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Fotos: Desfile da Em Cima da Hora no Carnaval 2022

Baianas do Cubango falam sobre a representatividade da fantasia: ‘Tradição da mulher negra’

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CelimarCom belas fantasias, o Acadêmicos do Cubango desfilou na Marquês de Sapucaí na última quarta-feira. Na ala das baianas, a escola trouxe a representação de Chica Xavier na minissérie da Globo ‘Tenda dos Milagres’, de 1985. Na obra, a personagem lutava contra o racismo e a intolerância religiosa. Com roupas brancas, detalhes em dourado e bonito figurino, as matriarcas falaram sobre a importância da representação.

“O enredo fala sobre essa tradição negra, o respeito ao candomblé a nossa raça. Nós acreditamos em nossos orixás e trazemos um enredo falando disso tudo. É uma grande honra representar e falar sobre Chica Xavier e com essa fantasia da Tenda dos Milagres. Minha mãe é baiana há 40 anos, mas já tem 96 anos e não desfila mais, e eu herdei essa tradição dessa. A fantasia é muito linda, fala sobre a mãe das mães”, Celimar Fonseca, de 70 anos.

Lucia“Nós estamos representando a Chica Xavier como baiana autêntica que ele era, mãe de santo. Passamos nessa fantasia também a ideia dessa luta contra o racismo e intolerância religiosa. O desfile está muito lindo, e eu quero me aposentar dessa ala como campeã, ano que vem estou na velha guarda. Nossa fantasia é muito linda, o branco da paz, da alegria, do agradecimento à volta do Carnaval”, completou Lúcia Rêgo, de 76 anos.

Destaques do abre-alas comentam do enredo do Cubango: ‘Mais importante é essa homenagem a Chica Xavier’

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WhatsApp Image 2022 04 20 at 23.34.13Segunda escola a desfilar nesta quarta-feira, o Acadêmicos do Cubango trouxe a história de Chica Xavier, atriz, produtora e importante personagem brasileira. Falecida em 2020, a artista, que também era mãe de santo e devota de Santo Antônio foi homenageada pela agremiação, que levou para avenida um abre-alas com a imagem do padroeiro. No carro também foi trazido a imagem de Nossa Senhora. Responsável pela iluminação do carro, Vinicius Almeida, de 28 anos falou sobre a alegoria.

“O enredo em si é muito forte, e esse carro é maravilhoso, muito bonito, que traz a nossa devoção a esses santos. Temos que prezar muito por eles, não só pela importância para nossa escola, mas como para a sociedade como um todo. É a força da escola que está representada na imagem destes santos”, disse Vinícius.

Alguns dos destaques do carro trouxeram a representação de iaôs, filhos de santo que passaram pela iniciação no candomblé. O abre-alas foi predominantemente na cor verde da escola, com detalhes em dourado, com esculturas de anjo, além das imagens de Santo Antônio dos dois lados. Léo Chocolate, que é mestre-sala da Mocidade Unida da Cidade de Deus, desfilou como destaque e falou sobre a representação.

WhatsApp Image 2022 04 20 at 23.34.13 2“O carro abre-alas é o nosso enredo, falando sobre a história da Chica Xavier e da iniciação dela. Traz o sincretismo religioso, o candomblé e todos os santos. É minha primeira vez desfilando em alegoria, então dá um nervoso. Mas o carro é muito bonito todo verde, aí vem o nosso contraste, todo de branco, dá um visual muito legal. A alegoria mostra toda a história da nossa personagem principal”, disse o mestre-sala de 35 anos.

“O mais importante eu acho que é essa homenagem a Chica Xavier, e toda essa religiosidade em torno dela. Foi uma pessoa muito importante na cultura, na tv, na religião. O carro está um espetáculo, vamos correr para a vitória, a intenção é essa. Está tudo muito bem confeccionado, bem legal, não está riquíssima, até porque não tem. Mas mediante ao que pode, está muito bom”, comentou Rejane Sabino, que também representou iaô.

Personagens de ala da Em Cima da Hora sobre o vagão feminino falam de importância da lei que instituiu obrigatoriedade

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IMG 20220420 211921 778Instituído pela lei 4.373/06 que decretou obrigatoriedade de um vagão somente as mulheres durante os horários de pico pela manhã e também à tarde nos trens da cidade, a décima ala da Em Cima da Hora veio representando o “vagão feminino”.

