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Inocentes de Belford Roxo vira a página e lança samba para buscar retorno ao Grupo Especial em 2027

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Por Juliane Barbosa e Maria Estela Costa

A Inocentes de Belford Roxo deu, no último domingo, mais um passo na preparação para o Carnaval 2027. Em uma noite de festa na Baixada Fluminense, a escola realizou o lançamento oficial de seu samba-enredo e apresentou à comunidade a obra que irá embalar o desfile do próximo ano. O evento simbolizou também o início de uma nova etapa para a agremiação, que deixou para trás o resultado de 2026 e trabalha para recuperar sua força na Marquês de Sapucaí. O presidente Reginaldo Gomes preferiu não prolongar as discussões sobre o último carnaval e destacou a necessidade de concentrar todos os esforços no próximo desfile.

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“Quem viu o desfile sabe que a Inocentes ficou muito bem, mas eu não quero mais falar sobre 2026. Prefiro deixar essa questão para trás e falar somente de 2027, porque acredito que é o melhor para todo mundo. O que aconteceu este ano não era o que a gente esperava. Quem viu e acompanha o nosso trabalho sabe que não deveríamos estar nessa situação. Mas agora é resolver, seguir em frente e não ter mais essa preocupação. É fazer um bom desfile e mostrar na avenida a força que a Inocentes tem. Estamos voltando com força total”, afirmou ao CARNAVALESCO.

presidente inocentes
Fotos: Juliane Barbosa e Maria Estela Costa/CARNAVALESCO

Reginaldo lembrou ainda sua trajetória à frente da escola, iniciada em 1998, e ressaltou a importância de manter a Inocentes em crescimento ao longo dos anos.

“A Inocentes é um dos meus filhos. Eu assumi a escola em 1998, quando ela ainda estava na Rio Branco, e, desde então, nunca mais saiu da Marquês de Sapucaí. Passamos pelo Grupo B, subimos e fomos construindo nossa trajetória. Eu sempre vivi o carnaval com a preocupação de ver a escola crescer e, principalmente, de não deixar que ela voltasse para baixo”.

Mudança de enredo e novo desafio

A preparação para 2027 sofreu uma mudança importante durante o processo. O carnavalesco Wagner Gonçalves chegou à escola empolgado com um projeto que já guardava havia bastante tempo, mas precisou interromper a produção quando a diretoria decidiu mudar o enredo para fortalecer uma parceria.

“Eu tava bem empolgado com o outro enredo, era um enredo que eu já vinha guardando há muito tempo. O presidente me ligou um dia, falou ‘quero falar com você’, já tava indo pro protótipo. Aí eu falei assim ‘o que foi?’. Ele falou: ‘preciso mudar de enredo porque preciso firmar uma parceria, fortalecer a escola’”, contou Wagner.

carnavalesco inocentes

O projeto arquivado abordava Caribé. Segundo o carnavalesco, a mudança foi recebida com pesar, mas houve autorização da família do artista para que o tema possa ser desenvolvido futuramente.

“Arquivamos o enredo do Caribé com muita dor no coração, mas aí eu mandei um recado para Solange, que é filha do Caribé, que autorizou fazer esse enredo para fazer de maneira respeitosa. E, de repente, Caribé pode ser até uma ideia para o Especial, quem sabe”.

Apesar da mudança, Wagner garante estar completamente envolvido com o novo projeto. “Eu estou com meu coração em paz, estou apaixonado pelo enredo, estamos fazendo um carnaval bonito, colorido, e vai dar certo. Está valendo a força do ódio depois”, brincou.

O carnavalesco também explicou que o pouco tempo disponível exigiu uma reorganização da produção. O protótipo está sendo finalizado e o trabalho de barracão começa imediatamente.

“Parei no meio do protótipo de um, para recomeçar com esse. Agora que vamos começar o barracão, literalmente amanhã (segunda). O pessoal está chegando de Parintins e amanhã a gente vai lá mostrar o projeto, as plantas. Vamos começar literalmente amanhã, mas está dentro do cronograma”.

Samba encomendado busca fugir do lugar-comum

O samba-enredo foi desenvolvido por encomenda, a partir da sinopse elaborada por Wagner Gonçalves em parceria com Vítor Antunes e entregue aos compositores Claudio Russo e Gusttavo Clarão. O carnavalesco explicou que a principal preocupação durante a criação foi evitar caminhos considerados previsíveis para o desenvolvimento musical do tema.

“Eu alinhei e mandei a sinopse para o Claudio Russo. A sinopse veio em parceria com o Vítor Antunes e ele teve muita dificuldade porque também queria, assim como eu, fugir do lugar-comum de enredo de xaxado, de forró, de Nordeste. Ele superentendeu e vai trazer um samba muito criativo, muito ousado, bem gostoso e bom de ouvir, bom de curtir também. Estou bem feliz com o samba também”.

O intérprete Charles Silva, que retorna à Inocentes, também destacou as características do processo de criação. Ele já havia integrado o carro de som da escola e vê o retorno como uma oportunidade especial.

charles inocentes

“Receber o convite foi uma honra. A Inocentes é uma escola que acompanho há muito tempo. Eu já fiz parte do carro de som da escola e, depois, acabei seguindo outros caminhos profissionais. Também tive a oportunidade de fazer parte do carnaval de São Paulo, mas sempre tive vontade de voltar”.

Charles considera que o formato de samba encomendado permite uma construção mais alinhada à proposta do desfile. “Não é a primeira vez que trabalho dessa forma, e acredito que esse formato dá a possibilidade de construir um samba exatamente do jeito que você imagina e que conversa com aquilo que está sendo pensado para o desfile”.

O intérprete contou que participou dos ajustes finais da composição e avaliou positivamente o resultado. “Assim que ficou pronto, o Claudio me ligou e falou: ‘Estou te mandando aí’. Eu respondi que iria dar uma mexida, fazer um ajuste aqui, outro ali, e, graças a Deus, chegamos a um samba maravilhoso. É uma obra que, na minha opinião, vai ajudar muito a nossa escola a fazer um excelente desfile”.

Inocentes prepara novidades na bateria

À frente da bateria, mestre Washington Paz também trabalha para encontrar elementos que dialoguem com o novo enredo. A mudança de projeto obrigou a equipe a rever ideias que já estavam sendo desenvolvidas.

mestre inocentes

“Sobre a bossa, ainda estamos estudando. Tivemos uma mudança de enredo e estávamos programando algumas coisas para uma proposta anterior. Com essa mudança, estamos novamente nesse processo de estudo. A bateria sempre procura colocar algum tempero, alguma novidade, e não poderia ser diferente no próximo carnaval. Estamos analisando com cuidado para encontrar aquilo que melhor conversa com o enredo”.

O mestre também comemorou a oportunidade de trabalhar pela primeira vez ao lado de Charles Silva. “É um cara que eu conheço há muito tempo, também é da Baixada, é um irmão. Vai ser uma grande honra, porque é a primeira vez que conseguimos trabalhar juntos. Com certeza, vamos preparar uma coisa muito bacana, marcante para passar na avenida. Mas, por enquanto, é só isso que posso falar. Não posso entregar mais nada, fiquem com o spoiler e a surpresa”.

Meta é voltar ao Grupo Especial

O diretor de carnaval Julinho Fonseca ressaltou que a mudança de enredo provocou preocupação inicialmente, mas o trabalho rapidamente ganhou novo direcionamento.

“Todo mundo já conhece a história, mas, em comum acordo com a diretoria, entendemos que seria melhor levar aquele tema para um outro momento, quem sabe em um ano especial. surgiu a nova proposta, que o carnavalesco Wagner achou maravilhosa e o presidente Reginaldo também aprovou. Buscamos uma outra linha, algo que ainda não tivesse sido apresentado pela escola na avenida. Já estamos trabalhando bastante com o samba. Confesso que ficamos muito preocupados no início, mas sentamos, conversamos e, graças a Deus, conseguimos chegar a um excelente samba”.

julinho inocentes

Julinho não esconde a ambição para o próximo desfile. “Para 2027, o que podemos esperar é uma Inocentes mais renovada do que no ano passado. A gente apagou o que aconteceu no último carnaval e já está trabalhando para apresentar uma Inocentes grande, imponente, do tamanho que a escola é e merece. Vamos, sim, disputar o carnaval de 2027 e, se Deus quiser, estar no Grupo Especial”.

A escola também já definiu os próximos passos da preparação. A partir de 9 de setembro, serão iniciadas as atividades na quadra, com ensaios de canto, ensaios de comunidade e recadastramento. Na segunda semana de outubro, a previsão é começar os ensaios de rua. “A preparação está a todo vapor e queremos chegar fortes para o carnaval”, completou Julinho.

Opinião: Em noite de ótimas apresentações, parcerias de Xande de Pilares e Ian Ruas são os maiores destaques do Salgueiro

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Foto: Luiz Gustavo/CARNAVALESCO

O Salgueiro realizou a etapa de quartas de final da disputa de sambas-enredo para o Carnaval 2027 no último sábado com bom público presente na quadra da Silva Teles. Quem esteve na vermelho e branco assistiu a uma bela noite de sambas, com a maior parte das obras alcançando um rendimento de muita qualidade, sobretudo as parcerias de Xande de Pilares e Ian Ruas, que fizeram apresentações de excelência. Abaixo, a análise do CARNAVALESCO sobre as parcerias que se apresentaram na noite:

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Parceria de Marcelo Adnet (samba 15): O samba da autoria de Marcelo Adnet, Gustavo Albuquerque, Babby do Cavaco, André Capá, Bruno Zullo, Igor Marinho, Pedro Ayres, Sergio Pimentel, De Lima e Fabiano Paiva foi cantado por Wander Pires. Mas, antes de o intérprete cantar, a torcida já entoou forte o refrão principal. A primeira parte possui uma melodia forte e sedutora, que embala uma Xica da Silva poderosa, exemplificada no verso “tá pra nascer nesse mundo de meu Deus, homem que vai aguentar uma mulher igual a eu”. O refrão central “avisa na casa grande, meu nome é Francisca, filha de Maria da Costa da Mina, vivi em Taís, Isabel e Zezé, arreda, moço, Xica dá o que quiser” é uma autoapresentação da personagem e cita as três incorporações de Xica retratadas na sinopse, com uma melodia que possui boa fluidez e obteve um rendimento forte. A segunda parte traz a narrativa que Francisca da Silva quer mostrar sobre si: mais do que um corpo, mais do que uma sensualidade, ela é força, coragem, poder e fé. Trechos como “Se pensa que pode tocar o corpo que a tela despiu, meu grito é capaz de curar, as chagas do velho Brasil” cumprem a explanação com clareza. A construção da letra é bem-feita e o verso final “quero ver bater de frente com a escola de Xangô” chama a garra do salgueirense, porém a transição do “ooo” para o refrão principal soa desencaixada. A melodia cumpre seu papel, mas não é tão sedutora. O refrão “Õôôô, sou dona da casa, tenho a chave do terreiro, ôôôô, voltei pra cantar, Salgueiro (no meu Salgueiro” não possui um clamor tão forte, mas a melodia agradável contribuiu para a boa passagem do trecho. Na passada apenas com o canto da torcida, o samba foi entoado com força em toda a obra, com o incentivo de Wander Pires, que a todo momento chamou os presentes. O refrão foi gritado e embalou o retorno do canto no palco, que deu uma esquentada maior no desempenho do samba, inclusive na segunda parte. Uma boa passagem na primeira metade da apresentação, que terminou muito forte.

