Na luta pelo acesso ao Grupo Especial, a Acadêmicos do Cubango apostou no enredo “O amor preto cura: Chica Xavier, a mãe baiana do Brasil” para arrematar o caneco da Série Ouro. Desenvolvido pelo carnavalesco João Vitor Araújo, o enredo enalteceu a trajetória da atriz e yalorixá, falecida em agosto de 2020, após uma carreira de sucesso, no teatro, cinema e tv.
Com forte predileção por enredos de temática afro, a verde e branco de Niterói não economizou na emoção ao abordar a vida da atriz e trouxe familiares da atriz e outros artistas negros para desfilar na última alegoria da escola. É o caso da também atriz e neta de Dona Chica, Luana Xavier. A atriz fez questão de relembrar outros grandes nomes que passaram pela avenida e celebrou a trajetória da grande mãe baiana.
“A minha avó junto com tantas outras, junto com Léa Garcia, com Zezé Motta, aliás todas foram enredo, essas mulheres abriram muitos caminhos para gente. Elas tiveram força e garra para lutar por um espaço, a gente tem o dever de dar continuidade a esse legado. O povo preto existe e resiste. Eu penso que existem muitas homenagens que um artista, uma pessoa importante para a cultura possa receber na vida. E no Brasil, talvez a maior delas seja uma pessoa se tornar enredo de escola de samba. Então sem dúvida esse é o ápice da carreira de Chica Xavier, estar aqui representando a força e o axé que é Chica Xavier, foi um dos dias mais marcantes da minha vida”, confessou Luana.
Quem também esteve presente na alegoria foi o ator, diretor e dramaturgo, Rodrigo França. Muito amigo da família e admirador do trabalho da atriz, o premiado diretor sublinhou a força da representatividade de Dona Chica em sua carreira.
“Eu lembro de vê-la em cena na novela Renascer fazendo um papel muito aquém da grandeza dela. E sem dúvida, ela, Grande Othelo e todos outros inspiraram a minha trajetória”, relembrou França que também será homenageado pela Beija-Flor.
A safra de 2022 tem como marca uma grande quantidade de enredos de temática negra. Somente na série Ouro que é composta por 15 escolas, mais da metade das agremiações optou por enredos afro. Este fato rendeu ao carnaval deste ano o apelido de “carnaval mais preto dos últimos tempos”, por muitos desfilantes da concentração da Cubango.
Esta particularidade do ano de 2022 causa muita alegria aos componentes. Como é o caso da atriz, jornalista e influencer Maíra Azevedo, a Tia Má.
“As escolas de samba, assim como os blocos afros tem o papel de educar por meio da ludicidade. Que coisa importante a gente está tendo agora: conhecer a história dessa mulher. Quem estiver desfilando nessa escola de samba precisa entender como ela abriu portas. Para eu ser uma mulher preta reconhecida estar dando essa entrevista, foi fundamental que ela estivesse fazendo novela. Na época dela era impossível pensar que uma mulher preta, com a cara preta pudesse estar interpretando uma yalorixá. Dona Chica Xavier é nossa ancestral que hoje a gente bate a cabeça”, afirmou veementemente a jornalista.
Quem fez coro a Tia Má e esbanjava satisfação e alegria ao subir na última alegoria para desfilar foi a cheff e apresentadora Andressa Cabral. Filha do mesmo orixá que Dona Chica Xavier, a apresentadora felicitou esta semelhança e endossou a opinião de Maíra Azevedo, quanto à importância da cultura de matriz africana estar na avenida.
“Estamos aqui falando de uma Eborá, uma ancestral potente. Estamos falando de uma mulher de yansã e eu sou de yansã, isso me aproxima muito do enredo. Isso para o povo preto é muita importante, me traz uma força, uma resiliência. Eu fico imaginando a luz da pouca vivência que eu tenho. Eu passei por muita coisa, profissionalmente falando, principalmente no meio da gastronomia. Existe uma demonização de quem tem orgulho de quem é da religião. Imagino o que essa mulher não deve ter passado. Quantas acusações foram feitas? Quanta coisa ela passou. Mas orixá deu força a ela para ela semear muitas coisas. E nós somos os frutos”, celebrou Andressa Cabral.