Tendo em vista que por muitas vezes as mulheres têm os seus direitos violados, o vagão feminino é uma grande conquista. De uma importância superior, esta parte do trem destinada às mulheres nem sempre é respeitada. Mesmo nos horários em que deveriam ser, os homens não respeitam e também não há uma fiscalização por parte da Supervia.

Para a técnica de enfermagem, Eliane Alves, de 50 anos, que integra a ala, o vagão feminino não funciona por causa do desrespeito.

“Eles entram, ficam junto com nós mulheres e se aproveitam também. Por muitas vezes ficam se encostando e não é policiado. Os trens vivem lotados, e o vagão feminino é uma fuga para as mulheres que não querem levar esbarrões dos homens”, conta.

A falta de respeito no vagão é imensa e isso incomoda demais as mulheres que o utilizam nos trens. Algo que deveria ser um alívio, acaba se tornando sufocante para quem faz o uso. Quando a lei saiu, a felicidade foi tremenda, mas na prática não funcionou.

IMG 20220420 212044 576A professora Georgina Rodrigues de 55 anos também é integrante da ala e relata a maior dificuldade em usar o vagão feminino no dia a dia.

“Os homens usam o vagão que por direito é nosso, durante o horário que foi decretado por lei. E isso é muito difícil para a gente, porque no trem lotado as pessoas não conseguem obedecer uma simples regra. Eu me sinto totalmente desconfortável quando eles entram e isso é falta de consciência”.

IMG 20220420 212303 268Já a enfermeira Jussara Miranda, de 73 anos, preza pelo respeito das pessoas pelo vagão feminino. Para ela é importante ter um horário exclusivo, porém considera pouco e que poderia ser mais extenso.

“É importante ter uma separação do masculino e feminino, mas isso não funciona no cotidiano. Porque mistura tudo, não tem um horário maior e também os homens não respeitam, o que dificulta
muito”, expõe.

As componentes da ala estavam vestidas com uma fantasia na cor rosa com detalhes em dourado e estampa de flores, em que carregavam uma placa que tinha o símbolo feminino.

Rebolando com a inflação: ala de passistas da Em Cima da Hora fez referência à luta do suburbano contra a inflação

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IMG 3686A ala de passistas da Em cima da Hora para o Carnaval 2022, representou a luta do suburbano contra a inflação, tema esse bastante atual e sofrido pelo povo. A inflação financeira sofre aumento contínuo, e os suburbanos por serem de classe mais simples, são os que mais sofrem e perdem o sono com todos esses perrengues.

A passista Eliane Nascimento, também comerciária, contou em entrevista ao CARNAVALESCO um pouco da representatividade carregada na fantasia.

“Estamos representando o dinheiro que o trabalhador vai em busca todos os dias. Estamos vivendo uma crise mundial, mas que aqui no Brasil já vem se arrastando há um tempo. Nossos políticos não estão preocupados em ver o que pode ser feito para melhorar a vida do cidadão, muito pelo contrário. Infelizmente o povo tem memória curta, então dificulta minha perspectiva de algo melhor”.

IMG 3690Cristiane Cruz de 50 anos, também passista, além de prometer muita garra para defender a escola, também nos contou o significado do enredo na sua vida.

“O enredo retrata a realidade da população carioca, quase toda a massa usa o trem como meio de transporte, fora a questão do comércio nos trens, as cantadas sofridas pelas mulheres, nada mudou. O tema é atemporal”, concluiu a dentista.

A passista Patrícia Araújo também não mediu palavras em relatar tamanha identificação com sua fantasia, uma vez que utiliza o trem como meio de transporte diário para chegar ao trabalho.

“Nunca me senti tão representada. Não digo nem só pela fantasia, mas também pelo samba já que cita o trem e as dificuldades que os empregados sofrem com seus patrões. Todos os dias eu pego trem, trouxe minha fantasia no trem lotado, então a escola retrata exatamente a minha realidade”, desabafou Patrícia.

IMG 3691A assistente administrativa de 34 anos também aproveitou para contar um pouco da sua luta ao enfrentar a realidade suburbana.

“O trem é a minha realidade. Eu moro em Nova Iguaçu e trabalho em São Cristóvão, então para chegar no meu trabalho, além do trem, eu pego um ônibus e uma van. Por estar sempre nessa constância, as vezes eu acabo sofrendo com a falta de trem. Nova Iguaçu ainda é um pouco privilegiado, já que de vez em quando tem um trem especial que sai direto da plataforma, porém nem sempre. Enquanto isso, a Supervia, está sempre querendo fazer reajustes nas passagens”, lamentou a passista.

