Para o Carnaval 2022, a Acadêmicos de Vigário Geral escolheu o enredo sobre a “Pequena África”, enaltecendo seus valores urbanos e artísticos ao pertencimento histórico-cultural da cidade carioca.
A partir desse enredo, o primeiro casal de mestre sala e porta-bandeira da escola, Diego Jenkins e Thainá Teixeira, representaram justamente a relação entre o Brasil e o continente africano. Em entrevista ao CARNAVALESCO, o casal contou detalhes quanto a representação e significado de suas respectivas fantasias.
“Eu e o Diego viemos representando não só a África e o Brasil, como também toda essa relação que foi construída através dos séculos, especificamente aqui no Brasil. Nosso país tem muito dessa questão do amor e do ódio, além de toda essa questão de resistência negra que se fundou através da nossa colonização”.
Estreando não só com a Thainá, mas também como primeiro mestre sala da escola após 6 anos sonhando em alcançar o primeiro pavilhão da agremiação, Diego visivelmente emocionado, também falou sobre sua fantasia, alegando estar muito empolgado com o desfile.
“Eu desfilei representando o Brasil, dentro da relação entre Brasil e o continente africano, representado pela Thainá. Ainda sim, sem desconsiderar toda a passagem com ligação ao amor e a dor que havia naquela época entre os dois.”
A Acadêmicos de Santa Cruz realizou uma justa homenagem ao ator, cantor e diretor Milton Gonçalves. A Verde e Branco apresentou na avenida o enredo “Axé, Milton Gonçalves! No catupé da Santa Cruz”. A agremiação da Zona Oeste se destacou com uma bela apresentação da bateria de mestre Riquinho, da sua comissão de frente e de seu conjunto alegórico. Porém, a escola pecou em evolução e harmonia, abrindo um buraco no setor 6, em frente a última alegoria. O desfile durou 53 minutos. * VEJA FOTOS
Fotos de Allan Duffes e Nelson Malfacini/Site CARNAVALESCO
Comissão de Frente
A comissão de frente da Santa Cruz representou a dança do catupé e a coroação dos reis negros. O grupo foi composto por 15 integrantes, sendo um casal e 13 bailarinos, coreografados pela dupla Marcelo Chocolate e Marcelo Moragas. O bailado foi dinâmico, expressivo e vigoroso. Em certos momentos do desfile, o casal, que vestia uma roupa colorida e luxuosa, era erguido nos braços de outros componentes da comissão. Em outro trecho da dança, alguns bailarinos retiravam rapidamente um tecido de suas capas para vesti-lo do avesso no casal de reis negros, provocando um belo efeito.
No fim da apresentação, o casal se ajoelhava para receber uma coroa dos bailarinos, que se abaixavam em reverência à realeza. Nesse instante, com os integrantes de cabeça baixa, a parte superior dos chapéus formava a frase: Preto é rei. A coreografia recordou as poucas lembranças que Milton Gonçalves guardou da infância vivida em Monte Santo, cidade do interior mineiro onde ele nasceu. O catupé e a coroação dos reis é uma festa que acontecia na matriz, sob as bênçãos de Nossa Senhora do Rosário. A apresentação da comissão durou cerca de 1m55seg em frente ao módulo de julgamento dos quesitos.
O primeiro casal de Mestre-Sala e Porta Bandeira da Santa Cruz, Muskito e Roberta Freitas, desfilou com a fantasia de “Nobres africanos: Raízes ancestrais”. A família de Milton Gonçalves, por parte de pai e mãe, era descendente de negros escravizados. A roupa de Roberta era bem volumosa, com a saia toda revestida de penas de cor verde escuro, máscaras africanas, além de detalhes em laranja, marrom claro e preto.
A fantasia de Muskito veio na mesma tonalidade que a de Roberta, e contava ainda com uma capa laranja com losangos preto. Ambos traziam no costeiro um conjunto de penas marrom claro com pontas pretas.
O casal executou um bailado seguro e sem contratempos durante a passagem da escola pela avenida, apresentando com elegância o pavilhão da Santa Cruz. Sempre sorrindo, a dupla trocava olhares e se entendia a cada movimento. No trecho “Um santo, a cruz da liberdade/ A Santa Cruz é liberdade” ambos abriam os braços para enfatizar o sentimento de libertação descrito no enredo. A apresentação do casal em frente à cabine de jurados durou por volta de 1min50seg.
