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Foto: Luiz Gustavo/CARNAVALESCO

A Unidos do Viradouro viveu mais uma noite de sua disputa de sambas-enredo para o Carnaval 2027 com a fase de quartas de final realizada no último sábado. Seis obras se apresentaram na quadra da vermelha e branca, com total destaque para as parcerias de Mocotó, Lucas Macedo e Claudio Mattos, que realizaram apresentações que ganharam a quadra e exibiram obras de alto gabarito. O samba da parceria de Diego Thekking também está na final. A seguir, o CARNAVALESCO analisa a passagem dos sambas concorrentes.

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Parceria de Diego Thekking: Pixulé defendeu o samba dos compositores Diego Thekking, Roberto Doria, Gustavo Tenório, Ionalda Belchior, Waguinho Melo, Adriano Faca, Anna do Amaral e Miltinho Junior. O refrão principal “onde quer que eu vá, pra sempre, sou força que não vai calar, o preceito da memória, o conselho do tambor, Viradouro é griô” é pesado em melodia e possui uma letra que passa o recado com força, mas funcionou de forma morna na quadra. O samba possui bons momentos melódicos, principalmente na primeira parte, sobretudo no trecho “mandinga renasci nas cordas do korá, no Mali eu aprendi cantar sob o luar, no império a voz do rei, me ergueu libertador, da mordaça do invasor”. Os versos “Na cabaça a herança, quando Ananse revelou, e hoje toda história que é contada, costura na carne com linha de dor” se destacam em letra, sobretudo o verso final, um dos mais inspirados da obra. O refrão central “Sou a voz que grita, o falar que teima, a palavra viva na folha que queima, o clamor das minas, som do resistir, há quem ouça afronta, eu ouço um Oriki” retrata com categoria a ancestralidade e sabedoria dos griôs, porém a melodia não acompanha no mesmo nível. A segunda parte cumpre o papel de retratar o enredo, porém carece de mais inspiração, tanto em letra quanto melodicamente. A falta de maior força nos dois refrãos contribuiu para uma passagem mais fria da obra desde o início da apresentação, apesar de suas qualidades. Nas últimas passadas, o samba exibiu dificuldades para obter maior sustentação, exceto na primeira parte, que teve um desempenho melhor. Mesmo com a categoria de Pixulé no comando, foi uma apresentação bem irregular.

Parceria de Lucas Macedo: Tinga e Charles Silva foram as vozes principais da obra de Lucas Macedo, Dudu Nobre, Rafael Gigante, Hélio Porto, Vinicius Ferreira, Orlando Ambrosio, Miguel Dibo, Jefferson Oliveira, Yannick Nobre e Cabeça do Ajax. O refrão principal “I ni baraji Djeliba Griô, i ni baraji Djeliba Griô, entre acordos e palavras, da história reerguida, Viradouro vira verso, cada verso vira vida” se mostrou muito potente em letra, apesar de os versos finais poderem soar repetitivos, mas o jogo de palavras funcionou bem e marcou mais o refrão, além de, melodicamente, levantar a apresentação com um desempenho explosivo. Aliás, a apresentação foi de muito vigor. O samba foi crescendo ao longo das passadas, realçando suas qualidades e uma melodia ousada em alguns momentos, como no refrão central “na encruza africana, a rima, que um velho soprou, o verbo em movimento, sabedoria no tom balafon e korá, eu caminhei no tempo”, onde um dos versos é cantado com ênfase nas sílabas, como se fossem palavras de ordem, uma manobra que poderia ter travado o samba, mas conseguiu êxito e deu mais valentia ao canto dos versos. A primeira parte descreve com correção o enredo, podendo se destacar os versos “Ê Laroyê, ô corre gira, quem cuida dessa esquina já baixou nesse congá, saluba Nanã me molde vida, Iroko nessa avenida é ida que faz voltar”. Na segunda parte, o samba ganha em força, já iniciando bem com o trecho “não há tormenta que possa impedir, nem branco que apague o porvir ôôôô”. A construção da escrita é mais contemplativa e retrata o enredo com qualidade, como no trecho “Obá Baobá floresceu, quando o pranto vem do canto, o encanto acende o breu, toda cicatriz foram pedras no caminho, liberdade, Itãs e Orikis fundamentam meu terreiro, ancestralidade”. A apresentação foi muito boa, calcada nos dois refrãos, com os demais trechos passando com qualidade também, apesar de a primeira parte ser um pouco mais burocrática.