Componentes da Em Cima da Hora contam perrengues no trem

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IMG 20220420 210248 363Abrindo os desfiles da Série Ouro do carnaval de 2022, a Em Cima da Hora fez uma reedição do enredo “33 – Destino Dom Pedro II”, desenvolvido pelo
carnavalesco Marco Antônio Falleiro. E nada melhor do que falar sobre o trem e toda a viagem que é feita de Japeri até a Central do Brasil.

Constantemente é falado que os trens da Supervia estão com algum tipo de problema. Seja, o furto de cabos, atrasos nos ramais e até paralisações, os usuários que utilizam esse transporte sofrem bastante. Enfrentando adversidades diárias, a população não aguenta mais a precariedade da condução.

IMG 20220420 210853 117A equipe do site CARNAVALESCO conversou com algumas pessoas que utilizam o transporte e que desfilaram na azul e branca de Cavalcante. A motorista do conselho tutelar, Kelly Grande Rio, de 42 anos, conta sobre a dificuldade de usar
o veículo.

“É superlotado, as pessoas não respeitam nenhum pouco, falta respeito com as mulheres também. Fora que os atrasos são muitos, tem dia que chego atrasada no trabalho e não acreditam que foi por causa do trem”, diz Kelly.

O dia a dia no transporte é precário, muitas das vezes a circulação dos ramais são interrompidas e os usuários ficam sem ter como chegar ao trabalho ou em casa. Com isso, alguns chefes não entendem o que o funcionário passa até chegar ali, o que foi o caso da advogada Viviane Rocha, de 41 anos.

IMG 20220420 210331 047A advogada relata sobre os problemas que enfrenta ao utilizar a locomoção.

“Quando o trem enguiça é o maior transtorno e temos que andar no meio do trilho até a próxima estação. É complicado para o meu chefe entender que moro longe, que dependo do transporte público e que infelizmente aqui no Rio ele é precário”, aponta.

Sempre é válido deixar claro o quanto o serviço que a Supervia oferece é precário. Mas o transporte também se tornou um meio em que pessoas que não encontram um emprego formal, trabalham para ter uma renda. Os vendedores ambulantes, conhecidos como ‘camelôs’ são os passageiros quando bate a fome ou sede. Provavelmente sem eles não teria graça pegar o trem. Além disso, é importante que os governantes olhem com mais cuidado para os trens e também para a quantidade de usuários que usam o meio. A professora de dança Stephanie Hansen, de 24 anos, fala como é necessário essa visão do governo para os passageiros.

“A falta de organização da prefeitura com a gente que usa o transporte é muito ruim. Acredito que precisam de um alerta, para que entendam que todos possuem o direito de usá-lo e que se torne mais acessível”, explica.

IMG 20220420 205821 840Os trabalhadores ultimamente estão sofrendo bastante com a precariedade do serviço oferecido pela Supervia. O que dificulta demais no cotidiano dos passageiros é a lotação do transporte. A auxiliar de contas, Thaís Duarte, de 22 anos, é uma entre milhares de usuários que sofrem com isso.

“O serviço é sucateado, a passagem está cara demais e os trabalhadores não aguentam mais os atrasos constantes. Quando o trem não está em bom estado, acaba ficando parado por muito tempo e isso nos prejudica demais. A viagem de Japeri até a Central é demorada e sufocante, e por muitas vezes o serviço deixa a desejar. Porém, com o trem conseguimos fugir um pouco do trânsito da cidade”, comenta Thaís.

As entrevistadas estavam no carro abre-alas “Embarque no famoso 33”, que era uma representação de um trem. Com as cores da escola, em azul e branco e também com alguns detalhes na cor cinza.

Benção maternal: baianas da Em Cima da Hora homenageiam as mães suburbanas

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IMG 3680 1A tradicional ala das baianas é sem dúvidas uma das alas que geram mais expectativas não só do público, mas também dos próprios componentes. Esse ano, a ala das baianas da Em Cima da Hora, escola que abriu o Carnaval 2022, veio representando as mães suburbanas. Elas são as donas de todas as aflições e perrengues, além de abençoarem seus filhos e filhas antes da saída para mais um dia de luta mundo a fora.

Em entrevista ao CARNAVALESCO, a baiana Maria das Graças Carvalho da Silva de 53 anos, descreveu um pouco do sentimento em fazer parte de uma ala tão importante para a escola e aguardada pelo público.