Segunda escola a pisar na avenida, a Acadêmicos do Cubango luta pelo acesso à elite da folia. No último desfile a escola conquistou a quinta colocação.
A Em Cima da Hora abriu a primeira noite de desfiles da Série Ouro com alegria e irreverência, mas enfrentou problemas de evolução, formando um buraco considerável ao longo da avenida. Retornando à Marquês de Sapucaí após seis anos, a escola do bairro de Cavalcanti apresentou uma releitura do enredo “33 – Destino Dom Pedro II”, cujo samba é um clássico do carnaval de 1984. Além do belo samba-enredo, o destaque ficou por conta do casal de mestre-sala e porta-bandeira, Jonhy Mattos e Jack Antunes, que se apresentou com graça e elegância. O desfile durou 53 minutos. * VEJA GALERIA DE FOTOS DO DESFILE
A comissão de frente da Em Cima da Hora exaltou os homens e mulheres que residem no subúrbio carioca e utilizam o trem como meio de locomoção. Os integrantes representavam diversos personagens do cotidiano do Rio de Janeiro: vendedores (de perna de pau), artistas, a beata, a gestante, a baiana, a menina de laço de fitas, a cartomante, o professor, o operário, o trombadinha e o policial. As fantasias eram simples, porém carnavalizadas e de fácil leitura. Todos eles interagiam com o elemento cênico de apoio, que simbolizava o vagão de um trem e vinha chacoalhando pela passarela do samba.
As figuras típicas do subúrbio carioca ilustraram de forma irreverente o caos do transporte público no dia-a-dia da cidade, propiciando uma fácil leitura do público. A coreografia foi desenvolvida por Carlos Fontinelle em cima dos versos do samba e teve dois momentos: dentro e fora do vagão. A escola do bairro de Cavalcanti não só reproduziu a realidade dos suburbanos, como deu a eles um dia de glória na passarela do samba, tirando onda de artista no “famoso 33”. Em frente ao setor um integrante deixou cair um leque no chão, que foi recuperado logo depois. A apresentação da comissão durou cerca de 3m09seg em frente ao módulo de quesitos
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
O primeiro casal de Mestre-Sala e Porta Bandeira da Em Cima da Hora, Jonhy Mattos e Jack Antunes desfilou com a fantasia “Senhores do Tempo”. Os dois representavam a dança dos relógios e ponteiros que marcam o tempo dos suburbanos, que lutam para chegar “lá em Dom Pedro a tempo de bater cartão”. A indumentária de ambos trazia as cores da escola, azul e branco, com detalhes em prata e muito brilho.
O casal realizou um bailado elegante e seguro, sem apresentar falhas que pudessem comprometer a exibição dos dois. Jonhy mostrou agilidade e leveza em sua dança, enquanto Jack esbanjou simpatia e graça nos seus giros. Ambos cantavam o samba a todo momento. Referências aos trechos do samba “o patrão mal-humorado/ Diz que mora logo ali” e “Imagina quem vem lá de Japeri” também estavam presentes na coreografia. A apresentação do casal em frente à cabine de jurados durou por volta de 1min30seg.
Harmonia
Apesar dos problemas de equalização do som da Sapucaí, a comunidade da Em Cima da Hora começou o desfile cantando o samba com empolgação. A ala “Trabalhador suburbano”, “Maquinistas” e a ala “Paixão pelo futebol” foram as que mais se destacaram em termos de canto. As demais alas da escola, como a ala das ciganas, por exemplo, possuíam alguns integrantes que não cantavam o samba-enredo por completo. A velha guarda, que desfilou nas laterais da última alegoria, cantou o samba do início ao fim.
A escola apresentou uma versão atual do enredo “33 – Destino Dom Pedro II”, que já havia passado pela avenida em 1984. Foi uma viagem de alma carnavalesca, que saiu do subúrbio e desembocou no carnaval da Sapucaí. A narrativa do desfile começou com uma espécie de embarque na estação do trem, “o famoso 33”. A partir de então, se iniciou o percurso enfrentado pelo trabalhador suburbano para chegar até o seu destino.
