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‘Desenquadrando folias’: Por um Basquiat do samba

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Milton Cunha: “O texto do amigo Hélio Rainho, passista, lança luz sobre estilhaços de um corpo negro desconstruído num doutorado em andamento na FGV. Sou movido por estas proposições desconcertantes. Boa leitura”.

“DESENQUADRANDO FOLIAS”: POR UM BASQUIAT DO SAMBA

Por Hélio Ricardo Rainho

Um preto elegante, terno, gravata, defendendo sua arte e afirmando sua cultura negra em meio a uma sociedade branca e hostil. Paulo da Portela nos anos 20?! Não. Jean-Michel Basquiat nos anos 70!

A figura negra, garbosa, imponente, africanizada, resiste ao tempo, ao mistério da vida e da morte. Nascido no Brooklyn em 1960, o pintor negro mais importante do mundo, colocado entre os quatro mais caros do mercado da arte neste século, morreu aos 27 anos em 1988, em seu loft nova-iorquino, milionário e com um legado de mais de duas mil obras produzidas.

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Jean-Michel Basquiat no Great Jones Street Studio (NY, 1988) – Fotografia clássica do artista por Dmitri Kasterine.

“Que temos nós, brasileiros, a ver com isso?” – perguntam os ufanos, os canônicos, os acadêmicos, os xenófobos…esses “enquadrados” que não compreendem a tríade conceitual do pintor sobre “a realeza, o heroísmo e as ruas” (em suas palavras, a síntese de sua arte).

Acordem! “Desenquadrem-se”! Basquiat chegou!

Os quadros do artista colocaram nas galerias de arte a imagem e as dores dos negros, o brado antirracista, a denúncia dos maus tratos coloniais em traços desconexos, corpos desfigurados, ares surrealistas, neo-expressionistas. Basquiat transitou nas ruas, conheceu a cultura marginal do Low Manhattan, dialogou com os desprovidos, os guetos, os redutos de negros e latinos largados e ameaçados pelo poder. Veio de família abastada, mas escolheu conviver com os desvalidos para dar-lhes voz nas obras, que invadiram as galerias onde jamais um artista negro conseguiu entrar. E está nelas até hoje! Um agente estratégico que muito nos tem a ensinar!

Há um mistério em Jean-Michel Basquiat que ninguém explica, mas o samba tem a pretensão de querer explicar.

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Obra SEM TÍTULO: (NEGRO NEGRO NEGRO), data desconhecida (entre 1981-87) | Stick de óleo e tinta acrílica sobre papel, 46 x 61 cm, 18 x 24 polegadas | Acervo de Randall Smith

Em 2018, recebi um convite da Brazilian Council on Samba, uma organização sem fins lucrativos de Nova York que promove a cultura do samba brasileiro entre comunidades negras e latinas locais, para desenvolver um enredo sobre as premissas da ONU para a década dos afrodescendentes. Eu estava fascinado com uma visita a Nova York em 2015 onde encontrei as obras de Basquiat nos museus, com a recente exposição sobre o artista no CCBB em 2018, com a bibliografia que há algum tempo já levantava sobre ele, com um trabalho que já havia feito chamado Meninos do Samba no qual um passista (Brener Belisário, das escolas de Padre Miguel) o havia representado. Propus que fizéssemos não um enredo panfletário sobre premissas, mas com um personagem protagonizando tudo o que a ONU apregoava e, ao mesmo tempo, filho nativo daquela Nova York onde o desfile seria realizado. Criei o enredo Basquiat – Every Boy is a King como tema da parade (adiada devido à pandemia da covid-19), conjugando a biografia do artista com a proposta da ONU. Não teve o desfile, mas o colecionador Randall Smith, dono de 95 obras do acervo The Lost Masterworks of Jean-Michel Basquiat – 1981- 1987, me procurou e concedeu-me direito de uso e estudo de toda sua coleção com exclusividade. Um brasileiro sendo, pela primeira vez, contemplado com essa grandeza! Basquiat virou, então, tema da minha tese de doutorado.

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De lá pra cá não parei de pensar que Basquiat tinha elo comum com o samba. O dândi negro de terno e gravata era um apóstolo e um apóstata de Paulo da Portela. “Pés e pescoço ocupados!”- bradava o Príncipe Negro do Samba. Mas Basquiat quis ser atrevido quatro décadas depois: ocupou o pescoço, mas “desocupou os pés”. A imagem clássica da cabeça com tranças/dreads e dos pés descalços em forte contextualização africana é combinada com o corpo de terno. A especialista em literatura contemporânea afro-americana e estudos culturais afro-diaspóricos Monica L. Miller nos lembra que “A história do dandismo negro na diáspora atlântica é a história de como e por que os negros se tornaram árbitros do estilo e como usam roupas e trajes para definir sua identidade em diferentes contextos políticos e culturais” (Slaves to Fashion: Black Dandyism and the Styling of Black Diasporic Identity. Londres: Duke University Press, 2009:50-51). Paulo e Basquiat eram dândis negros e sabiam disso! Fizeram do terno europeu o ícone de uma elegância representativa na luta pela afirmação de sua identidade e seu poder de ressignificação. Apropriaram-se do traje do colonizador e o reconfiguraram. Basquiat recebia caixas de ternos Armani e Versace…e pintava seus quadros com eles em seu estúdio, os respingando de tinta. “Danem-se os cânones: eu quero é desenquadrá-los”!!! Manda o luxo pro lixo!!!

