A Acadêmicos do Salgueiro vai muito além de ser apenas uma escola de samba ou uma simples quadra visitada por turistas todos os anos. Ser salgueirense é sinal de território, pertencimento e identidade. O amor pela escola ultrapassa palavras: é um sentimento que a comunidade carrega através de gerações e que, enquanto houver uma pessoa desfilando pelo Salgueiro, a escola seguirá firme e forte, como vem sendo há mais de oito décadas.
Não existe homenagem maior do que desfilar pela própria escola. Dentro desse universo, a ala das passistas carrega uma trajetória marcada por inovação e reconstrução, sem jamais perder a tradição de transmitir a paixão através do corpo e do samba no pé.
Reconhecido mundialmente por seu talento, rispidez e olhar crítico, o diretor artístico Carlinhos Salgueiro é a alma criativa por trás das musas e passistas mais icônicas da Marquês de Sapucaí. Para ele, o samba vai além do desfile: ser passista do Salgueiro é dar voz e destaque às pessoas da comunidade.
Fotos: Alicia Victoria / CARNAVALESCO
“De uns dois anos para cá, eu montava uma comissão de personalidades e artistas para escolher, mas eu voltei a sentir no meu coração. Eu sinto as pessoas, eu gosto de pegar pessoas cruas, que aí eu coloco o meu tempero. E ser campeã de prêmios é a realização do meu trabalho e ver que o trabalho tá dando certo”, destacou.
Esse olhar detalhado e preciso do diretor artístico se reflete na trajetória da estagiária de Educação Física Ellen Belo. Aos 23 anos, ela participou das audições carregando insegurança e a certeza de que não seria aprovada. No entanto, o pressentimento apurado de Carlinhos transformou em realidade um sonho de infância: ser passista do Salgueiro.
“Eu entrei recentemente, no final do ano passado, mas sempre foi meu sonho ser do Salgueiro. Só que eu achei que eu não tava pronta, eu não estava confiando em mim naquele momento. Pensei: ‘Se eu passar, ok, mérito meu; se eu não conseguir, vou persistir até conseguir’. Dito e feito: cheguei, fiz o teste. Na hora ele tava chamando as meninas, e eu tava lá atrás. Ele veio me olhando assim… eu falei: ‘Será que ele tá me olhando?’. Eu olhava para baixo, eu olhava para cima, aí ele veio, me deu a mão e me botou lá na frente. Eu fiquei muito feliz”, afirmou.
Ser passista vai além de sambar na avenida. É ser referência para os mais novos, representar disciplina, dedicação, trabalho duro, beleza e plasticidade. As passistas do Salgueiro carregam um nome forte, construído por Carlinhos ao longo dos anos, por meio de projetos sociais voltados para a comunidade e abertos a todos.
Raquel Lima, de 34 anos, arquiteta, dançarina e no quinto ano desfilando pela escola, é uma dessas histórias. Assim como muitas outras passistas, Raquel foi pupila de Carlinhos por meio do projeto Samba no Pé.
“Eu fiz, durante um ano, curso com ele no projeto Samba no Pé, que acontece no Salgueiro. Aí eu fui me desenvolvendo e, um dia, ele me chamou para fazer parte da ala. Desde criança sempre quis ser passista e eu estou muito feliz por estar representando. Grandes nomes vieram do Salgueiro, vieram através do estudo com o Carlinhos. É incrível fazer parte e estar também trazendo esses prêmios todos os anos com ele”, enfatizou.
Tradição, inovação e pertencimento são palavras que definem as passistas do Salgueiro, sempre um passo à frente e sem rótulos. Davi Araújo, de 26 anos, é cabeleireiro, integra a escola há quatro anos e atualmente ocupa o posto de passista diversidade. Para ele, estar nesse espaço vai além da individualidade. Consciente dos rótulos impostos pela sociedade, Davi não se deixa limitar e celebra a alegria de ser passista.
“Eu acho que é muito mais além. Para mim, por ser Passista Diversidade, que é algo que não é muito aceito pela sociedade… é um corpo afeminado sambando da forma que quer, com seus trejeitos. Então, para mim, é de uma felicidade muito grande estar nesse lugar de passista.”
Davi também destaca seu sentimento de pertencimento, o direito de escolher onde seu corpo quer estar e o respeito recebido dentro da escola.
“As pessoas me diziam muito: ‘Ah, por que você não vai para uma outra ala?’. Não, eu quero ser passista. É onde o meu corpo quer estar. E o Carlinhos vem criando essa vontade de ser o passista de diversidade. Eu sou muito salgueirense, é minha ala, amo de paixão, todo mundo me respeita. Então, eu acho que vale muito, porque é muito mais do que o samba no pé. O respeito é muito mais importante”, declarou.
Entre ensaios intensos e jornadas de trabalho fora da quadra, os passistas do Salgueiro seguem carregando o amor por suas raízes. Levam no corpo a própria história e o orgulho de sambar com o coração. É essa entrega que transforma esforço em espetáculo e faz com que, ano após ano, continuem fazendo história na avenida, conquistando prêmios e reafirmando o Salgueiro como referência de excelência, tradição e identidade no carnaval.
Por trás de muito samba no pé que encanta multidões pela Avenida, há emoções. Emoções que, além de carregarem o amor e o respeito pela escola do peito, trazem histórias de luta, pertencimento e relembram à ala de passistas da Unidos de Vila Isabel o porquê de fazerem aquilo que mais amam. É em enredos como “Macumbembê, Samborembá: sonhei que um sambista sonhou a África” que a Azul e Branca de Noel dá espaço para que esses sentimentos transbordem e ganhem ainda mais força na Sapucaí, traduzindo-se em verdadeiros espetáculos que ficam eternizados na memória do público.
No dia 17 de fevereiro, terça-feira de Carnaval, a Vila Isabel trará a figura do grandioso sambista e pintor carioca Heitor dos Prazeres para mergulhar o coração da escola em um resgate à religiosidade e às raízes ancestrais na África. A letra do samba deixa o recado claro: “Macumba é samba e o samba é macumba, pode até fazer quizumba, mas não pode separar”.
Em conversa com o CARNAVALESCO, no último ensaio técnico da agremiação, o passista Léo Cardoso, de 41 anos, compartilhou o sentimento que o samba deste ano lhe trouxe.
Fotos: Ana Beatriz Campelo/CARNAVALESCO
“Esse samba traz um pertencimento para buscar a nossa ligação com a Antiga África. Eu, como pessoa preta, me sinto representado nele”.
A história de Heitor, que construiu sua vida no berço da antiga região da Praça Onze, coincide com a de milhares de jovens negros de morros e periferias que vivem do Carnaval do Rio, como Dandara Barreto, de 19 anos. “Cria” do Morro dos Macacos, ela encontrou paixão no samba ainda na infância, aos 7 anos de idade: passou pelos Herdeiros da Vila, foi musa da comunidade e, hoje, traduz seu encanto pela agremiação na ala de passistas.