O segundo setor da escola, denominado “Baldeando por aí”, trouxe mais personagens típicos dos vagões de trem, além de alguns de seus passatempos, como jogos de tabuleiro e carteado. Malandros, batuqueiros, sambistas, torcedores de futebol e até a inflação econômica, que segue em alta no Brasil atual, estiveram presentes no desfile. O setor final é o grande encontro dos foliões na estação do carnaval, onde eles podem enfim tirar onda de artista.
Alegorias e Adereços
O carro abre-alas da Em Cima da Hora veio nas cores da escola e representou uma exaltação a todas as estações suburbanas. É pelas estações que boa parte da população da cidade circula para iniciar o percurso das suas viagens cotidianas. Um trem vinha na parte frontal do carro, que trazia engrenagens e relógios em suas laterais. A segunda alegoria simbolizou o comércio que ocorre ao longo das plataformas e os múltiplos personagens típicos dos vagões cariocas, trazendo na lateral uma barraquinha de comerciante ao lado de uma escultura de um pastor evangélico. Na parte traseira, havia uma pintura com os personagens do dia a dia.
A terceira e última alegoria da escola foi um o desembarque dos foliões para o Carnaval, trazendo esculturas de uma máscara de carnaval, uma máscara da comédia e outra máscara da tragédia. No geral foi um conjunto alegórico simples, mas com um claro entendimento do que estava sendo representado. O acabamento no piso da parte superior dos dois primeiros carros alegóricos deixou a desejar.
Fantasias
O conjunto de fantasias apresentado pela Em Cima da Hora mesclou fantasias mais simples a outras mais acabadas, mas todas elas com uma fácil leitura de enredo. A primeira ala da escola de Cavalcanti representou o trabalhador suburbano. Em seguida, a ala das baianas estava fantasiada de mães suburbanas, que abençoam seus filhos e filhas todas as manhãs antes da saída para mais um dia de luta.
A ala das passistas simbolizou a luta do suburbano contra a inflação de preços, que o obriga a rebolar para pagar as contas e alimentar sua família. A ala dos “Camelôs” trouxe o componente dentro de uma barraquinha de feira vermelha e amarela. A ala dos “Vendedores de balas” encontrou uma bela solução ao trazer balões infláveis em forma de pirulitos como adereços de mão. De modo geral, se viu uma escola muito colorida e de fácil entendimento visual.
Samba-Enredo
O samba-enredo composto por Guará e Serginho das Rosas é sem dúvidas um dos grandes sambas da história do carnaval. Nessa segunda passagem pela avenida, teve um rendimento satisfatório, apesar dos problemas do som da avenida, muito por conta da ótima atuação do intérprete da escola Ciganerey. Os componentes da Em Cima da Hora de modo geral cantaram o samba, porém a intensidade do canto não foi constante durante o desfile. Algumas alas cantaram mais do que outras, comprometendo a unidade sonora.
Bateria
A bateria comandada por mestre Wando Antunes fez alusão ao samba batucado nos vagões do “trem do samba”, que costuma ocorrer no dia 2 de dezembro, o dia nacional do samba. Os ritmistas vieram de azul e branco vestidos como sambistas tradicionais, com um chapéu panamá branco de fita azul. A bateria Sintonia de Cavalcanti executou com sucesso as suas bossas durante o desfile. Uma delas fazia referência a batida do funk carioca no trecho do samba “O trombadinha quase sempre se dá bem”. Vale destacar que algumas baterias do subúrbio carioca têm a batida das suas caixas inspiradas no som emitido entre o choque das rodas e amortecedores do trem com os trilhos.
Evolução
A Em Cima da Hora apresentou algumas falhas durante a evolução de seu desfile. Logo nos setores iniciais da Sapucaí a escola abriu um buraco de praticamente um setor inteiro, em frente ao carro abre-alas, que era empurrado com muita dificuldade. O problema persistiu até o final do desfile da Azul e Branco, com o “buraco” chegando aos setores finais do sambodramo. Depois do carro abre-alas a escola melhorou sua evolução, preenchendo mais os espaços da avenida, desfilando solta e sem fileiras exatas nas alas. A bateria não utilizou o segundo recuo e passou direto.
