Início Site Página 16

Depois da final, Martinho muda o jogo e Vila Isabel escolhe samba nº 13

0

vila final2027 19

A Unidos de Vila Isabel mudou o rumo definido após a final de samba-enredo e confirmou, nesta terça-feira, que levará para o Carnaval 2027 a obra nº 13, assinada por Martinho da Vila, Evandro Bocão e André Diniz. A decisão representa uma mudança em relação ao resultado da votação interna realizada na final, quando a direção da escola havia apontado para a junção de duas composições.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

A definição ocorreu após uma reunião da direção da Vila Isabel com os carnavalescos e a equipe de Carnaval. Nos últimos dias, a escola também conversou com os compositores envolvidos no processo e avaliou os caminhos possíveis para a construção do samba que defenderá o enredo “Torto Arado: Sobre a terra há de viver sempre o mais forte”, inspirado no livro de Itamar Vieira Junior. O principal fator para a decisão foi a relação de Martinho da Vila com a escola. Presidente de honra da azul e branca, o compositor completa 88 anos e celebra seis décadas de história com a agremiação.

‘Por respeito a Martinho’

Diante da posição de Martinho em relação à junção das obras, a direção entendeu que o melhor caminho seria preservar o samba nº 13 e trabalhar a partir da composição para chegar à versão que será apresentada na Marquês de Sapucaí.

A escolha também considera a avaliação artística da equipe de Carnaval. Segundo a escola, o samba apresenta força poética para desenvolver na Avenida a história proposta pelo enredo.

A direção de carnaval já iniciou o trabalho com os compositores. Ajustes de letra e melodia serão realizados até a definição da versão final que será utilizada no desfile.

“Foi uma decisão pensada com muito cuidado e, acima de tudo, pensando na Vila Isabel. O Martinho tem uma relação muito especial com a nossa escola. São 60 anos de história e ele é o nosso presidente de honra. Diante da posição dele e de tudo que avaliamos com a nossa equipe de Carnaval, entendemos que o samba nº 13 era o melhor caminho. É uma obra forte e que conta muito bem a história que queremos levar para a Avenida. Agora vamos trabalhar junto com os compositores, fazer os ajustes necessários e preparar esse samba para defender a Vila Isabel no Carnaval 2027”, afirma o presidente Luiz Guimarães.

A mudança encerra a discussão sobre a junção definida inicialmente pela direção após a final e coloca Martinho da Vila novamente como protagonista na construção do samba que a escola levará para a Avenida justamente no ano em que o compositor celebra 60 anos de trajetória na azul e branca.

Nota oficial da Unidos de Vila Isabel na íntegra

“A Unidos de Vila Isabel definiu o samba-enredo que levará para a Marquês de Sapucaí no Carnaval 2027. Depois da final realizada na madrugada de sábado (12), a direção da escola se reuniu nesta segunda-feira (14) com os carnavalescos e a equipe de Carnaval para definir os próximos passos em relação às obras finalistas.

Na final, a votação da direção apontou para a junção de duas composições. Após as conversas realizadas nos últimos dias, porém, a escola decidiu seguir com o samba nº 13, de Martinho da Vila, Evandro Bocão e André Diniz.

A decisão também leva em conta a relação de Martinho com a Unidos de Vila Isabel. Presidente de honra da escola, o compositor completa 88 anos e celebra 60 anos de história com a azul e branca. Diante da posição do artista em relação à junção das obras, a direção entendeu que o melhor caminho seria preservar o samba nº 13 e trabalhar a partir dele para o Carnaval 2027.

Na reunião desta segunda-feira, a equipe de Carnaval também avaliou o samba escolhido e a forma como ele conversa com o enredo “Torto Arado: Sobre a terra há de viver sempre o mais forte”, inspirado no livro de Itamar Vieira Junior. A avaliação da escola é de que a obra tem a força poética necessária para contar na Avenida a história que a Vila Isabel pretende levar para o Carnaval 2027.

A direção de Carnaval já se reuniu com os compositores e, juntos, estão sendo feitos os ajustes de letra e melodia que fazem parte desse processo até a versão final do samba.

“Foi uma decisão pensada com muito cuidado e, acima de tudo, pensando na Vila Isabel. O Martinho tem uma relação muito especial com a nossa escola. São 60 anos de história e ele é o nosso presidente de honra. Diante da posição dele e de tudo que avaliamos com a nossa equipe de Carnaval, entendemos que o samba nº 13 era o melhor caminho. É uma obra forte e que conta muito bem a história que queremos levar para a Avenida. Agora vamos trabalhar junto com os compositores, fazer os ajustes necessários e preparar esse samba para defender a Vila Isabel no Carnaval 2027”, afirma o presidente Luiz Guimarães.

A Unidos de Vila Isabel agradece a todas as parcerias”.

Entre explosão, densidade e equilíbrio: o que mostrou a semifinal de sambas da Viradouro

0
viradouro1209
Foto: Will Ferreira/CARNAVALESCO

A madrugada de sábado para domingo foi de muito samba em Niterói. Na data, a Unidos do Viradouro, atual campeã do Grupo Especial do Rio de Janeiro, realizou a semifinal de samba-enredo da agremiação para o Carnaval 2027. Além da apresentação dos quatro sambas-enredo concorrentes, o evento também teve um show da coirmã Mocidade Independente de Padre Miguel antes das obras que disputam a honra de embalar o desfile de “Griô”, enredo assinado pelo carnavalesco Tarcísio Zanon. Abaixo, o CARNAVALESCO analisa as três parcerias finalistas.

Parceria de Claudio Mattos: o samba 13, composto por Claudio Mattos, Renan Gêmeo, Anderson Lemos, Manolo, Bertolo, Silvio Mesquita, Wilson Mineiro, André Braga, Marcelo Adnet e Thiago Meiners, inaugurou a disputa em grande estilo. Com presença maciça da torcida, de longe a mais numerosa dos concorrentes (e que popularizou até mesmo a camisa que os integrantes vestiam no palco), o samba-enredo foi interpretado por Pitty de Menezes, que se sentiu muito à vontade, a ponto de iniciar a execução da obra no chão, junto com os torcedores. É necessário dar um spoiler desde já: o samba em questão é o que mais destoou dos demais por conta da melodia mais para cima, e talvez até mesmo por conta disso a canção tenha angariado tantos torcedores, com estandartes e bandeiras, o que tornava até mesmo a organização de tanta gente um desafio. O canto forte se fez presente ao longo de toda a execução da obra, algo notável em um samba mais extenso que o normal. O trecho final do samba-enredo, antes do refrão de cabeça, é fundamental para a canção por sustentar muito bem o ânimo e, não por acaso, foi o escolhido para ser a introdução da obra. Curiosamente, o refrão do meio trouxe um canto mais abaixo por não repetir verso algum e pela presença de expressões afro, tornando fundamental o último verso do trecho, “Para espalhar o sentimento de um griô”, e a repetição em tons diferentes do último “o”, para trazer novamente a comunidade para a canção.

