Por Leonardo Antan
Em meio a forte crise financeira e identitária que passa o carnaval das escolas de samba, as agremiações da Série A são as que mais sofrem em meios a súbitos cortes de verbas e a falta de estrutura de barracões. Em meio a tantas dificuldades, os
carnavalescos do grupo precisam de o dobro de criatividade e jogo de cintura para materializar seus temas e fazer um bom desfile.
Mas se engana quem acha que com tantas intempéries, os enredos do grupo estejam
fraco ou poucos diversos, pelo contrário, com propostas criativas que vão desde grande homenagens a temas tipicamente brasileiros, compondo um painel multifacetado e pra lá de interessante para quem vai acompanhar o show do grupo de acesso carioca.
Ainda não entendeu algum enredo? Tá perdido? Vem, que a hora se saber de tudo
para a Série A de 2019!
Os vultos e efemérides
É homenagem que vocês querem? Sempre comuns no grupo, as biografias e grandes
tributos a personalidades são um verdadeiro trunfo para conquistar o público e fazer
uma bom desfile. Em 2019, três escolas farão homenagens a nomes importantes da
cultura brasileira, mais do que isso, chama a atenção o fato destes enredos estarem
ligados pelo universo das artes dramáticas. Dois deles são sobre autores negros,
ambos pioneiros em suas áreas, e outro homenageia um dos grandes autores do país.
Na Santa Cruz, a homenageada é a grande Ruth de Souza, pioneira do protagonismo
negro no teatro, na TV e no cinema. Nas telonas, também brilhou Antônio Pitanga, um
dos atores mais importantes da nossa sétima arte que será cantada pela Porto da
Pedra. O desenvolvimento, nos dois casos, chama a atenção pela clareza, ambos
farão um passeio pela obra dos homenageados, falando de filmes, novelas e peças
que ambos fizeram. Aquela receita clássica e sem invencionices, nada mal, pelo
contrário.
Quem propõe uma narrativa diferente é o enredo da Unidos de Padre Miguel sobre o
dramaturgo Dias Gomes, assinado pelo grande enredista João Gustavo Melo, a
proposta vai além de um simples passeio biográfico e pensa o imaginário poética das
obras do homenageado, passeando por suas novelas e peças mais emblemáticas,
aproveitando para fazer críticas ao momento atual do país. O primeiro setor lembrará a
clássica “O pagador de promessas”, debatendo a intolerância religiosa, depois as
grandes novelas do autor cruzaram a avenida, separadas nas tramas rurais e urbanas,
finalizando com seu maior sucesso “Saramandaia”.
Andar com fé eu vou
Um levantamento que chama atenção nos temas que cruzarão a Sapucaí na sexta e
no sábado de carnaval é que a linha preferida dos artistas do grupo foi a de enredos
que versam sobre religião e fé. Nada menos que cinco enredos do grupo, entre treze,
falarão da relação do homem com o sagrado.
Abrindo os desfiles, a Unidos da Ponte retornará a Sapucaí apostando na reedição do
seu samba clássico de 1984, que fala sobre as diversas oferendas aos orixás do
candomblé nagô brasileiro. O enredo não poderia ser mais objetivo, fará um passeio
pelas principais divindades africanas que já estamos muito acostumados a ver na
Avenida. Curimba boa garantida.
Outra escola que falará de religiões afro-brasileiras é a Alegria do Zona Sul, só que ao
invés do popular candomblé nagô-yorubá, muito difundindo nos desfiles, a vermelho e
branco propõe uma exaltação à Umbanda, religião tipicamente brasileira surgida do
sincretismo de europeus, africanos e indígenas. Desenvolvido pelo enredista Diego
Araújo, não faltarão citações aos personagens típicos dos rituais da religião, como a
Pomba-Gira, o Zé Pilintra, os Caboclos e Pretos Velhos. De proposta simples, o tema
pode ser materializado com fácil leitura.
Falou de religiões de matriz africana é impossível não lembrar da intolerância e do
preconceito, infelizmente, mas esse será justamente o tema da Acadêmicos do
Sossego. A escola de Niterói terá como figura central do enredo Jesus Malverde, um
santo não oficial cultuado no México. Sem registros históricos sobre a existência real
da figura, ele é cultuado por narcotraficantes como uma espécie de Robin Hood. É
através desse personagem controverso, que o carnavalesco Leandro Valente pretende
passar uma mensagem contra a intolerância. Resta saber como tudo isso renderá em
quatro setores, a sinopse não dá muitas pistas a respeito.
Continuando na América Central, mas trocando o México pelo Panamá, a Estácio de
Sá traz um enredo que falará da fé católica ao Jesus Nazareno de Portobello, um
cristo negro símbolo do país. Escrito pelo jornalista Daniel Targueta, o enredo passeia
pelo mito de descobrimento da imagem, a festa em sua homenagem e termina
celebrando a união dos povos. Com forte pegada religiosa, o enredo tem os elementos
necessários para um bom desfile da vermelho e branco.
Ainda falando de fé, o enredo mais original nesta linha é o de outra escola de Niterói, a
Acadêmicos do Cubango vai abordar os objetos de fé no enredo “Igbá Cubango: a
alma das coisas”. Assinados pelos talentosos carnavalescos Gabriel Haddad e
Leonardo Bora, os quatro setores vão passear na relação entre homem e o sagrado
através dos ex-votos, passando não só pelos objetos oferecidos em agradecimento
aos santos mas também em objetos como os amuletos de proteção.