Frantz Fanon afirmou que o africano “parece ser hostil com essa conformidade com as categorias do tempo” e que “para ele, o passado é um passado pungente” (“Em Defesa da Revolução Africana”, Ed. Sá da Costa, 1980, p.8). Basquiat escolheu não querer o passado, soube dominar o presente e fazer-se “futuro”. Um afrofuturista de si mesmo!

Basquiat escolheu não morrer mesmo tendo a certeza da morte. Eternizou-se como figura, imagem, fantasmagoria benjaminiana no século XXI. Passou a perna no teórico alemão: a imagem fotográfica não lhe “roubou a aura”, como na teoria de Benjamin; pra Basquiat, a aura seguiu adiante, virtuosa e pulsante.

Se vivo, faria 60 anos. Capoeira Machado, bamba do Império Serrano, integrante da Velha Guarda Show, afirmou em depoimento: “Basquiat era um malandro, driblou muitas dificuldades pra afirmar sua arte e ocupar espaços! Se fosse vivo, aos 60 anos, poderia fazer parte da nossa Velha Guarda”.

Já foi-se o tempo em que a arte negra podia ter CEP, endereço, lugar. “Afro-atlânticos” na concepção do historiador inglês Paul Gilroy, “afro-diaspóricos” na concepção do martiniquense Frantz Fanon, “afro-modernistas” na concepção do nigeriano Chika Okeke-Agulu ou “donos do corpo” na concepção do brasileiro Muniz Sodré – estão desterritorializados e ocupam todos os lugares. Os negros espalhados pelos continentes estão na mesma luta, na mesma afirmação, em busca das mesmas estratégias de desenquadramento da estruturação racista e colonizadora.

Basquiat está vivo, dá samba, dá enredo, dá linha a tudo isso! Mas desenquadra tudo, até mesmo a própria folia. “Quem nunca sentiu o corpo arrepiar ao ver esse rio passar?”

Hélio Ricardo Rainho é doutorando e mestre em História, Política e Bens Culturais e crítico dos desfiles de escolas de samba.

Retrospectiva 2020: Adeus para Luizinho Drumond, Covid-19 paralisa eventos, escolas realizam lives e começam os projetos sociais

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Após os intensos três primeiros meses de 2020, o mundo se viu abalado com a informação de que um vírus de contágio muito rápido causava a morte em questão de dias, principalmente de pessoas acima de 60 anos e com problemas crônicos de saúde, como diabetes, pressão alta, problemas cardíacos e outras comorbidades. A única solução era manter isolamento social e usar máscaras com higienização constante. A notícia abalou o planeta e não foi diferente com o mundo do carnaval.

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Na terceira reportagem da série ‘Retrospectiva 2020’ relembramos os meses de abril, maio e junho. Assim que a Covid-19 se alastrou pelo mundo as escolas de samba interromperam suas atividades. Enquanto os mortos e contaminados progrediam geometricamente os sambistas tentaram criar soluções de enfrentamento à crise econômica que batia a porta: projetos sociais e lives tentavam socorrer os mais necessitados. O medo se alastrava mais rápido que o novo coronavírus.

Abril – Covid-19 devasta escolas de samba e sambistas reagem com solidariedade

No início de abril o mundo estava sentindo os primeiros efeitos da pandemia de Covid-19. A recomendação da OMS era clara: isolamento social absoluto, o que representava a paralisação total de atividades nas escolas de samba. No Brasil os contaminados se empilhavam dia após dia. As mortes começaram a se alastrar dentro das escolas de samba. A Mocidade contabilizou três perdas apenas em abril. Portela, Mangueira, Grande Rio, Porto da Pedra e Salgueiro foram outras agremiações que perderam integrantes para o novo Coronavírus. O coreógrafo Carlinhos de Jesus foi o sambista mais conhecido e lutar contra a doença e a conseguir vencê-la.

‘Madeira de dar em doido’ os sambistas não tinham tempo para chorar. Era enxugar as lágrimas causadas pelas perdas e buscarem alternativas para evitar que aqueles que estivessem vivos não morressem também, mas de fome. Neste sentido o primeiro projeto social de reação à Covid-19 foi o Ritmo Solidário. A arrecadação de donativos e insumos de primeira necessidade seriam doados aos ritmistas que não poderiam realizar mais shows nessa época do ano. Além disso as escolas de samba usaram a própria estrutura nos barracões na produção de equipamentos de proteção individual (EPI’s) para os profissionais da área de saúde na linha de frente do enfrentamento à pandemia.

Além das sentidas perdas para a Covid-19, personalidades do samba partiram em abril por outros motivos. Casos de Tantinho da Mangueira, Seu Zacarias Siqueira e Rico Medeiros. No fim do mês o barracão da Viradouro pegou fogo causando enorme prejuízo para a campeã do carnaval.

