A quinta escola do Acesso I a entrar na avenida foi a Estrela do Terceiro Milênio. Com o enredo “Ô abre-alas que elas vão passar”, a agremiação iniciou seu desfile às 0h04min. Ao longo dos 57 minutos que esteve na passarela, se viu uma escola organizada, luxuosa e aguerrida. As paradinhas e coreografias da bateria chamaram bastante atenção do público, gerando uma grande interação com quem estava no Anhembi. Outro ponto positivo na parte musical foi o ótimo entrosamento entre a intérprete Grazzi Brasil e Pitty de Menezes. Ambos conduziram o samba mediano da agremiação com bastante qualidade e entusiasmo. Nos quesitos plásticos, a Milênio fez seu dever de casa durante os dois anos de preparação e trouxe em seu desfile alegorias luxuosas, bem-acabadas e de muito bom gosto. Sem erros grosseiros, somando plástica e harmonia impecáveis, a entidade se credencia como uma das favoritas a conquistar uma vaga no grupo de elite do carnaval paulista.

Comissão de frente

Responsável por sintetizar coreograficamente o que o enredo da escola se propõe, a comissão de frente da Terceiro Milênio, coreografada por Paula Gasparini, dividia-se na apresentação de três personagens. Eva, que possuía dois figurinos diferentes. Apesar de ambos serem vestidos, um era mais despojado, na cor prata, remetendo à dançarinas de shows. Já o figurino dois era um avental acoplado. Uma versão carnavalizada de donas de casa nos anos 50. O segundo personagem da comissão era o homem, trajado de social, porém também carnavalizado, o terno tinha alguns traços de pintura pop art. A terceira personagem era Lilith, nas cores em degradê, iniciando pelo barro, passando pelo vermelho, alternando para o pink até chegar no rosa. Essa indumentária é uma alusão à primeira mulher que foi criada. Feita do mesmo barro que o homem, e que depois se distingue, formando o espectro feminino.

Essa fantasia se destacava pelas cores e também pelo mosaico artesanal que foi construído em espelhos por cima do macacão que cobria da cabeça aos pés. Compondo alegoricamente a comissão, a escola levou um gigantesco elemento alegórico em formato de gaiola, com adereços que lembravam as cozinhas dos anos 50. A coreografia se da principalmente com as Liliths cravando uma briga com os personagens do sexo masculino. Quando as Liliths venciam a batalha, a dama aprisionada também se libertava da gaiola, arrancando suas roupas de cozinheira e indo de encontro as Liliths que estavam a frente da gaiola. Tal feito garantiu a comissão aplausos dos espectadores.

Mestre-sala e porta-bandeira

Formado pela dupla Daniel de Vitro e Edilaine Campos, ele representava o samba e ele o carnaval. Trajado com uma roupa nas cores preto e branco, com costeiro circular de faisões pretos com outras pequenas penas contrastando nas pontas. O mestre-sala esbanjava carisma e segurança na condução da sua dama. A porta-bandeira vestia uma indumentária recheada de faisões e plumas na mesma cor de seu companheiro. Acima da saia e das penas, detalhes de notas musicais e pandeiros chamavam bastante atenção pelo brilho e forma com que foi bem-acabado.

Harmonia

Abertura da escola iniciou canto muito forte e esse canto permaneceu durante o tempo que a escola esteve na avenida. As alas cantavam com bastante garra o samba-enredo. Nos refrões, principalmente no trecho “lugar de mulher é onde ela quiser” as mulheres batiam no peito e esbravejavam. Gerando mais uma vez conexão positiva com arquibancadas e camarotes. Outro trecho que foi muito exaltado é “será mulher, que lhe deram o real valor?”. Nessa parte a bateria parava e fazia a pergunta apontando para as arquibancadas dos dois lados. Todas as vezes que essa paradinha foi executada os componentes da escola corresponderam.

