? Deu mais um passo? Se a resposta for sim, significa que estamos construindo algo maior”.

“Sob as bênçãos de Xangô, a coroação do príncipe Reinaldo”. O que você espera da Dragões para o carnaval de 2027?

Rogério Félix: “Tudo na Dragões tem um porquê. Primeiro escolhemos o enredo e, depois, fomos percebendo quantas conexões existiam com a história da escola. A ideia foi trazida pelo nosso vice-presidente, que já teve alguns bares onde o Reinaldo costumava cantar. Ele também participou de uma das festas da Dragões logo depois que conquistamos o acesso. Depois voltou para cantar em uma feijoada, já quando a escola tinha uma estrutura maior. Na semana desse evento, infelizmente, ele ficou doente e precisou cancelar o show. Nós substituímos a apresentação, mas, do hospital, ele gravou um vídeo dizendo que iria se recuperar e que voltaria à Dragões. A partir dali nasceu uma amizade muito bonita. Sempre que encontrava alguém ligado ao carnaval, fazia questão de mandar um abraço para a Dragões. Ao longo deste ano vamos divulgar alguns desses registros. Quando o Ferrugem criou o projeto em homenagem ao Reinaldo, um dos primeiros grandes shows aconteceu justamente na nossa feijoada. Vieram a família, os amigos, todos participaram. Quando escolhemos contar essa história, passou um filme na minha cabeça. Não era apenas um grande artista. Era alguém que já fazia parte da história da Dragões. Isso tornou tudo muito mais especial. O enredo também aborda a relação do Reinaldo com Xangô e com a espiritualidade, temas que exigem muito respeito. Vamos contar toda essa trajetória: desde o nascimento, em Cavalcante, passando pela carreira e chegando ao Anhembi, onde ele será coroado em uma grande celebração. É um enredo que tem emocionado muito toda a equipe. Cada setor foi desenvolvido com enorme carinho. O Jorge Freitas, o Rafael Vilares, nosso enredista, e toda a equipe estavam realmente inspirados quando escreveram a sinopse. Trabalhamos com muita humildade, mas também com muita dedicação. Tenho certeza de que não apenas os fãs do Reinaldo, mas todos os apaixonados pelo samba e pela Dragões vão se orgulhar do desfile que levaremos para a avenida”.

Você tem uma relação de amizade muito próxima com o presidente Tomate. O que representa receber essa confiança ao longo de tantos anos?

Rogério Félix: “Tive grandes presidentes na minha trajetória. O Marko, da Tom Maior, marcou muito a minha carreira. A Elaine, da Mocidade Alegre, também foi uma pessoa extraordinária. Mas, com o Tomate, aconteceu algo diferente: nós crescemos juntos. Era o primeiro ano dele como presidente e eu já tinha bastante experiência na Liga-SP, trabalhando com comissões de carnaval, comissão de jurados e palestras. Muita gente me procurava porque eu era conhecido por montar e revisar as pastas destinadas aos jurados. Um dia, no Anhembi, ele chegou até mim e perguntou: “Você é o Rogério que entende dessas pastas?” Eu respondi: “Se eu entendo bem, não sei. Mas sou o Rogério”. Ele pediu para eu analisar a pasta da escola, peguei uma caneta, fui fazendo observações, corrigindo detalhes e, no fim, chamei atenção principalmente para a comissão de frente. Expliquei que, naquela época, muitas escolas perdiam pontos porque as fantasias apresentadas aos jurados eram diferentes das que entravam na avenida. Ele respondeu que estava tudo conferido. Então ele perguntou quanto custava o trabalho. Eu respondi que não custava nada. Ele não estava me contratando, apenas havia pedido uma ajuda. Naquele ano a escola acabou não subindo porque perdeu um ponto na comissão de frente. Quando o Tomate assumiu a presidência, me ligou e perguntou: “Vamos trabalhar juntos?” No começo eu ainda pensei bastante. Não sabia se conseguiria encaixar mais um projeto na minha rotina. Mas fui à festa de aniversário da escola. Naquela época a Dragões tinha uma estrutura muito simples. Era um espaço pequeno, onde aconteciam os ensaios e a produção das fantasias. Só que havia uma paixão enorme naquele lugar. Foi ali que eu me apaixonei pela escola. Durante todo aquele ano ouvi muita gente dizendo que eu tinha acabado com a minha carreira, que sair de uma escola do Grupo Especial para assumir uma do Acesso era um erro e que aquele projeto não daria certo. Mas, quando existe vontade de trabalhar e muita fé, as coisas acontecem. Fomos campeões com dois pontos de vantagem. Foi ali que nasceu essa parceria entre Tomate e Rogério Félix em prol da Dragões da Real”.

Hoje a Dragões é reconhecida pelo canto forte da comunidade. Qual foi o trabalho desenvolvido para alcançar esse nível de harmonia?