Harmonia
A Santa Cruz não conseguiu manter a mesma intensidade de canto em todas as suas alas. Tiveram um canto forte na passarela as alas: “A descoberta do cinema”, “Irmãos Coragem” e “O bem amado”. Já a segunda ala, “Um trem para São Paulo: Estação”, desfilou com vários componentes sem cantar a letra do samba por completo. As alas “Arena conta Zumbi” e “Paixão pelo Flamengo” também deixaram a desejar em termos de harmonia.
A Santa Cruz abriu o desfile ressaltando a ancestralidade de seu homenageado, mostrando elementos da cultura mineira, estado de origem do ator. Antes da primeira ala de enredo, desfilaram alguns componentes de camisetas, em uma ala não prevista no livro “Abre-alas”. O segundo setor da escola abordou a infância e juventude de Milton Gonçalves, quando ele foi buscar melhores condições de vida em São Paulo. Em terras paulistanas Milton chegou a fazer vários “bicos”, como guardador de frutas, por exemplo, antes de iniciar sua carreira artística.
O fascínio de Milton com os palcos foi mostrado no terceiro setor da escola. Sua estreia nos palcos de teatro, em 1956, foi lembrada pela ala “Soldado de Chocolate”. Os ritmistas da bateria estavam vestidos de metalúrgicos, em alusão a peça “Eles não usam black-tie”. O último setor da Verde e Branco fez referência à boêmia carioca. As alas deste setor retrataram o amor de Milton pela Mangueira e pelo Flamengo. A defesa pela liberdade artística diante da censura da ditadura também foi lembrada em uma ala da escola. As novelas de sucesso que Milton atuou, como “O bem amado” e “Irmãos coragem” vieram representando os personagens vividos pelo ator.
Alegorias
O carro abre-alas da Santa Cruz veio lembrando das origens mineiras de Milton Gonçalves, trazendo além das cores da escola, verde e branco, um trabalho de acabamento em laranja e dourado. A coroa, símbolo da escola, foi toda entalhada em ébano. Uma escultura de Nossa Senhora do Rosário, junto a igreja matriz de Monte Santo, onde Milton, quando criança, assistia a coroação dos reis negros. Na parte frontal da alegoria, mães de santo e pretos-velho faziam parte da composição.
A segunda alegoria, toda em lilás, simbolizou o período em que Milton trabalhou em uma livraria em São Paulo, ainda adolescente. Uma espécie de coroação do ator pela soberana do conhecimento, a energia anciã de Nanã, retratada como guardiã dos livros em uma escultura frontal. A terceira e última alegoria da escola foi denominada “Oxalá e o bem amado Milton Gonçalves”, em referência ao personagem Zelão das Asas, que tinha o desejo de voar e, no final da trama, consegue realizar. Oxalá veio como símbolo da própria liberdade buscada por Milton ao longo da vida, coroando-o como rei e celebrando a liberdade de seu povo.
Fantasias
A primeira ala da Santa Cruz trouxe para a avenida os “Catadores de café em Monte Santo”. A segunda representou a ida de Milton à cidade de São Paulo, com seus integrantes vestidos de locomotiva. A ala “A descoberta do cinema” trazia estrelas prateadas nos costeiros dos componentes, provocando um belo efeito visual. A ala relembrou o encantamento do ator pela sétima arte. Mesmo sendo constante barrado nas sessões por nao estar “vestido adequadamente”, Milton cultivou sua paixão pelos filmes.
A ala das baianas veio simbolizando a sabedoria de Nanã, com uma elegante fantasia nas cores lilás, rosa e branco. As “Senhoras do Conhecimento” remetem ao período em que o homenageado desenvolveu o hábito da leitura ao trabalhar em uma livraria. A ala de passistas deu show na avenida trajada de “A corte de Zumbi”, em referência ao Quilombo dos Palmares.
Samba-Enredo
O samba-enredo composto por Samir Trindade, Junior Fionda, Elson Ramires e Rildo Seixas teve um belo rendimento na avenida. Apesar do canto não ter sido uniforme durante todo o desfile, os componentes entoavam os refrões com bastante empolgação. “Preto é rei!” e “Obá obá, Obara ôôô” foram os trechos da letra do samba que eram cantados com mais vigor pela comunidade de Santa Cruz. O carro de som liderado pelo intérprete Roninho enfrentou um pequeno apagão no sistema de som da Sapucaí, mas não comprometeu a harmonia da escola.