Por fim, um enredo que também abordará a religião, de alguma maneira, será o da
Renascer de Jacarepaguá, que vai cantar o “Dia 2 de fevereiro no Rio Vermelho”,
falando da festa de Iemanjá num dos bairros mais tradicionais de Salvador. É verdade
que o enredo passeará ainda por outros aspectos culturais da capital baiana, mas o
mote central será a grande festa sincrética e, com certeza, não faltará uma citação aos
orixás das religiões de matriz africana. O enredo tem uma linha desenvolvimento
simples e funcional que tem tudo para dar certo.
Tem mais variedade ainda…
Se o enredo da Renascer tem a sua pegada geográfica ao cantar a primeira capital do
Brasil, o único tema declaradamente CEP do ano vem da Império da Tijuca. A Formiga
contará a história do Vale do Café, reduto do noroeste fluminense, que conta com
mais de dez cidades que abrigaram grandes plantações do grão no auge do Segundo
Império. Especialista na cultura africana, o carnavalesco Jorge Caribé deu como mote
para o enredo a relação dos negros escravizados que chegaram na região, não
deixando de passar pela fé e pelas festas da região. A fórmula é batida, mas ainda
pode render uma agradável apresentação.
A negritude é tema do enredo da Rocinha, assinado por Junior Pernambucano, o
enredo “Bananas para o preconceito” entra na onda crítica para falar do preconceito
racial e exaltar o povo negro. O enredo passa pelo estigma histórico dos africanos e
exalta figuras como Chico Rei e Abdias Nascimento. A dúvida fica se o tema, apesar
de fundamental e tristemente atual, ganhará novos ares e contornos inéditos para sair
da mesmice.
Saindo do Rio, rumo ao Nordeste brasileiro, a Inocentes de Belford Roxo vai trazer “O
frasco do bandoleiro” sobre a cultura material dessa região. Lendo a sinopse, fica
difícil saber qual o fio condutor da narrativa que versará sobre bijuterias, frascos e
costumes do povo brasileira, mas nas linhas do resumo e no samba-enredo, ganha-se
destaque a figura de Lampião e o uso de joias pelo cangaço brasileiro. Resta saber se
o enredo será de mais fácil assimilação na pista.
Por fim, um dos enredos mais inusitados é o da Unidos de Bangu que vai narrar a
história da batata, o enredo passará pelo Império Inca onde o alimento era sagrado,
passeará pela Europa e chegará ao Brasil. De pegada bem clássica, o enredo não tem
mistérios e resta saber se a história de um alimento tão cotidiano tem uma história
interessante a contar.


É difícil hoje em dia não associar dentro do universo do carnaval carioca e do carnaval de escolas de samba, em geral, a função de porta-bandeira a Selminha Sorriso. Com 30 anos carregando consigo o pavilhão de escolas de samba, desde sua estreia em 1989 pelo Império Serrano, Selminha se tornou uma referência para todas aquelas que sonham um dia defender o pavilhão de sua agremiação. E foi a partir de um sonho lá atrás, ainda menina, que tudo o que desejou virou realidade. Hoje, já são nove títulos conquistados ao lado da Beija Flor e mais um pela Estácio de Sá, logo em seu primeiro ano na escola.
“Eu não falo no sentido material apenas. Sou uma pessoa que levo uma vida simples, mas muito grata, muito feliz, porque eu olho pra trás e sei que os dias foram muito mais difíceis em alguns anos lá no passado. Acho que o carnaval realmente faz uma diferença muito grande na vida de quem leva a sério, de quem se dedica. O samba socializa, as escolas de samba ajudam a socializar, a integrar as pessoas em uma sociedade que às vezes é bem diferente da realidade delas porque o carnaval é visto como o maior espetáculo aberto do mundo. Hoje nós do samba somos respeitados, somos convidados para entrar e retornar e sempre deixamos as portas abertas”.
Gênio, sádico, comunista, subversivo, anarquista, imoral. Ao longo de toda sua carreira, Dias Gomes chocou a muitos com suas histórias e personagens, ganhando assim, todo o tipo de títulos e adjetivos. Dono de um texto crítico, muita vezes ácido, mas sempre com humor acima de tudo. Pai do realismo fantástico, foi o criador de figuras como João Gibão, Dona Redonda, Dirceu Borboleta e Viúva Porcina, que até os dias de hoje, se fazem presentes no imaginário de qualquer brasileiro. Através de microcosmos como Bole Bole, Asa Branca e Sucupira, Dias retratou o Brasil como nenhum outro escritor o fez. E é esse olhar sobre o país, representado pelas obras do autor, que a Unidos de Padre Miguel pretende levar para Sapucaí, em 2019.
“Esse enredo surgiu a partir da necessidade. Já se sabia que 2019 seria um ano de crise, já anunciada por tudo e por todos. Não que falar de Dias Gomes seja menos que qualquer outro tipo de enredo, não é isso. Só que é um enredo que me permitiria, como vem me permitindo, transitar em uma atmosfera artística um pouco mais barata que a dos outros anos, já que é um carnaval onde ninguém tem dinheiro. Nenhuma escola. Escolas riquíssimas estão se rendendo a recursos alternativos. E isso não está sendo diferente com a Unidos de Padre Miguel, que todo mundo diz que é uma escola muito rica. E já era um desejo meu falar de Dias Gomes, eu já tinha essa história guardada. Então, quando surgiu a oportunidade diante dessa crise, eu trouxe a tona essa ideia de levar, não o Dias Gomes propriamente dito, mas o Brasil segundo as histórias do Dias Gomes.”, conta o carnavalesco da escola, João Vitor Araújo.