Rogério Félix: “A Dragões sempre fez algumas escolhas muito conscientes. Lembro que, há 16 anos, quando começamos um processo de reformulação na escola, surgiu a oportunidade de fazer alguns investimentos. Não era muito dinheiro, mas dava para melhorar alguma coisa. A primeira decisão foi reformar o banheiro feminino. Muita gente questionou essa escolha, mas a resposta era simples: se a mãe, a esposa e a filha de um componente se sentem respeitadas dentro da quadra, elas voltam. E, quando as mulheres voltam, a família vem junto. Pode ser uma quadra simples, mas, se ela acolhe bem as pessoas, cria pertencimento. Foi assim que começamos a fortalecer a comunidade. Depois, quando estruturamos o projeto de carnaval, nos perguntamos em qual aspecto deveríamos investir mais. Sempre acreditamos que uma escola feliz canta melhor. Com o passar dos anos começamos a investir cada vez mais no canto da escola. Isso envolve escolher um samba que faça a comunidade cantar naturalmente, realizar ensaios muito fortes e construir bossas que valorizem a música sem prejudicar o canto. Depois nasceram os ensaios específicos. Primeiro por ala e, mais tarde, por setores”.

A chegada do Jorge Freitas aprimorou esse trabalho?

Rogério Félix: “Papai do céu nos presenteou com um dos profissionais que mais entende de canto no carnaval de São Paulo. Talvez até do Brasil. O Laila foi um fenômeno, uma referência absoluta. Mas o Jorge Freitas também é um cara que trabalha o canto como poucos. Quando ele chegou, muita gente imaginou que haveria uma disputa de espaço entre nós. Aconteceu exatamente o contrário. É muito bonito quando dois profissionais se respeitam. Em vários momentos ele me dá liberdade para contribuir no trabalho dele, e eu faço questão de dar a mesma liberdade para que ele contribua no meu. Porque eu também quero aprender com ele todos os dias. O Jorge é extremamente criativo. Com a chegada dele começamos a aplicar novas metodologias na Dragões. Muitas pessoas estranharam, porque eu já tinha uma carreira consolidada como diretor de harmonia em São Paulo e também era bastante conhecido no Rio de Janeiro. Alguns não entendiam por que eu dava tanta autonomia para ele dentro da quadra. Minha resposta sempre foi muito simples: se você contrata um dos maiores campeões do carnaval de São Paulo e não o deixa trabalhar com liberdade, não faz sentido tê-lo contratado. Foi assim que conseguimos potencializar ainda mais o nosso trabalho de canto. E posso garantir: neste carnaval vamos trabalhar ainda mais. Temos a responsabilidade de homenagear o Príncipe do Pagode, Reinaldo. Essa homenagem será feita, acima de tudo, pela voz da nossa comunidade. Vamos cantar como nunca cantamos”.

Qual é o maior desafio de um diretor de harmonia nos dias de hoje?

Rogério Félix: “Acho importante ampliar um pouco essa resposta. Hoje o diretor de harmonia é muito mais do que o profissional responsável pelo canto da escola. Ele precisa ser o grande elo entre todos os departamentos. É quem faz a ligação entre a diretoria, os segmentos e os componentes. Também precisa saber acolher as pessoas e encantá-las para que entendam a missão de ensaiar, cantar e desfilar em busca de um objetivo comum. O diretor de harmonia não é apenas quem cobra. Ele precisa entender de planejamento, gestão de pessoas, atendimento, mediação de conflitos e estratégia. Precisa resolver problemas o tempo inteiro e, acima de tudo, controlar o próprio ego. Existe até um livro que gosto de citar: “O Ego é Seu Inimigo”. Todo diretor de harmonia deveria lê-lo. Hoje também estamos vendo mudanças importantes no Carnaval. No Rio de Janeiro, por exemplo, cresce a discussão sobre avaliar, dentro do quesito Harmonia, não apenas o canto da escola, mas também o conjunto formado pela ala musical, carro de som e cordas. Não estou dizendo se é certo ou errado, mas isso exige que o diretor de harmonia tenha cada vez mais conhecimento musical. Ele precisa entender se a melodia funciona, se o samba favorece o canto da comunidade e como isso impacta o desfile. Ao mesmo tempo, em muitas escolas o diretor de harmonia também responde pela evolução da escola na pista. Em outras, essa função é do diretor de carnaval ou até de um diretor específico de evolução. Independentemente da estrutura, o profissional precisa dominar todos esses aspectos. Hoje, para conseguir conversar de igual para igual com todos os departamentos, o diretor de harmonia precisa estudar música, compreender comportamento humano, saber administrar crises, ser um estrategista, conhecer profundamente sua comunidade e entender como cada setor da escola se movimenta, da comissão de frente ao último carro alegórico. Só assim consegue definir qual será a melhor estratégia de desfile: acelerar, comprimir, abrir mais a escola ou controlar o andamento. Nunca foi tão difícil exercer essa função. Por isso acredito que o caminho seja dividir responsabilidades e criar equipes especializadas dentro da harmonia. Quem acha que consegue fazer tudo sozinho acaba prejudicando o próprio trabalho”.

Dentro da sua equipe, você se considera um líder mais rígido ou mais flexível? Como funciona a cobrança?