Bateria
A bateria comandada por mestre Riquinho sustentou o desfile da Santa Cruz, sem deixar de lado a criatividade. As bossas do samba foram executadas com perfeição e precisão. Em uma delas, no trecho “Obá obá, Obara ôôô”, os ritmistas reverenciavam o público enquanto os repiques seguravam o ritmo e voltavam na virada de dois, dando continuidade a bossa. Sem dúvidas, a Tabajara da Zona Oeste foi um dos pontos altos do desfile da Acadêmicos. A frente dos ritmistas veio a rainha da bateria Larissa Nicolau.
Evolução
A Santa Cruz começou seu desfile evoluindo bem, com a maioria de suas alas passando compactas. Porém, quando a bateria entrou no recuo, a escola acelerou o passo para cobrir o espaço deixado na avenida e o último carro não conseguiu acompanhar. Na passagem da alegoria pelo segundo módulo, acabou abrindo um buraco, que só foi corrigido no setor seguinte. As alas “A Paixão pelo Flamengo” e “O amor pela Mangueira” embolaram em alguns momentos do desfile.
Outros destaques
A musa Paula Lacer, com a fantasia “Sacerdotisa da rainha diaba”, conquistou o público com sua simpatia e samba no pé. Ela veio a frente da ala “A rainha diaba – uma revolução”, que remete ao personagem homossexual interpretado por Milton em filme homônimo, dirigido por Antônio Carlos da Fontoura. Com este trabalho, Milton Gonçalves é definitivamente reconhecido por seu talento e capacidade de debater temas de relevância estrutural e cultural.
A Unidos de Padre Miguel passou na avenida nesta última quinta-feira, 21 de abril com o enredo ‘Iroko-É TEMPO de Xirê’. Iroko é a própria existência dos ciclos da vida, seus surgimento, fim e recomeço. Responsável por fazer a escola pulsar na avenida e trazer vida ao público, a bateria da escola vinda de Padre Miguel passou na Sapucaí simbolizando as raízes de Iroko.
“Tô muito contente em estar nesse enredo que traz a ideia do coletivo e inspira a superar as coisas. Vindos desses dois anos difíceis, nos conversamos muito sobre superação esse ano. Com o trabalho do mestre Dinho e uma fantasia leve, bonita e que representa força, nós estamos na briga pelo título”, disse Luvique Viana, o Beethoven da UPM ao site CARNAVALESCO.
Com bateria de mestre Dinho afinada e entrosada com o carro de som, a UPM entregou vida ao público que conferiu seu desfile, mas nem só de trabalho dos ritmistas se faz o sucesso. A fantasia estava impecável e linda.
Simples e de cor vermelha, a fantasia continha desenhos de vermelho sobre vermelho fazendo uma analogia a terra Iorubá e a ligação com as raízes da árvore sagrada. Ainda contou com detalhes dourados que significavam a riqueza da vida e os famosos búzios utilizados na religiosidade Iorubá com funções diversas.
A fantasia aparentemente não atrapalhou o desempenho dos ritmistas, pelo contrário, como dito acima ela contribuiu para o sucesso do quesito. Tal sucesso foi acompanhado de perto pelo mestre Dinho.
“Nesse país com racismo tão forte, é muito importante a escola trazer um enredo que mostra aspectos da Negritude, valoriza o preto e sua essência. Acompanhei todo o processo com muito orgulho e felicidade, inclusive a criação da fantasia da bateria, porque nosso carnavalesco mostrou todos os protótipos e gostei de tudo” disse mestre Dinho ao site CARNAVALESCO.
Quinta escola a desfilar na segunda noite de desfiles da Série Ouro, a Unidos de Padre Miguel resgatou suas raízes, com sobre o orixá Iroko, na Marquês de Sapucaí. Representando as Iamas, guardiãs do ventre do mundo e da ancestralidade feminina, a fantasia da ala de baianas do Boi Vermelho da Zona Oeste encantou o público com sua beleza.
De volta à escola após 3 carnavais afastado, o carnavalesco Edson Pereira presenteou as senhoras da Vila Vintém com uma bela fantasia que misturava tons de bege, lilás e branco e tinha direito a led nas saias. Além disso, a roupa contava com uma bela asa nas costas e uma coruja rosa nas cabeças das componentes.