A reportagem do site CARNAVALESCO visitou o barracão da agremiação, e conversou com João Vitor Araújo sobre os preparativos da Unidos de Padre Miguel, para 2019. Durante a entrevista, João Vitor esclareceu um pouco mais a proposta do enredo da UPM, além de dizer que, durante as pesquisas, chamou a sua atenção descobrir a relação entre o carnaval e o homenageado, Dias Gomes.
“O que mais chamou minha atenção na pesquisa foi que ele era um apaixonado pelo carnaval. Ele era um escritor muito sério, então eu não imaginava que ele tinha esse carinho, essa paixão, pelo desfile de escola de samba. E ele tinha uma atenção enorme para as sinopses de escola de samba. Tanto que quando ele escreveu a peça sobre Getúlio Vargas, ele se baseou no roteiro, como eram chamadas as sinopses na época, de um desfile de escola de samba, no caso, a Mangueira”.
“Foram muitas histórias que ele escreveu. Eu li todos os livros do Dias Gomes para poder transforma isso em enredo. E eu tive de deixar muitas histórias de fora devido ao curto tempo que temos para nos apresentar. Temos pouquíssimos setores, quatro apenas. Fiquei muito triste de ter de deixar “O Santo Inquérito” de fora, a história de Branca Dias, mas eu não pude trazê-lo à tona, porque ele faria parte do primeiro setor. E a história do “Pagador de Promessas”, que será o nosso primeiro setor, já é uma tragédia, porque ele morre ao tentar entrar na igreja. E em “O Santo Inquérito” também. Branca Dias acaba morrendo queimada. Enfim, muita tragédia para um setor só, sem condições. Então tive de deixar essa história que é muito bonita, que é muito famosa, inclusive lançou a Regina Duarte no mercado artístico. E eu não tive condições, não tive como incluir. Fiquei muito triste”.
Os bastidores para o carnaval de 2019 não foram fáceis para as escolas de samba do Rio de Janeiro. Agremiações, de todos os grupos, foram afetadas por cortes de verba correspondentes a metade do valor anteriormente combinado. E se não bastasse à diminuição no repasse, as escolas sofreram com o atraso do mesmo. Na Série A, o drama foi intensificado devido às questões envolvendo a falta de estrutura dos barracões, que agravaram ainda mais o cenário de crise já instaurado.
“É um prazer poder trabalhar na Unidos de Padre Miguel, mas confesso que é desgastante trabalhar no grupo, na Série A, por conta de todo o descaso. Nós não temos um espaço adequado para poder fazer um carnaval. Sofremos muito com as chuvas de fevereiro. Perdemos praticamente uma alegoria inteira dentro do barracão, que teve de ser refeita por causa disso. Isso é tudo fruto de descaso. A gente já não tem uma verba que não é lá essas coisas. Na verdade, isso nem pode ser chamado de verba, tinha de ser chamado de ajuda de custo para o almoço. É um absurdo você conceber um carnaval com 250 mil reais. E exigem tanta qualidade, exigem um padrão altíssimo das escolas da Série A, dizem que tem que ser o novo Grupo Especial… Mas com esse canário, só se for lá na China. Aqui sem condições. Com esse valor que a gente recebe, já é um milagre colocar um carnaval na rua. Isso acaba desgastando. A escola é maravilhosa, as escolas são maravilhosas. Mas a forma como essas escolas são tratadas é inadmissível”.
“Desde o início, eu sabia que essa crise pegaria a gente com força total. Foi difícil começar, foi difícil de fazer, e está sendo difícil de terminar também. A gente está puxando daqui, esticando de lá, dando nosso jeito. Claro, sem esculachar o trabalho. Não tem nada mal feito e nem feito às pressas. É até engraçado dizer isso, já que nós começamos o barracão a praticamente dois meses do carnaval apenas. De fato, é um carnaval mais barato, mas a escola vai desfilar com a mesma imponência de sempre. A diferença é que optamos por recursos um pouco mais em conta do que os que utilizamos nos anos anteriores. Foi um carnaval que nós pechinchamos tudo. Até o tecido que custa cinco reais, que aparentemente é barato, a gente deu preferência para o que custa dois reais. Foi assim que a gente trabalhou para poder ajustar tudo isso no nosso orçamento”.
“Eu tenho uma ala de lobisomens que eu fiz a pelúcia do lobisomem de bucha de banho. Eu nunca tinha feito isso, eu vi em um filme. Saiu muito mais em conta, deu um pouco de trabalho, mas o orçamento ficou lá embaixo. No final, o resultado ficou maravilhoso, nem parece que é. Mas é só a pelúcia do lobisomem da ala, não o do carro alegórico. Ficaria inviável, em poucos dias, conceber uma pelagem gigantesca, feita com bucha. Dá muito trabalho, porque você precisa tratar, precisar deixar de molho, passar cola, até finalmente poder pintar”.
“O segundo setor eu falo de política e de religião. O povo brasileiro, infelizmente, é um povo que sente a necessidade de se apegar a algum tipo de crença. Às vezes, as pessoas pegam um mito e o santificam. Dizem que é um mito, e acabam o santificando, quando na verdade aquilo não é nem um santo, é um charlatão. Isso faz parte do dia a dia do brasileiro. Ele fala muito bem disso em “Roque Santeiro” (TV Globo – 1985), que todo mundo cultuava aquela imagem do Roque, o santo, quando na verdade o cara nem tinha morrido. Então, eu falo dessa necessidade que o brasileiro tem de se apegar a uma pessoa, a um líder. Além de falar dos dribles que os políticos dão nas pessoas. A vida no interior. Mostramos a Sucupira governada por Odorico Paraguaçu. E o que a gente vive hoje? Em um país, em uma cidade, em um estado governado por Odoricos Paraguaçus. Estamos cheios de Odoricos por aí”.