Rogério Félix: “Eu tento e busco ser sempre um líder honesto nas minhas atitudes. Eu não cobro aquilo que eu não ensinei e não cobro de quem não sabe o que precisa ser feito. Eu terminei um treinamento nesta semana em que, no primeiro dia, eu tentei mostrar justamente o motivo pelo qual uma pessoa não deveria ser diretor de harmonia. Eu falei: “Esse treinamento é para você não ser harmonia”. Porque a harmonia tem isso, a harmonia não pode aquilo, a harmonia exige determinadas responsabilidades. Eu mostrei tudo aquilo que muitas pessoas não contam sobre ser um diretor de harmonia. Também falei que, no segundo dia, só deveria comparecer quem concordasse em vivenciar tudo aquilo. Depois que eu expliquei tudo o que a pessoa iria enfrentar ao meu lado, tudo o que ela teria que passar e toda a estratégia que nós iríamos construir juntos, quando eu fizer uma cobrança, eu não estou sendo rígido. Estou sendo honesto com aquilo que combinamos. A pessoa já sabia o que nós iríamos enfrentar, já sabia qual era a estratégia que tínhamos decidido juntos. Então, se algo não foi feito, a pergunta é: eu não preparei essa pessoa ou ela não quis fazer? Precisamos entender de onde veio o problema. Ou a responsabilidade é minha ou é dela. Se for minha, eu vou voltar, vou reeducar e treinar novamente para que ela consiga fazer da forma correta. Agora, se a responsabilidade for dela, eu preciso cobrar para que aquilo seja realizado. Porque ninguém é obrigado a ser diretor de harmonia. Em muitas escolas, você não recebe, muitas vezes não tem nem roupa ou estrutura, e trabalha muito. Se a pessoa não tiver um motivo para estar ali, se não tiver um propósito, ela não vai encontrar prazer no que faz. Quando existe propósito, confia na sua liderança e sabe que ela é honesta e justa dentro daquilo que está fazendo, não existe espaço para “mimimi”. Não existe defender um ou outro porque gosta mais daquela pessoa. A cobrança precisa ser igual para todos, porque se um erra, a escola inteira erra. Eu costumo dizer que sou muito tranquilo na hora de ensinar, mas sou muito firme na hora de cobrar aquilo que foi ensinado”.

De que maneira você enxerga os critérios de julgamento do carnaval de São Paulo?

Rogério Félix: “Eu travo no início do julgamento. Enquanto não ficar claro para mim se o julgamento é comparativo, se é uma conferência ou se é espetáculo, qualquer resposta que eu der pode estar errada. Porque, se eu tenho que comparar as escolas, é uma coisa. Se eu tenho apenas que conferir se aquilo está correto, é outra. Se eu estou avaliando como espetáculo, é completamente diferente. Vou dar um exemplo: se eu vou a um espetáculo, eu posso ter três baterias, posso parar uma bateria, a comissão de frente pode passar pelo meio da escola, pode sair de dentro do abre-alas, o abre-alas pode vir dividido em dois momentos, com um setor passando antes e outro depois. Tudo isso pode fazer parte de um espetáculo. Mas a pergunta é: vou julgar o espetáculo? Vou julgar o risco que a escola assumiu? Agora, se o julgamento é comparativo, então precisamos pensar em outras questões. Um carro alegórico tinha doze esculturas gigantes e outro tinha apenas uma. Como comparar isso? Um utilizou muito material, outro utilizou menos. Mas e se os dois estão dentro da proposta do enredo? E se os dois estão falando de luxo? Como essa comparação será feita? Se eu preciso comparar, quando o jurado dá a nota? Ele teria que assistir a todas as escolas, todas as noites, para depois conseguir definir uma avaliação? É muito fácil falar do jurado, mas eu preciso ser sincero com as minhas limitações. Para mim, o jurado é como alguém avaliando perfumes. Se você entra em um lugar e experimenta sete fragrâncias diferentes, será que consegue lembrar exatamente a diferença entre todas elas? É a mesma coisa com o jurado. Ele assiste a sete escolas e precisa avaliar todas. Se ele não dá a nota imediatamente, ele precisa guardar sete experiências diferentes para depois decidir qual foi melhor. E aí vem outra questão: tudo vale 10? Ou aquilo que ele gostou mais recebe 10? Esse é o conceito de um carnaval comparativo. Ou então é um carnaval de conferência, que muitas vezes é o que mais aparece hoje, quando as pessoas falam que o carnaval perdeu a essência, que está frio. Se for conferência, eu vou contar grade, vou contar se aquilo cantou ou não, vou contar se aquilo caiu ou não, porque o jurado está ali apenas para conferir. Então, acho que essa conversa nasce um pouco antes. Enquanto não ficar claro se vai ser conferência, espetáculo ou comparação, ou até mesmo se haverá uma divisão entre esses modelos, fica muito difícil. É preciso definir qual é o caminho”.

Na posição de diretor de harmonia, que legado você gostaria de deixar para a Dragões da Real e para o carnaval de São Paulo?