Parceria de Ian Ruas (samba 09): A composição da parceria de Ian Ruas, Caio Miranda, Zé Carlos, David Carvalho, Luiz Fernando, Luana Rosa, Fabiano Mattos e Carlão teve Dowglas Diniz e Vitor Cunha como intérpretes principais. O refrão principal “laroyê! Xica da Silva, laroyê! Ê mojubá, toda mulher tem direito à própria história, meu Salgueiro é a memória que eu voltei pra consagrar” une força interpretativa, pertinência com o enredo e boa melodia, obtendo, com esse conjunto, uma apresentação de muita potência e empolgação. Na primeira parte, o destaque narrativo é o trecho “Francisca, mãe da encruzilhada, rosa indomada, deusa da rua, na procissão da academia, negra fidalguia se perpetua”, mostrando uma multifacetada Xica, muito mais do que a figura idealizada e sexualizada nas obras. O refrão central “Incorporei no atabaque do meu torrão, festa de ostentação ao poder da negritude, dilacerei as vestes da servidão, meu corpo foi invasão, fetiche da branquitude” possui uma semântica qualificada e uma mensagem forte de protesto à objetificação com que a figura de Xica é lembrada, algo que permeia bastante o enredo. O trecho possui uma melodia interessante, e isso foi bem explorado pelos intérpretes, passando com bastante suingue. A segunda parte peca um pouco na poética em alguns versos, mas cresce novamente a partir dos versos “gira, desce o morro meu Salgueiro, meu quilombo pioneiro, renasci nesse conga, firma axé na segunda-feira, é macumba a noite inteira, sarava, alafiá”, recuperando potência e beleza na escrita com versos como “matriz, mecena de toda arte, que leva em seu estandarte, a simples audácia do amor, louvai, Brasil, a filha de Orun despertou”. A apresentação foi excelente, realçando as qualidades de construção da obra. Na passagem onde o canto é protagonizado pela torcida, exceto pelo início da segunda parte, os torcedores conseguiram segurar bem no gogó, com maior explosão no refrão principal. Na passagem final de retorno, o samba novamente conseguiu um ótimo desempenho e terminou a apresentação na mesma pegada.

Parceria de Xande de Pilares (samba 06): Charles Silva defendeu o samba da parceria de Xande de Pilares, Fred Camacho, Betinho de Pilares, Miguel Dibo, Renato Galante, Jorginho Via 13, W. Correa, Orlando Ambrósio, Jefferson Oliveira e Rafael Gigante. O intérprete comandou uma apresentação que esquentou a quadra. Mais uma parceria que contou com um esquenta da torcida antes da largada. O refrão principal “Hoje o couro vai comer, laroyê! A dona da casa quer girar, furiosa no dendê! Gargalhou na meia-noite, ecoou no meio-dia, a moça incorporou na academia!” evoca o poder de Xica da Silva e possui ótima assimilação com quem escuta a obra, mostrando sua valentia durante toda a apresentação. A primeira parte aposta em algumas soluções de linguagem padrões para este tipo de enredo, obtendo mais singularidade nos versos finais “lua de prata no céu, a mulherada sorri, hoje eu não estou de volta, porque sempre estive aqui”. O envolvente trecho com estrutura de refrão sem bis “Auê, auê, auê, auá, quero ver pombogirá, auê, auê, abre os caminhos pro Salgueiro desfilar” é um dos pontos altos da obra e passou muito bem. Outro destaque é o refrão “sangue da costa da Mina, arte que vence demanda, eis a história despida, chegou a Chica que manda”, de excelente melodia, passando de forma sedutora. Uma melodia mais dolente surge para falar da Xica espelho da figura feminina, culminando nos versos finais que fazem alusão ao chão onde pisa o Salgueiro, “Francisca da Silva de Oliveira, a Xica da Silva Teles”, solução que toca no âmago do salgueirense. O samba já largou com extrema força e assim se manteve em todas as passadas, incluindo a levada pela torcida, sem queda em nenhum trecho. O samba se mostrou redondo e fluiu fácil até o fim. Apresentação impecável.

Parceria de Raoni Ventapane (samba 17): O samba de Raoni Ventapane, Dudah, Thales Nunes, Daniel Guimarães, Clara Ferreira, Denis Moraes, Vitor Menezes, Wibson Fernando, Carlinhos Professor e Hugo Oliveira foi defendido por Evandro Malandro, Emerson Dias e Dudah. A primeira parte apresenta uma melodia dolente e bem estruturada, com uma narrativa correta, porém sem maior brilho, apesar de bem amarrada. Um destaque é o trecho “a fogueira pra mentira, a coragem que respira, corpo-espelho da ralé, é o retorno que atiça”. Na sequência, vem o grande momento da obra, o refrão central “Ela é Maria, Mariá, na tela incorporei, ela é Maria, Mariá, as regras eu rasguei, liberdade da mulher nas curvas de Zezé, não é roteiro a bel-prazer de quem quiser”; na repetição, ocorre a mudança das duas últimas frases para “no terreiro catulei, mandingueira Imperatriz, encarei o preconceito com a força de Taís”, espetacular em melodia, em imagética do enredo e na mensagem escrita. Não à toa, foi o momento de maior qualidade da apresentação. A segunda parte apresenta a ótica de Francisca e consegue uma narrativa que chama mais a atenção, com versos entrelaçados com menções à escola, como “ê Laroyê, ê laroyê, o tambor da minha escola tem recado pra você, ê pombogirê, ê pombogirá, encarnada de vermelho ninguém vai me segurar”. O refrão principal “arreda homem que aí vem Salgueiro, arreda homem que aí vem Salgueiro, sou a Xica macumbeira, pambunjila, Mojubá!, a faísca que acende a furiosa no conga” aposta na repetição do primeiro verso, mas não é marcante e acabou passando de forma mais despercebida, apesar do esforço da torcida, que também fez sua parte na passagem sem o canto constante dos intérpretes. A passagem da obra foi correta, não teve uma grande queda, porém não alcançou um grande desempenho, mesmo com a energia com que os intérpretes conduziram a composição.

Parceria de Bernardo Nobre (samba 07): Pitty de Menezes foi a voz principal do samba da parceria de Bernardo Nobre, Thiago Meiners, Leandro Pereira, John Bahiense, João Moreira, André de Souza, Ribeirinho, Diego Alba, Jonathan Tenório e Luiza Vieira. O refrão principal “Malelê, malelê, kaô kabecilê, meu Salgueiro corre gira, Mojubá Laroyê, toca o barravento, firma o alujá, na casa de Xangô, eu vou pombogirar” possui uma estrutura em tom maior que joga o samba pra cima, além de serem versos de clamor e evocação de orixás, o que, por si só, possui muita força. A valentia do trecho é completada pelo desempenho de Pitty e seus apoios, que gerou um grande desempenho, com muita energia. A primeira parte apresenta uma melodia interessante que potencializa o desempenho da obra, com boa mescla de variações. A letra, sem maiores arroubos criativos, é correta e retrata uma Xica poderosa e do enfrentamento, vide os versos “toma cuidado, vou dizer como é que é, quem governa minha rua, malandragem de mulher, arreda homi se não pode segurar, aquela que aponta o dedo pra desafiar”. A obra emenda dois refrãos em seguida. O primeiro é “tá pra nascer meu Deus, quem enfrente uma moça igual a ela”, mantendo a linguagem dos versos anteriores. Na sequência, “Pombogira é pombogirá, a flor mais bela, na gira, na reza do conga ou na capela, o meu povo deslumbrante, a corte do Orun num instante desceu, pra ver o Salgueiro em seu apogeu” é criativo e bom melodicamente. A segunda parte é mais lírica na letra, que retrata os sonhos de Francisca por um mundo mais justo, como nos versos “um sonho, os filhos sejam mais que um papel, farrapos não nos tornem mais os réus, pra que sejamos arte em reparação”, apesar de ser uma curva na narrativa proposta. A melodia segue arredondando bem a obra, apesar de menos inventiva. A apresentação arrancou em um pique gigantesco, arrefeceu um pouco ao longo das passadas, mas os refrãos sustentaram bem demais a obra. Uma interpretação de muita garra de Pitty e seus apoios, além de tecnicamente aproveitarem bem as nuances melódicas do samba. Na passagem sob o canto da torcida, Pitty desceu no palco e inflamou os componentes, que cantaram com força. Se não foi uma passagem irrepreensível, foi mais um samba que mostrou bastante funcionalidade e passou muito bem.

Parceria de Moisés Santiago (samba 01): A composição de Moisés Santiago, Sereno FDQ, Rodrigo Feiju, Aldir Senna, Mateus Pranto, Marquinho Bombeiro, Marcelo Martins, Alexandre Cabeça, Sandro Nery e Marcelo Batista foi defendida por Tuninho Júnior, Tem Tem Jr. e Rafael Tinguinha. Um samba que aposta em uma melodia de mais empolgação e menos peso em sua primeira parte. Já nos primeiros versos, uma alusão ao famoso “Ôôô ôô ôô” do samba de 1963, bem encaixado nos versos seguintes, que justamente trazem lembranças daquele desfile: “a entidade eternizada por Arlindo, por Anescar e Noel Rosa de Oliveira, fiz Isabel me incorporar, pra revolucionar a cultura brasileira”. A aposta funcionou, e o samba passou de maneira agradável. O refrão central “axé, pode preparar a gira, o meu corpo tem Dendê… canjia, magia de enfeitiçar, me chamaram de mucama, mas nasci pra ser Sinhá” já faz uso de uma melodia mais pesada, principalmente nos primeiros versos, comum em sambas que retratam o universo de negritude e ritualidade. Na sequência, outro refrão “a dona do contratador é anjo, diabo, mulher, a retinta sedução, virei Taís e Zezé”, citando as obras audiovisuais de sucesso em homenagem à Xica. A segunda parte inicia com os bons versos “Eu jamais fui o retrato que Sinhô mandou pintar, todo véu da hipocrisia, eu mandei rasgar”, seguindo com o segundo ato da sinopse, trazendo a versão de Francisca sobre a própria história, de maneira linear, sem um ápice criativo. A melodia tem momentos interessantes, como nos versos finais “Bate tambor nesse chão que me consagrou, toda falange de vermelho e branco baixou, voltei, voltei pra abraçar o meu povo na encruza, o meu Salgueiro é casa de macumba”. O refrão principal é outro a fazer uso da repetição de versos com “Laroyê, pombogira, Exú mulher, Laroyê, pombogira, Exú mulher, no meu terreiro, Xica é rebeldia, a preta, no Ilê da academia”, mas aqui funciona com maior naturalidade dentro da melodia, sem deixar o trecho arrastado, vide a passagem linear do trecho na quadra. O samba teve um bom rendimento em todas as passadas, mas com os melhores momentos ocorrendo no refrão principal e na primeira parte, onde o desempenho foi ótimo. A segunda parte exibiu um pouco menos de força, porém também teve bom funcionamento. A passagem com a torcida foi satisfatória. Destaque para o ótimo conjunto harmônico formado pelos intérpretes da obra.