A escola do bairro de Cavalcanti trouxe várias musas e destaques de chão entre uma ala e outra ao longo do desfile. A ala “Trombadinha e menina do laço de fita” era coreografada, e representava os jovens sonhadores que viajam em busca dos seus sonhos. Em frente a ala da “Pirataria” desfilou um “muso” e uma musa, que passou sem o costeiro no último setor. A escola trouxe, além da rainha de bateria, Tânia Daley, um rei, o Jorge Amarelloh, sambando à frente dos ritmistas.
Uma criança de 11 anos sofreu um grave acidente na madrugada desta quinta-feira no Sambódromo. O ocorrido se deu na Rua Frei Caneca na saída da avenida e envolveu uma das alegorias do desfile da Em Cima da Hora. Em virtude da realização da perícia o desfile da Unidos da Ponte, terceira escola da noite, atrasou em uma hora. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, o estado de saúde dela é grave.
De acordo com informações do G1, a mãe e a menina estavam numa praça no Estacio, perto da Sapucai, lanchando. A menina se afastou da mãe pra olhar os carros alegóricos que estavam passando. De repente, a mãe foi avisada de que a menina tinha sido atropelada por um carro alegórico e foi prensada contra um poste. A Em Cima da Hora preferiu não comentar o ocorrido.
Com belas fantasias, o Acadêmicos do Cubango desfilou na Marquês de Sapucaí na última quarta-feira. Na ala das baianas, a escola trouxe a representação de Chica Xavier na minissérie da Globo ‘Tenda dos Milagres’, de 1985. Na obra, a personagem lutava contra o racismo e a intolerância religiosa. Com roupas brancas, detalhes em dourado e bonito figurino, as matriarcas falaram sobre a importância da representação.
“O enredo fala sobre essa tradição negra, o respeito ao candomblé a nossa raça. Nós acreditamos em nossos orixás e trazemos um enredo falando disso tudo. É uma grande honra representar e falar sobre Chica Xavier e com essa fantasia da Tenda dos Milagres. Minha mãe é baiana há 40 anos, mas já tem 96 anos e não desfila mais, e eu herdei essa tradição dessa. A fantasia é muito linda, fala sobre a mãe das mães”, Celimar Fonseca, de 70 anos.
“Nós estamos representando a Chica Xavier como baiana autêntica que ele era, mãe de santo. Passamos nessa fantasia também a ideia dessa luta contra o racismo e intolerância religiosa. O desfile está muito lindo, e eu quero me aposentar dessa ala como campeã, ano que vem estou na velha guarda. Nossa fantasia é muito linda, o branco da paz, da alegria, do agradecimento à volta do Carnaval”, completou Lúcia Rêgo, de 76 anos.
Segunda escola a desfilar nesta quarta-feira, o Acadêmicos do Cubango trouxe a história de Chica Xavier, atriz, produtora e importante personagem brasileira. Falecida em 2020, a artista, que também era mãe de santo e devota de Santo Antônio foi homenageada pela agremiação, que levou para avenida um abre-alas com a imagem do padroeiro. No carro também foi trazido a imagem de Nossa Senhora. Responsável pela iluminação do carro, Vinicius Almeida, de 28 anos falou sobre a alegoria.
“O enredo em si é muito forte, e esse carro é maravilhoso, muito bonito, que traz a nossa devoção a esses santos. Temos que prezar muito por eles, não só pela importância para nossa escola, mas como para a sociedade como um todo. É a força da escola que está representada na imagem destes santos”, disse Vinícius.
Alguns dos destaques do carro trouxeram a representação de iaôs, filhos de santo que passaram pela iniciação no candomblé. O abre-alas foi predominantemente na cor verde da escola, com detalhes em dourado, com esculturas de anjo, além das imagens de Santo Antônio dos dois lados. Léo Chocolate, que é mestre-sala da Mocidade Unida da Cidade de Deus, desfilou como destaque e falou sobre a representação.
“O carro abre-alas é o nosso enredo, falando sobre a história da Chica Xavier e da iniciação dela. Traz o sincretismo religioso, o candomblé e todos os santos. É minha primeira vez desfilando em alegoria, então dá um nervoso. Mas o carro é muito bonito todo verde, aí vem o nosso contraste, todo de branco, dá um visual muito legal. A alegoria mostra toda a história da nossa personagem principal”, disse o mestre-sala de 35 anos.