Parceria de Lucas Macedo: o samba 15, composto por Lucas Macedo, Dudu Nobre, Rafael Gigante, Hélio Porto, Vinicius Ferreira, Orlando Ambrosio, Miguel Dibo, Jefferson Oliveira, Yannick Nobre e Cabeça do Ajax, foi o primeiro a se apresentar que apostou em um formato comum aos seguintes: melodias mais densas, valentes e graves, com menos explosão. Também foi a primeira obra que trouxe explosivos de papel picado, que assustam e empolgam os presentes, mas se tornam importantes para fazer com que a canção ganhe um tom mais popular. Na obra interpretada por Tinga, em uma canção bastante desafiadora para um cantor conhecido por eternizar refrãos fortes, há um trecho que chama muita atenção: o verso “Sabedoria no tom balafon e korá”, bastante extenso para o ritmo em que a obra é executada e que, até por isso, ganha um swing melódico bastante agradável. Se não era tão grande quanto a do primeiro concorrente, a torcida presente era bastante heterogênea, reunindo pessoas dos mais diversos segmentos da agremiação. Até pela natureza bastante melódica da obra, o canto foi em volume menor, apesar de a canção agradar até mesmo aos ouvidos mais exigentes.

Parceria de Mocotó: encerrando a noite, o samba 01, composto por Mocotó, PC Feital, Inácio Rios, Igor Federal, Deja, Romério Duarte, André Quintanilha, Chanel, Ronilson Fernandes e Márcio André Filho, trouxe o sentimento niteroiense de volta para o terreiro graças à maciça quantidade de torcedores na quadra. Era possível ver até mesmo pessoas com camisa da coirmã Mocidade Independente de Padre Miguel acompanhando a apresentação da canção, bem como perceber a empolgação de componentes da escola presentes. Em relação ao estilo da obra quando comparada às três concorrentes, há um hibridismo latente: ela é um meio-termo entre a melodia mais popular do primeiro e o rebuscamento do segundo e do terceiro. Antes mesmo de os intérpretes Juan Brigga, Leozinho Nunes e Lissandra Oliveira começarem a cantar, a torcida já chamou atenção com a presença de atabaques no terreiro. Conforme a canção era executada, mais força ela ganhava, algo bastante significativo ao se pensar que o samba foi o último a se apresentar, já com mais de 04h no relógio. Se a obra possui alguns trechos com uma capacidade de explosão bastante significativa, como o primeiro trecho da primeira estrofe (o verso “Agô bate palma de macumba” é um chamamento irresistível), o refrão do meio traz, além da poesia (os versos “Em volta dele mais de mil crianças / A cantar lembranças ao som do korá” são viciantes), a reflexão sobre a citação aos mais jovens em um enredo que se propõe falar justamente sobre a experiência de quem tanto viveu.

Opinião: Parceria de Moacyr Luz se destaca na semifinal de sambas-enredo na União de Maricá

0
maricasemifinal27
Foto: Luiz Gustavo/CARNAVALESCO

A União de Maricá realizou a semifinal da sua disputa de sambas-enredo para o Carnaval 2027, com cinco obras se apresentando na quadra da vermelho e branco na última sexta-feira. O ponto alto da noite foi a apresentação do samba de Moacyr Luz, que foi o melhor da noite com alguma folga. Abaixo, a análise do CARNAVALESCO sobre a passagem dos sambas finalistas.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

Parceria de Sandra Sá: Emerson Dias comandou a obra de Sandra Sá, Paulinho Mocidade, Leandro Fregonesi, Celsinho de Andrade, Felipe Pires, Sérgio Harmonia, Cristiane Janeiro e Jânio Oasis. A primeira parte descreve a sinopse com correção e padronização na linguagem. Um destaque no setor é o trecho “Cresci sonhando ser coroado em plena festa do divino, a utopia no olhar de um menino”. O refrão central “rodei as matas de Tupã e da Jurema, na pajelança aprendi o ritual, quando o mal da covardia me condena, eu viro flecha com veneno de coral” tem boa letra, com ótima semântica e uma melodia firme, sendo um ponto de rendimento forte. A segunda parte apresenta uma ligeira queda na narrativa, com versos menos inspirados. Já melodicamente, o trecho se segura bem, apesar de não ter muitas variações. O refrão “Maracanandê, Maracanandê, pisa forte Maricá, vem com sede de vencer, Maracanandê, Maracanandê, pra fazer revolução ninguém pode se render” tem muita potência e canto fácil, daqueles que pegam de imediato, e obteve um ótimo desempenho, destacando-se com alguma sobra na obra. Foi uma apresentação escorada nos refrãos, que funcionaram como alicerce do rendimento do samba. Uma boa passada, apesar da irregularidade da segunda parte da composição.

Parceria de Jô Borges: Vandinho Pires defendeu a composição de Jô Borges, Cacau Souza, Yara Mathias, Jack Nery, Marcele Salles e Andrea Figueiredo. O refrão principal “Chamem as aldeias, os quilombos e favelas, o povo brasileiro vai tomar a Passarela, meu nome é Brasil e posso afirmar, essa utopia já nasceu em Maricá” tem um tom de clamor, mas não conseguiu puxar um canto tão forte, e a valentia do trecho foi diminuindo a cada passada. A primeira parte é muito poética, com bons versos como “da janela, a vida se arrastava feito procissão, o amargo dia a dia, doce cantoria, som de violão, cores alumiavam a enluarada festa do divino, esse contraste lhe fez escolher seu destino”, numa bonita narrativa sobre a infância do homenageado. O refrão central “O sonho de doutor, balançou na rede, de vermelho se pintou, saciou a sede, da floresta enlaçada pelas fibras do cipó, entidade grafitada por Tupi e Kaapor” é muito bem construído, com uma criação poética inspirada e uma melodia dolente, passando bem. A segunda parte começa com uma variação melódica agradável nos versos “eu seria tão melhor se andasse no seu caminho, ajudar os seus irmãos, dar estudo e carinho”. As nuances da melodia permeiam o trecho, com transições bem encaixadas e sem sobras, apresentando qualidade superior à letra, que é descritiva sem ter um ápice criativo. Uma boa apresentação, apesar da oscilação do refrão principal ao longo das passadas.