Parceria de Marcelo Motta (samba 08): Tinga e Marquinhos Art Samba comandaram a obra de Marcelo Motta, Dudu Nobre, Pedrinho da Flor, Jorge Arthur, Leonardo Gallo, Julio Alves, Gilbrth Castro, Bruno Dallari, Josy Pereira e André Braga. O samba começa já potente, com pegada de gira nos versos “Deu meia-noite, galo canta na calunga, é Xica quem faz macumba, é Xica quem faz macumba, deu meia-noite, começou o canjerê, marafó, mel e dendê, marafo, mel e Dendê”, com o artifício da repetição de versos realizado em dois momentos. Um início carregado que energizou a apresentação para os versos subsequentes, que contam com excelência as faces retratadas de Xica da Silva, como nos versos “Baixei na terra pra contar a minha história, retomar tempo de glória, me dê licença, carrego a força de um grito atemporal, contra a falsa moral, convoco a falange de Valença”, que possuem uma melodia que trilha com beleza as palavras da homenageada. O refrão central “Chama Padilha, Mulambo, que tem demanda, pintaram Xica que manda na tinta da branquitude, eu fiz valer a gente da minha cor, a preta que empoderou as pretas de atitude” possui muita qualidade em sua letra, enquanto melodicamente não se destaca tanto na obra, mas cumpre com correção e teve uma boa passagem. A segunda parte começa mais interessante em sua melodia nos versos “Apesar da dor, do tempo colono, amor imposto, o preço é alforria, por toda Maria que não teve dono”, já sob a narrativa de Francisca. Os versos finais trazem a personagem preparada para sua nova incorporação de forma sucinta, porém precisa nos versos “Encantada, do Orum, nessa casa me apresento, Francisca da Silva, a fúria contra injúria, incorporada, vermelho fundamento, que finda apagamento nessa encruzilhada”. O refrão principal “Vira no santo, Iaiá, virou Salgueiro, nessa canjira, Pomba Gira, aluvaiá, ninguém segura o meu povo macumbeiro, Laroyê, sou eu, Emojubá” teve um desempenho bem mais destacado e manteve a energia até o fim da apresentação. Um samba bastante qualificado que teve uma passagem muito firme e fluida, compatível com a qualidade da obra, com uma torcida que defendeu a composição com entusiasmo.

Viradouro apresenta safra de alto nível e sambas com forte identidade melódica para 2027

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Foto: Júnior Azevedo/CARNAVALESCO

A Unidos do Viradouro promoveu, pela primeira vez nesta temporada, uma noite com os oito sambas concorrentes ao Carnaval 2027 apresentados ao público na quadra. Em um dia marcado por obras de alto nível, a safra apresentada se destacou especialmente pelas melodias, muitas delas com o tradicional “cheiro” de Viradouro, escola reconhecida por levar para a avenida composições de melodias bonitas e marcantes. Além disso, a noite foi marcada positivamente pela organização e pelo ambiente proporcionado pela quadra. O resultado das obras que seguem na competição será divulgado pela Viradouro nesta segunda-feira, às 18h. A seguir, o CARNAVALESCO analisa as apresentações.

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Parceria de Júlio Alves: O samba 11 abriu bem a noite, com boa melodia e um desempenho seguro de Wandinho Pires e Rafael Tinguinha. A composição apresenta uma construção melódica agradável desde a primeira parte e encontra nos refrões alguns de seus principais pontos de força, especialmente pela facilidade de assimilação e pela maneira como ajudam a conduzir a narrativa. Na primeira parte, a letra estabelece rapidamente os elementos centrais do enredo, passando pela saudação a Exu, Nanã, Iroko e pela história de Ananse e do povo Ashanti. A composição consegue reunir diferentes referências da ancestralidade africana sem perder a linha narrativa, conectando memória, oralidade e transmissão do conhecimento. O refrão do meio, com “Korá, Korá! A palavra dedilhada / Encontrou a encruzilhada / Onde versa o contador”, tem boa construção melódica e reforça a figura do griô como guardião da palavra e da memória. A passagem também prepara o desenvolvimento da segunda parte, que ganha força ao abordar a violência da escravidão e o apagamento cultural. Um dos melhores momentos está justamente na retomada da segunda parte, no trecho “Eu ressurgi nos versos garimpados da canção / No verbo, ao vento, feito um trovão”. A melodia apresenta uma virada interessante, criando mudança de dinâmica e valorizando a sequência até “Perpetuando a ancestralidade”. O trecho funciona como uma boa ponte para o refrão principal e concentra uma das passagens mais expressivas da obra. A letra também apresenta uma relação clara com a proposta do enredo ao destacar os itans, orikis, terreiros e a ancestralidade como espaços de preservação da memória. A ideia de que a palavra é capaz de atravessar o tempo aparece de maneira bem construída e desemboca no refrão principal, com “Ogbón ju agbará! Griô!”, expressão que ganha força pela repetição e pelo diálogo com o conceito de sabedoria. No geral, o samba se destaca pela boa fluidez melódica, pelos refrões bem construídos e por uma segunda parte que cresce até chegar ao refrão principal. É uma composição que apresenta a temática do enredo de forma compreensível e encontra seus melhores momentos na construção melódica da segunda parte e na força dos refrões.

Parceria de PC Portugal: O samba 16 apresenta uma melodia bastante fluida desde os primeiros versos, com uma construção que favorece o desenvolvimento da narrativa. A primeira parte encontra um de seus melhores momentos na passagem “No sagrado fundamento / A fé é baobá / Vira folha, corre vento / A memória fui criar”, em que a melodia ganha uma virada interessante e mantém o movimento até “Cada conto é um filho que Nyame semeou”. É um trecho que contribui diretamente para a fluidez da obra e prepara bem a chegada ao refrão do meio. A letra apresenta boas soluções para abordar os diferentes elementos do enredo. A abertura parte do terreiro e de referências como Exu, Nanã e Iroko, avançando para Ananse e Nyame. Na sequência, a figura do griô aparece associada ao Mali, ao djeli, ao balafon e à korá, estabelecendo uma conexão entre a tradição oral africana e a preservação do conhecimento. Outro destaque está na passagem “Dos vissungos nas Gerais, resistência se criou / Voz que cala opressor”, que amplia a narrativa para a experiência negra no Brasil. O samba também consegue construir uma linha entre diferentes manifestações culturais ao citar os terreiros, o jongo e o samba de roda, chegando à afirmação de que “por toda bandeira em cada escola / tem a pele preta, ancestral”. A letra, portanto, não se limita à figura do griô, mas amplia o conceito de ancestralidade para diferentes formas de expressão da cultura negra. O refrão principal é um dos pontos fortes da composição. “É de arerê, meu batuquejê / Canto pra te coroar” apresenta uma construção de fácil canto, enquanto “Griô da pedreira, os filhos do fogo / Meu Quilombo Viradouro” fecha a obra, aproximando o conceito do enredo da identidade da escola. A interpretação de Freddy Vianna contribui para a força desse momento. No geral, é um samba de boa fluidez melódica, com letra consistente e referências bem distribuídas ao longo da composição. Os principais destaques estão na virada melódica da primeira parte, na riqueza das conexões estabelecidas pela letra e na força do refrão principal, que tem boa capacidade de canto coletivo.

Parceria de Claudio Mattos: Antes mesmo de a apresentação começar, o samba 13 já era cantado em alto volume pela torcida, que foi a mais numerosa da noite. A força da arquibancada se estendeu aos segmentos da escola, que cantaram a obra a plenos pulmões durante as passadas. Dentro desse ambiente, Pitty de Menezes e Dodô Ananias conduziram bem o carro de som, mantendo um bom desempenho ao longo da apresentação. Foi um dos destaques da noite. A composição também se sobressai pela melodia, que apresenta boa fluidez e ganha força com a interpretação coletiva. O refrão do meio, ao trazer “Quando o korá ecoou, foi mandinga / Oriki, Bambará, Malinquê / Balafon se mistura ao tambor”, tem uma construção que favorece o canto e amplia a sonoridade do samba ao reunir diferentes referências da tradição africana. Na letra, a parceria desenvolve com clareza a trajetória da palavra e do conhecimento, passando por Exu, Nanã, Ewá, Iroko e Ananse até chegar à figura do griô. A narrativa avança da ancestralidade africana para a experiência no Brasil, com menções ao axé, aos rituais, ao jongo e aos carnavais. Essa construção ganha uma dimensão especialmente interessante quando o samba aproxima a memória ancestral da própria história das escolas de samba. É justamente nesse ponto que aparece um dos grandes momentos da composição: “Lembra quantos enredos já pisaram na avenida? / Um relicário de lembranças esquecidas / Que a minha arte é capaz de revelar pro mundo inteiro”. Os versos valorizam o papel do Carnaval como espaço de preservação e reconstrução da memória, enquanto “Hoje, declamo tais versos feito poesia / São histórias que encontram melodias / Renascidas no sagrado terreiro” fecha a ideia com forte carga poética. O refrão principal mantém a força apresentada ao longo do samba. “Kawó, meu pai Kawó… reina Xangô” tem impacto e boa capacidade de canto, antes de desembocar em “Sou Viradouro, nasci pra fazer história”, conectando a ancestralidade ao orgulho da escola. É uma composição que se beneficiou claramente da resposta da quadra, mas que também apresenta qualidades próprias: boa melodia, letra rica em imagens e referências e um refrão principal de forte apelo. A sintonia entre torcida, segmentos e carro de som transformou a apresentação em um dos momentos mais marcantes da noite.

Parceria de Deco: Mesmo com uma torcida menos numerosa, o samba 9 começou a apresentação já sendo cantado com bastante disposição e encontrou resposta também nos segmentos da escola. A boa condução de Marquinhos Art Samba e Lissandra Oliveira ajudou a manter a obra firme durante as passadas, em uma apresentação que teve na melodia um de seus principais pontos de destaque. A primeira parte apresenta um desenho melódico especialmente interessante a partir de “Eu vi, um ser divino tecer a lembrança / Desafiar e guardar as memórias / Nessas andanças / São tantas histórias”. A sequência ganha movimento e desemboca em “De balafon e Korá, compondo pra eternizar / A palavra de África”, mantendo uma construção que valoriza a narrativa e conduz naturalmente ao refrão do meio. A letra encontra soluções interessantes para abordar a trajetória da memória negra. O refrão do meio é um dos pontos altos nesse aspecto, com “Os branco prendia, os preto rezava / Os branco dormia, preto trabaiava”, utilizando uma linguagem direta para evidenciar a violência da escravidão e a resistência diante das tentativas de apagamento. “Tentaram nos esquecer / Não conseguiram apagar” sintetiza bem essa ideia e dá força ao trecho. Na segunda parte, o samba amplia o conceito de ancestralidade ao passar pela casa de santo, pela baiana, pelo mestre e pelo pavilhão, até chegar à escola de samba como espaço de preservação. O verso “Mantenho as tradições / Por mais de mil gerações / Existo porque há escola de samba” estabelece uma relação direta entre a continuidade da memória e a própria existência do carnaval. Os refrões são outro ponto positivo da composição. O principal, “A Viradouro é griô ôôôôô”, tem forte apelo de canto e conduz a obra ao fechamento com “Ensinamento de pai pra filho”, reforçando a ideia central de transmissão do conhecimento entre gerações. No conjunto, o samba apresenta boa melodia, letra consistente e refrões de fácil assimilação. A força da torcida e dos segmentos, somada à boa condução do carro de som, ajudou a potencializar uma composição que encontra seus melhores momentos na construção melódica da primeira parte e na abordagem direta da resistência e da preservação da memória negra.