“O mais importante eu acho que é essa homenagem a Chica Xavier, e toda essa religiosidade em torno dela. Foi uma pessoa muito importante na cultura, na tv, na religião. O carro está um espetáculo, vamos correr para a vitória, a intenção é essa. Está tudo muito bem confeccionado, bem legal, não está riquíssima, até porque não tem. Mas mediante ao que pode, está muito bom”, comentou Rejane Sabino, que também representou iaô.
Instituído pela lei 4.373/06 que decretou obrigatoriedade de um vagão somente as mulheres durante os horários de pico pela manhã e também à tarde nos trens da cidade, a décima ala da Em Cima da Hora veio representando o “vagão feminino”.
Tendo em vista que por muitas vezes as mulheres têm os seus direitos violados, o vagão feminino é uma grande conquista. De uma importância superior, esta parte do trem destinada às mulheres nem sempre é respeitada. Mesmo nos horários em que deveriam ser, os homens não respeitam e também não há uma fiscalização por parte da Supervia.
Para a técnica de enfermagem, Eliane Alves, de 50 anos, que integra a ala, o vagão feminino não funciona por causa do desrespeito.
“Eles entram, ficam junto com nós mulheres e se aproveitam também. Por muitas vezes ficam se encostando e não é policiado. Os trens vivem lotados, e o vagão feminino é uma fuga para as mulheres que não querem levar esbarrões dos homens”, conta.
A falta de respeito no vagão é imensa e isso incomoda demais as mulheres que o utilizam nos trens. Algo que deveria ser um alívio, acaba se tornando sufocante para quem faz o uso. Quando a lei saiu, a felicidade foi tremenda, mas na prática não funcionou.
A professora Georgina Rodrigues de 55 anos também é integrante da ala e relata a maior dificuldade em usar o vagão feminino no dia a dia.
“Os homens usam o vagão que por direito é nosso, durante o horário que foi decretado por lei. E isso é muito difícil para a gente, porque no trem lotado as pessoas não conseguem obedecer uma simples regra. Eu me sinto totalmente desconfortável quando eles entram e isso é falta de consciência”.
Já a enfermeira Jussara Miranda, de 73 anos, preza pelo respeito das pessoas pelo vagão feminino. Para ela é importante ter um horário exclusivo, porém considera pouco e que poderia ser mais extenso.
“É importante ter uma separação do masculino e feminino, mas isso não funciona no cotidiano. Porque mistura tudo, não tem um horário maior e também os homens não respeitam, o que dificulta
muito”, expõe.
As componentes da ala estavam vestidas com uma fantasia na cor rosa com detalhes em dourado e estampa de flores, em que carregavam uma placa que tinha o símbolo feminino.
A ala de passistas da Em cima da Hora para o Carnaval 2022, representou a luta do suburbano contra a inflação, tema esse bastante atual e sofrido pelo povo. A inflação financeira sofre aumento contínuo, e os suburbanos por serem de classe mais simples, são os que mais sofrem e perdem o sono com todos esses perrengues.
A passista Eliane Nascimento, também comerciária, contou em entrevista ao CARNAVALESCO um pouco da representatividade carregada na fantasia.
“Estamos representando o dinheiro que o trabalhador vai em busca todos os dias. Estamos vivendo uma crise mundial, mas que aqui no Brasil já vem se arrastando há um tempo. Nossos políticos não estão preocupados em ver o que pode ser feito para melhorar a vida do cidadão, muito pelo contrário. Infelizmente o povo tem memória curta, então dificulta minha perspectiva de algo melhor”.
Cristiane Cruz de 50 anos, também passista, além de prometer muita garra para defender a escola, também nos contou o significado do enredo na sua vida.
“O enredo retrata a realidade da população carioca, quase toda a massa usa o trem como meio de transporte, fora a questão do comércio nos trens, as cantadas sofridas pelas mulheres, nada mudou. O tema é atemporal”, concluiu a dentista.
A passista Patrícia Araújo também não mediu palavras em relatar tamanha identificação com sua fantasia, uma vez que utiliza o trem como meio de transporte diário para chegar ao trabalho.
“Nunca me senti tão representada. Não digo nem só pela fantasia, mas também pelo samba já que cita o trem e as dificuldades que os empregados sofrem com seus patrões. Todos os dias eu pego trem, trouxe minha fantasia no trem lotado, então a escola retrata exatamente a minha realidade”, desabafou Patrícia.