A Mocidade Independente de Padre Miguel não conquista um bicampeonato desde os anos 90. Por pouco não conseguiu esse feito no ano passado. Entretanto as notas no quesito fantasias acabaram tirando a escola da liderança da apuração e a jogando para o sexto lugar. Apostando em um novo desfile bem sucedido para voltar a vencer, a Estrela Guia desta vez deposita em uma estética que resgata os grandes carnavais da Mocidade para levantar o seu sétimo título do carnaval carioca. A começar pelo carro abre-alas, carregado de estrelas.
“Me sinto inquieto quando permaneço com a mesma visão estética. Pensei nesse enredo a quatro anos. É o meu primeiro enredo meu aqui na Mocidade. parece um castigo, pois quando eu pude desenvolver a minha proposta vieram essas dificuldades. É uma temática bastante enraizada na estética histórica da Mocidade. Quis fazer um carnaval mais clean, por conta dos recursos”, afirma.
“Ano passado a coisa começou a ficar atrasada com a questão dos ateliês e acabamos penalizados, mas não tive tantos problemas como tive esse ano. Eu não consigo nem descrever esse ano. Não tem precedentes o que estamos passando, não sei nem como cheguei até aqui. Nenhum aspecto foi fácil ou tranquilo. Fazer um carnaval sem um mínimo de recurso ou estrutura não tem como descrever”, desabafa.
“O fio condutor é a cosmologia. O homem procura entender o tempo através dos fenômenos naturais. A Mocidade é uma estrela e tem um nome que sugere eterna juventude. Não importa quanto tempo tem de idade, carrega no peito a eterna mocidade”, discorre.
“O menino tempo é implícito mas ao mesmo tempo conta a passagem do tempo. Eles mesmos criaram isso. É burrice você ser 100% preso à sinopse. O compositor é parte do processo artístico. Antigamente as escolas davam os temas e os compositores criavam os sambas e aí surgia o desenvolvimento do enredo. Se não ferir a estética eu sou parceiro dos poetas”.
“Eu tenho bons ouvidos. O que as pessoas observam e me passam me servem como sinal de alerta. Todo mundo hoje tem entendimento da mecânica de julgamento. Se não estiver bem defendido o enredo, não dá para vencer. O Viriato Ferreira falava que os carnavalescos complicavam o carnaval, que ele é simples. Simplicidade não é necessariamente pobreza”.
“A abertura da Mocidade resume a proposta. O passar do tempo. O abre-alas é a invenção do tempo, através do Deus Chronos. Como se tivesse brincando com astros e estrelas, fabricando o conceito de tempo, inventado pelo homem. Passamos pela necessidade de medir o tempo através de equipamentos, como relógio de sol, água, areia. Começa a dividir em segundos e minutos o passar do tempo. Não satisfeito cria mecanismos mais sofisticados de marca, como a criação do relógio. Ele fraciona o tempo dele, inventa que tem de dormir 8 horas. O homem se torna escravo do próprio tempo. Não sabemos realmente quanto tempo a gente tem. Em quanto tempo se pinta um quadro, se compõe uma música? O homem esquece de viver. Os momentos marcantes da Mocidade encerra o nosso desfile. Os campeonatos impregnados na memória dos independentes”.
“O enredo do carnaval de 2019 da Rosas de Ouro vai falar sobre a história e cultura Armênia. Logo quando lançou nós tivemos a preocupação porque existe um certo preconceito com enredos considerados ‘CEP’. A Armênia tem uma cultura que as pessoas desconhecem, elas não sabem que lá foi o local onde a Arca de Noé ancorou. Foi também a primeira nação cristã, tem o alfabeto próprio, isso aguçou a minha vontade de fazer um enredo sobre”, ressalta.
“Estava no processo do carnaval de 2018, e assistindo ao documentário do Globo Repórter sobre a Armênia, me interessei pela cultura e trouxe a ideia pra escola. Nós tivemos a preocupação até no título do enredo, porque as pessoas iam achar logo de cara que o tema existe por questões financeiras, e não é. A Sociedade Rosas de Ouro tem parceria com a BESNI, e nem sabia que os donos são da Armênia. Pensei em colocar o título do enredo ‘Viva Hayastan’, que quer dizer ‘Viva Armênia’, e colocamos esse nome pra provocar a curiosidade das pessoas, de ir pesquisar e isso surtiu efeito. Antes de criticarem, elas procuraram saber o significado”, explica.
“A gente fala de uma civilização que tem mais de três mil anos, e foi um desafio condensar essa história em cinco carros alegóricos e dezenove alas. Assim que tive a ideia do enredo, procurei a comunidade de Armênios no Brasil, localizada em Osasco. O secretário de cultura me ajudou muito com o processo de pesquisa, pegamos os pontos principais. Mesmo as pessoas não conhecendo a cultura do país, nós escrevemos de uma forma que ela consiga entender o enredo. Vocês vão ver uma escola muito fiel à história”.
“Graças a Deus é o carnaval mais adiantado dos últimos três anos. Primeiro que a gente está voltando com o padrão Rosas de Ouro e segundo que esse enredo me possibilitou a mostrar uma cultura nova. Estou com uma equipe que trabalhou comigo em outras escolas e que não tive nos últimos três anos. Temos tudo pra fazer uma grande carnaval”.
“Eu sou muito criticado com os meus dois últimos carnavais, no primeiro não tanto porque a escola acabou ficando entre as campeãs. As pessoas costumam falar ‘cadê o padrão Rosas de Ouro’ e ‘cadê o padrão André Machado do Pérola Negra’. Todo mundo sabe da questão da crise, a escola teve muitos problemas nos carnavais passados e a gente procurou colocar todas as dívidas em dia pra poder voltar com a qualidade nesse ano e com força total em 2020”.