Em entrevista ao Site CARNAVALESCO, as baianas da Unidos de Padre Miguel teceram muitos elogios à roupa desenvolvida pelo carnavalesco da escola. A maioria considerou a fantasia pesada, mas o amor pela escola e a confiança no retorno ao Grupo Especial, após anos, as fizeram esquecer o peso da roupa.
A professora de história Renata Mota, com anos de experiência na avenida, colocou a fantasia na lista das mais bonitas com as quais já desfilou. A carioca de Padre Miguel confia que, após bater na trave nos últimos anos, a UPM, dessa vez, conquistará o tão sonhado título, que garante o retorno à elite do carnaval carioca.
“A fantasia está linda, é uma das mais bonitas que eu já vesti em todos os muitos anos que sou e essa é uma das mais bonitas. Estou muito emocionada. Ela é um pouco pesada, principalmente as asas. Mas, estou muito confiante, agora a gente vai, tenho certeza.”, afirmou a professora.
Também de Padre Miguel, a cuidadora de idosos Dinorá também elogiou a fantasia da ala das baianas. Confiante no campeonato, a baiana supera o peso da roupa, pelo amor ao Boi Vermelho da Zona Oeste.
“A fantasia é muito linda, eu adorei e não esperava que esse que a Unidos de Padre Miguel esse ano viesse ainda mais bonita do que nos últimos carnavais. Ela é um pouco pesada, mas dá para levar tranquilo e vamos ganhar esse campeonato”, contou.
Nilopolitana, Cássia Dornelles foi parar na Unidos de Padre Miguel por amor ao samba e em solidariedade à escola. “Amizades, uma escola precisa de baiana aí me chamam. Uma escola sempre precisa ajudar a outra. Estamos aqui para somar.” Apesar de não ser torcedora da escola, Cássia garante estar sempre confiante no bom desempenho da Unidos.
“Eu amei a fantasia, não está pesada, está confortável, melhor que nos últimos anos. Como baiana, estou aprovando demais a fantasia. Estou muito confiante no título, a gente sempre acha que vai ganhar, não podemos entrar achando que vamos perder. Nós só queremos ganhar, mais nada.”, disse.
Tem sulista no samba? Diretamente de Curitiba, capital do estado do Paraná, Débora Bonfim desembarcou na Marquês de Sapucaí para desfilar pela Unidos de Padre Miguel. Estreante na avenida, a curitibana se apaixonou pelo Boi Vermelho ao vê-lo, de longe, desfilar.
Torço pela Unidos de Padre Miguel, sempre acompanho a escola. Vim de Curitiba para desfilar, pela primeira vez. A fantasia é linda e ela ainda tem led, nós vamos brilhar na avenida, é bem legal. Ela é pesada, mas é confortável, não é um peso extremo. Baiana tem bastante peças mesmo. Estou muito confiante no título, contou Débora.
Quinta escola a pisar no solo sagrado da Marquês de Sapucaí, a Unidos de Padre Miguel encantou o público com o enredo “Iroko-É Tempo de Xirê”. Na frente da escola, em um tradicional “pede-passagem”, o boi vermelho, símbolo resgatado pela UPM nos últimos anos, abriu os caminhos para o desfile da escola.
Com a sigla da escola à frente, “UPM”, o pede-passagem, de nome “O Boi Vermelho da Vintém pede passagem, trazia, além do boi, com movimentos, as matas de Iroko, orixá homenageado, estamparias africanas e uma destaque central, representando Oduduá. Com galinhas da angola nas laterais, o elemento alegórico anunciava o “tempo de xirê”, que é a festa dos orixás, realizada pela escola para exaltar arvoré-orixá”.
Apesar de popularmente a escola ser conhecida como Boi Vermelho, o animal durante muitos anos ficou fora do símbolo da escola. Após muitos carnavais com as “duas mãos” como emblema, a Unidos de Padre Miguel resgatou o animal, que se difundiu rapidamente no mundo do samba
Em entrevista ao Site CARNAVALESCO, o diretor de alegorias da Unidos de Padre Miguel, Flávio Coelho , responsável pelo pede-passagem, falou sobre a questão da importância do resgate do símbolo e da representação do elemento alegórico.