Fotos: Ana Beatriz Campelo/CARNAVALESCO
“O que me faz seguir na escola é esse amor todo que eu sempre tive desde pequena. E é um enredo muito lindo, é muito gratificante a Vila Isabel estar trazendo esse tema sobre o Heitor dos Prazeres. É a história de um homem bom e totalmente talentoso”, afirmou.
Assim como o homenageado da noite seguiu os passos do tio Hilário Jovino Ferreira, compositor de referência dos tempos antigos do Carnaval, a jovem Rafaela Xavier, de 23 anos, encontrou sua inspiração dentro da própria árvore genealógica, seguindo os passos da mãe.
Fotos: Ana Beatriz Campelo/CARNAVALESCO
“É uma coisa ancestral, está no sangue da família. Meu avô foi compositor da escola e minha mãe foi passista da nossa coirmã, a Beija-Flor. Tudo isso me motivou. Ela foi passista por muitos anos, o que me incentivou, ao longo do tempo, a querer isso e a estar na Vila”, comentou.
A coordenadora da ala de passistas, Kelly Simpatia, contou que o samba deu força ao longo dos meses de preparação:
“A nossa ala está igual à escola toda, a gente já abraçou o samba. Foi uma coisa muito fácil, veio do coração”.
As expectativas de Kelly para o dia oficial do desfile também estão no topo. A Unidos de Vila Isabel está na busca do seu quarto título no Grupo Especial.
“A gente quer botar o nosso carnaval, tudo o que está acontecendo no barracão, todo o trabalho da harmonia, da diretoria… a gente quer mostrar na avenida”, finalizou.
A alma de uma escola de samba é a sua comunidade. Muitos relatam que essa relação funciona como uma espécie de acordo de casamento: na alegria ou na tristeza, ambas estarão ali, uma pela outra. Os desfiles oficiais do Carnaval 2026 podem não ter começado ainda, mas os sentimentos de orgulho e amor pelo samba já enchem os corações dos portelenses que pisaram na Avenida no sábado, no último ensaio técnico da escola.
Com o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará – A Oração do Negrinho e a Ressurreição de Sua Coroa sob o Céu Aberto do Rio Grande”, a Portela vai homenagear o Príncipe Custódio Joaquim de Almeida, símbolo da religiosidade negra no Rio Grande do Sul.
Quando o samba cai no gosto dos componentes, as expectativas para o grande dia ficam nas alturas. Além de contar pontos para a harmonia da escola, é essa energia que levanta o público nas arquibancadas e frisas.
Representando a Portela ao longo de uma década, Teresinha Maria da Conceição, de 62 anos, mantém sua rotina trabalhando no Hospital Central da Aeronáutica e frequentando os ensaios da agremiação. Ela contou ao CARNAVALESCO como o samba deste ano se conecta com a sua espiritualidade.
Fotos: Ana Beatriz Campelo/CARNAVALESCO
“Me emociona em muita coisa. Ele fala da minha ancestralidade, sou candomblecista. Estou amando muito esse samba-enredo, o refrão me pega do fundo do coração”, afirmou.
Já Bárbara Trindade, de 27 anos, se divide entre a administração da quadra da Portela e, agora, a Passarela do Samba. Com as emoções a mil para o desfile oficial, a jovem também ficou encantada pelo refrão:
“A palavra carregada no dendê deixa a gente pegando fogo. Na semana passada, durante o primeiro ensaio técnico, eu me arrepiei, senti cãibra. Eu estava realizando um sonho. Foi maravilhoso”.
Muitos portelenses ficaram positivamente surpresos com a escolha do enredo. O cabeleireiro Josivan Campelo, de 57 anos, é um deles.
“A gente não imagina que o Sul tem essa grandeza de cultura revelada através do Batuque, o Candomblé do Rio Grande do Sul. Para mim, foi uma grande surpresa saber que o Rio Grande do Sul é um grande polo de cultura afro-brasileira, com terreiros de Candomblé”, comentou.
O ator Cadu Chagas, de 32 anos, saiu da Zona Oeste para comparecer ao Sambódromo no último sábado. Para ele, “o carnaval tem o poder de trazer algo que a gente não vê nos livros de história.
Principalmente sobre o apagamento do povo preto. A Portela, com a sua tradição, a maior ganhadora de títulos do carnaval, vem renovada. Acho que ela já vem com esse processo desde o ano passado, agora com a nova direção, a nova presidência”, completou.
O pré-carnaval está sendo um momento de reconstrução para a Azul e Branco de Oswaldo Cruz e Madureira. Após a perda de Gilsinho, em setembro do ano passado, a escola agora conta com a condução do intérprete Zé Paulo Sierra no carro de som.
O engenheiro e portelense Renato Caldas, de 42 anos, estava acompanhado de sua família no último ensaio técnico da escola. Ele relembrou a memória do prestigiado sambista com carinho e compartilhou suas expectativas para o espetáculo na Marquês.
Renato e família
“Temos a expectativa de muita coisa diferente, e isso vai impactar diretamente no carnaval e na qualidade que vai entrar na Avenida. Foi um ano também de perda, porque a gente tinha o Gilsinho, que era uma figura central no ritmo e no som da escola todo ano. Era uma pessoa que trazia muita familiaridade com o portelense. É um ano de muita emoção, de renovação, de reconstrução e de campeonato”, disse.
No domingo, 15 de fevereiro, a Portela percorrerá a Avenida em busca do tão sonhado vigésimo terceiro título do carnaval. Mas, enquanto o dia do desfile não chega, a águia e a comunidade portelense preparavam seus pulmões para deixar o samba na ponta da língua do povo no último sábado de ensaios do Grupo Especial.
No último ensaio técnico do Grupo Especial, o CARNAVALESCO acompanhou de perto a emoção dos componentes ao entoar o samba-enredo que homenageia a vida e a obra de Heitor dos Prazeres. Com o enredo “Macumbebê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou África”, a escola vem mostrando força, envolvimento e identidade na preparação para o desfile oficial.
Assinado pelos compositores André Diniz e Evandro Bocão, com participação especial de Arlindinho, o samba-enredo conquistou rapidamente a comunidade e o mundo do samba. A obra transforma a trajetória biográfica de Heitor dos Prazeres em poesia carnavalesca, emocionando componentes e público.
Durante os ensaios realizados na Rua 28 de Setembro, em Vila Isabel, e nos mais recentes testes na Marquês de Sapucaí, a resposta dos componentes tem sido intensa. Em diversos momentos, o canto coletivo atinge seu ápice, ecoando com força e sentimento nas arquibancadas. “A letra é cantada com alma e ancestralidade”, resume o ator Ferreira Nunes, de 33 anos, destacando a conexão emocional dos integrantes com o samba e com a história que será levada para a avenida.