A assistente administrativa de 34 anos também aproveitou para contar um pouco da sua luta ao enfrentar a realidade suburbana.
“O trem é a minha realidade. Eu moro em Nova Iguaçu e trabalho em São Cristóvão, então para chegar no meu trabalho, além do trem, eu pego um ônibus e uma van. Por estar sempre nessa constância, as vezes eu acabo sofrendo com a falta de trem. Nova Iguaçu ainda é um pouco privilegiado, já que de vez em quando tem um trem especial que sai direto da plataforma, porém nem sempre. Enquanto isso, a Supervia, está sempre querendo fazer reajustes nas passagens”, lamentou a passista.
Abrindo os desfiles da Série Ouro do carnaval de 2022, a Em Cima da Hora fez uma reedição do enredo “33 – Destino Dom Pedro II”, desenvolvido pelo
carnavalesco Marco Antônio Falleiro. E nada melhor do que falar sobre o trem e toda a viagem que é feita de Japeri até a Central do Brasil.
Constantemente é falado que os trens da Supervia estão com algum tipo de problema. Seja, o furto de cabos, atrasos nos ramais e até paralisações, os usuários que utilizam esse transporte sofrem bastante. Enfrentando adversidades diárias, a população não aguenta mais a precariedade da condução.
A equipe do site CARNAVALESCO conversou com algumas pessoas que utilizam o transporte e que desfilaram na azul e branca de Cavalcante. A motorista do conselho tutelar, Kelly Grande Rio, de 42 anos, conta sobre a dificuldade de usar
o veículo.
“É superlotado, as pessoas não respeitam nenhum pouco, falta respeito com as mulheres também. Fora que os atrasos são muitos, tem dia que chego atrasada no trabalho e não acreditam que foi por causa do trem”, diz Kelly.
O dia a dia no transporte é precário, muitas das vezes a circulação dos ramais são interrompidas e os usuários ficam sem ter como chegar ao trabalho ou em casa. Com isso, alguns chefes não entendem o que o funcionário passa até chegar ali, o que foi o caso da advogada Viviane Rocha, de 41 anos.
A advogada relata sobre os problemas que enfrenta ao utilizar a locomoção.
“Quando o trem enguiça é o maior transtorno e temos que andar no meio do trilho até a próxima estação. É complicado para o meu chefe entender que moro longe, que dependo do transporte público e que infelizmente aqui no Rio ele é precário”, aponta.
Sempre é válido deixar claro o quanto o serviço que a Supervia oferece é precário. Mas o transporte também se tornou um meio em que pessoas que não encontram um emprego formal, trabalham para ter uma renda. Os vendedores ambulantes, conhecidos como ‘camelôs’ são os passageiros quando bate a fome ou sede. Provavelmente sem eles não teria graça pegar o trem. Além disso, é importante que os governantes olhem com mais cuidado para os trens e também para a quantidade de usuários que usam o meio. A professora de dança Stephanie Hansen, de 24 anos, fala como é necessário essa visão do governo para os passageiros.
“A falta de organização da prefeitura com a gente que usa o transporte é muito ruim. Acredito que precisam de um alerta, para que entendam que todos possuem o direito de usá-lo e que se torne mais acessível”, explica.
Os trabalhadores ultimamente estão sofrendo bastante com a precariedade do serviço oferecido pela Supervia. O que dificulta demais no cotidiano dos passageiros é a lotação do transporte. A auxiliar de contas, Thaís Duarte, de 22 anos, é uma entre milhares de usuários que sofrem com isso.
“O serviço é sucateado, a passagem está cara demais e os trabalhadores não aguentam mais os atrasos constantes. Quando o trem não está em bom estado, acaba ficando parado por muito tempo e isso nos prejudica demais. A viagem de Japeri até a Central é demorada e sufocante, e por muitas vezes o serviço deixa a desejar. Porém, com o trem conseguimos fugir um pouco do trânsito da cidade”, comenta Thaís.
As entrevistadas estavam no carro abre-alas “Embarque no famoso 33”, que era uma representação de um trem. Com as cores da escola, em azul e branco e também com alguns detalhes na cor cinza.