“Se a gente fosse seguir a ordem cronológica da Armênia, teríamos uma parte que não seria tão legal de contar, que é a história do genocídio que aconteceu em 1915. Não consigo imaginar como a gente iria contar uma parte tão triste, onde no desfile tem pessoas alegres, contentes, mandando beijo pra arquibancada e sambando. Então a gente colocou essa parte logo no inicio, até pra justificar a parte da vinda desse povo ao Brasil. Pra você ter uma ideia do tamanho disso, existem treze milhões de armênios no mundo, mas apenas três milhões moram lá, por isso esse povo está presente nos cinco continentes. Logo em seguida tem uma ala dizendo ‘apesar de tudo que eles sofreram, hoje eles estão presentes pra contar a história’, e a partir disso a gente começa a desenvolver o nosso enredo. O abre-alas vai falar do Éden. Não existe uma comprovação histórica de que o Éden foi na Armênia, mas vertentes da bíblia acreditam que sim. Vamos fazer uma referência ao paraíso, o dilúvio e a Arca de Noé. Logo em seguida tem alas que são os povos que formaram a Armênia. As baianas vão falar da Deusa Asterix, que por coincidência foi uma Deusa que distribuía rosas como símbolo do amor”.
“Aqui a gente vai falar da chegada do cristianismo, pra quem não sabe foi São Judas Tadeu e São Bartolomeu que apresentou o cristianismo para os Armênios, mas como eles adoravam os Deuses pagãs, logo de início não foi aceito pela grande maioria. Depois entrou a figura de São Gregório, na época tinha partes que queria viver no paganismo e São Gregório não aceitava isso. Ele foi preso num poço, viveu por 14 anos. Nesse tempo apareceu 38 virgens que vieram de Roma, o rei se apaixonou por uma delas e ela não correspondia. O rei ficou muito doente, apaixonado, e o único jeito de se curar era soltando São Gregório. Ele foi solto e celebrou uma missa para o rei, onde foi curado. O rei pergunto para Gregório o que ele poderia fazer pra recompensar, ele respondeu que queria que a Armênia se tornasse um reino cristão, e à partir daquele momento todos se tornaram cristão. Existe algumas batalhas que também tiveram com os cristão presentes no setor. Existem muitos locais pagãos que viraram igrejas”.
“Vamos finalizar com o carnaval Armênio, que acontecesse na mesma data que o nosso, mas como lá está no inverno, as pessoas costumam usar roupas mais pesadas, mas existem máscaras e eles confeccionam bonecos. Como é uma nação extremamente cristã, eles pulam os quatros dias de folia e na quarta-feira de cinzas jogam o boneco no rio como renuncia do profano. O último carro é a figura do Seu Basílio como representante maior da nossa escola abraçando o brasão Armênio. Hoje onde fica a praça Armênia e a estação de metrô Armênia, era o local onde os sambistas se concentravam para desfilar na Tiradentes. Até isso indiretamente a Armênia tem uma ligação com nós, paulistanos. Faremos uma homenagem aos fundadores da escolas que desfilaram na Tiradentes. A gente decidiu fechar dessa maneira pra mostrar a alegria desse povo”.
“Eu sou carioca e cheguei aqui em São Paulo há 20 anos pra desenvolver o carnaval da Barroca Zona Sul, logo depois eu fui pra Imperador do Ipiranga, passei pela Nenê, Império de Casa Verde, Pérola Negra, X-9 Paulistana e há 3 anos estou no Rosas de Ouro. Eu sou formado em desenho de moda e estou no carnaval desde os 13 anos, onde ajudava os carnavalescos do Rio de Janeiro a desenvolver os seus projetos, como na Mangueira, Portela, Paraiso do Tuiuti. Mas me firmei mesmo aqui, constitui família e não fiz outra coisa além do carnaval. Eles sempre tiveram carinho com profissionais do Rio de Janeiro, e com isso eles fizeram eu acreditar que o meu sucesso seria em São Paulo. Estou muito contente e pretendo continuar a minha história como carnavalesco aqui”.
“Quando eu fechei com a Mancha eles queriam falar da saga dessa guerreira negra. Idealizamos uma sinopse onde uma negra nasce princesa no Congo, ela é escravizada pela cobiça do invasor europeu que invadiu sua terra para roubar a maior riqueza, que era o Marfim. Ela cresce e na sua juventude é tirada das suas origens e feita escrava, ela cruza o oceano sem saber onde iria parar. Durante a viagem é marcada no corpo, é violentada, carrega em seu ventre o fruto da violação. Ao chegar no Brasil, se encanta pelas terras, pede as bençãos dos orixás e é recebida por Iemanjá. Em Pernanbuco, ela vê as mãos negras atuando nas plantações, no café, da cana-de-açúycar. Na senzala ela pede aos santos brasileiros para que abençoe e vai a luta, não só por ela, e sim pra fazer que o seu povo tenha a libertação. Ouve falar de Palmares onde poderia expressar os seus sentimentos, e lá fica cada vez mais forte, e se torna uma das pessoas que coordena os Palmares. Lá tem seus filhos, sendo que um é a história do Brasil, sem Aqualtune, não teríamos um dos personagens principais que é Zumbi dos Palmares. O papel dessa mulher a gente coloca como libertação para todas as mulheres que sofrem de violência, abusos e sempre vão em busca de liberdade. A protagonista do nosso enredo é inserida numa realidade atual, o mundo mostra isso. Todos nós somos iguais, todos temos os mesmos direitos e os mesmos deveres sem distinção de cor, de raça, de religião”.