Maio – Lives explodem pelo Brasil e pela primeira vez fala-se em não realização do Carnaval 2021

O segmento mais atingido pelas restrições impostas pela pandemia de Covid-19 foi sem dúvida o de eventos. Shows, bares e similares ficaram impedidos de trabalhar em virtude dos riscos que as aglomerações traziam. Os maiores artistas do Brasil então passaram a realizar lives que explodiram de audiência nos mais variados ritmos musicais. As escolas de samba perceberam o nicho de mercado e também realizaram lives históricas que deram um alento aos sambistas em um cenário de tanta tristeza.

A primeira escola a produzir uma live foi o Salgueiro. Em quase 6 horas no ar foram mais de 130 mil visualizações. O pioneirismo motivou outras produções. A Beija-Flor liderou uma live com mais seis escolas do Grupo Especial. A Viradouro também realizou a sua para a divulgação de seu enredo. A Liga SP foi outra que fez uma live. Ao fim do mês o Império Serrano produziu a primeira de uma série de lives com produção profissional. Nos meses seguintes escolas como Portela e Mangueira também prepararam lives.

Mas nem só de mortes e notícias ruins viveu o carnaval em 2020. Diversos sambistas foram atingidos pela Covid-19 e conseguiram derrotá-la. Os casos mais emblemáticos foram do carnavalesco da Unidos da Ponte, Rodrigo Marques, que passou 15 dias internado e venceu a doença, e do diretor de carnaval da Mocidade, Marquinho Marino. O dirigente chegou a estar na UTI, mas também conseguiu derrotar o coronavírus.

Com o crescente cenário de incertezas começava a cair a ficha: a vacina era uma realidade distante ainda e o carnaval de 2021 estava ameaçado. Os primeiros a tocarem no tema foram o prefeito de Salvador e o governador da Bahia, praticamente descartando a realização da festa por lá em fevereiro. O tradicional carnaval de Notting Hill, em Londres, que se realizaria em agosto também foi cancelado. A Banda de Ipanema foi o primeiro mega-bloco do Rio a descartar desfilar no carnaval. Escolas de samba e a Liesa ainda resistiam em tomar uma decisão.

O Império Serrano realizou eleições em maio e aclamou Sandro Avelar presidente da agremiação. A escola, que fez um melancólico desfile em 2020 desonrando sua história, montou uma forte equipe para voltar ao Especial. Foram contratados nomes como Leandro Vieira, Nêgo, Igor Viana e Patrick Carvalho.

Junho – A morte de Luizinho Drumond e os protestos contra o racismo pelo mundo

Em 27 de maio de 2020 um homem negro foi assassinado nos EUA pela polícia. A morte de George Floyd iniciou uma série de protestos iniciados pelos americanos e que rapidamente se alastraram por todo o mundo. No Brasil houve reações da sociedade civil e de personalidades negras. A campanha “#blacklivesmatter (vidas negras importam)” ganhou as redes sociais. O mundo do carnaval se posicionou com veemência e as escolas de samba não se calaram. A cantora Alcione foi desrespeitada pelo presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, e foi defendida pelos sambistas. O site CARNAVALESCO produziu uma grande reportagem sobre lugar de fala dos negros no caso do racismo e uma live apenas com colaboradores negros.

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Aproveitando o clima de anti-racismo que dominava as discussões pelo mundo a Beija-Flor e a Grande Rio divulgaram seus enredos com temática negra. No fim do mês os presidentes do Grupo Especial planejavam a primeira plenária para discutir o Carnaval 2021. Ela entretanto não foi realizada em virtude da morte de Luiz Pacheco Drumond, grande benemérito e sócio-fundador da Liesa. Luizinho comandou a Imperatriz Leopoldinense em todos os campeonatos de sua história. Sua morte causou reações em todo o mundo do carnaval.

Jorge Perlingeiro surge como favorito para presidência da Liesa, informa colunista

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O apresentador Jorge Perlingeiro, responsável pela leitura das notas do carnaval do Grupo Especial do Rio de Janeiro, na quarta-feira de cinzas, surgiu como favorito para ocupar a presidência da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), na futura eleição, que ainda não tem data prevista para acontecer. A informação foi divulgada nesta terça-feira na coluna do jornalista Ancelmo Gois, em O Globo.

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O pleito oficialmente marcado para maio de 2021 deve ser adiantado. Alguns dirigentes, nos bastidores da Liga, queriam que acontecesse já em dezembro de 2020, mas a tendência é que seja em janeiro ou provavelmente em fevereiro. A atual gestão ainda tem que apresentar sua prestação de contas.

O atual presidente Jorge Castanheira não manifestou oficialmente sua decisão de concorrer ou não para uma nova reeleição. A seu favor tem o lado da gestão do carnaval, e, caso os desfiles aconteçam em julho de 2021, com autorização do poder público e autoridades sanitárias, muitos confiam que ele é o nome ideal para realizar toda estrutura operacional e depois deixar o comando da Liesa.

Do outro lado, alguns dirigentes, que não declaram suas preferências abertamente, acreditam que é hora de mudança no comando do Grupo Especial. Além de um novo presidente, eles sugerem uma descentralização na Liga, com novos diretores cuidando de áreas específicas (marketing, comunicação, operações, social e cultural).

Além do nome de Jorge Perlingeiro, outros citados são Fernando Horta, presidente da Unidos da Tijuca, e, Renato Thor, presidente do Paraíso do Tuiuti e ex-presidente da Lierj. Oficialmente, nenhum dos três se posicionou ainda sobre o pleito na Liesa.