Ferreira Nunes Fotos: Vanessa Vicente
“Eu acredito muito que esse samba tenha algo ancestral, que toca na gente, que nós, enquanto pessoas pretas, nos conectamos. É a primeira vez que estou desfilando na Sapucaí, é um sonho grande da minha vida inteira”, declarou.
O componente Alex de Oliveira falou com emoção sobre a importância do samba-enredo e da homenagem a Heitor dos Prazeres, destacando o significado do enredo para os sambistas e para os torcedores da Vila Isabel. Desfilando pela agremiação há mais de dez anos, ele ressaltou a identificação da comunidade com a história que será levada para a avenida.
Alex Oliveira
“Heitor dos Prazeres está mexendo com a alma do sambista, mexendo com a alma do povo da Vila, mexendo com a alma da comunidade do Macaco. Então está sendo muito importante para a gente representar esse Ogã de uma forma forte, de uma forma verdadeira, entendeu? Com a alma de verdade.”
O enredo tem contagiado o público de diferentes maneiras. O samba desperta vivências, sentimento de pertencimento e memórias afetivas. É o caso do casal Fernando e Sabrina, moradores de Saquarema, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, que se deslocam semanalmente para acompanhar os ensaios da escola.
Fernando Carvalhal e Sabrina Moreira
Emocionados, eles contam que a homenagem a Heitor dos Prazeres toca de forma ainda mais profunda, já que o nome do artista é o mesmo do filho que perderam há oito anos. Para o casal, a experiência reafirma que o carnaval também é espaço de saudade e acolhimento, capaz de amenizar dores e transformar sentimentos em celebração.
“Na minha opinião, é maravilhoso prestigiar um multiartista como Heitor dos Prazeres, um ícone da cultura carioca. Então, fazer parte disso que a Vila está apresentando, para mim, é até um prazer fazer parte do desfile, celebrando o Heitor dos Prazeres”, relatou Fernando Carvalhal.
O futebol e o carnaval são duas das maiores paixões nacionais do Brasil, capazes de mobilizar multidões, construir identidades e contar histórias que atravessam gerações. Mais do que entretenimento, ambos são manifestações culturais e sociais profundas, especialmente nas grandes cidades, onde clubes, torcidas e comunidades encontram nessas celebrações um espaço de pertencimento e expressão coletiva.
No Brasil, futebol e carnaval caminham lado a lado como expressões máximas da cultura popular. Ambos nascem da vivência coletiva, da ocupação do espaço público e da necessidade de afirmar identidade, orgulho e pertencimento.
Não é por acaso que muitas escolas de samba surgiram a partir de grupos de torcedores organizados, levando para a avenida a mesma paixão que já ecoava nas arquibancadas.
Nos carnavais de São Paulo e do Rio de Janeiro, essa relação se traduz em enredos, cores, símbolos e narrativas que misturam glórias esportivas, histórias de superação e a memória afetiva de comunidades inteiras ligadas ao futebol.
Como histórias de clubes influenciam os enredos
As histórias dos clubes de futebol exercem forte influência sobre os enredos das escolas de samba, especialmente quando essas agremiações nascem ou se desenvolvem a partir de torcidas organizadas.
Títulos inesquecíveis, campanhas heroicas, ídolos eternizados e momentos de superação costumam ser transformados em narrativas carnavalescas que dialogam diretamente com a memória afetiva dos torcedores.
Na avenida, essas histórias ganham forma por meio de alegorias, fantasias e sambas-enredo que exaltam a luta, a paixão e a identidade coletiva associadas ao clube.
Escolas de samba de São Paulo ligadas a clubes de futebol
São Paulo é famoso por contar com diversos clubes de futebol e, com isso, algumas das torcidas organizadas das equipes também têm ligação com escolas de samba da cidade.
Gaviões da Fiel e a tradição corintiana
A Gaviões da Fiel é talvez o exemplo mais emblemático dessa fusão entre futebol e samba. Fundada em 1969 como torcida organizada do Sport Club Corinthians Paulista, a escola nasceu do desejo de levar a identidade corintiana para além dos estádios. Com o passar dos anos, consolidou-se como uma das grandes forças do Carnaval paulistano, sem jamais abandonar suas raízes alvinegras.
Em seus desfiles, a escola frequentemente valoriza temas ligados à luta do povo, à resistência e à emoção coletiva, valores que dialogam diretamente com a história do Corinthians e de sua torcida.
Mancha Verde, Camisa 12 e Dragões da Real
Outras escolas paulistanas também carregam essa herança futebolística. A Mancha Verde, ligada ao Palmeiras, transformou a paixão alviverde em uma identidade carnavalesca própria, unindo performance artística e orgulho esportivo.
A Camisa 12, outra associada ao Corinthians, e a Dragões da Real, ligada ao São Paulo, seguem o mesmo caminho. Todas nasceram nas arquibancadas e encontraram no carnaval um novo palco para expressar o amor pelo clube.
Essas escolas mostram como o samba se tornou uma extensão simbólica da torcida, ampliando sua presença cultural na cidade.
Referências ao futebol no Carnaval carioca
Diversos desfiles cariocas já abordaram o futebol como símbolo de identidade, alegria e ascensão social. Craques que saíram das periferias, partidas históricas e a própria Seleção Brasileira tornam-se narrativas carnavalescas que unem memória esportiva e espetáculo artístico, emocionando públicos muito além dos torcedores.
Rio de Janeiro e suas escolas icônicas
No Rio de Janeiro, embora a ligação institucional entre escolas e clubes seja menos direta, o futebol aparece com força nos enredos e homenagens. Times, jogadores históricos e momentos marcantes do esporte brasileiro já foram celebrados por escolas tradicionais da Sapucaí, reforçando a centralidade do futebol no imaginário nacional. A cidade, berço tanto do samba quanto de grandes clubes, oferece um terreno fértil para essa troca cultural contínua.
O papel social e identitário das escolas de samba
Mais do que entretenimento, as escolas de samba exercem um papel social profundo. Assim como os clubes de futebol, elas funcionam como espaços de acolhimento, organização comunitária e construção de identidade coletiva. Para muitos integrantes, vestir a camisa da escola ou desfilar na avenida tem o mesmo peso simbólico de apoiar seu time do coração. Essa conexão fortalece laços sociais e cria um sentimento de pertencimento que atravessa gerações.
O King reafirmou seu papel de pioneirismo no carnaval carioca ao ser o único camarote a funcionar durante os ensaios técnicos da Série Ouro na Sapucaí. A diretora do espaço, Lilian Martins, explicou que a iniciativa não surgiu recentemente, mas faz parte da essência do camarote desde sua criação, que sempre teve o objetivo de valorizar todas as escolas e públicos do carnaval.