“Eu desfilava na ala da comunidade, mas sempre fiquei muito encantada com a ala das baianas, justamente por representar a escola, além de ser referência em respeito e ancestralidade. A escola de samba sem a nossa ala, não é uma escola de samba”.

A assistente social também aproveitou para contar da sua relação com suas duas filhas, com quem afirmou ter uma ótima relação, já que as duas sempre as apoiam, independente do que for.

“Eu fico sempre preocupada com minhas filhas, mas procuro sempre orientar, principalmente com esse mundo violento em que vivemos. Hoje você confiar no outro ser humano, é algo extremamente difícil, então tento sempre passar isso para elas. Mas independente disso tudo, a vida não pode parar, temos que enfrentar nossa luta diária e torcer para que não aconteça nada de ruim”.

IMG 3678 1A baiana Maria da Conceição Casemiro de 63 anos, atual cozinheira, também se mostrou bastante satisfeita com a representatividade de sua fantasia.

“Os meus filhos já estão adultos, então hoje em dia eu consigo respirar melhor”, brincou. “Na época em que tive meus dois filhos sozinha, confesso que foi muito difícil. O mundo hoje está uma loucura, não basta só aconselhar os filhos, porque a cabeça dos jovens infelizmente é muito fraca, e as mães que sofrem. Hoje em dia eu não teria filhos”, afirmou.

A auxiliar de serviços gerais Zélia dos Santos Bento de 63 anos, também nos contou em entrevista sobre a emoção de estar se sentindo representada. Baiana há 20 anos, a dona Zélia contou que o carnaval é a sua verdadeira paixão.

“A sensação de não saber se nossos filhos atingirão suas metas ao final do dia é muito angustiante. Fico muito preocupada quando
meus filhos demoram a chegar em casa, seja por condução ou até mesmo perigos do mundo a fora, mas graças a Deus nunca aconteceu nada a nenhum deles”, concluiu aliviada.

‘Será um carnaval histórico’, declara Rei Momo

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Por Lucas Santos e Walter Farias

O carnaval do Rio de Janeiro está oficialmente aberto. Nesta quarta-feira, o prefeito Eduardo Paes entregou a chave da cidade ao Rei Momo no Palácio da Cidade, em Botafogo, na Zona Sul do Rio. A festa estava marcada para acontecer em fevereiro, mas precisou ser adiada por conta da pandemia do coronavírus.

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Foto: Lucas Santos e Walter Farias

O prefeito falou da emoção de poder voltar realizar o carnaval com segurança e pediu para que os foliões aproveitem a festa com responsabilidade.

“Depois de dois anos que a população do Rio de Janeiro e do ano inteiro tanto sofreu com essa pandemia e agora podemos chegar nesse momento, mesmo que o carnaval tenha sido adiado para uma época diferente do ano, mas a gente poder comemorar essa festa fantástica da cultura popular brasileira, da força da nossa gente, da nossa ancestralidade, das nossas origens, essa celebração que sai das favelas cariocas, dos cantos mais distantes dessa cidade e do maior espetáculo do mundo. Então, pra mim é uma honra e uma alegria de estar aqui como prefeito para poder passar o comando da cidade para o Rei Momo, para a rainhas e princesas. Quero dar boas vindas à todos e que possam nos próximos dias celebrar a vida, celebrar com responsabilidade, respeitando as regras e que a gente possa comemorar com muita alegria”, declarou Eduardo Paes.

A corte do carnaval carioca 2022 é formada por Wilson Dias, que está no posto pela 5ª vez, o vice é Alex de Oliveira Silva, a rainha é Thaiana Rodrigues Pinheiro e Luara Neto Lino e Deisiane Conceição de Jesus são 1ª e 2ª princesas. O Rei Momo exaltou a manifestação cultural que é o carnaval e declarou que será uma festa inesquecível.

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Foto: Arquivo pessoal

“Passamos dois anos de muita angústia, de muita tristeza, muito choro e, nesse momento vivemos uma situação atípica, mas teremos um carnaval histórico. O carnaval é a maior manifestação cultural e neste momento estamos apoiando todas as agremiações e, tenho a plena certeza de que com a euforia dos foliões cariocas, vamos fazer uma festa inesquecível. Que nesse carnaval só reine a alegria, a espontaneidade, o consentimento de todos nós. Declaro aberto o carnaval carioca. Viva o samba”, disse o Rei Momo.

