O sambista não poderia estar mais feliz, após dois anos de silêncio, o templo sagrado do carnaval carioca voltou a receber os Desfiles das Escolas de Samba da Série Ouro. A cada vez que a sirene anunciava o início dos desfiles era possível ver inúmeros torcedores arrepiados, muitos choraram de emoção e alguns revelaram que sentiram o friozinho na barriga assim que ouviram o samba exaltação da sua escola do coração aportar no setor um.
O site CARNAVALESCO conversou com alguns foliões sobre esse retorno, a maioria se mostrou agradecida por poder pisar novamente na Sapucaí após todo o período complicado devido a pandemia de Covid-19.
A mineira Flúvia Aguilar, de 43 anos, destacou o seu amor pelo carnaval e disse que apesar de não ser carioca, sua paixão começou desde pequena. Para ela, esse momento de retorno é muito importante para mostrar que o samba venceu e continua forte, ela ainda destacou as novas luzes do Sambódromo.
“Carnaval na minha começou quando eu tinha cinco anos de idade, lá em Belo Horizonte, vi pela televisão e me apaixonei, esse amor me fez morar no Rio de Janeiro, sou a mineira mais carioca desse lugar. Esses dois anos de pandemia foram muito difíceis para uma pessoa que ama o carnaval como eu, sou uma pessoa da Sapucaí, sou do samba, da escola de samba, estar aqui hoje é uma alegria muito grande, tô muito emocionada, já chorei, já gritei, já vibrei, eu me arrepio o tempo todo, a experiência nova com as luzes deu uma nova atmosfera para Sapucaí e tô muito feliz e agradecida. Passamos por tudo isso e o carnaval não perdeu sua força, o carnaval é forte”, disse Flúvia.
Acompanhando os desfiles de uma frisa, Sônia Vicente, de 57 anos, contou que já esteve várias vezes no Sambódromo, tanto para assistir, quanto para desfilar. Dessa vez, o gostinho é especial, após dois anos sem poder pisar na avenida, ela se mostrou feliz com o momento atual da pandemia e destacou que os protocolos estavam sendo respeitados na entrada.
“Pra gente que gosta, pra gente que é carnavalesco, foi sofrível, eu amo carnaval, então chegar na época do carnaval e não ter carnaval é horrível, ficou um buraco, graças a Deus eu acho que o pior já passou e se Deus quiser não vai voltar mais. Esse retorno tá sendo bom porque eu tô vendo que as normas estão sendo respeitadas, isso deixa a gente mais tranquilo. Está sendo incrível, eu cheguei cedo e tá sendo ótimo, a noite foi maravilhosa”, disse a sambista.
Milton Cunha, figura carimbada do carnaval carioca, também esteve acompanhando a primeira noite de desfiles da Série Ouro, demonstrando a animação de sempre, o carnavalesco pontuou que os dois anos longe das escolas serviu para ele valorizar ainda mais o espetáculo que elas realizam.
“Eu acho que a gente não valorizava esse momento especial, a gente vivia ele no automático, então, era uma coisa muito prazerosa, mas era comum, era normal, quando não teve a gente viu como era bom, como faz falta, então eu acho que hoje é a retomada e valorização de uma coisa muito importante pra gente, que é essa procissão negra, festiva, animada. Eu tô consciente do momento fabuloso, especialíssimo, então eu precisei não ter pra dizer meu amor, é o dobro do que eu achava, eu já amava mas é das galáxias o negócio!”, contou Milton Cunha.
Acompanhada das amigas, a foliã Ana Cristina Aragão, de 53 anos, estava visivelmente emocionada, para ela, poder voltar para o Sambódromo é um sonho, ela que já desfilou por muitos anos, agora pretende só assistir o espetáculo. Ela conta que a pandemia tirou muitas pessoas importantes do convívio dela, então estar vivenciando esse momento é muito bom.
“É uma emoção enorme, eu amo samba, amo Sapucaí, até vim conversando com uma amiga que carnaval pra mim é isso, é Sapucaí, é Sambódromo, é esse calor da avenida. Eu adoro, já desfilei durante 10 anos da minha vida e agora eu venho só pra assistir. Foi muito ruim ficar esses dois anos fora, a pandemia sugou e tirou muita coisa da gente, passamos por coisas muito ruins, por isso eu acho que esse retorno agora está sendo muito bacana, tá todo mundo com muito gás e muita emoção”, destacou Ana.

Para encerrar a primeira noite dos desfiles da Série Ouro, a Sossego, inspirou-se nos relatos de David Kopenawa (Xamã Yanomami) sobre a saga épica e imaginária entre o presente e o futuro. A fantasia do primeiro Mestre-Sala e Porta-Bandeira, Fabrício Pires e Giovanna Justos, representa o espírito Xapiris, que são os espíritos ancestrais que auxiliam os Xamãs nas jornadas espirituais. Além de revelar aos sábios os segredos para salvar a população das armadilhas do mundo.
A bateria comandada pelo mestre Laion Rodrigues será a sétima ala a adentrar a Sapucaí pela Acadêmicos do Sossego. O grupo de ritmistas carrega o nome “Tambores ressoam pelo vento” no enredo que trouxe para a Marquês profecias indígenas que alertam sobre um possível colapso do planeta Terra.