Parceria de Moacyr Luz: Charles Silva liderou a apresentação da parceria de Moacyr Luz, Rafael Gigante, Hélio Porto, Wanderley Monteiro, Babby do Cavaco, Vinicius Ferreira, Marcelinho Moreira e Jefferson Oliveira e conduziu a apresentação mais forte da noite. A primeira parte começa em bom nível melódico nos versos “desperta pra sonhar menino, na janela do Divino, já raiou sua missão”. Outro trecho destaca o lado intelectual do antropólogo: “Atrevido pensamento, contra o aprisionamento no exílio opressor, sua arma foi o livro, permanece ainda vivo, livre em cada educador”, bem pensado. O refrão central “Ergue a Zambi um monumento, nessa praça um fazimento, coroando Rei Zumbi (Rei Zumbi), ao cortejo Quilombola, onde o samba faz escola, avenida de Darcy” lembra o Sambódromo carioca, idealização de Darcy. Principalmente pela repetição do verso “Rei Zumbi”, o trecho manteve a potência em alta, empurrado por uma envolvente melodia. A segunda parte cita um lado menos explorado da fé de Darcy nos versos “Boêmio, sedutor, é luz na cegueira, um brinde aos amigos de luta e trincheira”. No restante, a letra foge da poesia e descreve o enredo de forma mais literal, mas não compromete a obra. O refrão principal “Meu país é Maricá, utopia mãe gentil, nunca pare de lutar pra mudar esse Brasil, a vitória popular nessa pátria tão hostil, é educar um filho da mãe solo que pariu” possui uma letra com estilo de comunicação mais direto e ferino, que funciona como catalisador de um canto mais visceral, casando muito bem com a melodia e ocasionando um grande desempenho. A passagem foi a mais quente da noite, sem sinais de cansaço.

Renê Sobral celebra chegada à Nenê de Vila Matilde e destaca responsabilidade de assumir o microfone da escola

0
rene nene
Foto: Almir Aprígio/CARNAVALESCO

A Nenê de Vila Matilde anuncioue, em noite de festa, no último sábado, a nova voz que irá defender seu pavilhão no Carnaval 2027. Renê Sobral foi apresentado como o novo intérprete da agremiação e em entrevista ao CARNAVALESCO comentou o convite para integrar a escola, o momento profissional vivido antes de sua chegada e a responsabilidade de assumir o microfone de uma das escolas mais tradicionais do carnaval paulistano.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

Renê Sobral estava sem escola oficialmente quando recebeu o contato da diretoria da Nenê de Vila Matilde. Segundo o intérprete, o convite surgiu após a escola ficar sem cantor. A diretoria apresentou o projeto para o Carnaval 2027 e perguntou se ele estaria disposto a assumir o desafio. Ele relatou que a escolha foi rápida, pois sabia que o convite era muito importante.

“Sem sombra de dúvida, aceitei na hora, porque quero estar no carnaval, quero trabalhar, e, principalmente, por ser uma escola de samba, como a Nenê de Vila Matilde. É muito grande, surreal. E poder trabalhar, cantar os sambas históricos é uma honra e é um prazer enorme para mim. Agora, eu sou a nova voz da Zona Leste”, disse Renê.

Período de recuo e reflexão

Antes de assumir o microfone da Nenê, Renê passou um período sem estar oficialmente ligado a uma escola de samba. O intérprete afirmou que o momento foi encarado como uma oportunidade de reflexão e reciclagem profissional.

“Foi um momento de recuo, dez passos para trás para dar um na frente. É isso aí. A gente tem que reconhecer. Me mantendo sempre pronto, porque eu tinha certeza de que o convite ia chegar. Mantive a minha cabeça arejada, pensando na frente, no carnaval, na minha representatividade para o carnaval e em quem eu sou, na pessoa do Renê Sobral. Veio a Nenê de Vila Matilde, que eu sou apaixonado, uma escola de tradição”, disse Renê.

Abraço da comunidade

A chegada à Nenê também foi marcada pelo contato com a comunidade. Renê destacou a felicidade de poder cantar os sambas da escola e perceber a participação dos componentes.

“Estou muito feliz de ter a oportunidade de chegar aqui, cantar os sambas da Nenê. A comunidade cantou junto comigo. Estou tão feliz. A responsabilidade é muito grande”, disse Renê.

Na avaliação do intérprete, a trajetória musical da Nenê tem um peso especial. Renê destacou a discografia da escola e a quantidade de sambas que marcaram sua história.

“A discografia da Nenê de Vila Matilde, olha, sem falsa modéstia, acho que é a melhor discografia do carnaval de São Paulo, se você for avaliar. Você pegando esse estudo de sambas e enredos da Nenê de Vila Matilde, é um melhor que o outro. E as histórias, a ligação de berço, a batucada, o balanço, o respeito da batucada que seu Nenê deixou, o legado”, explicou Renê.

Identidade de Renê no samba de 2027

O samba-enredo que a Nenê de Vila Matilde levará para o Carnaval 2027 tem o tema “Mulheres de Palmares – A Liberdade Tem Rosto de Mulher” também foi assunto. Renê destacou as características da obra e afirmou que se identificou imediatamente com a composição.

“Quando recebi o samba, foi de imediato, a melodia deste samba é muito bonita, a letra é muito forte, muito inteligente e é um samba de verdade. Você vê que ele é um samba que flui. Estou muito feliz porque se casou com a minha voz e com a comunidade. Hoje, soltei o samba para o povo. Cantaram de ponta a ponta”, afirmou Renê.

Porto da Pedra 2027: ouça o samba-enredo campeão

0

COMPOSITORES: Bira, Oscar Bessa, Márcio Rangel, Rafael Raçudo , , Miguelzinho, Jarrão, Éric Costa, Vinicius Ferreira, Rafael Gigante

INVOCA QUEM TE DEU A LUZ
CARREGOU A SUA CRUZ
FEZ DA LUTA SUA ESCOLA
CELEBRA NESSE CANJERÊ
CONSCIÊNCIA AO MUTUÊ
E A ESSÊNCIA DE ANGOLA
VIVA O SOLO QUE É SEGURO
CLARIDADE VEM DO ESCURO
DE OUTRAS VIDAS VEM A NOSSA IDENTIDADE
DESEMBARCA A NOSSA HERANÇA
RECONHEÇO A SEMELHANÇA
MÃE DA ANCESTRALIDADE

Ê, CRIANÇA QUE CORRE AS AREIAS DA ILHA
MUSSULO É FEITO BAHIA, E O RIO, ESPELHO DE QUEM VEM DE LÁ
DANÇA DE PRETO, DESCALÇO, EM LOBITO
CRENÇA QUE EU ACREDITO
FEITIÇO QUE ABRAÇA O OLHAR!