Rogério Félix: “Muito difícil. Até porque eu teria que nascer mais umas três vezes para conseguir ser um cara que deixa um legado. Existem muitos outros nomes que deixaram marcas importantes no carnaval. Eu não sei se já teria condições de falar que esse seria o legado do Rogério, porque eu acho que ainda tenho muito para fazer. Ainda tenho muitos títulos para conquistar. Infelizmente, algumas pessoas medem o trabalho apenas por títulos, mas também existe o respeito. Eu acredito que a maior força que talvez eu queira deixar é fazer parte de uma família de harmonias que respeitem o componente, que deem oportunidade para as pessoas que estão começando, que acreditem na comunidade e façam por eles. O diretor de harmonia, da forma como eu acredito, é aquele que faz a escola crescer independentemente do resultado. A cada ano, a escola precisa estar maior. E quando eu falo maior, não é apenas em tamanho. É uma escola com componentes mais apaixonados, dando mais oportunidades para as pessoas, reformando sua quadra, trazendo novidades e fortalecendo a comunidade. Às vezes, isso não parece ser uma função do diretor de harmonia, mas é aquele trabalho de chão de fábrica, daquele profissional que está brigando pelo seu povo. Hoje, poucos departamentos brigam pela nossa cultura. A nossa cultura corre o risco de, em alguns momentos, escapar. A modernidade pode chegar, e ela precisa chegar. O que não pode acontecer é nós não termos braços suficientes para manter a nossa cultura enquanto a modernidade acabar engolindo tudo. Daqui a pouco, podemos mudar 100% o carnaval. Então, aquele diretor de harmonia que estiver cuidando da sua equipe, dos seus componentes e da sua escola, respeitando as pessoas e sendo apaixonado pelo que faz, vai fazer diferença. O diretor de harmonia precisa ser o cara mais apaixonado da escola, aquele que ensina a paixão pelo seu pavilhão”.

Análise: Alto nível marca nova eliminatória e disputa de samba esquenta na Beija-Flor

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Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

A disputa pelo samba-enredo da Beija-Flor de Nilópolis para o Carnaval 2027 ganhou ainda mais força na noite desta quinta-feira. Em uma eliminatória marcada pelo alto nível das apresentações e pelo equilíbrio entre as obras, seis parcerias subiram ao palco da quadra da escola, e cinco garantiram vaga na próxima fase. O samba 77, da parceria de Márcio França, foi eliminado. A escola de Nilópolis levará à avenida o enredo “Zeneida: O Sopro do Pó de Louro”, em homenagem a Zeneida Lima, última pajé marajoara. Abaixo, a análise do CARNAVALESCO dos cinco sambas classificados.

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Parceria de Júnior Trindade: O samba 05, assinado por Júnior Trindade, Samir Trindade, Laura Romero, Cleiton Roberto, Doguinha Guaracimir e Marcão da Gráfica, mostrou capacidade de construir uma narrativa essencialmente musical para contar a trajetória de Zeneida. Defendida por Bruno Ribas, a obra teve uma passagem segura pela quadra, com andamento confortável e uma linha melódica que privilegia a interpretação e o desenvolvimento da história. A composição escolhe um caminho bastante imagético para apresentar a personagem. Logo na abertura, “Do norte / Sopro pó de louro de minhas mãos / Borboletas revelam voltei nesse chão / Eu sou Zeneida / Energia da natureza” estabelece uma atmosfera de encantaria e espiritualidade. A letra não trata Zeneida apenas como personagem histórica: procura colocá-la dentro do universo simbólico da natureza, da pajelança e das forças que atravessam sua trajetória. Em seguida, a obra ganha força ao conectar a missão espiritual de Zeneida às manifestações culturais do Pará. “É carimbó, ô roda saia, é siriá / O canto e dança tradição do meu Pará” apresenta uma passagem de fácil assimilação e acrescenta movimento à composição. A letra também introduz o conflito com a intolerância religiosa em “Contra inquisição, faço ritual / Rezo pra quem me fez o mal”, antes de conduzir a narrativa para um momento de maior carga emocional. É justamente nessa transição que aparece um dos trechos mais interessantes da composição: “Mãe luz de Nazaré / Me mantém de pé na esperança / Por Deus, pelos ancestrais / Nas lutas sociais, proteja as crianças”. O samba amplia o olhar sobre Zeneida e transforma sua espiritualidade em instrumento de proteção e resistência. A construção também permite que a melodia cresça até desembocar no refrão principal. O fechamento é o momento de maior identidade comunitária da obra. “Ixé a-îkobé, Opá ara / Te dei meu poder, se fez vencedor / Meu filho anajá, na mata incorporou / A soberana caruana Beija-Flor” reúne a dimensão espiritual da personagem com a própria escola. É um refrão que concentra símbolos importantes da narrativa e tem condições de ganhar força quando sustentado pelo canto coletivo. Na apresentação, a torcida esteve presente e respondeu especialmente nos momentos de maior apelo da composição. O grupo que acompanhou a parceria era numeroso e manteve boa participação, embora tenha faltado um pouco mais de entrega justamente no momento em que os intérpretes buscaram dividir o canto com o público. Como o regulamento da noite estimulava essa interação, esse foi um aspecto em que a apresentação poderia ter alcançado um nível maior de envolvimento. No conjunto, o samba 05 apresenta uma construção melódica agradável e uma letra que consegue percorrer diferentes dimensões da história de Zeneida sem perder completamente o fio narrativo. Seu principal trunfo está na capacidade de alternar momentos contemplativos, referências culturais e passagens de maior impacto coletivo.