A rainha revelou para o site CARNAVALESCO qual era o sentimento de fazer parte da realeza do carnaval e de voltar a pisar na Sapucaí oficialmente depois de dois anos.

“É muito gostoso quando a gente faz o que gosta, o que ama. Fui uma escolhida pelos meus ancestrais para levantar a bandeira do samba, para resistência para não deixar o samba morrer e não deixar a arte da dança morrer. Então, com esse crescimento do samba no pé de modalidade, estou muito feliz e ansiosa. Feliz com essa galera que está nos abraçando e com essa representatividade de sermos passistas e estarmos onde merecemos”, declarou a rainha Thaiana Rodrigues Pinheiro.

Ernesto Teixeira: O sambista que embala o povo

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Para quem conhece o básico do carnaval, em especial o de São Paulo, sabe que Ernesto Teixeira é um dos maiores intérpretes da história. Como ele apenas um, outro membro do panteão dos bambas, Neguinho da Beija-Flor, é tão longínquo no posto de cantor principal de uma mesma escola de samba ainda em atividade. São 57 anos de idade, 44 deles dedicados a uma comunidade e voz da mesma desde antes dela se fazer escola.

 

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Foto: Site CARNAVALESCO

“Acho que a Gaviões a gente pode resumir que ela praticamente é a minha vida. Pelo tempo de vida que eu tenho e o tempo que eu estou na agremiação, dá para entender facilmente”.

O artista assumiu o microfone principal dos Gaviões quando a agremiação ainda era bloco, em 1984, e desde então apenas o cancelamento da festa de Momo, no ano passado, o impediu de ser a voz da Fiel Torcida na passarela. Em 2022 ele estará de volta ao Sambódromo do Anhembi, e não há cor que reine em algum pavilhão que não se emocionará ao ouvi-lo cantar mais um de incontáveis sambas os quais já defendeu.

O site CARNAVALESCO conversou com o cantor e compositor, e em meio a prosa, perguntou sobre a relação dele com a escola alvinegra.

“Eu cheguei na Gaviões com 13 anos, hoje estou com 57. Passei por todos os departamentos. Sou da torcida organizada, de assistir jogo, de viajar, de cruzar o Brasil pelo Corinthians. Com 16, 17 anos, também me interessei por esse braço cultural da Gaviões que é o Carnaval, através do bloco, onde eu saí em ala, depois eu saí da bateria, fui para ala musical, virei intérprete, compositor. Já se vão 40 anos nesse segmento cultural dentro da Gaviões da Fiel. Então, resumindo, a Gaviões é a minha vida. Muitas vezes a gente começa a analisar, e a gente passa mais tempo na quadra com os Gaviões, do que com a própria família. A gente acaba se envolvendo de tal forma que você não percebe, e quando olha aquilo é a sua família, uma extensão da sua família”.

Muitos colocam Ernesto Teixeira no mesmo patamar de importância de Jamelão, histórico intérprete da Estação Primeira de Mangueira cuja trajetória também ficou marcada por defender os sambas da escola por décadas sem pestanejar. E uma coincidência marcará 2022 para o cantor paulistano: os mesmos 57 anos que ele completou equivalem a totalidade de carnavais os quais José Clementino defendeu as cores da verde e rosa. Questionado sobre a comparação com o ídolo mangueirense, Ernesto aproveitou para garantir que, se depender dele, terá carreira tão duradoura quanto.

“Primeiro eu fico lisonjeado, porque ser comparado com Jamelão é uma honra. A gente vai fazendo ano a ano. Como eu disse, eu fui guindado ali em 85 na ausência do intérprete que não pôde estar lá, que era o Tobias (do Vai-Vai). Me pegaram na bateria e me colocaram para cantar. E dali a gente ficou, foi se aperfeiçoando, fazendo curso de canto lírico, canto popular, estudando um pouquinho de música e praticando dia a dia. E a cada ano é uma nova emoção, cada ano é um novo desafio, porque muitas pessoas até tem essa curiosidade de saber, “poxa, vai parar, não vai parar”, aí eu vou falar: “O Jamelão pelo que vi ele foi até os 90, e eu estou só com 57”. Tem mais uns trinta e poucos pela frente. Se Deus nos der saúde, e se quem estiver a frente da direção da escola não tiver nenhum empecilho, a gente vai continuar prestando esse serviço, fazendo com muito amor, estando ali no carro de som da Gaviões da Fiel, com certeza”.