TENHO A ALMA DE LUANDA
TENHO A COR DA CATUMBELA… ÔÔÔ
QUEM UM DIA FOI DE HOLLANDA TAMBÉM JÁ FOI DE BENGUELA…
SE TEM KIZOMBA, TEM FAVELA!
CHAMA NOSSO REI MARTINHO PRA CANTAR LARALAIÁ…
MOSTRA O BRASIL “NÓ NA MADEIRA”
DE CAYMMI E DE NOGUEIRA
QUE FAZ “DJAVANEAR”
AO VER O MAR, MARÉ DE SAUDADE CLAREIA O TERREIRO
FLORESCE EM SÃO GONÇALO O EMBONDEIRO
PRO CANTO BRASINGOLA ECOAR

MEU PORTO KALUNGA HOJE É PORTO DA PEDRA
FORTE FEITO MACUMBA, ENVERGA E NÃO QUEBRA!
O MEU POVO É LIBERDADE, UNIÃO DE SAMBA E PEMBA
O TIGRE É FEITO NO SEMBA!

Porto da Pedra escolhe samba que celebra a negritude e homenageia Fernando Macaco

0

Por Júnior Azevedo e Gabriel Gomes

A Porto da Pedra já tem o samba-enredo que levará para a Marquês de Sapucaí no Carnaval 2027. O samba 13, da parceria formada por Bira, Oscar Bessa, Márcio Rangel, Rafael Raçudo, Miguelzinho, Jarrão, Éric Costa, Vinícius Ferreira e Rafael Gigante, foi escolhido como o grande vencedor da disputa realizada na quadra da escola, em São Gonçalo. O resultado foi anunciado na madrugada deste domingo. A obra será o hino do Tigre para o desfile de ‘Porto Kalunga’, enredo desenvolvido pelos carnavalescos Alex Carvalho e Caio Cidrini. A vitória também teve um significado especial para a parceria, que chegou ao bicampeonato na disputa da Porto da Pedra.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

pp final27 1
Fotos: Júnior Azevedo e Gabriel Gomes/CARNAVALESCO

O samba mergulha na ancestralidade africana e estabelece uma conexão entre Angola e Brasil, construindo sua narrativa a partir da cultura, da religiosidade e da identidade negra. Ao longo da letra, aparecem referências a cidades e regiões angolanas, como Luanda, Catumbela, Benguela e Lobito, além de homenagens a nomes fundamentais da música brasileira, como Martinho da Vila, Dorival Caymmi, João Nogueira e Djavan.

O compositor Miguelzinho resumiu a emoção após a confirmação do resultado. “É uma emoção indescritível. Nós somos bicampeões, é sempre uma emoção nova. A gente sempre tem que se segurar. Sempre que é campeão, a gente tem que comemorar muito, porque nós somos parceiros de briga boa. E, quando a gente ganha, a gente tem que comemorar”.

pp final27 5
Compositor Miguelzinho

Vitória dedicada a Fernando Macaco

Um dos compositores da parceria, Oscar Bessa, celebrou a conquista pelo significado pessoal e pela relação com a escola. O compositor destacou que a vitória foi dedicada a Fernando Macaco, integrante da história recente da agremiação que morreu no ano passado.

pp final27 6
Compositor Oscar Bessa

“Tenho a oportunidade de ser campeão dessa escola, que é a minha escola de coração. O que nós fizemos foi pelo Fernando Macaco, a quem nós dedicamos essa vitória. É uma alegria muito grande, uma honra sempre participar da competição da Porto da Pedra e fazer parte do carnaval que vai representar a comunidade de São Gonçalo. Macaco, a vitória é para você. A vitória é sua”, celebrou Oscar Bessa, que venceu pela terceira vez na disputa da Porto da Pedra.

O compositor Rafael Raçudo também destacou a trajetória da parceria e a identidade construída pelo samba escolhido para 2027. Segundo o compositor, a obra foi pensada para levar a força da cultura negra para a Sapucaí.

pp final27 7
Compositor Rafael Raçudo

“A Porto da Pedra é a nossa casa, a nossa parceria, que é a parceria 13, já está nessa estrada há muitos anos e, toda vez que a gente pisa aqui nesse palco, é para plantar o nosso coração. O samba coloca a identidade preta e consegue transmitir uma explosão de emoção que vai contagiar a Marquês de Sapucaí, tenho certeza disso. Nosso parceiro Bira é o maior campeão na história da escola. A gente, como parceria dele, já deve ter passado dos dez sambas”.

‘A verdadeira essência’

O compositor Jarrão explicou que o processo de criação foi facilitado pela riqueza cultural do enredo e revelou as principais ideias que nortearam a construção da obra. A intenção foi colocar a negritude, a religiosidade e a força da África no centro da composição.

“Quando a gente pega para trabalhar um enredo muito rico e profundamente cultural como esse, o caminho facilita bastante para a parceria. A matéria-prima era excelente. O samba foi nascendo passo a passo, de forma orgânica, até se transformar nessa coisa linda, uma verdadeira obra de arte que a gente tem o orgulho de entregar para a escola. A ideia era falar bastante sobre a negritude, resgatar a nossa verdadeira essência e trazer toda a força, a religiosidade e a energia da Mãe África para dentro da letra e da melodia do samba”.

pp final27 8
Compositor Jarrão

O compositor também apontou dois momentos da obra que considera especialmente marcantes. Um deles é a homenagem a Martinho da Vila e Dona Ivone Lara. “Sou apaixonado pelo samba inteiro, mas tem dois momentos específicos que tocam muito o meu coração. O primeiro é quando a gente canta: ‘Chama o nosso rei para cantar: Lara, Laíá’. Essa parte é mágica porque faz uma exaltação direta ao nosso grande mestre e rei Martinho da Vila, além de saudar a memória e o legado da eterna Dona Ivone Lara. O outro trecho carrega um significado ainda mais pessoal para Jarrão. A passagem “Ao ver o mar, maré de saudade, clareia o terreiro” foi construída como uma homenagem a Fernando Macaco. E a outra parte que me arrepia demais é o trecho ‘Ao ver o mar, maré de saudade, clareia o terreiro’. Esse pedaço foi feito com um carinho muito especial para homenagear o meu grande amigo e irmão, Fernando Macaco, que infelizmente nos deixou no ano passado”.