Parceria de Diego Thekking: O samba 7 apresenta uma construção melódica de boa fluidez e uma letra que consegue desenvolver o conceito do enredo com imagens fortes e uma narrativa bem encadeada. Desde a abertura, a composição estabelece o ambiente do terreiro e introduz elementos como o fogo, as encruzilhadas, a argila, a árvore da vida e Ananse, preparando o caminho para a discussão sobre memória e ancestralidade. A melodia mantém bom movimento ao longo da primeira parte e encontra no refrão do meio um de seus momentos mais funcionais. “Sou a voz que grita, o falar que teima / A palavra viva na folha que queima” tem força melódica e também resume a ideia da palavra como instrumento de resistência. A sequência “Há quem ouça afronta, eu ouço um Oriki” é uma boa solução para aproximar a tradição oral africana da experiência de resistência apresentada pelo samba. A segunda parte é especialmente favorecida pela interpretação de Pixulé. A leitura do intérprete potencializa versos como “Brasil, menino… escute a sua gente / O africano continente é raiz do amanhã” e “Um pavilhão vai ser linha de frente / E a avenida imponente / Mensageira do meu clã”. O samba amplia, então, a figura do griô para o próprio Carnaval, apresentado como espaço de voz, memória e transmissão de saberes. Outro mérito está na maneira como a composição conecta o samba à ancestralidade sem abandonar a identidade da Viradouro. “O samba é Griô nesse terreiro / Sou eu, preta ancestralidade / Vim contar minha verdade / No enredo dos enredos” concentra essa relação e prepara um encerramento coerente com a proposta. O refrão principal tem boa força de canto e conduz a um desfecho particularmente eficiente: “Onde quer que eu vá / Pra sempre, sou força que não vai calar / O preceito da memória, o conselho do tambor / Viradouro é Griô”. A conclusão retoma os principais conceitos do samba, memória, resistência, oralidade e tambor, e fecha a composição de maneira afirmativa. É uma obra de boa fluidez melódica e letra consistente, que cresce especialmente na segunda parte com a interpretação de Pixulé. O refrão do meio funciona muito bem, enquanto o refrão principal e o desfecho dão ao samba uma conclusão forte e bem amarrada ao enredo.

Parceria de Mocotó: Um dos grandes destaques da noite, o samba de Mocotó e Cia teve uma apresentação vigorosa, impulsionada por uma boa resposta dos segmentos da escola, que cantaram a composição durante a passagem. O carro de som, comandado por Bruno Ribas, também apresentou bom desempenho, sustentando uma melodia diferenciada e de boa fluidez, com nuances especialmente interessantes na primeira parte. A obra estabelece sua identidade logo na abertura, com a saudação “Agô, bate palma de macumba / Pra saudar dono da rua”, criando uma entrada de personalidade e diretamente conectada ao universo do enredo. A melodia mantém o movimento e encontra seu maior destaque no refrão do meio, que apresenta ótima construção, facilidade de assimilação e uma sonoridade bastante agradável para o canto coletivo. A letra é outro ponto forte. As referências a Ananse, à cabaça, ao griô, ao baobá, ao korá e à ancestralidade são apresentadas de maneira clara, construindo uma linha coerente entre memória, oralidade, resistência e transmissão do conhecimento. É uma composição que consegue dialogar muito bem com o enredo sem tornar a narrativa excessivamente complexa. Na segunda parte, aparecem alguns dos versos mais interessantes da obra, como “Carrego na minha cor / Verbo eternizado” e “Sagrado é guardar os segredos / Pro mundo saber”. A sequência ganha ainda mais força ao transformar a escola em espaço de preservação da memória: “Samba escola viva entidade / Arquivo da memória preta / Grito à ancestralidade”. O refrão principal é forte e aposta na repetição da expressão “Ê káàlẹ̀”, chegando a “A Viradouro é sangue de griô”, verso que sintetiza de forma direta a relação entre a escola e o conceito central do enredo. Com letra excelente, melodia diferenciada e refrões de forte apelo, o samba se mostrou uma composição bastante completa. A apresentação vigorosa, aliada ao canto dos segmentos, potencializou uma obra que reúne qualidade poética, fluidez melódica e boa capacidade de comunicação com o público.

Parceria de Felipe Filósofo: O samba 8 apresenta uma proposta mais melódica, com uma linha que privilegia o desenvolvimento da narrativa e encontra no refrão principal seu momento de maior força. A apresentação foi regular, com uma condução que manteve a composição organizada, embora sem alcançar o mesmo impacto em todos os momentos. A letra estabelece desde o início uma relação entre memória, oralidade e ancestralidade. “Busco a memória da terra numa prece / Palavra feita a barro não se esquece” é uma passagem que sintetiza bem a ideia de preservação do conhecimento, enquanto “É fio da narrativa / Na cabaça a herança viva / A teia que te ensina a existir” retoma a simbologia de Ananse para reforçar a transmissão dos saberes. O refrão do meio amplia essa trajetória ao apresentar o Mali e a figura do griô como conselheiro e guardião da memória. A passagem “Tenho o dom de aconselhar / Ergui reinados nos acordes do korá” valoriza a importância da palavra e da música na construção das sociedades africanas. Na sequência, a letra faz a travessia para o Brasil e aproxima a ancestralidade africana dos terreiros, da dança e da resistência negra, culminando em “Faço coro na luta do preto que não se cala jamais!”. A segunda parte também constrói uma boa ponte narrativa para o refrão principal. Ao afirmar “Renasci escola de bamba, arte brasileira / Reacende o carnaval que não acaba quarta-feira”, o samba desloca o conceito do griô para o universo das escolas de samba e prepara a chegada da identidade da Viradouro. O refrão principal é o grande destaque da composição. “Sou Viradouro, Griô do Samba / Dinastia de Rei Xangô” apresenta força e boa capacidade de canto, enquanto “Vou contar meu enredo / Que a pedreira ensinou” encerra o samba retomando a tradição oral e a identidade da escola. No conjunto, é uma obra de perfil mais melódico, com letra consistente e bons recursos de construção narrativa. A apresentação foi regular, mas o samba encontra seus principais méritos na abordagem da memória e da ancestralidade, na boa ponte para o refrão e, principalmente, na força do refrão principal.

Parceria de Lucas Macedo: O samba 15 fechou muito bem a noite e apareceu entre os destaques da disputa deste sábado. Cantada pelos segmentos da escola, a obra contou com uma condução segura de Charles Silva e Dudu Nobre e apresenta uma estrutura bem dimensionada, sem excessos que possam comprometer o rendimento na avenida. A fluidez é uma de suas principais características. A primeira parte é um dos pontos fortes da composição. Desde a abertura, “Ê Laroyê! Ô Corre Gira!”, a melodia estabelece uma cadência própria e conduz com naturalidade a narrativa. O samba mantém esse bom movimento e encontra no refrão de meio um recurso melódico diferenciado, que quebra a dinâmica e acrescenta um caráter mais dançante à obra, favorecendo o envolvimento de quem canta. Na segunda parte, a composição muda de atmosfera e passa a trabalhar uma melodia mais melodiosa e dolente. A alteração de dinâmica valoriza versos como “Toda cicatriz foram pedras no caminho, liberdade” e “Itãs e Orikis fundamentam meu terreiro, ancestralidade”, criando um momento de maior carga emotiva e evitando que o samba siga por uma única linha melódica. O refrão principal aposta na repetição de “I Ni Baraji Djeliba Griô” e conduz a obra para um fechamento bastante eficiente: “Viradouro vira verso / Cada verso vira vida”. De fácil assimilação, o trecho reforça a relação entre a figura do griô, a palavra e a própria escola. No conjunto, é uma composição bem arquitetada, com ótima primeira parte, um refrão de meio que apresenta recurso melódico diferenciado e uma segunda parte capaz de mudar a atmosfera do samba. A boa resposta dos segmentos e a segurança do carro de som ajudaram a potencializar uma obra que terminou a noite em alta.

União de Maricá: sambas apostam na força de Darcy Ribeiro em disputa que já revela favoritos

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Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A União de Maricá deu início ao concurso em busca do hino que embalará o Carnaval 2027. A escola abrirá o primeiro dia de desfiles com o enredo “Utopia Brasil: Darcy Ribeiro”, que conta a trajetória do antropólogo e idealizador da Marquês de Sapucaí, Darcy Ribeiro. Doze sambas concorrentes foram apresentados na quadra da escola, em Maricá. Confira, a seguir, a análise do CARNAVALESCO sobre os classificados.

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Parceria de Moacyr Luz: O samba foi cantado por Tinga, Charles Silva e Matheus Gaúcho. A composição também traz uma abordagem mais descritiva, mas se distingue por suas primeiras estrofes, que resolvem imediatamente diferentes aspectos do enredo, desprendendo-se da literalidade e da cronologia fiel, dando maior profundidade criativa: “Desperta pra sonhar / Menino na janela do Divino / Já raiou sua missão / Quando o império desatino / Utopia no destino / Cai na indignação”. Em seguida, a obra toma um caminho aguerrido e de melodia pujante, com o principal destaque no refrão: “Meu país é Maricá / Utopia mãe gentil / Nunca pare de lutar / Pra mudar esse Brasil / A vitória popular / Nessa pátria tão hostil / É o educar um filho / Da mãe solo que pariu”, por sua força melódica, poética e alto potencial de identificação, que se refletiu no canto forte e no bom funcionamento do trecho em todas as passadas; e os versos “tantas peles eu vesti… para que todo favelado vá sonhar como Darcy”, bem executados pelos cantores, que trabalharam a valorização melódica e trouxeram à vida a força que o verso tem por natureza. A composição consegue trazer a utopia de Darcy para uma realidade social mais concreta, especialmente ao aproximar seu pensamento da educação e da vida da população. Outro destaque é o refrão “ergue a zambi um monumento, nessa praça um fazimento coroando Rei Zumbi”, em relação ao monumento a Zumbi dos Palmares, na Praça Onze, bem próximo ao Sambódromo, ambos criações de Darcy Ribeiro, que dialogam profundamente e trazem um peso em coerência e identificação a um samba que é candidato a ser cantado na Sapucaí. A parceria teve uma torcida numerosa e animada, com bandeiras, embora nem todos cantassem o samba, mesmo no refrão. A energia, porém, ultrapassou a torcida e conseguiu contagiar muitos dos presentes nas mesas e camarotes, tornando-se um ponto quente da noite. Passistas também estavam junto à torcida. Também trouxeram efeitos cênicos, como tiros de fumaça e fogos indoor. A performance teve um bom rendimento.