Nesta quarta-feira, a última escola do dia, em uma fantasia simples mas que passava o recado que queria. A décima quarta ala que veio à Sapucaí pela escola foi a das baianas, com o título de “Jurema tem a Cura”. Maria Madalena, desfilante da Sossego há mais de 10 anos, relatou, em entrevista para o CARNAVALESCO, o que achou do resultado final da fantasia.
A ala da Escola niteroiense, conta hoje com Lúcia Maria Rêgo, a baiana mais antiga com seus 75 anos. Nos primeiros anos das escolas, só homens saíam neste setor da escola. Porém, hoje em dia, sua evolução e a riqueza de seus trajes sempre emocionam o público. A composição da fantasia conta com uma saia rodada, bata, torso e pano de costa. Ao longo desses anos foi cada vez mais se adaptando ao enredo, virando noivas, estátuas, animais e até mesmo seres espaciais. Lecy Vicente, que desfila na Sapucaí há 15 anos, discursou em entrevista para o site sobre como é desfilar em uma das alas de maior destaque da escola.
Mãe preta do Brasil, rogai por nós! Entre tantos milagres, Nossa Senhora Aparecida, a Mãe Negra do Brasil é o tema do enredo da União da Ilha do Governador. Em forma de oração e com fé na santa, a Ilha apresentou a celebração da vida e a união dos povos. A Festa no Santuário foi o tema do terceiro carro alegórico, que simboliza o templo que existe em cada pessoa, é uma manifestação de agradecimento e devoção aos milagres da padroeira do Brasil.
A uruguaiana Nuria Campos, 76, visitou o Santuário, e fez da experiência uma verdadeira história e fé. “Nossa Senhora Aparecida é mãe de todos nós. Quando chegamos em Aparecida do Norte, somos inundados por uma paz, alegria e harmonia interior. Quem já visitou sabe como é bom. É importante para o nosso interior. Só pisando no local para sentir verdadeira sensação. Fiz várias promessas, fui atendida em todas elas e a minha fé é inabalável”, finaliza a pedagoga Nuria.
Não há como falar de Castor de Andrade sem falar do jogo do bicho. Justamente pensando nessa relação do antigo patrono da Mocidade, Vinicius Rodrigues, coreógrafo da Unidos de Bangu, resolveu trazer os bichos do jogo para a Marquês de Sapucaí. Porém, havia um bicho que não pertencia a banca do jogo, o castor, símbolo da família Andrade e do famoso bicheiro.
Ao final do desfile da Unidos de Bangu, surgiu uma pergunta entre o público presente na Marquês de Sapucaí: Quem era o Castor na Comissão de Frente da escola? Trata-se de Phil Sam, dançarino há anos. Ao CARNAVALESCO, ele falou sobre a figura que representou na avenida.
“A torcida reunida até parece a do FlaxFlu…. Bangu, Bangu, Bangu”. É impossível para qualquer carioca escutar o hino do Bangu Atlético Clube e não lembrar de Castor de Andrade. Benfeitor da Zona Oeste, o bicheiro foi homenageado pela Unidos de Bangu no primeiro dia de desfiles da Série Ouro. Dentre as alegorias da escola, uma retratava a relação de Castor com o clube do bairro, que em suas mãos, chegou a ser vice-campeão brasileiro, em 1985.
Em entrevista ao site CARNAVALESCO, algumas delas falaram sobre a sensação e a importância de homenagear o ícone do bairro e da região, Castor de Andrade. Uma delas, Cris Keller, além de moradora de Bangu, é musa do time e ocupou o mesmo posto no Campeonato Carioca de 2020.
“É a primeira vez que vou desfilar e é na escola do bairro de Bangu. Eu só conheço o Castor por nome porque eu não sou criada em Bangu, mas a minha família é da região e eu conheço a história. Ali, o Castor é muito bem falado por todos porque ele levantou Bangu e o entorno, Realengo e outros. Além disso, ele é muito bem falado por causa da escola, da Mocidade, ele levantou a Zona Oeste. Ele foi uma personalidade original, daquela época, nos anos que ele viveu, e até hoje existem vários outros como ele por aí.”, destacou Bianca.
Para o Carnaval de 2022, a bateria da Bangu vestiu uma fantasia que remete aos tempos áureos do Bangu Atlético Clube. A fantasia possuía meião branco, calção branco e a tradicional camisa listrada na vertical nas cores vermelho e branco. O time de futebol teve laços estreitos com o homenageado Castor de Andrade. Na época em que o Castor estava a frente do Bangu, havia a cultura da charanga nas arquibancadas do estádio Moça Bonita, um dos pontos de referência do bairro.
Parece que a aposta da Bangu em apresentar Castor, foi um tiro certeiro nas raízes do bairro. Levantando a autoestima da sua comunidade, a Bangu mostra a história da região com o apoio de componentes orgulhosos e emocionados. Caso de Eduardo Ferreira ritmista da escola a quatro carnavais.
“Esse ano está sendo maravilhoso e ainda estamos realizando um grande feito. Depois de 20 anos, estamos finalmente desfilando uma no lado da outra”, disse Vivian Lessa, que desfila na Bangu desde 2015.