“Esse pede-passagem traz o nosso símbolo, que foi reinventado pela escola porque o Boi Vermelho é o símbolo original da escola, desde a fundação, sempre foi o boi e durante muitos anos, foram as duas mãos e, de uns anos pra cá, a Unidos de Padre Miguel voltou com o boi vermelho, que é o símbolo da nossa escola”, contou.
De volta à escola depois de três carnavais, o carnavalesco Edson Pereira resgatou as características de desfile da UPM, plasticamente grande e com a pegada africana do povo da Vila Vintém. Confiante, o diretor Flávio acredita no título da escola e no retorno ao Grupo Especial.
“A gente espera a vitória esse ano. Estamos com carros belíssimos, ótimas fantasias e a forte comunidade da Unidos, que é muito forte, como todos sabem, está muito empenhada em busca de ganhar o título e retornar ao Grupo Especial”, concluiu.
No segundo dia de desfiles na Marquês de Sapucaí, a Unidos de Padre Miguel marcou presença com o enredo ‘Iroko – É tempo de Xirê’. Sendo Iroko a árvore da vida, a provedora dos alimentos da vida e é representação dos ciclos, a escola apresentou na sua terceira alegoria o encontro de Iroko com Obatalá, o mais velho dos orixás.
Como o primeiro orixá criado por Olodumarê, Obatalá, contração de Oba-ti-ala, o rei em vestes brancas, é a raiz de todos os orixás. Na terceira alegoria da UPM, Obatalá e Iroko foram apresentados como uma combinação harmônica e necessária.
O carro levou para avenida muita luz, mas sem abusar do branco. Investiu nas cores amarelo, dourado, verde e laranja. Na parte inferior foram vistos animais tradicionais do território Iorubá, como grandes felinos e borboletas. Entre eles encontravam-se as composições de alegoria vestidas numa roupa predominantemente branca e detalhadas em tons que remetiam à terra, nas fantasias também foram vistas sementes que fazem analogia a alimentação promovida por Iroko.
Acima dos seres da terra, estava uma leitura do globo terrestre pela perspectiva Iorubá. Ao redor deste globo, a roda dos orixás que moldam, abençoam o reino da matéria e formam o exército de Orúm. Toda essa beleza vista sob as asas da pomba branca vinculada a imagem de Obatalá e significando o equilibro da paz no mundo da matéria.
Essa paz na matéria é o que precisa o povo carioca e brasileiro. Contou ao site CARNAVALESCO a Cintia Zacone, uma das componentes que desfilou em cima da alegoria da UPM
“Estou animada em estar nesse carro, é muita responsabilidade. O carro traz o significado da paz e é isso que o povo carioca, brasileiro e do mundo todo quer. Nesse 2022 já vimos tanta gente fazendo o mal, vimos surgir guerras… a gente precisa de paz e a UPM traz isso nesse carro” disse Cintia Zacone
Outra componente do carro também falou com a equipe do site CARNAVALESCO e ressaltou o simbolismo da paz carregado por ele.
“Muito bom estar com essa roupa que ajuda a montar esse carro que traz a paz. Ela é tudo que o brasileiro precisa agora.”, contou Kelly Prado.
A bateria Tabajara da Zona Oeste de Mestre Riquinho fez uma apresentação próxima de correta. Algumas imprecisões e oscilações foram percebidas por parte dos marcadores, mas nenhuma delas de forma destacada em frente a jurado. A batida das caixas de guerra não apresentou uniformidade em sua batida, mas sem gerar consequência à unidade rítmica, devido a qualidade dos ritmistas do naipe.
No acompanhamento de peças leves uma ala de tamborim com bom volume ajudou a preencher a musicalidade, assim como o naipe de agogôs executou seu toque pautado nas variações melódicas do samba da escola. O breque de subida foi executado de modo constante, trazendo bom valor sonoro ao ritmo, com tamborins efetuando tapas no contratempo no final do mesmo. O destaque musical ficou a cargo da complexa paradinha do refrão do meio.
Já a bossa do refrão do meio iniciou com ritmo de afoxé no toque dos surdos, terminando com solo de timbal com agogô. A apresentação da bateria da Santa Cruz no último módulo de julgadores acabou sendo prejudicada pela harmonia da escola, que pediu para os ritmistas acelerarem o passo sem necessidade, já que haviam cinco minutos para o fim do desfile com tempo hábil suficiente para isso.