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Foto: Arquivo pessoal

A jornada de Ernesto com os Gaviões é histórica, mas mesmo dentro do samba houve momentos em que a ligação da escola com o futebol foi vista com grande preconceito. Ao menos na capital paulista, esse trato com as chamadas pejorativamente de “oriundas” mudou, em especial com a ascensão de outras agremiações de mesmas origens, como Mancha Verde e Dragões da Real, coirmãs que também fazem parte do Grupo Especial. O intérprete acredita que o pior momento já passou, e exaltou a importância dessas agremiações na formação de sambistas.

“(O preconceito) melhorou, melhorou. A gente atingiu um ápice dessa negatividade em 2006, onde o próprio exemplo são os Gaviões da Fiel que foi lançado ao Grupo de Acesso, quando naquela oportunidade as pessoas ligadas a outras agremiações queriam criar o grupo das torcidas e o grupo das escolas de samba. Os Gaviões se sustentaram em uma liminar, mas dentre as notas dos jurados a gente, de 30 notas 10 conseguimos apenas 3, da letra do samba. Depois disso aí o pessoal entendeu a importância, haja vista que hoje são algumas escolas de samba com identidade de torcida no Carnaval. A torcida organizada, como a própria escola de samba, todo mundo ou a grande maioria tem suas origens no futebol. Eu fui forjado dentro da Gaviões da Fiel como sambista, como compositor, como intérprete, e assim acontece com os nossos ritmistas, com os nossos diretores de bateria, com os nossos casais de mestre-sala e porta-bandeira, com os nossos diretores de Harmonia. A gente é uma escola de samba na acepção do termo. Não tem que ter esse preconceito, que eu acho que diminuiu muito”.

Entre tantos desfiles que fizeram história do carnaval de São Paulo, os Gaviões da Fiel foram responsáveis por alguns dos mais marcantes. Um deles tem lugar especial no coração de Ernesto Teixeira: ‘Xeque-Mate’, de 2002, uma apresentação campeã praticamente perfeita que contou com um samba que não só foi assinado pela parceria do próprio cantor, como é lembrado até os dias de hoje e se tornou um dos esquentas tradicionais da escola.

“Com certeza todo carnaval se torna inesquecível. É uma história diferente, é uma música diferente. Alguns vão ganhando algumas particularidades. Por exemplo, eu gosto de falar muito do carnaval de 2002 da Gaviões porque a gente foi campeão. A gente tinha um enredo que fazia uma analogia da sociedade como um todo em cima do tabuleiro do jogo xadrez, onde a gente se manifestava contra a corrupção, por uma sociedade melhor e mais justa, um enredo na linha do que a gente vem agora em 2022. E eu era um dos autores do samba do lado do José Rifai e do Alemão do Cavaco, e a escola foi campeã. Então eu tenho esse desfile, que foi tecnicamente perfeito, tudo deu certo, as passagens da bateria, da ala musical, os carros se encaixavam perfeitamente junto com o samba, tanto é que é um dos sambas mais cantados da história dos Gaviões até hoje”.

Em se tratando dos sambas que cantou pela escola, são diferentes os motivos que levam alguns a serem inesquecíveis para Ernesto. O primeiro título, o primeiro samba composto a vencer o concurso, além do já citado. Cada um deles tem significado único em suas memórias.

“Coloco o Xeque-Mate, coloco o ‘Corinthians o meu mundo é você’ de 1998, que foi a primeira música que a gente compôs como escola de samba, também em parceria com o Alemão do Cavaco e com José Rifai que a gente foi vencedor. Foi um carnaval muito bom também, inesquecível pelo samba. Agora eu posso falar aqui também que é óbvio, o grande público vai lembrar de 95, o ‘Coisa Boa é Para Sempre’. Mas esse não dá para a gente nem analisar, esse samba e esse carnaval são ‘hors concours’. Quando a gente fala dele a gente se lembra de Raul Diniz, a gente se lembra do Grego como compositor, a gente ali na ala musical fazendo a interpretação, a nossa bateria Ritimão. Ou seja, foi um desfile assim que quem estava ali sentiu algo jamais visto e sentido da história da Gaviões. E até o público do samba fala isso. Depois que a gente terminou passar falaram ‘acabou o carnaval, não tem pra ninguém’. Muita gente regravou esse samba, como Neguinho da Beija-Flor, Jamelão, Tobias do Vai-Vai”.