A eleição terá os votos presidentes das escolas de samba e das fundadoras da Liesa, além das palavras decisivas do Conselho Superior da Liesa. Com o falecimento de Luizinho Drumond, o grupo hoje é formado por Anísio Abraão David e Aílton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães.

Retrospectiva 2020: Carnaval da Viradouro, Imperatriz e Águia de Ouro

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Viradouro e Águia fazem história nos desfiles de Rio e São Paulo

No segundo capítulo da Retrospectiva 2020 vamos abordar os meses de fevereiro e março.  O mês dos desfiles chegou com muita expectativa para todos os sambistas. A folia entretanto só ocorreria a partir do dia 23 de fevereiro. No início do mês o ex-presidente da Portela, Carlinhos Maracanã morreu e recebeu muitas homenagens do mundo do samba. Faltando poucos dias para os desfiles uma nova indefinição angustiava as escolas e a Liesa: o Sambódromo ainda não estava liberado pelos Bombeiros. A autorização só foi concedida na bacia das almas.

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No Rio de Janeiro a Viradouro fez história. A vermelha e branca de Niterói foi a segunda escola a desfilar no domingo de carnaval e rompeu dois tabus de uma vez: foi a escola campeã a desfilar mais cedo na história e venceu desfilando domingo depois de dez anos. O desfile impressionou pela grandiosidade e bom gosto e garantiu à escola o segundo campeonato de sua história. Em uma apuração emocionante a Grande Rio ficou com o vice-campeonato depois de empatar com a Viradouro e perder no desempate. A Mocidade tirou o 3º lugar com uma emocionante homenagem a Elza Soares. Beija-Flor, Salgueiro e Mangueira completaram as campeãs. A Portela não conseguiu voltar pela primeira vez, desde 2013. União da Ilha e Estácio de Sá foram rebaixadas.

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Na Série A, a Imperatriz fez um desfile sem nenhum defeito e garantiu o acesso com 10 em todos os quesitos. A Lins Imperial e a Em Cima da Hora regressaram ao Sambódromo.

Se a história foi escrita no Rio de Janeiro, em São Paulo não foi diferente. Depois de muitas vezes ficar no quase, finalmente a Águia de Ouro levantou o caneco pela primeira vez na história, com um desfile sobre a educação. Mancha Verde, Mocidade Alegre, Tatuapé e Vila Maria completaram as campeãs. Estreando em São Paulo, Paulo Barros não conseguiu nem uma vaga nas Campeãs pela Gaviões da Fiel, o que causou revolta em muitos sambistas. X-9 Paulistana e Pérola Negra foram rebaixadas. Vai-Vai e Tucuruvi regressaram ao Grupo Especial.

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Março – Em meio à dança das cadeiras, Covid-19 abala as escolas de samba

Como acontece todo ano após os desfiles foi frenética a chamada dança das cadeiras, como os sambistas chamam a troca de profissionais entre as escolas. Com exceção da campeã Viradouro, muitas escolas realizaram trocas visando o desfile de 2021. As principais mudanças, escolhidas pelos leitores do site CARNAVALESCO, foram as contratações de Paulo Barros pelo Tuiuti e de Rosa Magalhães pela Imperatriz. O que ninguém sabia é o que estava por vir.

Foi no dia 15 de março que a Organização Mundial da Saúde (OMS) deixou o mundo perplexo ao decretar a pandemia de Covid-19. Reação em cadeia em todo mundo, não foi diferente no mundo do samba. A primeira decisão causada pela decretação da pandemia foi o cancelamento do evento de apresentação da equipe da União da Ilha para 2021. Em seguida, Portela e Mangueira cancelaram também todas as suas atividades. A Lierj também recomendou total paralisação e o Sambódromo passou a servir de abrigo para moradores de rua. A primeira morte por Covid que teve relação com o mundo do samba foi a da atriz Érika Ferreira.

Retrospectiva 2020: Janeiro marcado com a polêmica na eleição da corte e Sambódromo sem os ensaios técnicos

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‘Torcemos que o ano de 2020 seja de mudança‘. Esse foi o desejo do editoria publicado pelo site CARNAVALESCO no primeiro dia de 2020. O texto tinha a intenção de pedir uma nova guinada nos rumos do carnaval. Não imaginávamos, entretanto, que enfrentaríamos o ano mais difícil deste século para toda a humanidade. Após o carnaval, a pandemia do novo Coronavírus mudou a vida de todos. Como se tornou tradição em nosso site, iniciamos com este texto a contar a história do histórico 2020 para o carnaval e os sambistas. Nesta primeira matéria relembraremos o mês de janeiro.

Janeiro – Sambistas sem ensaio técnico novamente. CARNAVALESCO intensifica cobertura na rua

Nos primeiros dias de 2020 o site publicou o resultado do júri com os especialistas que apontaram os melhores sambas no Rio (Especial e Série A) e São Paulo. Mas o que trazia grande angústia a escolas e sambistas era novamente a grande indefinição que cercava a realização ou não dos ensaios técnicos. Evento tradicional no calendário da folia até o ano de 2017, apenas em duas ocasiões eles foram realizados durante a gestão de Marcelo Crivella. No início do mês o governo do estado se reuniu com as escolas prometendo ajuda. Entretanto, a Liesa descartou a realização dos ensaios logo em seguida.