Parceria de Diogo Nogueira: O cantor oficial da parceria, Pitty de Menezes, não esteve presente na apresentação. A obra traz uma das abordagens mais diferenciadas propostas nesta safra. Também em tom aguerrido, agora o próprio Darcy é narrador na parceria de Diogo Nogueira. O trecho “De tudo isso é que eu nunca fui omisso. A feira, a festa, a cada rua o compromisso, de enxergar este país qual procissão” se destaca pela força lírica, além de uma abordagem contextualizada a passagens da infância de Darcy, que, quando trabalhadas dentro de seu significado para a narrativa e não em ordem cronológica, tomam maior força coesiva. Outro trecho que tem um potencial forte de identificação é “minha missão eu encarei de peito aberto, no lado do coração que sempre foi o lado certo”, pelos significados em entrelinhas; e vale destacar o peso lírico do refrão “se é pela nossa gente, nós não vamos recuar. Clamo ao povo brasileiro: ouça a voz da Maricá! Subversivos, nos seguimos nas trincheiras, pois a luta é a vitória de quem tem uma bandeira”, muito forte e político. A torcida era menos numerosa, também empunhando bandeiras, mas pouco expressiva ao longo da apresentação, sem cantar o samba, o que deixou a apresentação com pouca energia. A apresentação teve um rendimento regular, passando fria pelos presentes.

Parceria de Sandra Sá: Defendida por Emerson Dias, a composição também traz Darcy Ribeiro contando a própria história. Apesar de se ater a cronologia da sinopse em certo nível, não traz uma abordagem literal prezando pela poesia, como nos versos “Cresci sonhando ser coroado / Em plena Festa do Divino / A utopia no olhar de um menino/pela janela da esperança” que se destacam por trazer com beleza e criatividade uma boa síntese da proposta. A melodia que embala a composição traz a força necessária á sustentação dos versos. O principal destaque lírico está no refrão “Rodeia as matas de Tupã e da Jurema / Na pajelança aprendi o ritual / Quando o mal da covardia me condena / Eu viro flecha com veneno de coral”. A imagética criada no verso ‘flecha com veneno de coral’ mostra sua força ao condensar a experiência de Darcy junto aos povos indígenas, sua defesa dessas populações e o enfrentamento à violência política. O trecho funcionou bem durante a performance. A composição também apresenta um olhar aguerrido para a trajetória de Darcy, especialmente ao tratar de alguém que sonhou desde criança com um Brasil melhor, mas viveu justamente os conflitos e violências de um país que não realizou essa utopia. Isso se torna claro em “Sem medo vejo que não fracassei / Almejei o florescer dessa nação / E quem tentou me derrubar e me vencer / Sumiu da história e não virou enredo, não”. O trecho reescreve a história, recriando e rebatendo um pensamento famoso do antropólogo: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. (…) Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”, sendo um dos destaques criativos da composição. Outros versos que valem destaque são “É Sapucaí que me arrepia / Muito prazer, eu sou Darcy, o criador”, verso de forte potencial por apresentar ao público uma informação nem sempre conhecida sobre Darcy: sua participação na criação do Sambódromo. Além da letra de tom esperto e jocoso, tem uma boa melodia, embora seu potencial não tenha sido aproveitado ao máximo na apresentação, sem dar a força equivalente ao verso. O refrão principal é um dos mais fortes liricamente que passaram pela quadra nesta noite, aguerrido e que chama a comunidade maricaense: “Maracanandê, Maracanandê / Pisa forte, Maricá vem com sede de vencer / Maracanandê, Maracanandê / Pra fazer revolução ninguém pode se render”. Na apresentação, havia pouca torcida organizada, mas a exibição conseguiu contagiar alguns dos presentes na quadra, até mesmo integrantes do carro de som. O rendimento foi regular, com destaque para o refrão principal que começou a se fortalecer a partir da segunda passada.

Parceria de Andreia Werling: Cantado por Pixulé, a composição se constrói de forma mais livre, mesmo seguindo a cronologia proposta pela sinopse. O início já estabelece essa perspectiva: “Brasil abre a cortina do seu coração / Mostra ao mundo a sua nação / Que é o povo brasileiro / Nas gerais, no chão do sertão / Com sonho de ser imperador / Nasceu Darcy Ribeiro”. Nele também se cria uma imagética das “peles” e da Festa do Divino como forma de construir a transformação do menino Darcy: “Ecoou o canto da floresta, Kadiwéu, urubu-ka’apor. Do arco e da pena brotou o gigante, que do Xingu foi defensor. UNB, inspiração. Do exílio, a criação. Dos CIEPs fez um ideal, sonho: mãe-terra plural”. O refrão é um dos destaques, por sua força lírica e criativa: “É tambor de guerra / É tambor de axé / Embala a rede / Levanta a maré / Do som da resistência / A voz que surgiu / Maricá, Utopia Brasil”, além de ter demonstrado sua potência com o público. Durante a apresentação, a torcida levou bandeiras, e a Velha Guarda veio acompanhar na frente do palco. Apesar do bom desempenho do carro de som e de um rendimento ok, houve a impressão de que o volume do carro de som não estava bem ajustado, com o cantor de apoio muito alto, se sobressaindo. Além disso, houve uma leve quebra na fluidez da execução na primeira passada, como fruto de pouca familiaridade com a letra.

Parceria de Mestre Poraquê: Defendida pelo próprio Mestre Poraquê, a obra traz uma abordagem narrativa da trajetória de Darcy, com um olhar mais livre sobre a sinopse, como destaca o trecho: “Trocar de pele é nossa essência. Meu país é resistência, emana ancestralidade. Contar a história de um sonhador que foi nosso professor, ensinando brasilidade”. A melodia é igualmente vibrante. A apresentação teve muita energia, já de início. Nas duas primeiras passadas, porém, a cabeça do samba apresentou problemas de desempenho, com o carro de som desencontrado na execução, que se alinhou posteriormente. A exibição trouxe um dos destaques da noite: um dos refrões mais cantados foi o principal: “Yvy marãe, yvy marãe, o Brasil que Darcy sonhou. Yvy marãe, yvy marãe, a União de Maricá eternizou”, que ganhou força ao longo da apresentação e contagiou os presentes, até mesmo membros da equipe criativa. A performance teve um bom rendimento.

Parceria de Magnum Amado: Marquinhos Art’Samba deu voz à composição da parceria de Magnum Amado. A obra também traz Darcy Ribeiro contando sua própria história em tom sensível, como nos trechos “Fui reizinho nos golguedos, coroado em poesia. Dona Fininha em seus braços me embalava tanta ternura que guardei na travessia”. Vale destacar também a beleza poética de versos como “feito boiúna, me entranhei na mata, mergulhei nas águas”, que traz o imaginário indígena ao abordar a relação tão próxima do pensador com os povos; e “Brasil, moinho de gastar gente”, que exalta o caráter aguerrido da composição. Outro ponto alto é o refrão “Voa, acanã, pássaro guerreiro. No avesso de avá, sou Darcy Ribeiro. Canta, acanã na pura eufonia. Destrói com seu canto a extrema agonia”, que foi bem recebido pelo público, se destacando até mais do que o refrão principal, e a repetição dos versos foi responsável por intensificar o rendimento. Apesar dos destaques, a falta de intimidade geral do carro de som com a letra interferiu na fluidez e, consequentemente, na energia da performance. Sem diminuir o valor e a beleza da interpretação, a canção poderia ter sido mais valorizada. A parceria trouxe uma torcida pequena e tímida, sem canto expressivo, e teve um rendimento regular.

Parceria de Jô Borges: Com a ausência de Wander Pires e Wandinho, o samba foi defendido por Roger Linhares, Alexandre Simpatia, Jô Borges e Cacau Souza. A canção traz um dos destaques líricos da noite ao abordar o tema como o Brasil cantando para Darcy Ribeiro. Começa potente nos versos “Eu sou um pai assim / Tenho tantos filhos, mas não consigo cuidar / Tão bocado a um, mas eu reservo pra mim / Aos preferidos e não posso negar / Um deles tá aqui / Sangue de caboclo / Menino Darcy”. A composição consegue sintetizar grandes ideias do enredo em poucas imagens. “Pele Montes Claros, tatuam no Brasil / Vivos num império imaginário riscado de giz” concentra a infância, a utopia de Darcy, seu desejo de transformar o país e a educação como instrumento dessa transformação. Outro destaque está no trecho em que o Brasil reconhece aquilo que Darcy projetou para o país: “Eu seria tão melhor se andasse no seu caminho / Ajudar os seus irmãos, dar estudo e carinho / Espalhando o saber em catedrais feitas de concreto / Minha neta no cerrado / Legado de um futuro incerto / Tão perto, tão longe de mim”. A sequência ainda passa pelas “fardas e gravatas”, pela volta do exílio, pelo ensino integral e chega à avenida: “Nessa avenida, mestre imortal”. O refrão é simples, mas traz um potencial de identificação e de provocar canto da comunidade ao incluir uma frase já bem utilizada pela escola na divulgação do enredo: “O povo brasileiro vai tomar a passarela / Meu nome é Brasil e posso afirmar: / Essa utopia já nasceu em Maricá”. Mesmo com pouca torcida e debaixo de chuva, a apresentação conseguiu contagiar alguns dos presentes e teve bom rendimento. Entretanto, as variações melódicas interessantes que abraçam a composição poderiam ter sido melhor trabalhadas e valorizadas na execução, trazendo para fora o brilho que a obra carrega por natureza.

Opinião: Parceria de Richard Valença vai melhor, mas Paulo César Feital também é favorito na disputa da Mocidade

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Foto: Allan Duffes/CARNAVALESCO

A Mocidade Independente definiu seus sambas finalistas no último sábado quando realizou sua semifinal, na quadra da Vila Vintém. Quatro sambas foram classificados: Richard Valença, um pouco à frente na disputa, travará um duelo com Paulo César Feital. O terceiro classificado é o samba da parceria de Jefinho Rodrigues, que oferece uma versão alternativa. Para compor a final, o samba de Léo Perez foi classificado. A Estrela-Guia de Padre Miguel será a primeira escola a desfilar na segunda-feira do Carnaval 2027 com o enredo “Latinamente Independente – Nosso norte é o Sul em Remanifesto”, desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos.

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Parceria de Richard Valença: O samba composto por Richard Valença, Orlando Ambrosio, Renan Diniz, Jorginho Via 13, W. Corrêa e Cabeça do Ajax traz sacadas muito inteligentes ao longo da bela letra. A começar pelo pré-refrão, que abre caminho para um refrão contagiante, para cima, totalmente dentro do enredo, e “o mapa que vira, virou” é uma sensível e espetacular referência ao lendário samba-enredo da Mocidade. Letra direta e reta. Põe o enredo na atualidade, faz conexões rápidas com a história recente da América Latina, tomando partido do enredo para defender as ameaças que o bloco enfrenta atualmente. O bom refrão do meio traz uma melodia muito bem trabalhada em “viva a revolução”, trazendo o componente de volta ao samba. Na segunda estrofe, a referência aos Estados Unidos passa despercebida no canto, mas faz presença na letra em “se alguém ‘USA’ um pé de gente”, exibindo a riqueza poética e, também, de detalhes com os quais os compositores se preocuparam ao compor o samba. A letra e a melodia vão ao encontro de um enredo manifesto, mantendo um posicionamento forte em ideias muito interessantes ao longo do samba. No início, o trecho “samba originário canibal, que tem fome de reparação” é um verso de extrema qualidade, que abre uma estrofe politicamente potente. Durante a apresentação, o samba teve um ótimo rendimento. Os cantores liderados por Tinga e Tem-Tem Jr. conduziram o canto forte e uma bela passagem pelo palco. O trecho mais cantado, além do refrão, é o ótimo pré-refrão. O trecho “viva la revolução”, no refrão do meio, também é entoado com força pela torcida. Quando o canto foi jogado para a torcida, ela sustentou o andamento, e a obra passou com vigor pela semifinal. A parceria de Richard Valença vai à final como uma das favoritas.