“Nós abrimos nos dias de desfile da Série Ouro todos os anos. Mas como era sempre um dia de Série Ouro e o dia seguinte Especial, não três dias seguidos, isso acabava passando despercebido. Eu já fui presidente de uma escola da Série Ouro e sou apaixonada pelo carnaval, seja Série Ouro, seja Especial. Eu não faço diferença entre um e outro”.
Segundo ela, a decisão de manter o camarote aberto também durante os ensaios técnicos de ambos os grupos atende a uma demanda do público.
“As pessoas pedem para vir, e elas necessitam de um bom lugar. Tem gente que quer assistir à Série Ouro e não quer ir para a arquibancada, pois quer um pouquinho mais de conforto. Eu acho justo. A arquibancada ficou muito vazia porque choveu muito. Ninguém quer sair de casa com chuva para sentar na arquibancada. Se você já está ali e choveu, tudo bem. Mas sair de casa já com chuva não é legal. Eu acho que todos os camarotes deveriam abrir para tudo. O carnaval é para todos”, afirmou.
Sustentabilidade e acessibilidade como compromissos principais
Outra prioridade do King é a sustentabilidade. Por exemplo, esse ano, o sabão utilizado no camarote durante todos os dias de funcionamento é fruto do óleo de cozinha utilizado no próprio espaço, que são encaminhados à EcoFábrica Omìayê, projeto criado na comunidade da Mangueira em parceria com a UFF, e transformados em sabão e detergente ecológicos que ajudam no tratamento do esgoto.
Lilian fez questão de lembrar que essa vem sendo uma preocupação do camarote antes mesmo de se tornar uma exigência institucional do carnaval.
“A parte da nossa sustentabilidade começou em 2024. A Liesa começou a exigir em 2025, e eu achei isso muito bacana, porque hoje está sendo feito em todo o sambódromo. Ficou muito legal”.
A diretora também ressaltou a importância da parceria com Carol Basílio, coordenadora de acessibilidade e inclusão do King, e através de um relato pessoal contou como a pauta é significativa para ela.
“Essa é uma coisa que todo mundo deveria ter obrigação de prestar atenção, e muitas vezes não presta. Há mais de dez anos eu fiquei cadeirante por três meses, por causa de um problema de coluna. Eu vivi esse sofrimento e essa dificuldade. Quando eu conheci a Carol, falei: eu queria muito conseguir receber todos. Porque o carnaval foi feito para todos. O ideal é que venham todos. E o projeto dela é maravilhoso”.
Ela ainda falou sobre a emoção que foi ver o projeto de inclusão sendo colocado em prática.
“No primeiro ano, eu até chorei. A gente fica encantada. Porque a coisa mais linda é você ver todo tipo de pessoa entrando na Sapucaí para assistir”.
Mulher no comando e atenção aos detalhes
Em um universo ainda majoritariamente dominado por homens, a líder falou sobre a representatividade de ser uma das poucas mulheres à frente de um camarote na Sapucaí.
“Eu posso falar que todos os camarotes deveriam contratar mulheres para ficar à frente. Mulher é mais detalhista, mais atenciosa, presta mais atenção em tudo. Às vezes a gente é um pouco chata, porque é coisa de mulher mesmo, mas eu contrataria mulher”, brincou ela ao defender o ponto da maior inclusão feminina nos campos de liderança profissional.
Estrutura consolidada após uma década
Sobre as novidades para este ano, Lilian explicou que o King chegou a um estágio de consolidação que dispensa grandes mudanças, e diz que atualmente o maior objetivo do espaço é manter o alto padrão de qualidade alcançado.
“A gente é muito consolidado em estrutura. São dez anos trabalhando para criar isso aqui. As pessoas sempre me perguntam o que tem de novidade, e eu falo: só se eu vier fantasiada. E como tudo vem funcionando, mudar para quê? Não tem o que mudar depois que você acerta. Não tem espaço para crescer. A não ser uma decoração, que nesse quesito, sempre inovamos, pois estamos atendos às tendências”.
E dessa forma, com foco no espetáculo da pista, na inclusão e no conforto do público, o camarote King segue reafirmando sua identidade como um espaço democrático, feito para o sambista de verdade, que crte apreciar o carnaval raíz e não abre mão de uma experiência única.
Nos dias que antecedem o Carnaval, no esquenta às vésperas da folia, o Sem Censura apresenta a terceira e última semana de edições sobre o assunto na TV Brasil a partir desta segunda (9), ao vivo, às 16h. Cissa Guimarães entrevista na roda de conversa da emissora pública integrantes das escolas de samba Salgueiro, Paraíso do Tuiuti, Imperatriz Leopoldinense e Beija-Flor.
Além de atrações da festa momesca, o programa vespertino tem a presença de convidados especiais no estúdio como o babalawò Ivanir dos Santos e os jornalistas Bruno Chateaubriand e Fábio Fabato. As pautas abordam diversas questões relacionadas às manifestações populares.
Para discutir aspectos relevantes da cultura nacional, o Sem Censura conta com uma série de produções temáticas com personalidades das 12 escolas de samba que desfilam no Grupo Especial do Rio de Janeiro. Os integrantes das agremiações que brilham na Marquês de Sapucaí discutem os enredos, revelam bastidores e antecipam as novidades que as comunidades pretendem mostrar na Passarela do Samba.
Além de entrevistas na bancada, o programa traz para o palco intérpretes, rainhas de bateria, passistas, casais de mestre-sala e porta-bandeira, além de ritmistas da Mangueira, Portela, Salgueiro, Beija-Flor, Grande Rio, Imperatriz Leopoldinense, Mocidade Independente de Padre Miguel, Vila Isabel, Viradouro, Paraíso do Tuiuti, Unidos da Tijuca e Acadêmicos de Niterói. Essas performances ganham janela ao vivo, no Sem Censura, de segunda a quinta, às 16h. Já às sextas, a TV Brasil destaca os melhores momentos da semana.
O bate-papo com integrantes das agremiações aprofunda a análise do contexto histórico e cultural dos enredos. O jornalista e criador de conteúdo Muka participa da atração como debatedor. A sequência de entrevistas busca valorizar a força, a criatividade e a diversidade de um dos maiores espetáculos da cultura brasileira.
Salgueiro homenageia Rosa Magalhães na segunda (9/2)
Em tributo à saudosa carnavalesca Rosa Magalhães, que morreu em 2024, o Salgueiro celebra a trajetória da artista plástica que fez história na Sapucaí e realizou desfiles históricos. As curiosidades sobre o cortejo lúdico que promete trazer personagens fantásticos estão no Sem Censura desta segunda (9), ao vivo, às 16h, na TV Brasil.