Como passaram os sambas na final

pp final27 4

Parceria de Porkinho: A parceria de Porkinho foi a primeira a se apresentar na noite de final, com uma passagem forte e aguerrida pela quadra da Unidos do Porto da Pedra. Defendida por Guto e Ronaldo Ylê, a obra contagiou os presentes e contou com grande participação da torcida. A letra parte da ancestralidade do tambor, com destaque para os versos: “Porto da Pedra, eu te chamo pelo nome / Como um dia o tambor chamou pelos ancestrais”. Outro momento de riqueza poética e melódica aparece no refrão do meio: “Retinta é a noite em Luanda / O céu é o espelho da cor”. O refrão principal foi um dos pontos altos da apresentação: “(Ê Kalunga) / Ê Kalunga nação / O batuque da canção é Brasingola / Eu sou o Porto da Pedra fundamental / O terreiro original do samba”. A parceria teve grande torcida na quadra, com bandeiras com o símbolo da escola.

Parceria de Leon Azevedo: O samba de Leon Azevedo, Rafael Ferreira, Jeánn Bessa, JC Couto, Eduardo Katata, Dionízio, Gilsinho da Vila, Leozinho Nunes e Paulinho Ferreira foi o segundo a se apresentar. Conduzida por Clovis Pê, a obra teve uma passagem segura. A letra inicia a narrativa com elementos como o vento, a maré e a voz dos ancestrais. Um dos destaques está nos versos “Quando a Kalunga se abriu / A minha alma sorriu e navegou”. O refrão do meio — “Teve gente que chorou / Ouvindo o tambor ecoar” — apresenta uma melodia com potencial para contagiar o público. O principal momento da obra, porém, ficou no refrão: “Angola, tua voz me chamou / No peito, orgulho e paixão / Porto da Pedra é Brasingola / A travessia é agora”. A parceria levou um grande número de torcedores para quadra e contou com a presença de um grupo cênico, com um barco alegórico durante a apresentação.

pp final27 2

Parceria de Vadinho: Terceiro samba da noite, a obra de Vadinho, Marquinho Coração, Zé Alex, Denil, Marcos Pimentel, Isaías Demócrito, Adenor e Miltinho foi conduzida por Leonardo Bessa e Niu Souza e fez uma grande apresentação. O principal destaque está na melodia, marcada por variações e passagens bastante inspiradas. A letra desenvolve bem o enredo e ganha força ao mencionar Martinho da Vila: “Um dia Martinho José Ferreira / O poeta embaixador / Juntou a negritude brasileira / Pra mãe terra embarcou”. Outro momento de destaque aparece em “Tambor de jongueiro, fez semba virar samba / Desfila o cortejo, rodopia na ciranda”, trecho em que a melodia encontra um caminho especialmente interessante. O refrão principal teve ótimo rendimento na quadra: “Porto da Pedra é quilombo feiticeiro / Somos Brasingola, flor do velho embondeiro / Preto na pele, na alma e no sangue / Os filhos de Zambi, herdeiros de Zambi”.

Parceria de Cristiano Teles: O quarto samba a se apresentar foi o de Cristiano Teles, Leandro Gaúcho, Paulo Beckham, Rod Torres, Ornellas Jr, Kiko Ribeiro, Duda SG, Richardson Catarino e Matheus Rangel, defendido pelos intérpretes Tem-Tem Jr e Rafael Tinguinha. A obra começa forte nos versos: “Vem de lá / Nossa gente arrancada de seu ventre / Quando o mar abismado / Viu nobreza retornar”. A melodia ganha força a partir de “O tambor me chamou / Eu vou ôô / Sou filho de África / Canta pra saudar”. Mas o trecho que mais mobilizou a quadra foi o refrão do meio: “Ê Luandê, ê Luanda / Bate cabeça pra pisar no meu terreiro / Incendeia, jindungo na veia de punho cerrado / Nas garras do povo que teve seu corpo marcado”. O refrão principal também teve bom desempenho, especialmente na passagem “É a Porto da Pedra quebrando correntes / Liberta do peito uma voz singular”. Com vozes bem ensaiadas e uma torcida participativa, que balançou bandeiras com o símbolo da escola, a parceria fez uma apresentação aguerrida. A torcida, em bom número, contava com balões e bandeiras e cantou o samba a capela antes mesmo da apresentação.

pp final27 3

Parceria de Bira: Quinto e último samba da final, a obra de Bira, Oscar Bessa, Márcio Rangel, Rafael Raçudo, Miguelzinho, Jarrão, Éric Costa, Vinicius Ferreira e Rafael Gigante encerrou as apresentações em grande estilo. O samba foi conduzido por Rodrigo Tinoco, cuja voz potente deu um tom especial à apresentação. A obra se destacou tanto pelo bom encaixe da letra com o enredo quanto por uma melodia inspirada e marcada por diferentes variações. Um dos pontos altos foi o refrão do meio: “Ê, criança que corre as areias da ilha / Mussulo é feito Bahia, e o Rio, espelho de quem vem de lá / Dança de preto, descalço, em Lobito / Crença que eu acredito / Feitiço que abraça o olhar!”. A passagem faz referência a Mussulo e Lobito, localidades que integraram a viagem dos artistas brasileiros por Angola. O refrão principal também teve excelente rendimento: “Meu Porto Kalunga hoje é Porto da Pedra / Forte feito macumba, enverga e não quebra! / O meu povo é liberdade, união de samba e pemba / O tigre é feito no semba”. A torcida, em bom número, contou com balões e um bandeirão da Porto da Pedra.

É macumba a noite inteira! Parceria de Ian Ruas vence disputa de samba do Salgueiro para o Carnaval 2027

0

Por Marcos Marinho, Matheus Morais, Mariana Santos e Miguel Correia

Força e potência! Assim, o Salgueiro escolheu o samba-enredo da parceria de Ian Ruas, Caio Miranda, Zé Carlos, David Carvalho, Luiz Fernando, Luana Rosa, Fabiano Mattos, Carlão para o Carnaval 2027. O resultado foi divulgado por volta das 5h deste domingo. Com o enredo “Laroyê Xica da Silva: A História por Trás da História”, o Salgueiro será a terceira a desfilar na segunda-feira de carnaval.

ian vencesal
Foto: Victor Busch e Mariana Santos/CARNAVALESCO

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

Compositores celebram vitória ‘quase’ inédita

“Eu estou muito emocionado, estou extremamente emocionado, eu não sei como reagir. O nosso samba tem um poder enorme. Ele evoca as mulheres para amar o seu poder, a sua potência. Isso com certeza vai ressoar na avenida”, disse o compositor Ian Ruas, em entrevista ao CARNAVALESCO, celebrando sua primeira vitória na Academia do Samba.