“Eu acredito que é um desfecho nosso e uma forma muito poética de enfatizar uma parte da história do Brasil, mas também com foco no grande orixá que está nos guiando”, finaliza.
“As pessoas acham que o patrocínio é todo no carnaval, mas se tem um investimento na estrutura. Acabou o carnaval em Fevereiro, em Março já estávamos ensaiando. Pra ensaiar você abre a quadra, tem a luz, tem a água. A escola montou uma infraestrutura pra receber os seus componentes durante um ano de uma forma legal, e tem os investimentos do próprio patrimônio da quadra. Pra que a gente pudesse fazer um carnaval maior, você tem que montar uma estrutura onde tem que aumentar o tamanho do barracão, tudo isso também está inserido na verba que a Crefisa disponibilizou. Tem coisas que você não pode pagar com a lei Rouanet. O investimento é fantástico, mas você precisa de uma boa gestão pra administrar. Houve um investimento muito forte. Quando você ensaia o ano todo, quando você traz o componente ao ano todo pra dentro da quadra, isso é um investimento”.
É inevitável não esperar um carnaval competitivo da escola. Cauteloso sobre resultado, Jorge assegura estilo detalhista nas alegorias.
“Na verdade não é só aumentar o bit, é preciso conciliar três quesitos: Ritmo, dança e canto. O nosso samba precisava de um bit mais elevado para que a nossa evolução acontecesse de uma forma mais satisfatória para o desfile, são três coisas que são totalmente juntas e não tem como separar. Você tem a bateria, tem o samba-enredo e a evolução do componente, houve um consenso não só na parte de bit, mas nós trocamos as afinações dos surdos pra um tom mais apurado, com distinção entre os outros naipes. É uma medida para que tudo aconteça de maneira satisfatória. As pessoas estranham, mas é tudo técnico, nós temos que trabalhar os noves quesitos em conjunto”.
“Não existe segredo, o que existe é o comprometimento muito grande do profissional com a agremiação com a realização do trabalho, eu amo o que eu faço. Todos os atributos que eu tinha no cotidiano insiro no trabalho, a regência me ajudou muito nessa parte harmônica, me ajudou muito na parte da evolução, isso ai é o meu segredo. Tenho uma linguagem muito didática no motivacional com o componente”.
“Nesse setor temos o negro transformado em escravo. Existem fatos de violência com a mulher grávida até cruzar o mar vermelho de dor, porque o negro é trazido para o mar, eles choram e tem suas lágrimas transformadas em sangue”.
“Eu sou da região serrana do Rio de Janeiro. Alguns trabalhos meus no Rio foi Portela, Vila Isabel, depois vim pra São Paulo em 1999 pra fazer aquela homenagem ao Brasil dos 500 anos. Aqui passei por quatro agremiações, foi Gaviões da Fiel, Pérola, Rosas de Ouro no qual fiquei muito tempo e Império de Casa Verde. Todas escolas que passei tive títulos, e agora uma nova experiência na Mancha Verde. Junto com meu filho fizemos Independente e ano passado subimos com o Águia de Ouro. Eu acho que essa trajetória é vitoriosa, mas o que me diferencia é o trabalho que faço com a comunidade. O trabalho de carnavalesco nada mais é que uma coisa que faz parte de dois quesitos, o trabalho motivacional que eu faço com os componentes é o diferencial, e esse trabalho é o que as escolas necessitam. É um trabalho exaustivo mas a gente vê que tem um resultado enorme”.
“Está sendo uma honra desenvolver esse trabalho. Na época foi um desfile com cara de campeã, a escola levantou o público e todos apostaram no título. Teve uma apuração muito conturbada, na época o carnaval de São Paulo não era tão profissionalizado como se é hoje, e parece que teve notas que sumiram e depois acharam. O jurado de samba-enredo deu nota seis de melodia pra o samba que era um dos mais cantados do ano. Ficou um clima estranho, e com essa nota seis a escola ficou na segunda colocação, e isso ficou meio que entalado na garganta. Quanto tivemos a ideia de resgatar o enredo, isso gerou um alvoroço na comunidade justamente por isso”, afirma.
“Muitas pessoas me perguntam se o desfile vai ser apresentado da mesma maneira, e eu sempre respondendo ‘não’. O enredo foi totalmente remodelado, até porque falar do tabaco, que deriva pro cigarro há 25 anos era uma coisa, hoje a sociedade está mais politizada. Fiz toda uma repaginação, respeitando a essência do samba mas não necessariamente o que foi mostrado em 94. Visualmente falando a escola mudou demais, os carros estão maiores, as fantasias mudaram, os materiais, e isso vai refletir pra quem for comparar o desfile de 2019 com o de 1994. Claro, eu escolhi pontos do desfile até pra homenagear o Raul Diniz, mas numa releitura repaginada. Por exemplo, em 94 a última alegoria era uma caveira, e isso significa que quem fuma está perto da morte. Eu não concordo com essa visão, em 2019 vai ter uma nova leitura, o final do desfile não faz um julgamento de ser certo ou errado fumar, a questão não é essa, cada pessoa é dona de si e é responsável pelas consequências dos seus atos. Eu deixei mais leve, colorido, conto a história do tabaco como ele é deixo as escolhas para cada pessoa”.