O programa apresentado por Cissa Guimarães recebe integrantes da escola de samba Vermelha e Branca para falar sobre a celebração. Participam da roda de conversa o carnavalesco Jorge Silveira e a cantora Rebecca, musa da agremiação. A produção do canal público ainda traz para a conversa o jornalista Faáio Fabato, especializado na cobertura da folia.
Combinação de cultura e fé com a Paraíso do Tuiuti na terça (10/2)
As tradições religiosas afro-cubanas e a cultura do continente africano são o mote para o enredo da escola de samba Paraíso do Tuiuti, tema do programa Sem Censura desta terça (10), ao vivo, às 16h, na TV Brasil.
A apresentadora Cissa Guimarães entrevista nomes que fazem parte da agremiação, como o carnavalesco Jack Vasconcelos e o compositor Claudio Russo. Completa a bancada o babalawò Ivanir dos Santos para falar sobre intolerância religiosa.
Ney Matogrosso é enredo da Imperatriz Leopoldinense na quarta (11/2)
O carnavalesco Leandro Vieira, o jornalista Bruno Chateaubriand e a maquiadora Letícia Gomes são os convidados de Cissa Guimarães para um papo na bancada do Sem Censura desta quarta (11), ao vivo, às 16h, na TV Brasil.
Os convidados falam sobre os bastidores do enredo da escola de samba Imperatriz Leopoldinense. A agremiação vai celebrar o cantor Ney Matogrosso no desfile deste ano com o enredo “Camaleônico” que traça um panorama sobre a vida e a obra do veterano.
Beija-Flor fecha a série temática
A escola de samba Beija-Flor de Nilópolis é o destaque da última edição inédita da série especial de folia do Sem Censura sobre o Carnaval no programa desta quinta (12), ao vivo, às 16h, na TV Brasil.
Para conversar sobre o trabalho da agremiação para 2026, com o enredo a respeito do candomblé, Cissa Guimarães recebe o carnavalesco João Victor, que antecipa os preparativos para o desfile, e a baluarte Pinah Ayoub.
A produção do canal público também conta com as vozes de Jéssica e Nino que são os novos intérpretes da Beija-Flor. Eles sucedem o bamba Neguinho da Beija-Flor, que se despediu da liderança na Avenida após 50 anos como símbolo da escola.
Às margens da Rio-Santos, o Carnaval 2026 da Porto da Pedra ganha vida. Levando o enredo “Das Mais Antigas da Vida, o Doce e Amargo Beijo da Noite” para a avenida, a escola concentra a produção de fantasias e adereços no ateliê em São Gonçalo. Em conversa com o CARNAVALESCO, Mauro Quintaes conta que o espaço voltado às fantasias da escola garante maior controle de qualidade e de tempo.
“Porque, quando você centraliza a construção, você garante a qualidade. Quando você fragmenta o trabalho — ‘fulano vai fazer as baianas, beltrano vai fazer a bateria’ — você não consegue estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Aqui você concentra todo mundo. O Marcos, responsável central, me liga a cada tipo de mudança. Sou um carnavalesco muito democrático, pois eu prezo o tempo. Você nunca vai ouvir da minha boca: ‘vamos esperar mais duas semanas que esse galão vai chegar’. ‘Qual o galão que tem aí?’ ‘Tem esse aqui, vamos botar?’ ‘Pode botar’, mantendo uma coerência artística. Eu prezo o tempo porque sei o que é um carnaval atrasado. Sei o que é você ter que fazer mutirão para terminar. E é muito mais confortável você ter um carnaval todo pronto, mesmo que não tenha aquele galão que você achou ideal para aquela roupa. Tanto aqui quanto no barracão, eu prezo o tempo”, disse o carnavalesco.
O chefe de ateliê, Marcos Santos, conta que a produção começou cedo e, em janeiro, a pouco mais de um mês do desfile, a maior parte das cerca de 4 mil fantasias e adereços que vestirão os componentes já estava pronta.
“A gente iniciou o protótipo da escola em junho. E, graças a Deus, a escola está bem encaminhada. Já estamos na fase de finalização de fantasias, levantando alas. As alas mais importantes, que são os segmentos, já estão praticamente prontas. E a gente está correndo com isso.”
Francine Montibelo, responsável pelo ateliê, ressalta o ótimo rendimento da produção, destacando a antecedência da finalização do trabalho.
“A produção começou em novembro e a gente está com 80% do carnaval, das roupas aqui, já prontas. Estamos em uma fase final, só fazendo adereços, dando os retoques finais, colocando penas, para poder começar a entregar as fantasias. Já temos fantasias de oito alas para entregar após o ensaio técnico”, afirmou.
Além disso, o ateliê localizado em São Gonçalo, à parte do barracão, também é importante para a economia da cidade. Francine destaca a relevância do trabalho das costureiras e aderecistas para a recolocação no mercado.
“São Gonçalo é uma cidade bem carente. A gente sabe que um trabalho de ateliê não é um trabalho fácil. Para estar aqui precisa estar precisando muito, porque aqui é quente, é pesado, mexe com fantasia, tecido… E a gente vê como é importante o trabalho aqui. A gente emprega costureiras, aderecistas, pessoas que às vezes estão sem nenhuma renda e, no carnaval, conseguem melhorar um pouco de vida. Estamos com seis costureiras e 20 aderecistas, com programação para, agora na reta final, aumentar. A gente gera uma renda boa para a cidade”, disse.
O carnavalesco Mauro Quintaes ressalta que o ateliê, além de benéfico para a produção da escola e para a economia da comunidade, também funciona como espaço de aprendizado.
“O objetivo desse galpão, que está sendo montado, também é um pouco de ensinamento. Muita gente entrou aqui sem nunca saber adereçar e já está adereçando, já está fazendo. De alguma maneira, é uma escola também”, afirmou.
Marcos, que é carioca e já passou por diversas escolas do Grupo Especial, compartilha a importância do clima familiar e acolhedor que a escola oferece aos trabalhadores do barracão.
“Eu moro no Rio e a Porto da Pedra é uma escola que eu admiro muito. É uma escola que nos abraça, e a gente acaba abraçando a escola também, vestindo a camisa de quem abraça a gente. A escola é muito família, eles são muito unidos, a comunidade participa muito. A gente faz mutirão, a comunidade vem ajudar. Na quadra, a comunidade é muito presente também. É realmente uma escola família”, afirmou.
Em seu segundo ano de trabalho no barracão do Tigre de São Gonçalo, Marcos compartilha a emoção de ver o trabalho de um ano inteiro brilhando na avenida.