A quinta escola do Acesso I a entrar na avenida foi a Estrela do Terceiro Milênio. Com o enredo “Ô abre-alas que elas vão passar”, a agremiação iniciou seu desfile às 0h04min. Ao longo dos 57 minutos que esteve na passarela, se viu uma escola organizada, luxuosa e aguerrida. As paradinhas e coreografias da bateria chamaram bastante atenção do público, gerando uma grande interação com quem estava no Anhembi. Outro ponto positivo na parte musical foi o ótimo entrosamento entre a intérprete Grazzi Brasil e Pitty de Menezes. Ambos conduziram o samba mediano da agremiação com bastante qualidade e entusiasmo. Nos quesitos plásticos, a Milênio fez seu dever de casa durante os dois anos de preparação e trouxe em seu desfile alegorias luxuosas, bem-acabadas e de muito bom gosto. Sem erros grosseiros, somando plástica e harmonia impecáveis, a entidade se credencia como uma das favoritas a conquistar uma vaga no grupo de elite do carnaval paulista.
Fotos de Fábio Martins/Site CARNAVALESCO
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Comissão de frente
Responsável por sintetizar coreograficamente o que o enredo da escola se propõe, a comissão de frente da Terceiro Milênio, coreografada por Paula Gasparini, dividia-se na apresentação de três personagens. Eva, que possuía dois figurinos diferentes. Apesar de ambos serem vestidos, um era mais despojado, na cor prata, remetendo à dançarinas de shows. Já o figurino dois era um avental acoplado. Uma versão carnavalizada de donas de casa nos anos 50. O segundo personagem da comissão era o homem, trajado de social, porém também carnavalizado, o terno tinha alguns traços de pintura pop art. A terceira personagem era Lilith, nas cores em degradê, iniciando pelo barro, passando pelo vermelho, alternando para o pink até chegar no rosa. Essa indumentária é uma alusão à primeira mulher que foi criada. Feita do mesmo barro que o homem, e que depois se distingue, formando o espectro feminino.
Essa fantasia se destacava pelas cores e também pelo mosaico artesanal que foi construído em espelhos por cima do macacão que cobria da cabeça aos pés. Compondo alegoricamente a comissão, a escola levou um gigantesco elemento alegórico em formato de gaiola, com adereços que lembravam as cozinhas dos anos 50. A coreografia se da principalmente com as Liliths cravando uma briga com os personagens do sexo masculino. Quando as Liliths venciam a batalha, a dama aprisionada também se libertava da gaiola, arrancando suas roupas de cozinheira e indo de encontro as Liliths que estavam a frente da gaiola. Tal feito garantiu a comissão aplausos dos espectadores.
Mestre-sala e porta-bandeira
Formado pela dupla Daniel de Vitro e Edilaine Campos, ele representava o samba e ele o carnaval. Trajado com uma roupa nas cores preto e branco, com costeiro circular de faisões pretos com outras pequenas penas contrastando nas pontas. O mestre-sala esbanjava carisma e segurança na condução da sua dama. A porta-bandeira vestia uma indumentária recheada de faisões e plumas na mesma cor de seu companheiro. Acima da saia e das penas, detalhes de notas musicais e pandeiros chamavam bastante atenção pelo brilho e forma com que foi bem-acabado.
Harmonia
Abertura da escola iniciou canto muito forte e esse canto permaneceu durante o tempo que a escola esteve na avenida. As alas cantavam com bastante garra o samba-enredo. Nos refrões, principalmente no trecho “lugar de mulher é onde ela quiser” as mulheres batiam no peito e esbravejavam. Gerando mais uma vez conexão positiva com arquibancadas e camarotes. Outro trecho que foi muito exaltado é “será mulher, que lhe deram o real valor?”. Nessa parte a bateria parava e fazia a pergunta apontando para as arquibancadas dos dois lados. Todas as vezes que essa paradinha foi executada os componentes da escola corresponderam.