“Desde o carnaval do ano passado já existia uma ideia de um grande carnaval em 2019 porque é o ano que os Gaviões faz 50 anos, queríamos um enredo que conseguisse agradar a escola com um sentido mais emocional. Um diretor me perguntou se a gente não poderia reeditar o enredo de 94, eu pensei e achei que daria um caldo legal. O presidente me perguntou se eu não teria medo do julgamento, eu até acreditava que poderia gerar uma polêmica, mas eu acho que os Gaviões tem uma linhagem de enfrentamento, ela é não é uma escola de fica em cima do muro, e eu acho que ele tinha que comprar briga e foi o que aconteceu. Algumas mídias comentaram que enredo era uma apologia ao fumo, incentivar as crianças, mas a gente não se abateu as críticas”.
“A comissão de frente se auto-explica. Ela vai contar sobre uma lenda árabe que diz sobre um santo que viveu na época de Cristo. A família dele, fugindo do exército romano, foi para o norte da África, especificamente no Egito. Esse santo, chamado de Santo Antão, teria abdicado sua vida toda a percorrer a África levando a mensagem de Cristo, ele acreditava nesse conceito cristão. Já adulto encontrou uma serpente, maltratada, judiada, com sede, descamando, e a acolheu. Quando ela se restabeleceu, a serpente picou o braço desse santo, traiu a confiança dele. O santo assustado pela picada, jogou a cobra longe e chupou o veneno da cobra na mordida. No local que ele cuspiu esse veneno, surgiu um pé de tabaco. O enredo parte pra contar a história do tabaco através dessa lenda muito lúdica de como teria surgido o pé de tabaco no oriente, essa é a nossa comissão de frente”.
“É aqui que a gente vai contar que os gurus indianos pegaram o tabaco e desenvolveram uma cura, o primeiro uso da erva foi medicinal. Depois a gente conta que foram os árabes que levaram para a Europa o tabaco. Na Europa a gente mostra que foram os alquimistas da era medieval que acreditavam que o tabaco tivessem elementos que os levariam a encontrar a poção da eterna juventude. Temos os portugueses porque foi em Portugal que o tabaco virou rapé, nada mais é ele moído com algumas composições químicas, e foi constatado que em forma de pó ele ajuda a obstruir as artérias e também para curar dores de cabeça. E aí desenrola para o carro dois que é a alegoria da Rainha Catarina de Médici. Tinha um embaixador francês que ouviu dizer sobre a erva que curava dores de cabeça, e na época a rainha era muito famosa pelas dores de cabeças alucinantes, ela saia gritando no palácio, tacando objetos. A gente vai falar nesse carro que o embaixador francês levou para Paris o tabaco para rainha experimentar, e ela foi curada. Nós vamos mostrar no carro que em forma de gratidão ela deu um baile no palácio. Só que não para por ai, após a cura ela começou a ter uma nova fase no seu reinado. Sem as dores de cabeça, Catarina passou a ser mais ativa na sociedade, e ela era conhecida por ser enérgica, por não ter medo de mandar prender. Isso revoltou o povo que foi o começo do processo que culminou na queda das Bastilhas, a revolução francesa e a construção de uma nova França. Mesmo não intencional, ela ajudou no processo de criação de uma nova França. Esse carro mostra o baile e a construção de uma França nova”.
“O terceiro setor se dedica a contar sobre a Bahia, quando o enredo cai no Brasil. A gente conta da velha Bahia, os pescadores, e que todos conhecem de uma forma lúdica. Foi nessa Bahia que chegou o tabaco, que no começo era vendido por escravos, e isso vai ser retratado na primeira ala. Nesse setor também temos as baianas que são as mães de santo, porque nos terreiros também se usa tabaco triturado como erva de purificação. O setor é encerrado com o terceiro carro que é o sincretismo religioso, a fé católica com o culto aos orixás. É um carro mais místico, religioso”.
“Eu optei por uma linguagem muito mais leve e lúdica, ao invés de falar de câncer, morte. A gente fala desde a venda do cigarro, não da forma maço, mas antigamente numa época mais romântica em que as pessoas iam ao cinema de mãos dadas. Depois a gente mostra doces, porque toda pessoa viciada em cigarro tem um gosto por doces. Um cigarro acompanha um xícara de café, uma barra de chocolate, um chiclete, muitas vezes pra tirar o gosto da boca. É uma forma brincalhona de mostrar os doces acompanhamentos. Nesse setor vou ter uma ala de pessoas vestidas de juiz, uma ala metade preta e metade branca, eu quero mostrar que toda pessoa é dona das suas escolhas. Ela mostra através das cores que tudo tem o seus benefícios e os seus malefícios. A gente vai pra última ala que é o coração e o pulmão, porque o nosso samba termina cantando isso. Você é livre pra escolher o que faz da sua vida, só que tem que preservar a saúde. Então nós vamos para o carro da mente humana, que é um cérebro como parque de diversões mostrando como a mente é delirante, de como ela é entregue aos vícios, e precisamos ser fortes. A mente que busca o cigarro por prazer, só que a mente é delirante, ela te leva ao domínio mas tem horas que você perde o controle. O carro mostra de uma forma bem leve de como o vício faz você brincar com os sentidos”.
“Desde os dois anos eu frequentava a Mocidade Alegre com a minha mãe, e até os 13 eu ia de uma forma descompromissada. Com 14 anos passei a desfilar e, quando a presidente Solange assumiu a presidência, eu comecei a fazer parte da diretoria como Diretor Cultural. Nesse cargo passava a assessorar o antigo carnavalesco nas pesquisas e criação, e com isso eu fui me aproximando cada vez mais. De 2003 e 2008 eu desempenhei esse papel, e quando o carnavalesco saiu da escola a Solange me convidou a integrar a comissão de carnaval, e essa é o começo da minha história como carnavalesco.Meu primeiro desfile que assinei foi em 2009 e, junto à comissão, trouxemos o título. Fiquei até 2016 na Mocidade Alegre, no ano de 2017 aceitei o convite da Vila Maria pra fazer o carnaval sobre os 300 anos do achado da imagem de Nossa Senhora Aparecida, que também foi um presente. E em 2018 eu aceitei o convite dos Gaviões, quando eu desenvolvi o enredo “Guarus”, que era um tema patrocinado. Mas eu busquei uma outra linguagem, não ser folhetinho político, e busquei uma linha mais mitológica sobre os índios Tupi. E continuo aqui com um grande presente na minha trajetória que é poder reeditar um enredo clássico como esse”.