Alheio a essa indefinição, o site CARNAVALESCO tratou de não deixar o seu público sem o modelo de cobertura da competição. Ainda em 2019 iniciamos a cobertura dos ensaios de rua, intensificadas em janeiro e fevereiro de 2020 até a realização dos desfiles. 2020 marcou também o crescimento da cobertura dos ensaios em São Paulo com uma equipe exclusivamente locada na capital paulista.

Janeiro foi marcado por muitas polêmicas. A primeira envolveu a São Clemente. Temeroso que a agremiação fosse novamente prejudicada com o julgamento de bandeira, o carnavalesco da escola na época, Jorge Silveira pediu que a escola fosse respeitada. O presidente Renatinho foi outro que criticou a forma com que a escola era tratada dentro da Liesa. O que se viu no desfile entretanto foi novamente um rigor excessivo com a escola.

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Em 2020 a escolha da tradicional corte que representaria a folia até o carnaval foi cercada de polêmicas. O evento aconteceu na praia de Copacabana. A paulistana Camila Silva foi eleita a rainha. Uma das princesas não se conformou com a decisão do júri formado pela Riotur e reclamou o fato de uma mulher de fora do Rio ter sido escolhida. O mundo do carnaval saiu em defesa de Camila, causando um grande mal-estar dentro da própria corte.

Evelyn Bastos sobre o ano de 2020: ‘Vimos o quanto é necessário pensar e cuidar do outro’

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Rainha de bateria da Estação Primeira de Mangueira e uma das responsáveis pelo projeto social SAC (Samba Amor e Caridade”, Evelyn Bastos, conversou com o site CARNAVALESCO, após a Ação de Natal com os moradores em situação de rua no Centro do Rio de Janeiro.

A mangueirense explicou que após o Natal diferente, com distanciamento social e poucos familiares, a virada do ano deverá ser para reflexão de todos.

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“O Natal foi diferente. O dobro de sentimento de todos os outros. Foi um ano que fez a gente refletir muito. A virada do ano que seja de reflexão. Vimos o quanto é necessário pensar e cuidar do outro. Nos aproximamos de nós mesmos, de quem nós somos, valores da vida e sentimentos. Que seja um fim de ano repleto de amor e que todos pensem positivo, emanando a melhor energia que guardamos, porque 2021 precisa ser uma renovação”, disse Evelyn Bastos.

A rainha de bateria da Mangueira contou que já esperava um número maior de pessoas em situação de rua na Ação de Natal, mas que a quantidade foi além do previsto, já que a pandemia da Covid-19 afetou completamente a vida da população.

“A gente já esperava um movimento maior esse ano. Foi muito maior com as pessoas com necessidade de comida ou água. Ver isso é muito ruim, porque sempre queremos que a população de rua diminua. Muita criança e o desespero de todos é grande. Viemos para ajudar e unirmos nossas mãos. Essa população não é vista pelo poder público. Nunca existiu um projeto eficiente para essas pessoas tão necessitadas. A gente que ganha o presente nessa ação, saímos gratificados por podermos fazer o bem. Ainda tenho esperança, acredito que um dia ainda vamos mudar essa situação”, afirmou Evelyn Bastos.

Ação do site CARNAVALESCO com sambistas e projetos sociais distribui mais de 500 quentinhas no Centro do Rio

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A solidariedade faz parte do cotidiano dos sambistas. Juntos, sempre mudaram suas histórias. Em tempos de pandemia da Covid-19, os projetos sociais foram fundamentais para manterem vivos os sonhos de milhares de funcionários/colaboradores das escolas de samba. Em mais de cinco anos, o site CARNAVALESCO participa da Ação de Natal com o projeto SAC (Samba Amor e Caridade). Esse ano, o encontro teve a entrada especial de dois outros projetos: Só Vamos e Sefras. Dessa vez, o local escolhido foi o Largo da Carioca, no Centro do Rio, e, o local ficou lotado de moradores em situação de rua que esperavam suas refeições, água, refresco, serviços de saúde e alguns presentes, como mochilas, roupas e até brinquedos. Foram distribuídas mais de 500 quentinhas.

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“Infelizmente, desde que começou a pandemia, a gente viu o crescimento da população de rua. A gente já esperava um movimento maior esse ano. Foi muito maior com as pessoas com necessidade de comida ou água. Ver isso é muito ruim, porque sempre queremos que a população de rua diminua. Muita criança e o desespero de todos é grande. Viemos para ajudar e unirmos nossas mãos. Essa população não é vista pelo poder público. Nunca existiu um projeto eficiente para essas pessoas tão necessitadas. A gente que ganha o presente nessa ação, saímos gratificados por podermos fazer o bem. Ainda tenho esperança, acredito que um dia ainda vamos mudar essa situação”, disse Evelyn Bastos, rainha de bateria da Mangueira e uma das responsáveis pelo projeto SAC.

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Criador do projeto Só Vamos, Ronaldo Ferreira, explicou que a ação nas ruas funciona todo os dias, não apenas no Natal, e que o desejo para 2021 é cada vez mais unir forças em prol de quem necessita de ajuda.