Parceria de Júnior PQD: Um dos grandes destaques da noite foi o samba 02, de Júnior PQD, Ailson Picanço, Junior Billy Mandy, Geral M., Felício, Marquinho Paloma e Marcelo Moraes, defendido por Pitty de Menezes. A obra mostrou capacidade de unir uma letra rica em imagens e referências amazônicas a uma melodia envolvente, que cresce especialmente nos momentos de maior intensidade. A composição começa com força em “M’Barayó / povo soberano nunca anda só / ergue suas lanças feitas de cipó”, trecho que apresenta a identidade da obra logo nos primeiros versos. A melodia tem swing e conduz bem a narrativa, que passa pelos mistérios da floresta, pelos saberes da mata e pela trajetória de Zeneida. “Três luas te aguardaram na floresta / pintando a sua tez morena / acende o braseiro pra aldeia tremer” é outro momento de destaque, com versos que criam imagens fortes e ajudam a transportar o ouvinte para o universo apresentado pelo enredo. O samba também apresenta bons momentos de construção poética, como em “Tecer pelas mãos da curandeira / o azul dessa bandeira que o céu vai colorir”. O trecho consegue relacionar os elementos da narrativa à própria identidade da Beija-Flor, sem abandonar o caráter simbólico da composição. O refrão de meio mantém a dinâmica da obra e cria uma passagem de maior intensidade antes da chegada ao refrão principal. “Ô, já chamou na doutrina / ventou na barreira do mar / fez do rio, igarapé” tem boa movimentação melódica e contribui para que o samba não fique restrito a uma única região de força. A obra consegue alternar trechos mais contemplativos com outros de maior explosão, o que favorece a apresentação ao vivo. Mas é no refrão principal que o samba encontra seu momento mais forte. “Ê pajé / traz a força de Auí / benze o nosso povo, reza o meu tambor / sopra o pó de louro sobre a Beija-Flor” é um refrão de fácil assimilação, melodia marcante e grande potencial de canto coletivo. A repetição de “Ê pajé / traz a força de Auí” funciona como um gancho eficiente e ajuda a fixar o trecho rapidamente. Pitty de Menezes teve novamente um desempenho muito seguro. O intérprete conduziu a obra com potência e vigor durante as seis passadas, explorando bem os momentos de maior crescimento da melodia. A torcida também fez uma apresentação forte, cantando durante toda a execução e contribuindo diretamente para o impacto do samba na quadra. No geral, o samba tem bons desenhos melódicos, uma narrativa rica em referências e, principalmente, um refrão principal com potencial de comunicação imediata com a comunidade. Com a apresentação desta quinta-feira, a parceria de Júnior PQD sai fortalecida e mantém seu nome entre os destaques da disputa.

Parceria de Sidney de Pilares: O samba 39, de Sidney de Pilares, Pedro Marajoara, Dudu Nobre, Marcelo Lepiane, Salgado Luz e João Conga, foi defendido por Igor Vianna e Dudu Nobre. O samba mostrou caminhos melódicos interessantes e uma preparação eficiente para o refrão principal. A abertura, “Guarda, Caruana Beija-Flor! / O sopro que me leva a te encontrar / O caminho você me mostrou e me ensinou / Sozinho o nosso povo nunca vai estar”, apresenta uma melodia que conduz bem a narrativa e estabelece desde cedo a relação entre Zeneida, a espiritualidade e a Beija-Flor. Na sequência, a composição mergulha em referências à floresta, aos ancestrais e aos saberes da pajelança, construindo uma narrativa bastante ligada à personagem central do enredo. O refrão de meio é um dos momentos mais interessantes do samba. “De pajé pra pajé vou curar / esse mundo repleto de dor / pela pena dos meus maracás / vivem os rituais que Mestre Mundico deixou” possui swing e boa movimentação melódica, além de reforçar a dimensão espiritual da narrativa. A passagem funciona como uma preparação eficiente para a sequência da obra, que cresce até chegar ao refrão principal. Outro momento de destaque está em “Canta que o canto é reza / canta meu curió / evoco a força Guará / do rio-mar do Marajó”. O trecho tem boa musicalidade e cria uma atmosfera diferente dentro do samba, especialmente pela maneira como os intérpretes exploram a repetição de “do Marajó”. É um dos pontos em que a defesa vocal consegue fazer a obra brilhar, valorizando uma melodia que talvez não tenha o mesmo impacto quando observada apenas no papel. O refrão principal, por sua vez, é o grande cartão de visitas da composição. “Firma a curimba na gira do carimbó! / firma a curimba na gira do carimbó! / é a pajelança nilopolitana / o meu Beija-Flor incorpora Caruana” tem força, fácil assimilação e uma construção que favorece o canto coletivo. A preparação realizada nos versos anteriores faz com que a chegada ao refrão seja ainda mais eficiente, criando um crescimento natural até o momento de maior explosão da obra. A torcida também apresentou uma participação efetiva. Apostando bastante na caracterização e cantando bem, ajudou a criar uma atmosfera favorável para a apresentação.