Enredo
O enredo “Ô abre-alas que elas vão passar”, desenvolvido pelo carnavalesco Murilo Lobo, apresentava uma grande homenagem com intuito de reverenciar as corajosas mulheres que se destacaram na história do samba. Recordando que elas romperam as fronteiras do lar, da cozinha, e adentraram no terreno musical. Dividida em três setores, a agremiação levou em 14 alas mulheres que fizeram história. Três alegorias nomeadas de Tia Ciata, Clementina de Jesus e Mulheres do Carnaval costuravam o enredo. O primeiro setor apresentava o samba e o carnaval, com a pioneira Chiquinha Gonzaga, mulher responsável por compor a primeira marchinha de carnaval. Em seguida, prestou-se uma homenagem às damas do rádio. Nomes como Carmem Miranda – baianas -, Aracy de Almeida e Elizeth Cardoso estavam presentes nas alas desse setor. Fechando o carnaval da escola, o terceiro setor homenageou mulheres da própria folia momesca: Elza Soares, Alcione e Jovelina Pérola Negra foram algumas das mencionadas. Destaque para primeira ala que além de ser coreografada estava com samba inteiro na ponta da língua.
Evolução
De ponta a ponta a Milênio se desenvolveu de forma leve e muito bem organizada. Seus componentes estavam atentos aos possíveis buracos e tratavam de preenche-los. Mesmo com paradinhas e coreografias que podiam desconcentrar, a comunidade da escola desfilou de maneira linear cumprindo o objetivo que é proposto pelo desfile de escola de samba. Não foi parecido com um desfile cívico, porém, também não foi apenas oba-oba.
Samba
A condução de Grazzi Brasil é Pitty Menezes foi a grata surpresa musical da noite. O samba, que não é o mais rico em poesia do grupo, foi muito bem conduzido pelos dois cantores. Dava a impressão de que ambos cantam juntos há bastante tempo. Um soube respeitar o tempo do outro, tanto na condução quanto na inserção de cacos. No retorno das paradonas o samba voltava no tempo certo, sem atravessar o ritmo e “conversava” corretamente com a bateria da entidade.
Fantasias
Homenagens não faltaram nas fantasias da agremiação. Nomes populares do próprio carnaval e da música fizeram parte do desfile. O carnavalesco soube mesclar muito bem sua paleta de cores. Ora a escola estava mais clara, ora por escura. Mas sempre mantendo uma coesão.
Alegorias
Seguindo a mesma proposta das fantasias – e do enredo – de ser homenagem para determinadas mulheres, as alegorias se destacavam pelo tamanho e riqueza de detalhes. No abre-alas, que tinha o intuito de consagrar tia Ciata e sua participação na criação do samba, via-se na frente o letreiro com o nome da agremiação. Nas laterais da primeira parte do carro, os adereços faziam uma espécie de fonte de água, já apresentando a grande escultura de Oxum que viria centralizada. Interligando o acoplado dos carros, havia uma escadaria onde um grupo coreográfico ficava posicionado, representando os filhos de santo de tia Ciata. Esses estavam vestidos de iaos e a segunda pele nas cores da galinha de angola. Na cabeça uma pena vermelha de ecodidé chamava atenção. Esses itens são muito importantes para o culto do candomblé. Concluindo a segunda acoplagem desse carro, uma grande escultura da matriarca vinha segurando um tabuleiro.
A segunda alegoria apresentava a ancestralidade negra presente em toda vida e obra de Clementina de Jesus, incluindo sua luta contra o preconceito racial. O carro continha em toda sua extensão elementos culturais do continente africano, como dentes de marfim, escudos e tecidos. Uma escultura de uma mulher negra de boca aberta e punho cerrado estendido chamava atenção nesse carro. O carro se destacava pelo trabalho artesanal em toda sua extensão. Na parte de trás, a escola trouxe uma escultura em tons marrons de Nossa Senhora da Glória, santa de devoção de Clementina. Ao redor da imagem, borboletas africanas representavam a transformação que ocorreu na vida da cantora.
Encerrando o desfile, a terceira alegoria trazia as mulheres do carnaval para receber os aplausos do público. Porta bandeiras, musas, presidentes, intérpretes, baianas, assistentes sociais, destaques, velha guarda, embaixatrizes, figuras importantes do carnaval estiveram presentes. Nessa alegoria também veio a mascote da escola, uma coruja, que apesar de não ser das maiores, estava muito bem acabada. Essa última alegoria toda em tons de rosa e roxo fechava a paleta de cores da escola de maneira agradável.
Outros destaques
Os paradões da bateria no refrão principal eram ovacionados pelas arquibancadas e camarotes que correspondiam cantando a letra por inteiro. O Anhembi ia delírio em uma só voz cantando forte. Bateria leve com fantasia agradável de malandro, porém o vermelho tradicional deu lugar ao rosa. Baianas de Carmem Miranda giravam nos refrões e na segunda do samba, onde são mencionadas de forma literal na letra do samba.