“Eu ainda não sei te descrever, mas é muito emocionante. Você saber da luta que é, da correria que é, das noites sem dormir, a cabeça pegando fogo: faz isso, tem que resolver aquilo… E aí, quando chega o dia do desfile, você olha tudo aquilo passando, é uma história que passa na tua cabeça. Você lembra que aquela peça foi colada naquele dia, que aquela roupa foi costurada naquele dia… e tudo junto, sincronizado, fica uma coisa linda. É um sonho realizado, de verdade”, compartilhou.
Por Luiz Gustavo, Juliana Henrik, Juliane Barbosa, Lucas Santos e Maria Estela Costa
A Imperatriz Leopoldinense realizou seu segundo ensaio técnico da temporada para o Carnaval 2026 no último domingo, novamente debaixo de uma insistente e teimosa chuva que não parou de cair durante a apresentação da escola. O que só serviu para esquentar ainda mais a energia dos componentes, que fizeram um grande desfile, com ótima comunicação com o público presente na Marquês de Sapucaí, que se jogou na festa e acompanhou uma verde e branco extremamente vibrante, solta e livre para ser feliz na pista.
A agremiação aliou essa alegria a uma ótima técnica de evolução, alas compactas que aproveitam muito bem todo o espaço do sambódromo, um casal espetacular, um samba que pegou na veia da comunidade e rende de forma excelente na avenida, além de uma comissão de frente que sintetiza o enredo com belo nível de execução. Todo esse conjunto formou um dos grandes ensaios da temporada e alcançou uma potente sinergia com a arquibancada, que cantou e reconheceu o trabalho de uma escola que se redescobriu e está apaixonada por si mesma. A Imperatriz colocará toda essa força à prova no domingo de carnaval, sendo a segunda escola a desfilar na noite, exibindo o enredo “Camaleônico”, homenagem a Ney Matogrosso desenvolvida pelo carnavalesco Leandro Vieira em seu quarto ano na agremiação.
COMISSÃO DE FRENTE
A comissão idealizada por Patrick Carvalho primou pela expressividade em sua performance, com ótima teatralização e uma leitura direta do enredo proposto. A transformação da persona Ney Matogrosso, mostrando-se como o camaleão retratado pela Imperatriz, surge em uma coreografia repleta de expressão corporal e boa marcação dos tempos. O final, com o homenageado voltando à sua figura humana, abraçado pela bandeira da escola, é o ápice de uma apresentação visceral que foi bastante aplaudida pelo público presente. Um trabalho muito bem feito, que deixa um gosto de curiosidade para o que será desenvolvido na avenida no desfile oficial por Patrick Carvalho, em seu segundo ano na agremiação.
Eduardo Hollanda/Divulgação Rio Carnaval
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Phelipe Lemos e Rafaela Theodoro realizaram uma apresentação típica de ambos, unindo técnica, um bailado bastante ágil e muita garra. Mesmo com a pista escorregadia pela chuva e a nova pintura do chão da Sapucaí, o casal entregou um desempenho de ótimo nível, por meio do enorme entrosamento que os dois possuem, além de uma excelente coreografia e muita precisão nos movimentos. Phelipe é um motor, de uma energia absurda, com um bailado que magnetiza quem assiste e eleva a temperatura do ensaio até o final de sua série. Rafaela é elegância e graciosidade, unidas a boa explosão no bailado e em seus giros. Juntos, formam um casal de excelência no carnaval carioca e que vive um grande momento.
EVOLUÇÃO
A Imperatriz seguiu sua toada de ensaiar brincando pela pista, com muita leveza, componentes soltos e performando interpretação com um samba que permite e pede essa linha de desfile. Muitos integrantes das alas não marcavam posição fixa por muito tempo, movimentando-se por todos os lados da pista e usando ao máximo a amplitude do sambódromo. Quando o samba chegava aos dois refrãos em sequência, a evolução explodia e a escola quicava na avenida. Em termos de andamento, a evolução foi firme e tranquila, sem correria ou espaçamentos. A escola conseguiu manter boa compactação, com as alas próximas, algumas abrindo mais espaço entre os componentes para preencher maior volume na pista, como as alas coreografadas. A verde e branco terminou seu ensaio com segurança, em 73 minutos, com bastante empolgação ao final.
HARMONIA E SAMBA
A cada verso, uma demonstração de alegria, vigor e alto astral. O canto do leopoldinense é feliz, energizado, flui de forma natural e contagia. Da primeira à última ala, a escola entoou o samba com vontade de extravasar e brincar sob uma chuva que não parava de cair. Esse astral convidou o público a cantar junto, esquentando ainda mais a apresentação e criando um clima muito gostoso. As alas coreografadas, que em certos momentos costumam ter um canto mais irregular, não deixaram a toada cair e entraram no ritmo forte que a agremiação imprimiu. A ala do último setor, enfeitada com leques e adereços com as cores do movimento LGBTQIAPN+, é um destaque à parte, com seus componentes se jogando na festa sem pensar em mais nada, apresentando um canto muito forte e interpretativo.
Toda essa energia gerada por um samba que, se não foi comprado de cara pelo público e sambistas em geral, recebeu a adesão em massa dos gresilenses, criando uma identificação imediata por parte da comunidade. O trabalho da direção musical, de Pitty de Menezes, junto com seus apoios e o mestre Lolo, é exemplar. Algumas variações melódicas que soavam truncadas hoje passam de forma cada vez mais agradável aos ouvidos. Essa linha melódica funciona, não deixa o samba monótono e envolve o componente. O samba não apresenta quedas, rendendo do início ao fim do ensaio, bastante potencializado pelo excelente desempenho de Pitty e Lolo, que não deixam o samba cair, com diversas bossas por parte do mestre de bateria. A obra foi bem recebida e cantada pelo público, que encarou a chuva e se divertiu com a Imperatriz.
OUTROS DESTAQUES
Carmen Mondego vem logo no primeiro setor da escola, após o casal, e abre a passagem das alas com beleza e muito samba no pé. A bem-vestida ala de baianas da Imperatriz cantou bem o samba e realçou a força e a tradição da comunidade de Ramos. Iza reinou à frente da bateria, brilhando com uma bonita fantasia e seu carisma habitual, sendo bastante ovacionada pelo público.
Por Lucas Santos, Luiz Gustavo, Maria Estela Costa, Juliana Henrik e Juliane Barbosa
Máximo respeito! Deixou chegar, agora atura. Esse deve ser o sentimento das adversárias da Deusa da Passarela. Mais livre, sem o peso dos anos sem título, a Beija-Flor parece estar retomando aquela aura do início deste século, em que sempre era a escola a ser batida — e, na primeira década dos anos 2000, quase nunca era. A força de mais um ensaio muito forte, no estilo rolo compressor que ela ensinou para o mundo do carnaval e que ninguém fez totalmente igual, a Azul e Branca de Nilópolis deixou mais um forte recado na Sapucaí, a pouco mais de uma semana do desfile oficial.