Parceria de Diogo Rosa: Outra composição classificada da noite foi o samba 01, de Rosa, Julio Assis, Kirraizinho, Manolo, Clay Rodolfo e Dr. Luiz Claudio, defendido por Tinga. A obra apresentou uma passagem potente durante as seis passadas, sustentada por uma construção melódica que alterna momentos mais líricos com trechos de grande força. A composição encontra caminhos interessantes para contar a trajetória de Zeneida e explorar o universo místico e espiritual presente no enredo. A cabeça do samba é um dos grandes acertos da obra. “Moço, espia só / invisível vira folha / folha vira pó / pó de louro, caminho aberto” apresenta uma construção poética muito particular e utiliza a pausa musical como recurso para criar expectativa. A quebra entre “folha vira pó” e a continuação “pó de louro, caminho aberto” dá movimento à narrativa e faz com que o ouvinte acompanhe cada imagem construída pela letra. A composição mantém esse jogo ao longo de outros trechos, como em “Mundiada em ventania… o tempo parou / parou… pra ver! / o Brasil dos maracás”. A suspensão novamente funciona como recurso melódico e poético, criando pequenas falsas conclusões que são resolvidas na sequência. O refrão de meio é bastante forte e apresenta uma construção que cresce naturalmente: “Parou… pra ver! / o Brasil dos maracás / pra se render à fé dos ancestrais / Amazônia sustentada pela força de Majé / ver o Norte ser um Norte desse meu país mulher”. O trecho combina força melódica e conteúdo narrativo, ampliando a dimensão da personagem e destacando a presença feminina e amazônica na composição. Na segunda metade, a obra passeia por diferentes referências culturais, como a piracema, o curimbatá marajoara, a pajureba e o carimbó. A chegada ao refrão principal é muito bem construída. “Chama Karuana que a Baixada incorporou / chama Karuana que a Baixada é Beija-Flor” possui grande força de canto e estabelece uma ligação direta com o universo amazônico. A sequência “Pajelança cabocla sawé! Sawé! / na magia da floresta o segredo pra vencer” amplia ainda mais a explosão do refrão, que funciona como o grande momento de comunicação coletiva da obra. Tinga conduziu a apresentação com potência e segurança, explorando bem as diferentes regiões melódicas do samba. A torcida também teve participação importante, numerosa e bastante cantante, apostando em uma apresentação visual que trouxe elementos da mata, sons de pássaros e até uma encenação de Zeneida Lima, com uma senhora soprando pó de louro. Com uma apresentação consistente e vigorosa, o samba 01 se mostrou muito competitivo. A força do refrão principal, a riqueza das imagens construídas pela letra e a capacidade de Tinga de conduzir a obra fizeram da parceria de Diogo Rosa um dos destaques da noite.

Parceria de Marquinho Beija-Flor: O samba 13, de Marquinho Beija-Flor, Claudio Russo, Chacal do Sax, Rômulo Massacesi, Julio Alves e Léo Freire, teve uma apresentação de grande impacto na quadra, defendido por Pixulé. A composição alia uma narrativa objetiva sobre a trajetória de Zeneida a uma melodia que cresce gradualmente, encontrando seus momentos de maior força nos dois refrões. Com uma letra carregada de identidade e uma execução marcada pelo canto coletivo, a obra ocupou a quadra com bastante presença. A abertura, “Voltei guiada pelo vento / trago cada elemento que da natureza emana / Auí fez de mim seu instrumento / sob a lua o encantamento da magia caruana”, apresenta rapidamente o universo espiritual da composição. Um dos momentos mais interessantes da primeira parte está em “A pajerama então Anhanga foi flechar / dezessete dias amarrada no cipó / eu, filha das águas, floresci em minha fé / foi o meu chamado, mas eu não estava só / a mata me assentou pajé”. O trecho possui força narrativa e uma boa construção melódica, apresentando a trajetória da personagem de maneira lírica e afirmativa. O refrão de meio é um dos grandes pontos altos da composição. “É de pena e maracá! / é de pena e maracá! / eu sou cabocla com herança africana / Mestre Mundico me ensinou a dar o nó em caruá! / eu tenho a alma nilopolitana!” reúne identidade, ancestralidade e pertencimento em uma passagem de forte apelo comunitário. Na segunda parte, a composição encontra uma boa variação melódica em “Vem no balanço do siriá / marujada e carimbó / quem ensina é aguaguara / no curumim vi o futuro no olhar / a Baixada a invocar a força marajoara”. O trecho traz movimento e areja a construção da obra, incorporando diferentes manifestações culturais sem interromper a narrativa. A preparação para o encerramento também merece destaque. “Do povo eu sou, muiraquita / pajé Zeneida, soberana, campeã” funciona como uma afirmação final antes da explosão do refrão. A passagem cria expectativa e permite que a chegada de “E… incorpora, caboclo!” tenha ainda mais impacto. O refrão principal é o grande momento de comunicação da obra. “Incorpora, caboclo! / incorpora, caboclo! / quero ver incorporar!” é simples, direto e extremamente contagiante. A repetição facilita a assimilação e favorece o canto coletivo, enquanto “Do ventre do meu Pará, o pó de louro soprou / comunidade, Caruana Beija-Flor!” amplia o refrão e fecha a composição, relacionando a origem amazônica de Zeneida à identidade nilopolitana. Pixulé teve uma apresentação muito potente e segura. O intérprete soube trabalhar os diferentes momentos da composição e conduziu com eficiência a preparação até o refrão principal, mantendo a energia durante as seis passadas. A torcida também foi fundamental para o impacto da obra, cantando de forma constante e contribuindo para uma atmosfera de grande envolvimento na quadra. O samba 13 reúne uma letra de fácil compreensão, identidade muito bem definida e uma construção melódica que sabe guardar seus principais momentos de explosão. Com uma apresentação potente, uma defesa segura de Pixulé e uma torcida bastante cantante, a parceria de Marquinho Beija-Flor entregou um dos momentos mais fortes da disputa desta quinta-feira.