“É muito emocionante. Eu sou salgueirense desde que me entendo por gente. Meu pai está ganhando esse samba junto comigo, ele que é o compositor atualmente mais antigo da escola. É uma emoção assim, sem tamanho. É um sonho sendo realizado. Eu até agora não estou acreditando, mas eu tenho certeza de que foi a melhor escolha para a escola. Enfim, vamos juntos levar os 40 pontos. Dilacerei as vestes da servidão. Meu corpo foi invasão, fetiche da branquitude… É a minha primeira. Meu pai, sim. Meu pai é compositor do samba da ‘Rua do Ouvidor’, que é um samba superconhecido. Mas eu não. Eu comecei agora. Sim, temos três anos que eu disputo com o samba, sempre na parceria dele, com ele e com o meu irmão. É muito significativo ganhar esse primeiro prêmio junto com o meu pai e o meu irmão. É a família”, comentou a compositora Luana Rosa.

luizluana salgueiro27
Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

“É uma coisa emocionante por todos os aspectos. Quem é do Salgueiro, tendo seu filho e sua filha como parceiros de composição, é muita coisa que eu nem consigo descrever. Vim aqui cuidando do meu coração, para evitar qualquer problema, mas estou muito alegre, muito feliz com esse samba. Esse é o segundo que ganho no Salgueiro. O outro foi o da Rua do Ouvidor. A emoção de ganhar é sempre a mesma, parece que é a primeira vez que você está participando. Dessa vez foi ainda mais gratificante para mim, com a minha filha e o meu filho na parceria”, afirmou o compositor Luiz Fernando.

‘Chegou a dona da casa’: Salgueiro se incorpora em Xica da Silva no show da final

O Salgueiro abriu o espetáculo de sua final com um gesto de retomada: a voz de Xica da Silva, guiando o público por suas próprias multiplicidades. A mesma pomba-gira que inspirou o enredo da escola em 1963, vivida pela atriz Isabel de Valença no desfile campeão, e revivida nas telonas pela atriz Zezé Motta no filme de Cacá Diegues, de 1976, e nas telinhas por Taís Araújo, em 1996, na novela da extinta TV Manchete. Entre uma cena e outra, uma frase resume o tom do espetáculo: “chegou a dona da casa”. É a própria incorporação de Xica da Silva que assume a noite na Academia do Samba.

O show abre com um baile em trajes coloniais, e é nesse cenário que Xica da Silva surge, primeiro apresentando a dança, depois retornando com um banquete, em uma mesa farta oferecida à plateia como um convite. A proposta é olhar outras perspectivas de uma personagem histórica presente no imaginário cultural brasileiro. Se no passado tentaram embranquecer e domesticar a imagem de uma mulher preta e poderosa, agora é ela quem oferece um outro olhar sobre si mesma.

Xica da Silva assume o protagonismo de sua própria história e é reapresentada como uma força negra e feminina, estrategista social através da fé.

A mulher que se associou às irmandades brancas como estratégia de inclusão social dos negros. Xica da Silva fala em primeira pessoa e em múltiplas perspectivas para a comunidade salgueirense.

É Xica da Silva saindo de dentro de um grande bandeirão vermelho e branco a imagem que sintetiza bem a proposta. O Salgueiro é incorporado na saia de Xica da Silva, que gira, reconfigurando a figura histórica em energia vital para 2027 e falando diretamente às mulheres do Morro do Salgueiro.

O espetáculo reforça essa presença em outras cenas, como na apresentação da Bateria Furiosa, sob o comando dos mestres Gustavo e Guilherme, que fez um superaquecimento. Xica também fala através dos tambores do Salgueiro. Até o mascote da escola surge com trajes de Xica, reforçando a incorporação da agremiação.

Outro momento muito esperado da noite foi a apresentação do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Sidclei Santos e Laryssa Victoria. Ele, todo de preto, e ela, em vestido vermelho e preto, performaram a escola em seu novo momento para 2027. Ainda que recém-formada, a dupla já mostrou entrosamento e uma defesa clássica do pavilhão.

Outro ponto alto da noite foi a chegada de Viviane Araújo, rainha de bateria, que foi recebida pelos mestres Guilherme e Gustavo ao tamborim, em uma exibição aclamada pela quadra.

A escola segue com clássicos do samba, entre eles “Explode Coração”, de 1993, “Templo Negro em Tempo de Consciência Negra”, de 1989, “Xangô”, de 2019, “A Ópera do Malandro”, de 2015, e “Salgueiro de Compor Fechado”, de 2025. Destaque também para a exibição da ala de passistas do Salgueiro, reafirmando sua atuação como uma das grandes defensoras do samba no pé do carnaval carioca.

Xica da Silva, que abriu a noite como voz e narrativa, se multiplica ao longo do espetáculo até se tornar o próprio corpo do Salgueiro. Ela se incorpora no samba que se canta, no ritmo que os tambores marcam, no corpo que dança em cada passista e na defesa do casal de mestre-sala e porta-bandeira. Incorpora-se, por fim, na própria festa.

Como passaram os sambas na final

Parceria de Xande de Pilares: Abrindo a noite do duelo de gigantes do Salgueiro, o samba foi defendido por Charles Silva. A performance enérgica teve um ótimo rendimento, com um desempenho crescente. O potente refrão principal funcionou muito bem em todas as passadas. Já a cabeça do samba enfrentou perdas de intensidade, que se recuperavam no verso “Não estou de volta porque sempre estive aqui”, que foi cantado com toda força pelos presentes. Apesar da torcida numerosa, animada e cheia de coreografias, o samba não estava consolidado na boca da torcida, pois nem todos entoavam a obra completa. Entretanto, mantiveram a animação ao longo da exibição.

Parceria de Marcelo Motta: Interpretada por Tinga, a performance encarnou toda a identidade salgueirense. Se iniciou com o canto da torcida sendo levado de forma potente, embalado por atabaques. A performance, com rendimento excelente, se desenrolou de forma intensa para um samba intenso. O ponto alto foi o refrão do meio, que mostrou sua força lírica e melódica. Os versos demonstraram mais efetividade em sua identificação com o público, transmitidos em gestos e interpretações físicas dos presentes. A alusão ao samba de 1963 no verso “apesar da dor” brinda o ótimo desempenho dos versos anteriores. A torcida apresentou um canto mais geral, firme e consolidado, com mais presentes cantando o samba por completo, se mostrando menos interessados em performances ensaiadas e mais em um canto espontâneo. Na última passada, sofreu uma leve queda de energia, que se recuperou no refrão principal.

Parceria de Ian Ruas: Encerrando a noite, Vitor Cunha e Dowglas Ruas performaram a obra. A composição se destaca por sua força lírica, defendida em uma performance aguerrida, tanto por seus cantores como por sua torcida. O público presente, por sua vez, estava em volume menor, mas expresso de forma mais orgânica. Com isso, o canto não estava consolidado de forma completa entre todos, mas não faltou energia. O canto enfrentou dificuldades, com leve queda de rendimento na segunda passada, mas recuperado pelo poderoso refrão do meio. Este demonstrou sua força melódica e lírica na exibição, sendo cantado de forma emocionada pelos presentes em todas as passadas. A performance teve um ótimo rendimento, desempenhando de forma crescente: a torcida, que começou pequena, contagiou e reuniu mais torcedores até o final da apresentação.