“O desespero pela fome refletiu no número de pessoas. É a luta para garantir a refeição. Temos completa noção que muitas pessoas não comiam há dois dias. Podemos dar bolo, água, guaraná natural. A galera nas ruas demanda muito mais que comida. Querem também conversar e serem ouvidos. A lição que fica de 2020 é a união. O ano foi muito ruim e conseguimos nos unir para fazer diferença e algo pelo próximo.

‘A fome aumentou’, diz Selminha Sorriso, durante ação com moradores em situação de rua no Centro do Rio

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Referência como porta-bandeira e sambista, Selminha Sorriso é presença certa na Ação de Natal feita pelo site CARNAVALESCO, além dos projetos SAC, Só Vamos e Sefras. A pandemia da Covid-19 levou ainda mais pessoas para viverem nas ruas do Centro do Rio de Janeiro. Esse ano, a porta-bandeira da Beija-Flor citou que o encontro foi fundamental para muitos poderem ter uma refeição no fim do ano.

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“Estar aqui é ser presenteada. Posso me tornar um ser humano melhor. Entendendo que os meus problemas não são maiores. Sou muito grata por participar dessa ação. Cada ano que passa é um cenário diferente. Me marca muito. A fome aumentou, são mais pessoas na rua, e nós estamos fazendo nossa parte para tentar minimizar a dor dos irmãos”.

A Ação de Natal doou mais de 500 quentinhas. Dessa vez, o local escolhido foi o Largo da Carioca, no Centro do Rio, e, o local ficou lotado de moradores em situação de rua que esperavam suas refeições, água, refresco, serviços de saúde e alguns presentes, como mochilas, roupas e até brinquedos.

“Precisamos lutar por um país onde as pessoas tenham dignidade para viver. Não podemos esquecer de nos colocarmos no lugar dos outros. O nosso presente maior é a saúde. Quando virar o ano vamos estar mais próximos da vacina”, afirmou Selminha.

Perguntada sobre o carnaval, a porta-bandeira citou a possibilidade dos desfiles em julho de 2021, caso tenham autorização do poder público e das autoridades sanitárias.

“Espero que o carnaval tenha mais força, que as pessoas valorizem mais essa festa, que não é só folia, também é meio de sobrevivência para muitos de nós. Será um carnaval diferente, no meio do ano, mas o carnaval da emoção. As disputas não devem ser priorizadas, mas a gratidão de pisarmos no solo sagrado da Marquês de Sapucaí”.

Milton Cunha começa série no CARNAVALESCO com texto de Leonardo Bora

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Oi queridos, começando esta série de publicações dos pesquisadores e autoridades do Obcar, abro com o querido Leonardo Bora, carnavalesco da Grande Rio, juntamente com Gabriel Haddad (também OBCAR), e professor da EBA-UFRJ. Escolhi esta abertura do Bora, pois acho pertinente iniciar com Quixote e os pensamentos sobre a loucura. A nossa cara, amantes da folia e interessados na sistematização do Episteme Ziriguidum.

REMOENDO FANTASIAS QUIXOTESCAS

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Por Leonardo Bora

Poucos personagens de ficção foram tão reprocessados ao longo dos séculos quanto “O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha”, o protagonista da obra de mesmo nome assinada por Miguel de Cervantes. Publicado em 1605, o romance (ou seria novela? A classificação gera inúmeros debates, mas o foco da prosa não é a taxonomia literária) mexe com o imaginário coletivo e é capaz de criar imagens mentais mesmo entre aqueles que nunca mergulharam nas páginas de Cervantes – que são muitas e bastante enoveladas, repletas de cenas empolgantes. Dragões, moinhos, brasões, castelos, armaduras, rebanhos de carneiros. Espadas, escudos, bandeiras. No fértil campo da teoria da literatura, nomes como Jorge Luis Borges e Erich Auerbach teceram reflexões fundamentais, constantemente revisitadas. O primeiro, na figura do personagem Pierre Menard, questiona os limites da autoria e enxerga Quixote enquanto um símbolo potente de criticidade e provocação. Auerbach, por sua vez, dedica um dos capítulos de sua obra “Mimesis” ao imaginário quixotesco, afirmando, em certo momento, que “o livro todo é um jogo, no qual a loucura se torna ridícula quando exposta a uma realidade bem fundamentada.”

É a loucura, sem dúvidas, um tema dos mais trabalhados ao longo da história da literatura ocidental. Na mesma obra mencionada, Auerbach discorre sobre a máscara de loucura utilizada por Hamlet, o “príncipe cansado” de William Shakespeare. Autores tão díspares como Joaquim Maria Machado de Assis e João Guimarães Rosa trabalharam o tema em obras como “O Alienista” (do primeiro) e “Sorôco, sua mãe, sua filha” (do segundo). Curiosamente, ambos os autores viraram personagens de um mesmo enredo carnavalesco – aquele apresentado na Marquês de Sapucaí pela Mocidade Independente de Padre Miguel, em 2009 (ano em que foram celebrados os centenários de falecimento de Machado de Assis e de nascimento de Guimarães Rosa). A narrativa, no entanto, insistiu em enfatizar aspectos biográficos da história dos homenageados (um retrato de Cervantes deu o ar da graça em uma das fantasias de ala, inclusive, junto à imagem de Arthur Schopenhauer). As obras permaneceram em segundo plano, para a decepção dos leitores literários. O papo de agora, porém, é sobre o Quixote no samba, enrolado em serpentinas. Voltemos aos moinhos!