Quarta escola a pisar na avenida, a Independente Tricolor levou para a avenida o enredo “Brava gente, é hora de acordar!” com a proposta de mostrar os problemas que o povo brasileiro sofre desde os tempos da colonização. Com destaque para a dança vibrante do casal de mestre-sala e porta-bandeira, o bom desempenho da bateria e a sinergia entre todos os componentes, a agremiação terminou sua apresentação com 57 minutos sem demonstrar nem um pouco de preocupação.
Fotos de Fábio Martins/Site CARNAVALESCO
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Comissão de frente
A comissão de frente da tricolor, de nome “Brava Gente” e liderada pelo coreógrafo Arthur Rozas, fez uma apresentação segura, com duas encenações diferentes que ocorreram ao longo de uma passagem do samba cada. A coreografia, porém, foi engessada e de interpretação confusa na pista, acabou não animando o público. Pode garantir os pontos na hora da apuração, mas não mais do que isso.
Mestre-Sala e Porta-Bandeira
Em compensação, o casal de mestre-sala e porta-bandeira da Independente, Jefferson Antônio e Thais Paraguassu, foi um dos grandes destaques do desfile. Felizes com sua dança, o casal se soltou e bailou de forma animada e com grande sincronia, bem de acordo com o esperado dos representantes do quesito. Vieram representando indígenas junto de um conjunto de guardiões, todos com suas fantasias de nome “Os donos da terra”.
Harmonia
O canto da escola começou em alto nível, com destaque para a grande animação da segunda ala, que vieram vestidos da ave mitológica Fênix. Outro momento de grande destaque foram os apagões da bateria, onde ficou visível o canto vibrante e elevado de toda a comunidade. As crianças do terceiro carro também chamaram atenção por estarem com o samba na ponta da língua. O quesito pode ser um diferencial no dia da apuração.
Enredo
A Independente apresentou um enredo de leitura fácil. Os setores vieram representando desde o período da colonização até os tempos atuais, passando por todos os problemas que os brasileiros encaram desde a chegada dos europeus. Da invasão dos colonizadores à injustiça social, a apresentação e encerrando com uma mensagem de esperança por uma nação de fato independente, tal qual o nome da escola.
Evolução
A evolução da escola foi impecável. Todo o desfile transcorreu com grande tranquilidade e não foi observado nenhum momento de tensão. Muitas alas estavam animadas e brincaram ao som dos ritmistas da tricolor. Tecnicamente, nada a contestar do desempenho técnico da escola.
Samba-enredo
A animação dos componentes, porém, encontrou uma barreira na hora de se transmitir ao público presente no Anhembi. O samba da escola, burocrático e sem nenhum ponto de grande destaque, não empolgou e apenas chamou atenção nos momentos de apagões e bossas. Os refrões possuem versos pouco harmoniosos, o que prejudicou na hora da transmissão da mensagem, por mais que tenha sido bem interpretado por Rafael Pinah.
Fantasias
Em geral belas, as fantasias da Independente oscilaram entre momentos de fácil e difícil interpretação. As alas do terceiro setor conseguiram transmitir bem suas mensagens, porém no segundo, alas como a das baianas, que representaram a intolerância religiosa, foi difícil de compreender. Alguns adereços foram comprometidos, como as correntes de algumas fantasias da ala Correntes da Opressão.
Alegorias
Com um abre-alas grande e de acabamento impecável, o conjunto alegórico da Tricolor conseguiu transmitir com grande facilidade suas mensagens, iniciando com o tema “O monstro do terceiro mundo”. O segundo carro, “O circo da injustiça social”, veio com a frente na forma de um picadeiro com artistas coreografando, enquanto a parte de trás exibia uma grande favela bem caracterizada. Encerrou com o carro da Nação Independente, repleto de crianças muito bem inseridas dentro da comunidade como já citado anteriormente.
Outros destaques
A Independente Tricolor chamou atenção por conta do grande comprometimento de sua comunidade. Dentro da pista, a correspondência ficou explícita nas variadas bossas da bateria, e foi bonito de ver. As alas coreografadas, em especial a ala 15, “Manifestação: O despertar do povo”, fez uma apresentação fantástica e ajudou a dar uma animada na parte final do desfile da escola.