Salgueiro 2027: ouça o samba-enredo campeão

0

Compositores: Ian Ruas, Caio Miranda, Zé Carlos, David Carvalho, Luiz Fernando,
Luana Rosa, Fabiano Mattos, Carlão

Arreda, homem, que essa preta vai girar
Meu tambor vai ecoar em resistência!
Evoco as divas, as Marias, as baianas
Depravadas, puritanas, pra clamar nossa insolência!
Exu comanda esse terreiro
Eis aqui o verdadeiro nome de sinhá
FRANCISCA, MÃE DA ENCRUZILHADA, ROSA INDOMADA, DEUSA DA RUA!
NA PROCISSÃO DA ACADEMIA, NEGRA FIDALGUIA SE PERPETUA

INCORPOREI NO ATABAQUE DO MEU TORRÃO
FESTA DE OSTENTAÇÃO AO PODER DA NEGRITUDE
DILACEREI AS VESTES DA SERVIDÃO
MEU CORPO FOI INVASÃO, FETICHE DA BRANQUITUDE!

Nas lentes de outros olhos
O foco na nossa verdade é menor
Tal qual a trama da atriz
Que encenou, de uma vida, um capítulo só
Eu, que já fui outras Xicas, refaço o roteiro, no chão que me fez triunfar

GIRA, DESCE O MORRO MEU SALGUEIRO, MEU QUILOMBO PIONEIRO, RENASCI NESSE GONGÁ!
FIRMA AXÉ NA SEGUNDA-FEIRA, É MACUMBA A NOITE INTEIRA, SARAVÁ, ALAFIÁ

Mãe, guardiã, fruto do afã
De um ventre escravo e um nobre senhor
Matriz, mecena de toda arte, que leva em seu
Estandarte, a simples audácia do amor
Louvai, Brasil! A filha de Òrun despertou!

LAROYÊ! XICA DA SILVA!
LAROYÊ! Ê MOJUBÁ!
TODA MULHER TEM DIREITO À PRÓPRIA HISTÓRIA
MEU SALGUEIRO É A MEMÓRIA QUE EU VOLTEI PRA CONSAGRAR

Unidos da Tijuca 2027: Mainha abençoa e parceria de Ian Ruas vence a disputa de samba-enredo

Por Allan Duffes, Luiz Gustavo, Matheus Vinícius e Victor Busch

Em uma vitória incontestável a parceria de Ian Ruas, Caio Miranda e José Carlos conquistou a disputa de samba-enredo da Unidos da Tijuca para o Carnaval 2027. O triunfo ficou claro já na apresentação, quando uma pane no sistema de som fez o povo tijucano cantar firme e forte a composição inteira. Estava nítida o desejo dos presentes. A amarelo ouro e azul pavão levará novamente para Marquês de Sapucaí, como fez em 2026, a parceria entre carnaval e literatura e apresentará na segunda-feira de carnaval, “A Cabeça do Santo”, inspirado no best-seller da escritora cearense Socorro Aciolli, que esteve presente no evento.

O compositor Ian Ruas, que encabeça a parceria campeã, explicou o que sentiu com essa vitória na agremiação tijucana.

“É indescritível! É o meu primeiro ano escrevendo para a Tijuca. Cheguei aqui não sabendo muito bem o que ia encontrar, mas estava encantado pelo enredo. Desde o momento que eu começamos a escrever, foi muito rápido. Escrevemos de um dia para o outro. Eu senti que tinha uma coisa muito magnetizante, muito afetuosa, a cara da escola. Nós trabalhamos algumas semanas a mais, e sabia que tinha nas mãos algo muito especial. Não sabia se ia encaixar ou não com o carnaval da escola, mas, graças a Deus, se encaixou. Que escola faça um grande carnaval com esse samba. Eu acho que esse samba tem vários momentos, é como se ele fosse feito de refrões. Na primeira, têm dois momentos muito emblemáticos, depois tem um pré-refrão, refrão e depois uma segunda que desemboca em falso refrão. Eu acho que ele permite a escola percorrer. Ele tem um quê teatral que permite a escola trabalhar o visual dela muito em cima dos caminhos que o samba tem”.

ian tijuca2027
Foto: Allan Duffes/CARNAVALESCO

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

 

“A sensação é indescritível. É muita emoção. Desde que meu pai faleceu, meu irmão resolveu botar samba e fez, pela primeira vez, o samba em 2023. E isso aqui tudo é o legado dele. A gente está aqui para manter o nome do meu pai vivo. Isso uniu a nossa família e uniu os nossos amigos. A Tijuca nos abraçar dessa forma na primeira vez que a gente coloca samba aqui… A gente foi recebido com muito carinho. Eu devo muito à Tijuca. Ela está no meu coração eternamente. A parte de que mais gosto é: “Tijuca, ao lume do teu candeeiro // O sonho de um simples vaqueiro que mãe batizou, Samuel”, disse o compositor Caio Miranda, em entrevista ao CARNAVALESCO.

caio tijuca2027
Compositor Caio Miranda. Foto: Matheus Vinícius/CARNAVALESCO

Como passaram os sambas na final

Parceria de Leandro Gaúcho: Hudson Luiz defendeu o samba da parceria de Leandro Gaúcho, Padre Felipe Calisto, Marcelo Moraes, Ricardo Construção e Ailson Picanço. A parceria contou com o apoio de uma torcida empolgada, apesar de não tão numerosa, fazendo coreografias e defendendo o samba com garra. Uma obra que exibiu suas boas variações melódicas em alternâncias de tom, sobretudo na primeira parte e no refrão central. O refrão principal “Santo Antonio pequenino, do sertão eu trouxe a luta…” confirmou suas qualidades, com sua facilidade para obter um canto forte e extremamente agradável. O trecho passou muito bem em todas as passadas, se mantendo firme durante os 30 minutos de apresentação, com muita naturalidade. Em outros momentos, a obra deu uma leve arrefecida com o passar da apresentação, como no refrão central, mas, no conjunto, foi uma apresentação muito boa e recebida de forma positiva na quadra, mesmo sem tanta manifestação dos segmentos.