Quando a Unidos do Porto da Pedra, escola de samba de São Gonçalo, apresentou, em 1997, no Grupo Especial do Rio de Janeiro, um enredo sobre a loucura intitulado “No reino da alegria, cada louco com sua mania”, D. Quixote mereceu uma sequência de alas (a bateria vestiu a roupa “O louco Cervantes”) e um carro alegórico. Nas palavras do carnavalesco Mauro Quintaes, parte do texto da sinopse apresentada ao público e ao corpo de jurados, “a obra nos dá a sensação de que começamos a flutuar no espaço, regressivamente, em direção àquele romântico período de puro cavalheirismo, quando a honra era mais valiosa que a própria vida (…).” O autor abraça a brincadeira e sugere que D. Quixote, nas terras fluminenses, enlouqueceria lendo os Diários Oficiais e lutando contra os moinhos de sal da Região dos Lagos. O júri do Estandarte de Ouro aprovou a brincadeira e concedeu ao Tigre de São Gonçalo o prêmio de melhor enredo. Quinta colocada naquela disputa, a Porto fez história!

Quintaes voltou a cortejar Quixote no desfile que assinou em 2003, à frente da Unidos do Viradouro, outra escola em vermelho e branco sediada do outro lado da Guanabara, em Niterói. O enredo “A Viradouro canta e conta Bibi – uma homenagem ao teatro brasileiro” contou e cantou a trajetória de Bibi Ferreira, destacando, em certo momento, a participação da atriz no musical “O Homem de La Mancha”, de Dale Wasserman, cuja adaptação brasileira, em 1972, teve as letras traduzidas por Chico Buarque e Ruy Guerra. Bibi interpretou Dulcinéia del Toboso, a musa do cavaleiro andante – daí a visão de enormes dragões e moinhos de vento, no quarto carro alegórico. Não à toa, a recente montagem de “O Homem de La Mancha” dirigida por Miguel Falabella (homenageado pela Unidos da Tijuca, em 2018 – Quixote marcando presença!) dialogava visualmente com a obra de Arthur Bispo do Rosário, artista cuja produção é um convite para que se pensem as fronteiras entre arte e loucura. Bispo, que fechou o cortejo de 1997 da Porto da Pedra, desfilou outras vezes, na Marquês de Sapucaí – inclusive na Tijuca, Manto da Apresentação e tudo.

Indubitavelmente, a mais completa e profunda aparição de Dom Quixote na Passarela do Samba se deu por meio da pena de Rosa Magalhães, artista que já apresentou inúmeros enredos que dialogam com a literatura, evocando nomes como Ariano Suassuna, Alexandre Dumas, Michel de Montaigne, Thomas More e Hans Christian Andersen (e é preciso destacar que o apreço de Rosa pelos livros pode ser explicado pela genealogia: ela é filha de Lúcia Benedetti, escritora e teatróloga, e de Raymundo Magalhães Júnior, ex-presidente da Academia Brasileira de Letras). No carnaval de 2010, à frente da União da Ilha do Governador, a carnavalesca apresentou a narrativa “Dom Quixote de La Mancha, o Cavaleiro dos Sonhos Impossíveis”. Um enredo mais do que apropriado para o contexto de que falamos, afinal, a tricolor insulana retornava ao Grupo Especial depois de oito anos no Grupo de Acesso. “Abrir o domingo” nunca foi tarefa fácil: permanecer no “grupo de elite”, no mais das vezes, não passa de um “sonho impossível”. A Ilha abraçou o delírio, “vestiu a fantasia” e “foi à luta”, como sugeria o animado samba de enredo assinado por quase um time completo: Grassano, Gabriel, Márcio André, João Bosco, Arlindo Neto, Gugu das Candongas, Marquinho do Banjo, Barbosão, Ito e Léo. Um dos mais populares textos da literatura ocidental foi traduzido com brilhantismo no contexto da Passarela do Samba, não faltando os instigantes diálogos que Rosa costuma estabelecer com nomes das artes plásticas (Pablo Picasso, Salvador Dalí e Cândido Portinari emprestaram cores e traços para o conjunto visual proposto pela carnavalesca, sem falar na explícita conversa com as ilustrações de Gustave Doré). Nas alegorias, o detalhismo e o acento cenográfico. A cultura espanhola como um todo se viu homenageada na passagem da Ilha, sobrando rosas vermelhas, leques, touros e mantilhas. O sonho se mostrou possível: a Ilha não só permaneceu no Grupo Especial como arrancou lágrimas de muita gente – e a injustificável décima primeira colocação é digna de repúdio.