Análise: Disputa de samba-enredo entra em momento decisivo na Unidos da Tijuca

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Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A disputa pelo samba-enredo que embalará a comunidade do Borel em 2027 avança. No próximo carnaval, a Unidos da Tijuca levará para a avenida o enredo “A Cabeça do Santo”, desenvolvido pelo carnavalesco Lucas Milato. Nesta quinta-feira, sete parcerias concorrentes se apresentaram na quadra da escola, no Santo Cristo. As eliminadas serão anunciadas pela agremiação na próxima segunda-feira. A seguir, o CARNAVALESCO analisa as apresentações dos sambas concorrentes.

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Parceria de Totonho: O samba composto pela parceria de Totonho abriu a noite de apresentações, interpretado por Juan Briggs, Charles Silva e Tinga. A obra aborda a narrativa do enredo, trazendo o ponto de vista de Samuel, protagonista de ‘A Cabeça do Santo’, em sua peregrinação até Candeia. A composição traz o peso da religiosidade popular brasileira, sincrética, ao incorporar uma alusão a uma cantiga de Umbanda no verso “Santo Antônio de Pemba, caminhou, caminhou”. Também traz uma melodia com interessantes variações, com destaque para o trecho “Que som é esse que causa querência, pura cadência, de se arriar / Era rosário nas mornas de dengo / Era um quengo a desabafar (Carcará)”, que embala os versos mais descontraídos, além da referência à bateria ‘Pura Cadência’ da escola, que aprofunda a relação da narrativa com a comunidade. Entretanto, os versos marcados pela poética e “descontração” perdem força lírica no refrão principal “Se o mar virar sertão, vamos transbordar o amor / Reerguer a nação que o ‘santo’ ‘endireitou’ / Tijuca arretada é prece, é raiz! / Chama o povo do Nordeste pra salvar nosso país!”, perdendo a oportunidade de ter um ponto alto à altura da energia da obra. O trecho “Deixa o Borel passar” recebeu uma ênfase especial dos intérpretes, mas não conseguiu trazer o público junto na mesma intensidade. A defesa se manteve enérgica na maior parte da apresentação, tendo um bom rendimento até passar por uma leve queda na última passada. A performance conseguiu contagiar alguns dos presentes na quadra, como passistas e integrantes das baianas.

Parceria de Leandro Gaúcho: Wantuir e Lissandra Oliveira deram voz ao samba 01, que puxa fortemente o lado da religiosidade popular da narrativa, aprofundada pela mistura sincrética cheia de brasilidade, como nos versos “Vem com Chico e Romão”, “Moganga de boiadeiro, Xetruá” e com seu ápice no refrão “Santo Antônio pequenino do sertão / Eu trouxe a luta! / Venha abrir nossos caminhos, a vitória da Tijuca / Ele é de fé! / Amansador de burro brabo / Se duvida é melhor tomar cuidado”, que brinca com o sincretismo, trazendo também alusão a uma cantiga religiosa. A introdução foi um dos destaques, com um show à parte dos intérpretes cantando o trecho “Meu pai, quantas vezes te esperei ao pé da porta / Pedi todo dia, roguei sua volta e veja só. / Sempre esteve aqui! / É hora, pai. / De seguir pro meu Juazeiro / Levando um rosário, batendo no peito / Outro milagre ainda está por vir”, que traz um dos pontos mais tocantes da narrativa, interpretado à altura de sua sensibilidade. Outro destaque está no uso do vocabulário regional como um recurso criativo nos versos: “Da ‘moleira’ de Antônio fez seu usucapião” e “O problema foi o ‘santo’ responder a promessa pra menina se ‘ajuntá’”, que dão personalidade e certa “bossa” à obra. Desde o início da apresentação, o samba já estava sendo cantado na quadra, especialmente o refrão principal “Santo Antônio pequenino do sertão / Eu trouxe a luta…”, principalmente pela ala de passistas, que se reuniu à frente do palco, dançando e cantando durante toda a apresentação. A defesa sustentou a energia da obra do início ao fim e garantiu-lhe um bom rendimento, sendo um dos destaques da noite.

Parceria de Samir Trindade: A obra da parceria de Samir Trindade foi defendida por Evandro Malandro e Tem Tem Jr. A obra traz um olhar interessante para a narrativa, ao espelhar a realidade do Borel à de Caridade, cenário da narrativa de “A Cabeça do Santo”, aprofundando a conexão da comunidade com o enredo: “Minha história é sertaneja brasileira / Feito tantas por aqui / Tipo gente do morro que pede socorro / Para o santo acudir”. O fato também culmina no refrão principal “Ê Santo Antônio, em teu colo a esperança / Que é toda criança do sertão e do Borel / Sou Tijuca, vai ter samba e ladainha / No terreiro ou na igrejinha, lá na Rua São Miguel”. Um dos destaques da obra é o verso “Rodeia meu Santo Antônio” no refrão, que também traz referência a uma famosa cantiga religiosa e funcionou muito bem na quadra, sendo bem cantado pelos presentes em todas as passadas. O trecho “Ouvi a voz de um povo sofredor / A mesma fé que uniu destinos me envergonhou” também foi bem cantado pelo público. A obra traz uma melodia mais cadenciada e menos enérgica do que as anteriores, tendo uma defesa justa e equilibrada, que apostou em uma interpretação descontraída e obteve um rendimento regular. Além do refrão principal contagiante, a obra empolgou alguns dos presentes, incluindo a Velha-Guarda.