Enredo

O enredo “Ô abre-alas que elas vão passar”, desenvolvido pelo carnavalesco Murilo Lobo, apresentava uma grande homenagem com intuito de reverenciar as corajosas mulheres que se destacaram na história do samba. Recordando que elas romperam as fronteiras do lar, da cozinha, e adentraram no terreno musical. Dividida em três setores, a agremiação levou em 14 alas mulheres que fizeram história. Três alegorias nomeadas de Tia Ciata, Clementina de Jesus e Mulheres do Carnaval costuravam o enredo. O primeiro setor apresentava o samba e o carnaval, com a pioneira Chiquinha Gonzaga, mulher responsável por compor a primeira marchinha de carnaval. Em seguida, prestou-se uma homenagem às damas do rádio. Nomes como Carmem Miranda – baianas -, Aracy de Almeida e Elizeth Cardoso estavam presentes nas alas desse setor. Fechando o carnaval da escola, o terceiro setor homenageou mulheres da própria folia momesca: Elza Soares, Alcione e Jovelina Pérola Negra foram algumas das mencionadas. Destaque para primeira ala que além de ser coreografada estava com samba inteiro na ponta da língua.

Evolução

De ponta a ponta a Milênio se desenvolveu de forma leve e muito bem organizada. Seus componentes estavam atentos aos possíveis buracos e tratavam de preenche-los. Mesmo com paradinhas e coreografias que podiam desconcentrar, a comunidade da escola desfilou de maneira linear cumprindo o objetivo que é proposto pelo desfile de escola de samba. Não foi parecido com um desfile cívico, porém, também não foi apenas oba-oba.

Samba

A condução de Grazzi Brasil é Pitty Menezes foi a grata surpresa musical da noite. O samba, que não é o mais rico em poesia do grupo, foi muito bem conduzido pelos dois cantores. Dava a impressão de que ambos cantam juntos há bastante tempo. Um soube respeitar o tempo do outro, tanto na condução quanto na inserção de cacos. No retorno das paradonas o samba voltava no tempo certo, sem atravessar o ritmo e “conversava” corretamente com a bateria da entidade.

Fantasias

Homenagens não faltaram nas fantasias da agremiação. Nomes populares do próprio carnaval e da música fizeram parte do desfile. O carnavalesco soube mesclar muito bem sua paleta de cores. Ora a escola estava mais clara, ora por escura. Mas sempre mantendo uma coesão.

Alegorias

Seguindo a mesma proposta das fantasias – e do enredo – de ser homenagem para determinadas mulheres, as alegorias se destacavam pelo tamanho e riqueza de detalhes. No abre-alas, que tinha o intuito de consagrar tia Ciata e sua participação na criação do samba, via-se na frente o letreiro com o nome da agremiação. Nas laterais da primeira parte do carro, os adereços faziam uma espécie de fonte de água, já apresentando a grande escultura de Oxum que viria centralizada. Interligando o acoplado dos carros, havia uma escadaria onde um grupo coreográfico ficava posicionado, representando os filhos de santo de tia Ciata. Esses estavam vestidos de iaos e a segunda pele nas cores da galinha de angola. Na cabeça uma pena vermelha de ecodidé chamava atenção. Esses itens são muito importantes para o culto do candomblé. Concluindo a segunda acoplagem desse carro, uma grande escultura da matriarca vinha segurando um tabuleiro.

A segunda alegoria apresentava a ancestralidade negra presente em toda vida e obra de Clementina de Jesus, incluindo sua luta contra o preconceito racial. O carro continha em toda sua extensão elementos culturais do continente africano, como dentes de marfim, escudos e tecidos. Uma escultura de uma mulher negra de boca aberta e punho cerrado estendido chamava atenção nesse carro. O carro se destacava pelo trabalho artesanal em toda sua extensão. Na parte de trás, a escola trouxe uma escultura em tons marrons de Nossa Senhora da Glória, santa de devoção de Clementina. Ao redor da imagem, borboletas africanas representavam a transformação que ocorreu na vida da cantora.

Encerrando o desfile, a terceira alegoria trazia as mulheres do carnaval para receber os aplausos do público. Porta bandeiras, musas, presidentes, intérpretes, baianas, assistentes sociais, destaques, velha guarda, embaixatrizes, figuras importantes do carnaval estiveram presentes. Nessa alegoria também veio a mascote da escola, uma coruja, que apesar de não ser das maiores, estava muito bem acabada. Essa última alegoria toda em tons de rosa e roxo fechava a paleta de cores da escola de maneira agradável.

Outros destaques

Os paradões da bateria no refrão principal eram ovacionados pelas arquibancadas e camarotes que correspondiam cantando a letra por inteiro. O Anhembi ia delírio em uma só voz cantando forte. Bateria leve com fantasia agradável de malandro, porém o vermelho tradicional deu lugar ao rosa. Baianas de Carmem Miranda giravam nos refrões e na segunda do samba, onde são mencionadas de forma literal na letra do samba.

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