Parceria de Paulo César Feital: O samba composto por Paulo César Feital, Alex Saraiça, Denilson do Rosário, André Russo, Carlinho da Chácara e Fábio Bueno dá musicalidade ao tom de manifesto do enredo da Mocidade. A parceria coloca os povos originários latino-americanos como protagonistas da obra, sem deixar para trás os temas atuais do continente, ao fazer referência à soberania, no refrão do meio, e às terras raras, na segunda estrofe. Vale destacar que o samba volta à fórmula que a Mocidade tem insistido nos últimos anos, que é fazer referência ao passado da escola, embora as referências às letras de 2017 e 2022 não estejam tão no passado assim. Porém, não deixa de ser um mecanismo bastante usado na escola para ganhar a simpatia da torcida e dos componentes. O refrão principal é interessante e dialoga perfeitamente com a sinopse ao lembrar Oxóssi, quando, no texto, convoca a América Latina a organizar um levante pelas flechas do orixá caçador. No entanto, ele se desconecta do continente para fazer referência direta ao Brasil. Ao dizer “o meu norte sempre foi, nossa pátria mãe gentil”, há perda de coerência em um enredo que se refere ao sul como continente, não como país. No refrão do meio, existe referência ao Pindorama, mas ele não se desvirtua do enredo, pois trata a terra como quilombo dos saberes e não como parte principal da obra cantada. Melodicamente, a composição é fácil de cantar, tem o jeito Mocidade de desfilar e favorece o canto do componente, para momentos de explosão durante as passadas. E foi exatamente o que aconteceu durante a apresentação. O samba mais cantado da semifinal pela quadra foi conduzido no palco por Zé Paulo Sierra, que cumpriu bem o papel de levantar o público e inflamar a torcida. O público respondeu muito bem quando foi acionado para cantar o samba sem o auxílio dos cantores. Inclusive, os intérpretes foram para o meio do povo quando o canto foi jogado para a quadra. Em um ótimo andamento, não foi identificada queda de rendimento durante a apresentação. É mais uma parceria que vai à final como favorita a ser o samba da Mocidade em 2027, mas será preciso atenção à letra do refrão principal, em caso de escolha.

Parceria de Jefinho Rodrigues: O samba da parceria de Jefinho Rodrigues é um feijão com arroz muito bem temperado e oferece o melhor refrão principal entre os concorrentes. A obra assinada por Jefinho Rodrigues, Xande de Pilares, Marquinho Índio, Estevão Ciavatta, Cleiton Roberto e Prof. Renato Cunha carrega a alma latino-americana em cada verso. Sem perder o tom de manifesto, a letra consegue oferecer fluidez ao tema, conversando com a sinopse sem ser um copia e cola dela. O refrão principal é um sabor. Ele oferece a musicalidade e a latinidade que o enredo pede. Na primeira estrofe, o convite à revolução é feito com potência, seguido de um grito de liberdade quando diz “e não seremos mais o seu quintal…”. O verso “ai, se se te pego aqui, volto a te devorar”, ainda que esteja na sinopse por seus motivos, destoa da beleza da letra do samba e poderia ter sido dispensado na composição. Irreverente, tem boa resposta, mas parece que está ali encaixado. O refrão do meio e a segunda parte são excelentes para cantar. No refrão do meio, há uma reflexão de futuro. A falta de explosão do canto e a linearidade entre a primeira estrofe e ele, por vezes, comprometem o rendimento do samba, porque não dão elementos para chamar a atenção do componente. Na segunda estrofe, a essência latino-americana está praticamente desenhada. Com poesia rica e muito capricho na composição, a letra casa com a melodia para oferecer uma leveza ao enredo. No fim, a obra não é das mais complexas, nem da poesia mais rebuscada. No entanto, o samba traz a alma do enredo, mas falta a essência de desfile. Melodicamente, o samba apresenta uma confusão no canto no início da segunda estrofe. O compositor trabalhou demais para enriquecer o canto, mas a impressão é de que passou do ponto. Até ali, o samba apresenta uma melodia linear demais; o excesso na segunda estrofe faz falta no restante do samba. A apresentação, entoada por Wander Pires, foi boa. A torcida respondeu bem, e foi o samba que algumas baianas e alguns passistas acompanharam. Mas parece correr bem por fora nesta final.

Parceria de Léo Peres: O samba da parceria de Léo Peres, também assinado por Leandro Fregonesi, Felipe Pires, Rogerinho, Wilson Paulino e Bruno Serrinho, mostra um refrão principal interessante. Mas falta força e, sem ela, não cativa muito quem não está na torcida. Não é questão de explosão, que falta também. Mas falta força para abrir um samba. É linear e calmo demais. O refrão do meio é bom. Ele tem força, tem letra com excelência poética, usa o “ai se eu te pego” de maneira lúcida e ainda oferece bossa à bateria. É um ótimo refrão de meio. No mais, a letra não vai convocando ao manifesto, não provoca o público. Ela descreve uma América Latina a partir de um inconformismo. O destaque é para o pré-refrão principal. É um trecho que termina muito bem a obra, traz consigo a tônica do samba, que busca, no rebuscado da melodia, a simpatia do ouvinte. Diga-se também que é muito bom ouvir esse samba na quadra, mas o refrão principal e a descaracterização política do manifesto do enredo deixam-no um passo atrás em relação aos favoritos. Durante a apresentação, a torcida tentou, o palco tentou, Bruno Ribas, que conduziu o samba com a excelência de sempre, também tentou, mas a virada do samba não dá energia para o componente. A apresentação foi boa para a quadra, mas este não deve ser o hino da Mocidade em 2027.

Opinião: Parceria de Lequinho é favorita para grande final de samba da Mangueira

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Mangueira apresentou musas para o Carnaval 2027. Foto: Marcos Marinho/CARNAVALESCO

A Estação Primeira de Mangueira realizou no último sábado a semifinal de samba para o Carnaval 2027, e chega à sua grande final com a certeza de ter vivido uma das disputas mais acirradas dos últimos anos. Três sambas se apresentaram na noite: as parcerias de Chacal do Sax, Lequinho e Arlindinho. A parceria de Chacal do Sax acabou eliminada, mas as três obras confirmaram o alto nível da safra. Já há algumas semanas a disputa se acirrou entre os sambas de Lequinho e Arlindinho. No canto da quadra, já fica evidente que a parceria de Lequinho desponta como favorita na final: um samba cujo refrão, cantado com força pela torcida e segmentos, fez ventar o Palácio do Samba. Em 2027, a Mangueira levará para a avenida o enredo “Oyá por Nós”, assinado pelo carnavalesco Sidney França, e será a escola a encerrar o Carnaval 2027. A escola define seu samba-enredo no próximo sábado, dia 05 de setembro. Abaixo, a análise do CARNAVALESCO dos dois sambas finalistas.

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Parceria de Lequinho: Tinga comandou a excepcional exibição do samba da parceria de Lequinho, Junior Fionda, Gabriel Machado, Orlando Ambrósio, Guilherme Sá e Paulinho Bandolim. Mais uma semana, a torcida levou o samba no gogó antes da apresentação no palco começar. O refrão principal fez ventania no Palácio do Samba, sendo fortemente cantado pela torcida e por diversos segmentos da escola. “Oyá Tetê Oyá Tetê Oyá / Oyá Tetê Oyá Mangueira Yabá / Ê mamãe, traz de novo teu axé / relampejou pra vitória, Motumba Lè” é um refrão aguerrido que, em todas as passadas, é cantado com extremo vigor. E entrega para a primeira parte um canto potente na defesa do samba. Nesse momento, a obra apresenta Oyá como uma orixá feminina e fala de sua multiplicidade, sendo bem cantado o trecho: “Ah! Eparrey meu povo é trovoada / O tambor do recomeço quando vira encruzilhada”. O refrão do meio “Ya Mesan Orun, treme terra, desce o morro, sobe o run, é guerra, bate o Oguê que o sangue tem Dendê, tá pra nascer quem manda nela” obteve bom rendimento nas passadas, inclusive quando apenas o público cantou. A segunda parte, como vem sendo apontado pelo CARNAVALESCO desde as outras semanas, possui uma ruptura melódica arriscada e interessante no momento “é que eu sou preta, macumbeira e de Oyá / sou ventania que ninguém pode afrontar / colo de Ketu, solo do gueto, força de Orixá”, que vem logo após o verso “porque não existe macho que levante a mão pra mim”. Justamente no momento em que o samba experimenta mais a melodia, a letra traz frases de fácil entendimento, que são cantadas acompanhadas de movimentação corporal. O refrão principal volta explodindo a quadra da Mangueira, e impressiona porque em nenhum momento dessa apresentação caí, ao contrário é cantado com muito vigor sempre. O carnavalesco Sidney França pediu um samba que fosse “primeiro para sentir, depois para entender” e a Mangueira sentiu a obra e ventou junto. Excelente performance de Tinga, que a todo o tempo trouxe o público junto com o samba. Grande favorita na final de samba.

Parceria de Arlindinho: Victor Cunha defendeu o samba da parceria de Arlindinho, Paulo César Feital, Pedro Terra, Tomaz Miranda, Herval Neto e Igor Leal. Evandro Malandro, que costuma comandar o samba, não esteve presente. A torcida entrou ao som de atabaques e com incensos acesos cantando pontos dedicados à Oyá. O refrão principal é cantado com muita força pela torcida e por alguns segmentos da escola. No entanto, a adesão do público ao canto, com exceção da torcida da parceria, que cantou muito animada, era menor em relação à parceria do samba 08. O refrão do meio “Ô gira a saia vai começar o xirê, bate cabeça / É noite de tempestade, varre a maldade, derrama o poder / Oyá Tetê é tempo de liberdade” conta uma bonita melodia, mas passou sem grandes destaques com relação a outros momentos do samba. Na segunda parte, o verso “O meu ori é seu e o nosso axé venceu” é cantado com emoção pelo público, que se sustentou bem nas passadas sem bateria, e entrega pujança para o refrão principal. Excelente refrão principal que fecha muito bem com o verso “amanheci campeã”. Com o andar da apresentação, o refrão principal perde um pouco de vitalidade no canto. Uma ótima apresentação. Essa parceria é uma das parcerias que despontou desde o início da disputa, e acirrou com o samba 08, chegando ao fim da competição como um grande samba do ciclo 2027 da Mangueira.