O apreço aos clássicos de um ícone do samba paulistano

Quem acredita que o conhecimento do intérprete se restringe aos carnavais dos Gaviões, está cometendo um grande erro. Perguntado sobre quais sambas de outras escolas ele gostaria de ter defendido caso tivesse oportunidade na época, o ídolo musical da Fiel Torcida mostrou grande apreço pelos clássicos do carnaval de São Paulo, e a julgar pelo samba carioca citado por ele, só os Anos 80 renderiam um disco inteiro com sua voz.

“Eu gostaria de ter cantado ‘Kizomba’ da Vila Isabel (‘Kizomba, Festa da Raça’ de 1988). Eu gostaria de ter cantado ‘Catopés do Milho Verde’, da Colorado do Brás (de 1988). Gostaria de ter cantado ‘Jorge Amado’, do Vai-Vai (‘Amado Jorge, a História de uma Raça Brasileira’, de 1988). São muito sambas. ‘Boa noite, São Paulo’, do Camisa Verde e Branco (‘Convite Para Amar’, de 1988). Sempre tem um samba marcante, um samba diferenciado. Tem também aquele ‘Contam os antigos rituais, que Xangô foi rei um belo dia, de Obatalá seu pai’, samba de autoria de Dom Marcos da Cabeções de Vila Prudente (‘Do Iorubá ao Reino de Oyó’, de 1981), samba muito bonito. Samba da Imperador do Ipiranga, que é escola da minha região, tem um samba muito bonito que fala ‘Meu canto levanta, poeira, samba é a minha, bandeira, essa arte de bamba, me coroou, cabeça feita, sou Imperador’ (‘Ipiranga, Berço Esplêndido de um Povo Heroico’, de 2004), um samba bonito que eu gostaria de ter cantado. Você pega ‘Mariana’, no Peruche (‘Água Cristalina’, de 1985), que Eliana de Lima cantou muito bem. ‘Mariana’ do saudoso Ideval”.

Um amor que se renova a cada ano

Ernesto Teixeira é um sambista que conquistou incontáveis corações além do bando de loucos de sua escola. De uma simpatia ímpar e sempre muito receptivo, trata a todos do mundo do samba com o mesmo carinho ao qual se dedica a nação corinthiana. O segredo para ser tão bem reconhecido por todos é simples, daqueles que crianças são capazes de entender melhor que muita gente grande.

“O sucesso é o amor. É o amor, é a paixão, é pensar e lembrar que cada ano é um novo carnaval. Cada é um novo enredo, é uma nova história, uma nova fantasia, um novo carro alegórico, um novo samba-enredo. É uma emoção diferente. Então é isso que nos motiva. Quando a gente olha para trás que a gente vê que tem uma estrada longa que foi percorrida, mas você olha para frente e vê que tem muito o que fazer ainda. Que cada ano é um novo desafio. É isso que a gente tem como legado. O olhar de que tudo pode ser diferente no ano que vem”.

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Foto: Arquivo pessoal

Um bom momento de uma história que precisa ser perpetuada

A história do carnaval de São Paulo é bastante rica, com histórias centenárias. Infelizmente, são raros os registros ao alcance do grande público desse importante legado que tantos homens e mulheres deixaram ao longo das décadas. Instigado a fazer um balanço do momento atual do carnaval de São Paulo e projetar o futuro da festa na cidade, Ernesto Teixeira encerrou nossa entrevista deixando uma mensagem aos sambistas paulistanos que pode ser espelhada aos de todo o Brasil.

“Hoje a gente vive um momento no sentido da infraestrutura, mas por outro lado a gente tem que discutir todos os dias a questão da identidade, a questão da raiz do samba. Porque se não a gente corre o risco de engessar o carnaval, de industrializar o carnaval ainda mais. Daqui a pouco o componente está com som mecânico. E a gente tem que valorizar a essência do samba. Nós temos que valorizar o samba no pé, temos que valorizar a poesia, a letra do samba-enredo, que não é dado muito valor até no próprio julgamento. Parece que ela é feita assim: ‘Todo mundo é 10’. Isso é uma coisa que não incentiva a gente a melhorar, e a gente precisa discutir isso, ter olhos para isso também. Eu vejo que o carnaval passa por um momento bom, mas que tem que estar sempre no grupo ali da Liga das escolas de samba, os mais antigos e os mais novos, tem que estar em constante discussão para que ele se perpetue. Para que ele permaneça, que evolua, sem perder as raízes. Um dos pontos que a gente defende é a criação de um memorial do carnaval de São Paulo, para justamente resgatar essa história das pessoas que iniciaram tudo isso. Dos grandes compositores, dos grandes cantores, dos grandes sambistas. Os grandes sambas de enredo, as grandes fantasias, os grandes carnavalescos. A história do carnaval de São Paulo é riquíssima, e a gente precisa correr atrás dela porque o tempo passa e cada vez fica mais difícil”.