Abençoada por Oxum, a escola foi a única que não pisou na Sapucaí com chuva constante, mas mostrou a garra dos componentes que certamente tomaram muita chuva na concentração. Na Sapucaí, o que se viu foi uma escola incorporada, entregando uma evolução altamente trabalhada, canto potente e musicalidade latente, além do brilho do casal Claudinho e Selminha e do trabalho bem estruturado da comissão de frente de Jorge e Saulo. Ensaio muito forte e o recado de que a última escola que conseguiu um bicampeonato é a que quer quebrar a maldição que já dura 18 anos.
Com o enredo “Bembé”, defendendo o título do ano passado, a Deusa da Passarela será a segunda escola a pisar na Avenida na segunda-feira de carnaval.
“Este ano, com o título já conquistado, a briga pelo bicampeonato se torna mais livre. Não é que a pressão desapareça, mas a Beija-Flor pode se colocar como sempre se colocou, com as características que sempre teve. A gente precisa avaliar o quanto é difícil ganhar duas vezes seguidas. A última bicampeã foi em 2007 e 2008, e isso já fazem 18 anos. Esse intervalo mostra o quanto é complexo para uma escola que acabou de vencer conseguir vencer novamente. Por isso, o trabalho precisa ser de formiguinha, técnico, de raiz, vindo de baixo, com os componentes. Ganhar um ano não facilita o seguinte; se facilitasse, não teríamos ficado tanto tempo sem uma bicampeã. Estou muito feliz com o desempenho da escola, comunidade, bateria, cantores, casal de mestre-sala e porta-bandeira, da comissão de frente. Todo mundo entendeu a dinâmica e a ideologia que montamos para o desfile. Esse não é um trabalho individual. Não é só meu, nem apenas do presidente ou da comissão de harmonia. Envolve também pessoas da administração que entendem profundamente de carnaval. Esse trabalho de união, de escutar o outro e de querer crescer o tempo todo está sendo um diferencial para a Beija-Flor este ano. Chegamos agora à reta final no momento certo. Tenho muito receio quando uma escola atinge o ápice antes da hora, porque depois pode começar a cair. Fomos introduzindo técnicas ao longo dos ensaios justamente para evitar isso. Hoje, acredito que a Beija-Flor chegou no ponto ideal para o desfile. Sabemos que temos 11 coirmãs com a mesma vontade de vencer, todas fortes e competitivas, e isso precisa ser respeitado. Mas a Beija-Flor mostrou, ao longo de toda a temporada, que está fortalecida e ainda mais forte do que no ano passado. Ganhar o carnaval é consequência de um trabalho bem feito, de não deixar cair em nenhum momento o andamento da escola, especialmente em evolução e harmonia. Por isso, estou muito satisfeito”, explicou Marquinho Marino, diretor de carnaval.
COMISSÃO DE FRENTE
Sob a direção de Jorge Teixeira e Saulo Finelon, a comissão trouxe a ancestralidade presente no enredo. O tripé de flores secas, com a pivô da coreografia, cujo corpo saía dessas raízes, interagia com os demais personagens, sendo reverenciada por eles ainda no início da apresentação. Vestidos em tons terrosos, os integrantes que evocavam essa parte ancestral realizavam muitas danças ao redor dessa Oxum presa ao tronco no tripé, evocando o desapego e a renovação.
Os integrantes vestidos em tons terrosos realizavam rituais, aproveitando algumas “mangas” da roupa, que produziam um bonito efeito tanto quando dançavam em solo quanto mais unidos. A apresentação trazia todo o traço de ancestralidade que o enredo pedia, muito voltada para a dança, de forma bastante sincronizada, com elementos bem típicos do culto do candomblé. Se olharmos pelo prisma do ano anterior e do que foi levado para os ensaios por Saulo e Jorge, deve haver, no dia oficial, algo do que foi visto neste treino.
“O nosso samba-enredo é um absurdo de bom. Isso move muita emoção na gente; os ensaios foram muito emocionantes, e esse último ensaio veio só para nos deixar mais seguros para o dia principal. Não fizemos alteração na coreografia referente à cabine; a coreografia sempre fez 360 graus para atingir todos os lados, e isso é o mais importante hoje. Não é algo difícil para nós, diretores e coreógrafos; a gente está acostumado, ou porque você faz um teatro de arena ou porque você faz um povo italiano. Como foi dito anteriormente, isso era uma coisa que já deveria ter acontecido antes. Eu posso contar um leve segredo: a nossa comissão está trazendo muita garra e será toda no chão; será de muita emoção”, garantiu Saulo Finelon.
MESTRE-SALA E PORTA-BANDEIRA
Há mais de 30 anos dançando juntos, Claudinho e Selminha Sorriso sempre surpreendem e mostram que a tradição também é resultado do trabalho. Selminha de Oxum na Sapucaí foi um acontecimento e parecia incorporada, com seus giros, rodopios e movimentos extremamente inseridos na homenagem. Claudinho flutuava enquanto cortejava a porta-bandeira, sempre com uma postura ímpar, movimentos precisos e intensidade bem controlada dentro das características do casal, mantendo qualidade e respeitando a ancestralidade que a fantasia da dupla pedia.
O samba era bem marcado pelos movimentos de ambos. Destaque para o uso do espelho de Oxum por parte de Selminha, que, além de tudo o que representa na espiritualidade do personagem, produziu um ótimo efeito na dança e na coreografia. Destaque também para a saia dourada da porta-bandeira, de muito bom gosto e leveza, produzindo movimentos e acentuando visualmente os giros de Selminha. Tudo muito bem pensado em uma coreografia que arrancou aplausos e gerou frisson ao final.
“No primeiro ensaio, passamos com o chão seco; neste segundo ensaio, pegamos a pista molhada. Então, tivemos a oportunidade de treinar as duas situações com a mesma coreografia. Na semana passada, testamos a coreografia; hoje, já tínhamos uma base melhor, porém tinha a chuva. Mas a energia de hoje, aquela energia de estar chegando a hora, foi incrível. Os orixás de Bembé e os orixás da Sapucaí estão olhando por nós. Esse samba maravilhoso, essa voz do candomblé para o mundo, é mais um enredo necessário que a Beija-Flor abraçou. Precisamos combater esse racismo religioso. Eu me emociono cada vez que piso nesse palco sagrado, e é o meu trigésimo ano na Beija-Flor; é muita coisa junto. Estamos felizes e vamos nesse ritmo para o carnaval daqui a uma semana. Axé”, disse a porta-bandeira.