Portinari, mencionado acima, realizou uma série de ilustrações a partir da leitura de Dom Quixote, imagens que posteriormente receberam glosas poéticas de Carlos Drummond de Andrade. Não por outro motivo o “Engenhoso Fidalgo” retornou à Sapucaí em 2012, no belo desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel, assinado por Alexandre Louzada. O experiente carnavalesco propôs um canto de amor a Portinari, passando em revista as diferentes fases do artista. A alegoria quixotesca apresentava uma grande escultura de Quixote sobre o cavalo Rocinante, em meio a livros e lápis de cor – elementos decorativos que estruturavam uma espécie de castelo medieval. Em 2016, a estrela da Zona Oeste veria Quixote ser alçado ao posto de protagonista de um enredo cujo desenvolvimento plástico foi assinado por Alexandre Louzada e Edson Pereira. Naquela ocasião, o personagem de Cervantes conduziu os espectadores por um passeio pela literatura nacional cujo objetivo era mapear e “lavar a jato” as “manchas” da nossa história. O desfecho do périplo flertou com 2009, quando Machado e Rosa dançaram descompassados – Rocinante, confuso, tropeçou no galope.

Quem voou alto e sambou no miudinho foi a escola do Morro da Serrinha, o Império Serrano, no carnaval de 1996. Naquela ocasião, o “Reizinho de Madureira” homenageou o sociólogo Herbert José de Souza, conhecido como Betinho – e a sucessão de diminutivos acaba revelando do carinho com que o enredo foi tratado e traduzido visual e musicalmente. Os carnavalescos Ernesto Nascimento e Actir Gonçalves materializaram a narrativa “Verás que um filho teu não foge à luta” com o mais complexo aroma da sofisticação: a simplicidade. O samba, composto por Aluísio Machado, Lula, Beto Pernada, Arlindo Cruz e Índio do Império, falava em um “moderno Dom Quixote”, ser com “mente forte” que surge para guiar um franzino e crucificado Brasil na luta contra a fome, a miséria, a violência, a concentração de renda e as demais mazelas sociais. Menos louco e mais idealista: símbolo de luta, honradez e integridade.

As esculturas de Quixote e Sancho que adornavam a alegoria imperiana dedicada ao ideário quixotesco (com torres que mais pareciam carrancas) lembravam a sutileza (para muitos, apenas peças desproporcionais) com que o Engenhoso Fidalgo foi retratado na apresentação de 1987 da Estação Primeira de Mangueira, quando da homenagem a Carlos Drummond de Andrade. Desfile polêmico (historicamente ofuscado pelo desbunde tupinicopolitano da Mocidade Independente, proposta radical de Fernando Pinto), “No Reino das Palavras” teve assinatura de Júlio Mattos, o Julinho da Mangueira, artista pouco reverenciado nas rodas de prosa carnavalesca. Sob um sol totalitário, a Verde e Rosa desfilou a poética de Drummond com alegria e singeleza, entoando os versos de Rody, Verinha e Bira do Ponto, imortalizados na voz de Jamelão: “É Dom Quixote, ô; é Zé Pereira; é Charlie Chaplin no embalo da Mangueira!” Imagino a cena: Quixote desceu o morro, bebeu cerveja, vestiu o manto da Mangueira e caiu na farra. Concorda com o outro poeta: o mundo é mesmo um moinho. Nada mais carioca, delirante, encantador, varrendo as esfinges das encruzilhadas. É com ele que eu vou!

ilha quixote

  • Leonardo Bora é Mestre e Doutor em Teoria Literária pela UFRJ, licenciado em Letras Português-Inglês pela PUCPR e Bacharel em Direito pela UFPR. É professor da Escola de Belas Artes da UFRJ e, juntamente com Gabriel Haddad, um dos carnavalescos do GRES Acadêmicos do Grande Rio.

Carnaval perde Maurício Mattos; Portelense e pioneiro nos camarotes da Marquês de Sapucaí

O empresário Maurício de Araújo Mattos, 77 anos, proprietário do camarote Rio Samba e Carnaval, faleceu nesta quarta-feira, após travar uma grande batalha pela vida, inclusive, passando por uma cirurgia para desobstruir a carótida esquerda e depois tendo Covid-19.

Ele foi pioneiro no uso do camarote corporativo na Marquês de Sapucaí, trabalhando com requinte, e sempre enaltecendo os desfiles e levando grandes sambistas para o seu espaço, considerado a primeira classe da Avenida. O empresário era casado há cinco anos com Lene DeVictor. Maurício deixa dois filhos e quatro netos.

mauricio mattos

“Maurício, visionário, deixou a marca para mim. Vou dar continuidade ao legado dele”, disse Lene para coluna do jornalismo Ancelmo Gois, de O Globo.

Apaixonado pela Portela, Maurício Mattos foi benemérito, além de presidente da Acadêmicos da Rocinha. Recebeu a Medalha Tiradentes, maior honraria do Estado do Rio, e a Medalha Pedro Ernesto, do município do Rio de Janeiro.

A equipe do site CARNAVALESCO lamenta profundamente o falecimento de Maurício Mattos. Em menos de uma semana, nós perdemos dois apaixonados por carnaval e parceiros do nosso veículo. Primeiro, Diego Rigor, do Camarote Vivant, e o Maurício Mattos, do Rio Samba e Carnaval.

“Desde meu início na cobertura do carnaval tive o carinho do Maurício Mattos. Foi meu amigo e sempre me incentivou. Fizemos grandes parcerias, desde o jornal O Dia até o site CARNAVALESCO. O mundo do carnaval perde um gigante apaixonado. Um empreendedor fã das nossas escolas de samba e que sempre dava protagonismo para os sambistas”, disse o jornalista Alberto João, responsável pelo CARNAVALESCO.