Rumo ao seu oitavo desfile pela Beija-Flor, Marcelo Misailidis destaca a importância do enredo da escola para o carnaval de 2022

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Há 23 anos no carnaval carioca, Marcelo Misailidis se consolidou como um dos grandes nomes da comissão de frente. Desde 1999, quando começou na Unidos da Tijuca, com passagens por Salgueiro e Vila Isabel, até os dias de hoje na Beija Flor de Nilópolis, o artista coleciona prêmios e boas notas. Em entrevista dada ao Site CARNAVALESCO, o coreógrafo, que vai para seu oitavo carnaval pela escola da Baixada Fluminense, destaca a importância e relevância de tratar de um tema tão importante, com o enredo “Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor”.

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Foto: Site CARNAVALESCO

“É uma oportunidade de dar voz a uma questão tão relevante, tão importante, nos dia de hoje, é um processo que acho que nós temos que combater diariamente, não pode ser uma coisa só do carnaval, porque é uma situação que se a gente não lembrar a todo momento, sempre acaba acontecendo uma injustiça envolvendo essa questão da consciência da questão do povo preto”, destacou o artista.

Branco, de origem uruguaia, Missailidis afirma contar com pessoas negras em sua equipe, com “lugar de fala” dentro do enredo Beija-Flor. Além disso, o coreógrafo ressalta a colaboração de Rui Moreira no desenvolvimento do projeto para o carnaval de 2022, que é negro, bailarino, coreógrafo e investigador de culturas, com passagens por diversas companhias de dança brasileiras.

“Toda a minha equipe é basicamente formada por negros e também teve a participação do Rui Moreira, que é um dos maiores pesquisadores nessa área”.

Na primeira passagem de Alexandre Louzada por terras nilopolitanas, o coreógrafo não era o responsável pela comissão de frente da escola. Desde o retorno do carnavalesco à Beija-Flor, em 2020, os dois formam parceira na troca de ideia, que, no último carnaval, resultou em quatro notas 10 e um 9.9, descartado. Apesar de afirmar não ter contato diário com o carnavalesco, Misailidis afirma possuir boa relação com o mesmo, com quem tem um “trabalho em paralelo”.

“É muito boa(a relação com o carnavalesco Alexandre Louzada), são questões que a gente trabalha em paralelo, não há necessidade de uma troca diária, a questão maior é no início, quando a gente traça as metas. A partir dali, a gente encontra os projetos na avenida”.

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Foto: Site CARNAVALESCO

Como mostrado no ensaio técnico, a comissão de frente da Beija-Flor não contará com a presença de mulheres, em 2022. “Não tem mulheres”, afirmou Misailidis, sem relevar o número exato de integrantes. No teste na Sapucaí, os integrantes da comissão, 15 homens negros, com corpos pintados com tinta dourada, realizaram uma coreografia muito plástica e expressiva, com movimentos corporais fortes.

Marcelo Misailidis preferiu não adiantar muitos detalhes do trabalho da comissão para o carnaval. “A questão da comissão é surpresa”, disse. Contudo, o coreógrafo deu pistas de que usará o elemento cenográfico, em sua apresentação. “Provavelmente, sim(Usar o elemento cenográfico). Para o que eu vou fazer, acho ele importante”.

Por fim, ao tratar de assuntos específicos do quesito, o coreógrafo destacou a mudança pela qual as comissões de frentes passaram no carnaval carioca. Sobretudo a partir de 2010, quando a Unidos da Tijuca levou o campeonato, com o enredo “Segredo” e a comissão das “trocas de roupa”, de Priscilla Motta e Rodrigo Negri, as comissões de frente se tornaram um show à parte nos desfiles das escolas de samba.

“Apresentar a escola é um elemento de obrigatoriedade, mas a comissão de frente, há décadas, já mudou a sua configuração e é um espetáculo, um grande espetáculo. Então, ela tem que, sobretudo, introduzir o enredo”, concluiu.