Parceria de Lico Monteiro: O intérprete Wander Pires defendeu o samba da parceria de Lico Monteiro. A obra traz um olhar criativo sobre a proposta do enredo, trazendo a perspectiva de Samuel contando sua história. A obra se destaca pelo refrão “É só rezar pra Santo Antônio ouvir / Ô diacho, me esqueça! / Vou achar um cazuá / Atender a simpatia pra Toinho descansar”, que traz uma melodia envolvente e fez o público acompanhar com palmas. Bem como os versos “Aos pés do corpo, encontro a redenção / Chorar, chorei / Toca o sino e vem a romaria / Guardo no peito o amor de Rosário / Meu coração se fez moradia”, que estavam na boca do povo do início ao fim da performance. A apresentação também conseguiu animar passistas, integrantes da Velha-Guarda e outros presentes na quadra, que dançaram e cantaram durante a apresentação. A performance teve um bom rendimento, com uma defesa que abrilhantou e valorizou melodicamente o samba.

Parceria de Márcio André: A parceria de Márcio André foi defendida pelo intérprete Nego. A composição traz a perspectiva de Samuel na narrativa com peso poético, conforme destacado nos versos “Tijuca, o luar do meu sertão / Alumia a escuridão do causo que eu vou contar / Pelas veredas lá vou eu / Em devaneio, nesse aperreio / O Pavão vai me guiar”. Outro trecho que se destaca por seu ar lúdico, “Vixe Maria, nunca tinha visto isso / A cidade em rebuliço, um tremendo quiproquó / E quem diria, por assombro que pareça / Tem um santo sem cabeça / Era um fuxico só”, valorizado pela melodia, é agradável de ouvir. A apresentação, porém, enfrentou alguns problemas de execução. Em determinados trechos da primeira e da terceira passadas, os intérpretes atravessaram a melodia, prejudicando a fluidez do samba. Na penúltima passada, houve algumas falhas de som e certa perda de fluidez no refrão principal. O rendimento foi decrescente, passando com menos brilho pela quadra.

Parceria de Arlindinho: Igor Sorriso e Rodrigo Tinoco performaram o samba da parceria de Arlindinho. A obra foi um dos destaques da noite, por seu lirismo irreverente e melodia com variações interessantes, formando um conjunto brilhante. A composição também traz Samuel narrando sua história: é simples, mas se destaca pela estrutura rítmica, como nos versos “Sem sorte, sem eira nem beira / Errante, distante do quê?”, além dos coloquialismos que enriquecem os versos “Dei com os ‘zói’ em Caridade / Nos festejos de Antônio / Achei um canto ‘bão’ pra esticar ‘os pé’ / E acordei com as ‘muié’ me pedindo matrimônio”, que ganham seu ápice no refrão espirituoso “Joana queria José / Mas Zé só pensava em Maria / Maria não sabe o que quer / Nem com quem se casaria / Foi tanto causo de amor que apareceu / No fim das contas vi que o santo era eu”. No público, os versos “Ê rodeia / Ê amansador de burro brabo do sertão / Ê rodeia / Ê faz esse conto encantar meu pavilhão” pegaram rapidamente, e o refrão “Êta cadência arretada / Escola danada do meu coração / Tijuca vem e me vira a cabeça / Que Santo Antônio abençoe o Pavão” mostrou sua força em todas as passadas. A resposta foi tamanha que algumas pessoas continuaram cantarolando a composição mesmo depois do fim da apresentação. O samba conseguiu contagiar alguns dos presentes na quadra quase vazia, como integrantes da ala de passistas. Teve uma defesa aguerrida; apesar disso, o rendimento foi decrescente ao longo da apresentação.

Parceria de Ian Ruas: A noite terminou com a apresentação do samba da parceria de Ian Ruas, cantado por Dowglas Diniz e Victor Cunha. Também traz um dos destaques líricos da noite, pela carga sentimental que trazem a perspectiva de Samuel de forma poética, como nos versos “Mainha, do céu, vem me abençoar / Mainha, me guarda em teu colo / A luz da saudade vagueia no olhar / No brejo, a casinha, o sereno / Memórias que o tempo não pode apagar”. Também se destaca a variação melódica que cria uma “tensão” nos versos “Vá de retro Belzebu, não me venha assombrar / Padim Ciço me proteja, São Francisco vai curar”. O refrão “Em terra de fé, brotou o fruto da oração / Traz viola, meu sinhô / A sanfona anunciou / Tem festança no sertão (vem sambar no meu baião)” também mostrou sua força. A obra foi bem defendida, com a carga interpretativa que os versos pediam, valorizando a composição, além da beleza da harmonia dos vocais dos intérpretes. Obteve um bom rendimento na quadra, já quase vazia, contagiando alguns dos presentes, como a equipe criativa, que ficou atenta à performance desde seu anúncio, além de cantar alguns trechos.