Do griô à Academia: Liga-SP cria novo espaço para eternizar o conhecimento do samba paulistano

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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

O sábado foi de comemoração na Fábrica do Samba, Zona Oeste de São Paulo. Na data, o local sediou o Jantar Dançante em comemoração aos cinco anos do Departamento das Velhas-Guardas da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (Liga-SP). Com diversas homenagens a baluartes do samba, a celebração teve, também, falas importantes de grandes sambistas paulistanos. Sempre presente em eventos importantes para a comunidade do samba de São Paulo, o CARNAVALESCO conversou com nomes fundamentais para a folia paulistana.

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Respeito e celebração

Presidente da Liga-SP, Renato Remondini, popularmente conhecido como Tomate, sempre destacou em entrevistas que espera ter como legado do mandato à frente da instituição a valorização do sambista. De acordo com ele próprio, tal evento apenas confirma tal intenção: “Eu falo muito do sambista! Fazemos eventos como esse para valorizar quem nos proporcionou estar aqui hoje e pensar no nosso futuro. A gente, o ano passado, com a criação do desfile das escolas de samba mirins, conseguimos algo muito bom: nesse ano, as escolas se mobilizaram muito mais. A ideia do futuro com os griôs é a preocupação da Liga-SP e tem que ser a preocupação da Liga-SP. Nos cinco anos de Velha Guarda, eles mereciam essa celebração. É a primeira festa que a Liga-SP faz efetivamente para eles. Já é o segundo ano que a gente faz o Dia das Mães Baianas, algo que também não tinha. É continuar valorizando o sambista com os pequenos detalhes. Como eu sempre digo para vocês, tem muita coisa para fazer, vai ter muita gente ainda insatisfeita, mas a gente está tentando. A gente está tentando aos poucos melhorar, corrigir, modificar e, sobretudo, valorizar e respeitar. Mais importante do que o menu que você vai comer é você ter um prato limpo para você poder fazer a sua refeição. Isso é o respeito”, metaforizou.

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O presidente também explicou qual foi a concepção do evento, citando a atual secretária da instituição: “A nossa equipe, especialmente a Letícia Ferraz junto com a equipe da Velha Guarda, teve essa ideia para fazer uma homenagem a eles. No ano passado, nós levamos eles para passear de trem, levamos eles para Pirapora do Bom Jesus. Nesse ano, a gente está fazendo uma festa. No dia 12 de setembro, a gente vai levar eles para Aparecida do Norte e também vamos para Pirapora do Bom Jesus de novo esse ano. Como eles são muito vaidosos, e são bem das antigas mesmo, com aquela história de ir na quadra de uma coirmã de social, de traje de gala. Eles pediram para fazer a festa com o traje social. Eu disse que a festa era deles, eles fazem a festa do jeito que eles quiserem. Comigo é só pagar a conta, eu pago a conta e eles fazem a festa para vocês curtirem do jeito que eles entenderem”, brincou.

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Baluartes satisfeitos

Grandes homenageados da noite, diversos integrantes de Velhas Guardas paulistanas elogiaram a atitude da Liga-SP. Raimundo Pereira da Silva, popularmente conhecido como Mercadoria, histórico Diretor de Harmonia do Carnaval paulistano e atualmente na Mocidade Unida da Mooca e presidente do Departamento de Velhas-Guardas da Liga-SP, foi um deles: “Estou sentindo que a Liga-SP está olhando com mais carinho para a Velha Guarda, porque, o objetivo da Liga das Escolas de Samba de São Paulo não é só cuidar do desfile oficial: ela está aqui para cuidar de todos os segmentos que estão dentro do Carnaval. A Velha Guarda, as crianças; e, com isso, o Departamento da Velha Guarda da Liga-SP está fazendo cinco anos. Fomos fundados cinco anos atrás e nós temos o privilégio de abrir o desfile de sexta-feira. Foi uma grande conquista dos griôs! Eu também sou um griô, e muito griô, mesmo. O pessoal do Rio de Janeiro até cobra a gente sobre como conseguimos essa proeza. E nós não conseguimos, deram para nós de graça, já que eles acharam que a gente tinha o direito. Tudo isso graças ao Sidnei Carriuolo, ex-presidente da Liga-SP, com o apoio do atual presidente Renato Remondini, que nos proporcionou essa festa muito grande hoje para comemorar os nossos cinco anos. Ele que nos proporcionou essa festa e a gente está muito agradecido por todos esses cinco anos de trabalho”, destacou.

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Vale destacar que Mercadoria nomeou a sala da Velha Guarda na sede da Liga-SP em evento realizado em junho. O baluarte deu um importante testemunho sobre a relação da Liga-SP com os sambistas mais experientes: “Eu mesmo me assusto de vez em quando com a Liga-SP. Eles propõem algumas coisas que deixam a gente maluco! Tem dia que eles levam a gente de manhã cedo, nove horas da manhã, para a Paulista, e a gente adora atividades assim. Agora em outubro nós temos uma grande festa, a Festa das Crianças. São cinco, seis mil pessoas aqui dentro da Fábrica do Samba. Tem, também, viagem para Aparecida do Norte daqui a pouco. O trabalho que a Liga-SP está fazendo, não só para o desfile, mas para toda a comunidade sambística de São Paulo”, disse.

Outros dois nomes históricos da folia paulistana se mostraram bastante felizes com a festividade. Aclamados como Casal Soberano, Gabriel de Souza Martins e Venézia Almeida Martins, popularmente conhecidos como Mestre Gabi e Vivi Martins, destacaram o formato do evento: “Esse jantar é um jantar mais que especial! São as pessoas que começaram tudo, que tem todo o nosso respeito. Eu também já me incluo no meio! Nós estamos aqui, estava até comentando com o Gabi, lembrando dos bailes antigos, tocados com orquestra. Nossa, é maravilhoso! É algo que a gente já não vê mais, infelizmente”, pontuou Vivi.

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Mestre Gabi exaltou os mandatários responsáveis pelo reconhecimento dos baluartes paulistanos: “Eu quero até fazer alguns agradecimentos: tudo isso acontece porque o nosso presidente Sidnei, que esteve anteriormente, deu essa luz. Quando a gente viu aquela luz no fim do túnel, o presidente Sidnei deu aquele avanço. E, agora, o nosso presidente Tomate está fincando a bandeira do samba com as Velhas Guardas. O novo não existe se não tiver o velho. É maravilhoso! Um jantar desses daqui é uma coisa muito gratificante. Nós, que já temos mais de 70, ficamos lisonjeados”, agradeceu.

Vivi aproveitou para pontuar os benefícios das ações da Liga-SP para duas faixas etárias distintas: “Tenho a impressão que a Liga-SP está olhando mais para o departamento da Velha Guarda, que é o ensinamento. Embora algumas pessoas não estejam reconhecendo, essa é a verdade. Também percebo que a Liga-SP está olhando para as crianças, que são o futuro, o amanhã, a continuidade”, comentou. Mestre Gabi, sucinto, concluiu: “A Liga-SP, nesse aspecto, está no caminho certo!”, comemorou.

Ações que geram frutos

O Departamento de Velhas-Guardas da Liga-SP já é responsável por outros tantos programas dentro e fora do Carnaval. Mercadoria dá mais detalhes sobre um deles: “Esse trabalho está repercutindo em outras frentes: o curso de Medicina da Universidade de São Paulo, com o pessoal de geriatria, tem um projeto para ajudar os nossos griôs e eles querem entender como é que pessoas da idade da Velha Guarda, homens e mulheres, conseguem desfilar e se divertir com todas as peculiaridades que as pessoas de idade têm. E, para eles, está sendo um estudo muito real. É um estudo do momento. Eles estão vendo, eles estão acompanhando a gente. Em cada três meses, tem um encontro para falar sobre a geriatria dos nossos velhinhos, doenças e tal. Está dando um fruto muito grande graças ao samba e estamos aí hoje”, afirmou.

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Já Tomate explicou outra ação idealizada pela Liga-SP que foi apresentada no Jantar Dançante: “Vocês tiveram a oportunidade de ver mais uma forma de reconhecimento para a Velha Guarda. Hoje, também, a gente vai dar start em um projeto digníssimo, maravilhoso. Hoje a gente está reverenciando, enaltecendo e firmando o nosso compromisso para que a gente consiga transmitir cada vez mais o conhecimento da nossa Velha Guarda. Hoje a gente deu o pontapé inicial para a Academia Paulista do Samba. Ela vai ser muito similar à Academia Brasileira de Letras: Todas as cadeiras do nosso auditória serão nomeadas com o nome de sambistas vivos, sambistas de grande relevância para a história do nosso Carnaval. Sambistas que estão na atividade. E são esses sambistas que vão transmitir o conhecimento para as novas gerações. Dentro dessa nossa galeria, lá no nosso grande auditório, nós vamos, também, ter na parede a imagem de sambistas imortais que fizeram muito pelo carnaval e estarão imortalizados nas nossas paredes. A ideia é que essa nossa Academia sirva de aprendizado, de conhecimento constante. E ela vai ser renovada passo a passo: cada um desses sambistas que estiverem com a gente no momento da sua passagem serão imortalizados na parede e a própria Academia nomeará novos membros para que isso seja renovado constantemente”, detalhou.

Próximas datas

O presidente da Liga-SP aproveitou para apresentar à comunidade do samba paulistano parte dos eventos que serão realizados no segundo semestre pela instituição: “A gente tem essa viagem da Velha Guarda para Aparecida, que é uma grande caravana de ônibus. Fica o convite para quem quiser ir: não dá para ir com os ônibus da Velha Guarda, mas pega o carro, vai de van e acompanha a Liga-SP nesse evento. Nós vamos ter o Desfile Mirim, que é no dia 12 de outubro, no própria Dia das Crianças, aqui na Fábrica do Samba. Esse ano com mais escolas com baterias, as escolas da UESP convidadas, escolas do litoral, do interior… todas elas convidadas. Vai ser uma festa maior que o ano passado, com mais escolas e com mais gente. É um dia muito bacana. Vamos ter a Semana da Consciência Negra com várias festividades, várias comemorações e, sobretudo várias palestras, vários seminários, uma didática muito grande para a gente poder falar dessa causa. E, na Semana da Consciência Negra, a gente faz a viagem para Pirapora do Bom Jesus, com uma grande festa no berço do samba”, pontuou.

Outrora chamado de minidesfile, um evento, em especial, teve destaque na explicação de Tomate: “No dia 05 e 06 de dezembro, a festa de lançamento do Sambas-Enredo, dividido em dois dias. Nós vamos ter mais escolas no sábado. No sábado, começando mais tarde: a gente começa o sábado por volta de 17h, 18h e, no domingo, a gente começa às 16h. O critério ficou o seguinte: as escolas que desfilam na sexta do Grupo Especial fazem o sábado, as escolas que desfilam no sábado fazem o domingo. Só as duas últimas do domingo, a Tucuruvi e a Milênio, encerram o sábado, por conta de trocas. Elas encerram o sábado porque segunda-feira todo mundo tem trabalho: se der algum atraso, essas escolas seriam penalizadas. Nos acessos, as cinco primeiras a desfilar no Grupo de Acesso II vão no sábado e as cinco últimas a desfilar no Grupo de Acesso II fazem no domingo. O Grupo de Acesso I é a mesma coisa. Só tivemos uma troca: a Dom Bosco para vir no domingo e a Mancha Verde veio para o sábado”, finalizou.