“Somos um casal. Duas cabeças que pensam e agem de forma diferente. Meu papel é cuidar, proteger não só ela como a bandeira. Então, deixo ela com a emoção mais aflorada e eu seguro um pouco mais para a gente dosar emoção e técnica. Eu sou o protetor e o guardião dela, dela e da nossa bandeira”, completou o mestre-sala.
HARMONIA E SAMBA
Com a responsabilidade de substituir ninguém menos que Neguinho da Beija-Flor, a dupla Nino do Milênio e Jéssica Martin mais uma vez mostrou força e entrosamento. Jéssica é uma das melhores notícias deste carnaval. Como voz principal pela primeira vez, tem se destacado e se imposto em um cargo que, infelizmente, no carnaval ainda é muito masculino, apesar da enormidade de talentos femininos. Com seu desempenho, Jéssica pode abrir novas portas. Vale também uma importante consideração sobre Nino: experiente no cargo e no Grupo Especial, tem sido generoso e trabalhado para que a dupla entregue muito para a Beija-Flor, sem vaidade, mas com excelente musicalidade, o que vem se refletindo na resposta do componente.
A Beija-Flor sempre foi um rolo compressor em diversos aspectos, especialmente na harmonia e no canto da comunidade, e isso não se perdeu nem nos momentos de menor brilho nos últimos anos, tendo sido fundamental no título do ano passado — e pode ser novamente. O ensaio mostrou isso. O samba, feito a partir de uma junção, é certamente uma das melhores obras deste carnaval, com tudo o que o enredo pede: negritude, religiosidade, dendê, molho e ritmo. Com dois refrões fortes, a música ainda conta com um bis muito cantado antes do refrão principal, em “Atabaque ecoou, liberdade que retumba, isso aqui vai virar macumba”. Na cabeça, “Ê-ê João de Obá, griô sagrado…” também se destaca e traz a possibilidade de algumas convenções para a bateria. Já na parte de baixo, em “o povo gira no xirê, a celebrar”, há um ótimo trabalho das cordas, com um arranjo bem praiano. Nada a se colocar sobre a harmonia e a obra.
“Foi maravilhoso e incrível demais o nosso último ensaio técnico. Estou muito emocionada mais uma vez; a Beija-Flor entregou tudo, tudo e mais um pouco. A nossa comunidade é especial, maravilhosa e faz a entrega com ou sem chuva; a gente se joga na avenida. Agora é aguentar o coração para viver aquela emoção do desfile, ver a escola entrando com tudo, os carros, os componentes e a Sapucaí cheia, lotada, gritando. Eu estou superansiosa e super na expectativa de que tudo dê certo, se Deus quiser”, comentou Jéssica.
“O ensaio foi maravilhoso, muito bom, lindo demais, de verdade. Muito feliz por estar vivendo esse momento. O primeiro foi maravilhoso e esse também, mas eu tive um probleminha com o meu fone. Depois que saí do primeiro recuo da bateria, eu praticamente cantei sem me ouvir. Deu algum defeito e eu não sei o que aconteceu, mas isso foi bom de acontecer, para, se caso acontecer no desfile — já que isso é normal —, estarmos preparados. São problemas técnicos, do mesmo jeito que às vezes acontecem em algumas escolas com carro alegórico ou fantasia de mestre-sala e porta-bandeira, quando solta alguma coisa. Tudo isso está propício a acontecer com todos. Tive que ir levando, mas tem algumas partes em que preciso me ouvir, principalmente de virada, onde eu uso respiração, uso ar e a massa. Tive que pedir para a Jéssica ir virando a cabeça, porque a gente divide: quando ela vira uma passada, eu viro outra. Deixei ela virar depois do recuo em diante, porque eu estava com esse problema e não queria ficar chateado de me ouvir na live cometendo algum erro. O ensaio foi maravilhoso, mas, por conta disso, eu estou um pouco triste nessa parte. Eu queria render mais, porque acabei não rendendo muito pelo fato de não estar me ouvindo. E é muito ruim o cantor cantar sem se ouvir. Mas, no geral, está tudo maravilhoso, graças a Deus. Vou te contar um segredo: eu estou usando um macete para controlar a minha ansiedade até o dia do desfile, mas eu já sei que vai ser lindo”, disse Nino.
EVOLUÇÃO
A Avenida se coloriu em um bonito tapete com a escola, que se vestiu muito bem para este último treino. Como é bom ver a Beija-Flor mostrando trabalho árduo nos ensaios de quinta-feira e no trabalho ala a ala. Ótima interação com o público, alas dançantes e coreografias pertinentes, como uma ala logo no início que nos remeteu a 2001, naquela icônica ala das pretas-velhas de Agotime. Outras, como a ala logo após o segundo carro, traziam lenços nas mãos e faziam trocas de posição, sempre dançando, mostrando alegria e sincronia, além da ala com bastões que vinha logo atrás.
Fotos: Eduardo Hollanda/Divulgação Rio Carnaval
Tudo muito bem ensaiado, lembrando os bons tempos com o saudoso Laíla, que sempre levava à Avenida um espetáculo com a galera de Nilópolis. Rolo compressor, evolução cadenciada, sem apresentar erros aparentes, como buracos ou alas atropelando seus espaços. Pelo contrário, tudo muito organizado e bem pensado. A escola ainda “tirou onda”: sem correr, chegou com bastante tempo no final para a Soberana ainda se apresentar nos últimos setores. A Deusa da Passarela retoma suas características com muita força.
OUTROS DESTAQUES
A rainha Lorena Raissa estava deslumbrante com a fantasia definida em suas redes como “põe erva para defumar”, em tons de prateado e branco, contrastando com o azul de algumas pedras preciosas. O samba no pé da “cria” de Nilópolis está sempre em dia, e neste ensaio não foi diferente. A bateria Soberana, dos mestres Rodney e Plínio, promoveu o “paradão”, já tão característico dos ensaios técnicos da escola, em que a bateria deixa por um bom tempo apenas a escola cantando, sempre um momento de muita vibração que levanta o público. O samba campeão de 2025 não poderia faltar no esquenta, com a escola mais uma vez invocando Laíla. Na introdução do samba, mais uma vez, surgiram músicas do cancioneiro baiano, como “Ê Baiana”, de Clara Nunes, e “Marinheiro Só”, de Caetano Veloso.
“Muito feliz com a execução da bateria. Tivemos um clima adverso com a chuva, mas viemos com a afinação segura, bateria consistente. O ritmista tem que saber tocar na chuva, ou ele acaba com o instrumento. Eu não perdi nenhum surdo nesse ensaio, sinal de que os ritmistas estão bem apurados. São Pedro castigou a gente, mas irei dormir leve, feliz, ao menos por um dia, porque amanhã já volto a trabalhar, mas satisfeito com meus ritmistas, porque confio na nota máxima”, afirmou mestre Rodney.