Parceria de Arlindinho: Evandro Malandro foi o intérprete principal da obra de Arlindinho, Fred Camacho, Bruno Dallari, Igor Leal e Diego Nicolau. Uma quadrilha animada e bem ensaiada comandou a torcida da obra numa apresentação muito enérgica, que levantou a quadra e boa parte dos segmentos, que cantaram a obra com entusiasmo. Muitas pessoas do público entraram no meio da torcida e acompanharam junto. As primeiras passadas foram um frisson, com todo o samba rendendo o máximo, inclusive os trechos onde o canto é mais corrido dentro da melodia. Tudo fluiu com extrema felicidade, sobretudo o refrão principal “Êta cadência arretada, escola danada do meu coração Tijuca, vem e me vira a cabeça, que Santo Antônio abençoe o pavão”. Na segunda metade da apresentação, o samba perdeu um pouco de potência, se sustentando mais no refrão principal e nos versos “Ê rodeia ê…”, apesar de o palco seguir num ritmo mais visceral. O refrão central, que retrata os inúmeros pedidos de casamento feitos ao Santo, que na verdade era Samuel, mesmo com um rendimento menos pulsante, seguiu passando de maneira muito agradável até o fim. A apresentação terminou com forte recepção da quadra, marcando um desempenho muito bom no conjunto dos trinta minutos.

Parceria de Ian Ruas: Vitor Cunha e Dowglas Diniz foram as vozes principais do samba de Ian Ruas, Caio Miranda e José Carlos, o escolhido para ser o hino tijucano em 2027. A primeira passada, assim como na semifinal, foi feita num ritmo mais lento, valorizando toda a qualidade melódica e poética da obra, que conta com perfeição a história proposta na obra de Socorro Acioli. Uma passada que impressionou pelas nuances que o samba possui e contou com o apoio da torcida bem ensaiada e com o samba na ponta da língua. A obra vinha numa excelente toada, com os dois refrãos em fluência absoluta, até que um problema com a fase do palco deixou os intérpretes sem som algum. Em compensação, o que se viu na torcida da composição foi uma apoteose para ficar guardada na memória de quem estava na final. Chegou-se a cogitar interromper a apresentação, mas a ordem foi para a parceria seguir, com concordância dos compositores e intérpretes, que queriam aproveitar o clima de devoção absoluta dos torcedores ao samba, e assim foi. O som não voltou mais, e a simbiose entre intérpretes, torcida e quadra foi crescendo a cada passada, com mais pessoas se rendendo ao samba. Um daqueles momentos que ocorrem para deixar tudo maior. O encerramento com aplausos de toda a quadra fechou mais uma das grandes histórias do carnaval.

Parceria de Lico Monteiro: Wander Pires liderou a apresentação da parceria de Lico Monteiro, Marcelo Adnet, Marcelo Lepiane, Telmo AG da Estiva e Juca Gomes. A parceria contou com uma torcida coreografada que não acompanhou o samba todo, mas se mostrou empolgada. Essa animação também foi a toada do palco, que realizou uma apresentação leve e descontraída, com ótimo trabalho harmônico dos intérpretes. O refrão principal “Eu digo amém, o milagre vai chegar…” teve ótimo rendimento durante boa parte da exibição, mas, nas últimas passadas, a torcida não acompanhou com a mesma valentia. A primeira parte, com suas interessantes variações melódicas, apresentou um desempenho inconstante, com algumas quedas durante a apresentação. O refrão central “corre o fuxico no ar…” é curtinho e, com sua facilidade no canto, passou sem cansar em momento algum. O início da segunda parte segue essa fluência interessante, com nova irregularidade nos trechos seguintes. Uma apresentação boa, com momentos de queda, de um agradável samba.

Grande show na final de samba

O grande show da final da disputa de samba da Unidos da Tijuca, organizado pela diretora artística Flávia Leal, exaltou a história tijucana e imergiu no enredo “A Cabeça do Santo” em cinco atos. O espetáculo foi guiado por um mestre de cerimônias trajado de maneira folclórica.

O primeiro ato contou com o samba-exaltação acompanhado por um violinista, conduzindo o 1º casal de mestre-sala e porta-bandeira, Marcinho Siqueira e Cristiane Caldas. Além disso, teve como ápice a apresentação da comissão de frente inesquecível de “É Segredo”, do campeonato de 2010. Outro samba campeão que não poderia faltar foi “Acelera, Tijuca!”, apresentado junto às passistas.

O segundo ato evocou a tradição e a memória amarelo-ouro e azul-pavão. Aqui, foi possível ver a beleza da velha-guarda evoluindo em uma versão de gafieira de “O Dono da Terra” (1999), cantar ao som do samba sobre o Vasco da Gama, acompanhado de batidas de funk, e ver o 3º casal, Breno Rodrigues e Daphny Mirelly, dançar sob o samba de 1981, “Macobeba, o que dá pra rir, dá pra chorar”.

Para exaltar a brasilidade que tanto será celebrada no enredo de 2027, o Ato 3 trouxe mais um samba campeão: “O dia em que toda realeza desembarcou pra coroar o Rei Luiz do Sertão”, de 2012. “Agudás”, de 2003, contou com a performance de orixás e uma bela apresentação das baianas. O samba de 2025 sobre o orixá Logun-Edé foi apresentado com a participação do 2º casal, Emanuel Lima e Thainara Matias.

Antes de entrar no ato de apresentação do enredo, a escola se despediu de “Carolina Maria de Jesus”, e a quadra celebrou efusivamente o ano que passou. Para finalizar o último carnaval, houve a encenação do emocionante desfile, com pessoas vestidas como trabalhadores, e Marcinho Siqueira e Cris Caldas bailaram lindamente até o encerramento do ato.

A exibição do enredo contou com a apresentação do protagonista Samuel, a cabeça do santo, a fé das mulheres em Santo Antônio e as festas populares. O ato final passou pela música “Força Estranha” para retratar o “dom” de Samuel, pelo sincretismo religioso entre o santo e o orixá Exu e finalizou com um grande arraiá. No fim, o protagonista se apaixonou pela Unidos da Tijuca.

Tijuca paga 100% da premiação

Como iniciativa para valorizar o trabalho dos poetas, a escola reafirma, como justa medida, novamente o compromisso do pagamento de 100% da premiação destinada aos compositores campeões do concurso de samba-enredo. Uma medida pioneira entre as agremiações que realizam disputa de samba no Carnaval do Rio de Janeiro. Outras medidas adotadas a fim de tornar a disputa mais justa economicamente para todas as parcerias foram: a não autorização da produção de vídeo clipe do samba por parte das parcerias; apenas três microfones para os cantores no palco; proibição da confecção e distribuição de camisas próprias dos sambas; proibição de bandeiras, bolas e demais artefatos utilizados nas disputas e entrada das grandes torcidas durante o processo de disputa, exceto na semifinal e na grande final.