Gabi Mendes é coroada rainha de bateria da Mocidade e destaca feito histórico: ‘Nunca tivemos uma rainha oriunda das passistas’

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Fotos: Reprodução/Rio Carnaval

Gabi Mendes viveu neste sábado uma noite que ficará marcada na história da Mocidade Independente de Padre Miguel. A sambista foi oficialmente coroada como nova rainha de bateria da escola para o Carnaval 2027 e destacou o caráter histórico da conquista. Oriunda da ala de passistas, ela se tornou a primeira mulher a chegar ao posto de rainha de bateria da Verde e Branco a partir desse segmento. Em conversa com o CARNAVALESCO após a coroação, Gabi ressaltou que a conquista representa não apenas um momento especial em sua trajetória, mas também um marco para a própria escola.

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“É um momento muito marcante na minha vida e na história da escola também, porque nunca tivemos uma rainha oriunda das passistas. Então está sendo algo histórico. O pessoal do samba pediu muito e a Mocidade escutou, acolheu, todo mundo apoiou. Então hoje eu me tornei rainha de bateria, estou muito feliz, vou fazer jus ao cargo e agradeço muito ao pessoal do samba e à comunidade”, afirmou.

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A nova rainha construiu uma trajetória de ascensão dentro do carnaval. Depois de começar como passista, Gabi conquistou o título de Rainha do Carnaval, tornou-se musa da Mocidade e agora assume o posto máximo à frente da bateria. Para ela, a sequência de conquistas é resultado de anos de dedicação à escola e ao pavilhão.

“É o resultado dos esforços, dedicação de não largar a bandeira, o pavilhão, me dedicar e honrar, primeiramente”, comentou.

Exemplo para as passistas

A chegada de Gabi ao posto também ganha significado especial para as jovens que integram a ala de passistas. A sambista passa a representar uma possibilidade concreta de ascensão dentro da escola de samba para mulheres que começam justamente nesse segmento. Questionada sobre a mensagem que gostaria de deixar para as meninas que sonham em alcançar posições de destaque, Gabi foi direta.

“Eu falo para elas nunca desistirem do sonho, porque um dia vai acontecer de você se dedicar, se manter firme, ter fé em Deus, primeiramente. Acho que tudo acontece, acho que é dedicação e seguir o caminho”, afirmou.

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O discurso reforça um dos principais símbolos de sua coroação: a valorização de uma trajetória construída dentro da própria escola. Gabi chega à bateria depois de percorrer diferentes espaços do carnaval e pretende levar essa experiência para o novo reinado.

‘Pode esperar o melhor de mim na avenida’

A expectativa para o Carnaval 2027 já está presente. Depois de conquistar espaço como musa da Mocidade, Gabi promete um reinado ainda mais intenso à frente da bateria.

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“Vai ser incrível, porque já deu para ver meu nome como musa. Agora como rainha, pode esperar o melhor de mim na avenida”, garantiu.

A fantasia que será utilizada pela nova rainha, porém, ainda não começou a ser discutida. Ao ser questionada pelo CARNAVALESCO se já havia procurado o carnavalesco da Mocidade, Gabi brincou: “Ainda não. Não, não”.

Diretor executivo revela bastidores da coroação de Gabi Mendes como rainha de bateria da Mocidade: ‘Ela sempre foi o nosso nome’

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Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

A coroação de Gabi Mendes como nova rainha de bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel representa, para a direção da escola, o resultado de um projeto construído ao longo de anos. Em entrevista ao CARNAVALESCO neste sábado, durante a semifinal da disputa de samba-enredo para o Carnaval 2027, o diretor executivo Bryan Clem revelou que a musa já era preparada internamente para assumir o posto e afirmou que a escolha foi tratada como um desejo antigo da agremiação. Ela assume o posto deixado por Fabíola de Andrade, que agora é rainha da escola. Segundo Bryan, a própria Fabíola já havia indicado Gabi como uma possível sucessora quando assumiu o cargo de rainha.

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“A Gabi sempre foi o nome da escola, desde o princípio. A Fabíola , quando virou rainha, já pediu para a gente ter a Gabi como sucessora do cargo. É um nome que é nosso, que quer trabalhar há muito tempo. Já trabalhávamos com ela como rainha do carnaval, preparando para ser rainha da Mocidade. É um desejo nosso muito antigo”, afirmou o diretor.

A decisão ganhou força quando Fabíola comunicou à direção que precisaria se ausentar por mais tempo. De acordo com Bryan, não houve necessidade de uma longa discussão para definir a substituta.

“Quando a Fabíola pediu para se ausentar um pouco mais por questões pessoais, não teve outro nome. Tanto a direção quanto a Fabíola, o mestre Dudu e o Gustavo Andrade falaram: ‘A Gabi é um sonho para a gente’”, contou.

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Para o diretor executivo, a escolha também representa uma mensagem da Mocidade para a comunidade e para o carnaval. A escola pretende valorizar personagens que construíram suas trajetórias dentro da própria agremiação.

“A Mocidade hoje faz uma história muito bonita. É um ato inédito para a gente e acho que passa um recado muito importante para a comunidade e para o carnaval como um todo. A gente está fazendo um trabalho de colocar a estrela para brilhar como tem que ser, e não é melhor cruzar nossas próprias estrelas. A Gabi é uma estrela muito grande para a gente”, destacou.

Da passista à rainha

Bryan Clem ressaltou que a ascensão de Gabi não aconteceu de maneira repentina. Segundo ele, a Mocidade identificou o potencial da jovem ainda nos primeiros passos dentro da escola e construiu gradualmente sua trajetória.

“Trabalhei com ela há muito tempo. A Gabi chegou como passista. Vimos um potencial enorme nela. É um fenômeno da arte. Preparamos ela para ser rainha do carnaval. Ela ganhou. Falamos: ‘Vamos colocar ela como musa agora, vamos preparar para ser rainha’. Se você pegar a história da Gabi, é tudo um processo de crescimento com ela, com a gente. A gente sabia que chegaria essa hora. Só que primeiro era preciso respeitar a Fabíola sempre”, explicou.

O diretor considera que a trajetória de Gabi pode servir de inspiração para outras meninas da comunidade. “A importância é ser um espelho para todo mundo. É muito legal ver o carnaval cada vez mais dando espaço para quem merece. Que as pautas sejam dessas meninas, do futuro dessas meninas ao redor da Gabi, que realmente se espelham nela. A gente consegue mudar a vida de muita gente”, declarou.

Bryan esclarece relação com Anita

Durante a entrevista, Bryan também esclareceu as circunstâncias envolvendo Anita, que chegou a ser apontada como possível nome para assumir o posto de rainha de bateria da Mocidade. Segundo o diretor, houve, de fato, uma conversa com a artista, mas não existiu um convite formal para que ela ocupasse a função.

“A Gabi está com a gente para ser rainha há muito tempo. O que aconteceu foi uma questão importante de falar, porque às vezes a falta de apuração deixa umas verdades não tão claras para todo mundo. Teve uma conversa com a gente. Ela (Anita) nos procurou para falar sobre o projeto da vida dela. A gente teve uma conversa com ela através de um parceiro nosso para entender a relação dela com a gente. A gente queria fazer um enredo que fosse esse enredo atual. Ela tinha outras ideias de enredo também, que gosta de participar. Por um momento, aquilo não casou com a prioridade dela, nem com a nossa prioridade”, explicou.

O diretor reforçou que Anita é vista como um fenômeno e que a intenção da Mocidade era estreitar relações, inclusive pensando em possíveis projetos futuros.

“A gente teve uma conversa muito boa com ela, mas não bateu martelo para ser rainha de bateria, para gravar alguma coisa. Foi muito mais para aproximar, porque ela é um fenômeno. Para a gente, é muito importante ela ajudar a gente nessa fase de buscar uma cidade, aumentar a parte comercial e tudo mais. Não teve nenhuma conversa após isso. Quando a Fabíola falou: ‘Eu preciso me ausentar um pouco mais’, não teve dúvida. É a Gabi e vamos embora”, afirmou.

‘A marca Gabi Mendes’

Como diretor executivo, Bryan também destacou o papel do marketing na construção da imagem de Gabi. Ele fez questão, porém, de separar a estratégia comercial do talento da nova rainha.

“É difícil falar que ela é um produto do marketing, porque ela é um fenômeno de arte. A Gabi nasceu para ser rainha. Ela tem carisma, talento e o samba, que é fenomenal. A nossa função, comercialmente falando, é potencializar esse talento. Fizemos isso lá atrás como rainha do Carnaval. A gente trouxe ela para trabalhar e falou: ‘Vamos trabalhar ela’. Um produto não se cria de um ano para o outro. Você vai trabalhando com calma no produto. Produto que eu digo, enfim, a marca Gabriela”, afirmou.

O diretor acredita que a chegada ao posto de rainha de bateria representa apenas o início de uma nova fase.

“A Gabriela está aí hoje chegando ao ápice, e está só começando. Eu sei que agora vai abrir muito mais portas para ela e para a escola também. Que ela seja um exemplo para todo mundo, porque ela vai mudar a vida de muita gente. Para a gente que gosta do carnaval, que trabalha com isso, é muito importante ter alguém que tem um DNA, que tem talento e que é natural. A nossa função aqui é só dar suporte para ela poder voar cada vez mais alto”, comentou.

Mocidade quer fortalecer talentos da comunidade

A aposta em Gabi também está inserida em uma estratégia que, segundo Bryan, já faz parte da história recente da Mocidade. O diretor citou outras passistas e musas que chegaram aos segmentos da escola e destacou que atualmente a agremiação conta com três mulheres oriundas da comunidade em seu quadro de musas: Luana, Mayara e Gabi.

“A escola sempre fez isso. Se pegar nossa história, todo ano tem uma musa da comunidade. Em 2017, 2018, 2019, foi Raquel, foram várias que passaram por aqui. A gente tem hoje três meninas da comunidade: Luana, Mayara e Gabi. Se metade do nosso quadro de musas é da comunidade, isso é muito importante. E, virando rainha agora, é cada vez mais fortalecer isso. É óbvio que eu não vou ser hipócrita: é importante comercialmente. Alguns cargos de musa fazem parte do universo do carnaval. Só que saber estabelecer pilares é muito importante. A Mocidade tem um chão muito forte. Como é que eu não vou aproveitar isso? É até uma resposta boa para o mercado: a Mocidade que faz em casa. Eu tenho mestre de bateria que é de casa, tenho rainha que é de casa. Isso é muito importante para a gente”, afirmou.

Vote: Qual parceria é favorita para vencer a disputa de samba da Mangueira para o Carnaval 2027?

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A Estação Primeira de Mangueira definiu duas parcerias para a grande final de samba-enredo para o Carnaval 2027, que acontece no próximo sábado, dia 5 de setembro, a partir das 22h, na quadra da Verde e Rosa. Estão na decisão as parcerias de Lequinho, Júnior Fionda, Gabriel Machado, Orlando Ambrósio, Guilherme Sá, Paulinho Bandolim e de Arlindinho, Pedro Terra, Tomaz Miranda, Herval Neto, Paulo César Feital e Igor Leal. Abaixo, você pode votar. Vamos publicar o resultado na sexta-feira.