Parceria de Mocotó: Juan Briggs e Leozinho Nunes comandaram o samba da parceria de Mocotó, PC Feital, Inácio Rios, Igor Federal, Deja, Romério Duarte, André Quintanilha, Chanel, Ronilson Fernandes e Márcio André Filho. Um samba de um griô da Viradouro, com total identificação com o tema, o que facilitou a naturalidade com que o enredo foi dissecado pela parceria. A obra já começa com um refrão de cabeça “Agô bate palma de macumba, pra saudar dono da rua, vira o corpo no terreiro, ventre que moldou o fundamento, e o véu rodeia o tempo, esse velho feiticeiro”. O refrão central “Eu fui griô a luz de um baobá, contando histórias de emocionar, em volta dele mais de mil crianças, a cantar lembranças ao som do Korá” tem um quê nostálgico, retratando a ideia transmitida sem firulas e com uma gostosa melodia. Na quadra, o trecho foi cantado com muita força, incluindo segmentos. A segunda parte da obra é uma ode ao orgulho da negritude e da ancestralidade, o orgulho de ser griô, traduzindo de forma precisa o sentimento que a sinopse propõe, como nos versos “dança de jongo embala meu ponto, tambor de Congo faz acender, outros enredos que um dia terão de nascer, samba escola viva identidade, arquivo da memória preta, grito à ancestralidade”. O trecho “lágrimas, caem pelo mar do esquecimento, ritual opressor” possui uma melodia dolente. O refrão principal “Ê Kaalê ô, Ê Kaalê ô, Ziri Ziri Namu, Kouyaté, ê Kaalê ô, é Kaalê ó, a Viradouro é sangue de griô” é um grande clamor e foi cantado como tal, com uma potência absurda. O samba funcionou maravilhosamente bem, com uma fluência impecável, que mexeu com vários segmentos da escola. Os dois refrãos foram um deleite. Uma obra deliciosa e uma apresentação de manual da parceria, muito bem comandada pelos intérpretes no palco.

Parceria de Claudio Mattos: Pitty de Menezes e Dodô Ananias foram as vozes principais da obra de Claudio Mattos, Renan Gêmeo, Anderson Lemos, Manolo, Bertolo, Silvio Mesquita, Wilson Mineiro, André Braga, Marcelo Adnet e Thiago Meiners. O refrão principal “Kawô, meu pai Kawô, reina Xangô, chão da justiça pra honrar toda memória, em cada pele de tambor, ensinamento, sou Viradouro, nasci para fazer história” possui uma narrativa forte e uma conexão potente com o componente, passando de forma avassaladora na quadra. A cabeça é formada por um refrão “Ibarabô, ê mojubará, baraê, ajuô lonan moxirê, Ina ina, Adakê mojubá” que é uma louvação iorubá, uma cantiga de candomblé. Apesar de não ser uma letra de assimilação tão simples, o trecho teve ótimo rendimento. A primeira parte segue trazendo a origem dos griôs e as lendas em torno deste universo, com destaque para os versos “mais de mil anos atrás, um ancião me contou, Ananse em teia de prata, mistérios revelou, no desejo de escrever a própria história, da palavra nasce o sábio contador”, que citam a figura divina metade homem, metade aranha, com uma bonita melodia. O refrão central “Quando o Korá ecoou, foi mandinga, Oriki, Bambará, malinquê, balafon se mistura ao tambor, Orin pra cada sangue e dinastia, pra espalhar o sentimento de um griô” tem a pegada de uma grande gira, sendo completamente envolvente, com excelente melodia. A transição pro verso seguinte, com o prolongamento do “ôôôô”, é perigosa, mas Pitty e seus apoios trabalharam bem a solução. A segunda parte é feliz em ressaltar as escolas de samba como local de propagação dessa sabedoria através das histórias contadas, onde lá estão o fundamento e os ensinamentos. “lembra quantos enredos já passaram na avenida, um relicário de lembranças esquecidas, que a minha arte é capaz de revelar pro mundo inteiro” resume com perfeição, com uma melodia bastante poética, estrutura que permeia todo este setor da obra. O samba empolgou torcedores e segmentos da escola, que cantaram com entusiasmo a belíssima composição, com uma melodia que prende a atenção e sai do lugar comum em vários momentos. Uma apresentação singular que mostrou toda a potência da obra.