Após viver momentos dramáticos para conseguir por o carnaval de 2018 na rua, o ano de 2019 tem tudo para representar uma virada de página na história da escola. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas no atual pré-carnaval, a Renascer de Jacarepaguá investiu em seu barracão, e irá apostar em um desfile grandioso e volumoso plasticamente. Com outros dois trabalhos assinados na agremiação em 2017 e 2018, os carnavalescos Alexandre Rangel e Raphael Torres acreditam que o atual trabalho será o com resultado mais impactante e surpreendente deles.
No entanto, mesmo com mudanças na plástica, algumas características dos trabalhos anteriores permanecerão. Para Alexandre Rangel, assim como 2018, o desfile de 2019 será marcado pela superação dos problemas.
“Nós apresentamos três propostas para o Salomão (Antônio Carlos Salomão, presidente da Renascer) de enredo. E aí o Salomão veio com Bahia… A gente tinha um outro enredo de Bahia, só que com uma outra pegada. Mas o Salomão queria falar sobre o Rio Vermelho, só sobre o Rio Vermelho. E o bairro Rio Vermelho é uma Lapa hoje em dia. E o que acontece no Rio Vermelho? A festa de Iemanjá. E em uma conversa entre eu e o Raphael pela madrugada, depois de muito bater papo, ele me falou que achava inviável a gente falar só sobre o Rio Vermelho, e deu a ideia de irmos para Salvador. Viajamos para conhecer lá a fundo, pesquisar e trazer material para, em si, começar a desenvolver o enredo. E foi aí que a gente encontrou o nosso fio condutor, que é a festa de Iemanjá, que acontece dia dois de fevereiro. Uma festa muito conhecida, que se não me engano, depois da Lavagem (das escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim), é a maior festa que acontece lá. Só que não é tão divulgada assim. Vai gente do mundo todo para essa festa. O bairro fica abarrotado. Daí com esse fio condutor, a gente começou a trabalhar o enredo, e apresentamos para o Salomão essa proposta junto com o Cláudio Russo. Sentamos os quatro juntos, debatemos, pegamos essa pegada que é um pouco para o afro e um pouco para o cultural também, para não sair dessa linguagem que é da Renascer de Jacarepaguá.”, relata Alexandre.
Contando com a participação de Cláudio Russo no processo e construção do enredo, a dupla de carnavalescos comentou sobre a relação deles com o compositor. Segundo Alexandre, a parceria se reflete no trabalho de ambos e consiste em ajuda mútua.
“Falar sobre Iemanjá é uma coisa muito forte, falar sobre os orixás… É uma coisa muito delicada quando você fala de um orixá. Isso que me despertou muito interesse na hora de fazer a pesquisa. A cada imagem, a gente chegava lá e fotografava. A cada pessoa que a gente via, perguntávamos. Porque quando você vai fazer um laboratório, você tem que sentir realmente aquilo dali, se aquilo é pra você realmente. Quando você fala de um orixá é uma coisa muito séria, uma coisa que tem que ter um sentimento focado para aquilo dali. Nós ficamos uma semana em Salvador, então a gente foi pesquisando tudo, todos os detalhes. É um enredo riquíssimo, totalmente cultural. A cada momento ele vai abrindo uma base, ele vai abrindo um caminho novo”, disse Alexandre.
“Eu acredito também que essa crise vai passar. Isso é para gente ter um alerta antes de votar. A gente precisa votar em algo ou em alguém que realmente faça pelo carnaval, e não apenas promessas. Porque de promessas já estamos cansado. O mundo do Carnaval tem que se unir e votar na pessoa certa”, opinou Raphael.
“Ano passado, eu lembro que as pessoas vieram perguntar para nós se íamos conseguir colocar a Renascer na avenida. E a gente no barracão, seja com sol ou com chuva. No último momento, nossos dois macacos pegaram fogo, e o Raphael olhava para a minha cara, com a lágrima no olho, perguntando o que faríamos. Foi aí que fomos para a Cidade do Samba, para continuar a fazer aquele carnaval, mesmo com muitas dificuldades. Então, a gente não se abala assim. Acho que são esses desafios que deixam o ser humano mais forte, mais preparado pra vida aí fora. A verdadeira faculdade, realmente é a Série A, porque aqui só sobrevivem os fortes. Aqui somos todos guerreiros, não tem essa de vaidade com a gente. A gente não tem, a gente vai te pedir. Eu peço aos meus amigos, eles pedem à mim, tem aquela coisa de união com o outro, e essa união é que está fazendo a gente mover o carnaval da Série A esse ano, assim como aconteceu nos outros carnavais”, relembra Alexandre Rangel.
A Renascer de Jacarepaguá será a segunda a desfilar no sábado de carnaval. Em 2019, a escola contará o enredo “Dois de Fevereiro no Rio Vermelho”, e levará para Marquês de Sapucaí um total de 1800 componentes, distribuídos em 21 alas e 4 carros alegóricos. O carnavalesco Raphael Torres explicou como a dupla dividiu o desfile: