A Bienal Internacional do Livro de 2023 abriu o espaço do Café Literário para o escritor e pesquisador Luis Antonio Simas, como mediador, transformar o evento em uma mesa de bar. Na sexta-feira, os convidados de Simas foram o professor e escritor Luiz Rufino, a cozinheira e sócia do bar Da Gema Luiza Souza e o carnavalesco da Imperatriz Leopoldinense Leandro Vieira. Durante uma hora de conversa, os quatro falaram sobre festa, comida, rua e carnaval tendo como ponto de partida o subúrbio carioca.

Foto: Matheus Vinícius/Site CARNAVALESCO

“Esta mesa é composta, primeiro, por gente que pratica a cidade do Rio de Janeiro em uma perspectiva que é muito curiosa. Eu nem reparei a princípio, mas somos quatro pessoas ligadas à cidade e que vivem, trabalham e constroem suas vidas na Zona Norte do Rio de Janeiro. É uma mesa que representa a Zona Norte.”, apresentou Luis Antonio Simas.
Para introduzir o tema do papel formador das escolas de samba, o mediador citou a influência dos sambas de enredo na sua educação. Simas cita “Os sertões”, da Em cima da Hora de 1976, “Macunaíma”, da Portela de 1975, e outros baseadas na Literatura e na História.

“Eu fui uma criança educada por escola de samba. Por que eu digo isso? A primeira vez que eu ouvi falar da Guerra de Canudos não foi em sala de aula. A primeira vez foi quando ouvi o samba de enredo da Em cima da hora de 1976. A primeira vez que eu ouvi falar do Quilombo de Quariterê de Tereza de Benguela não foi em um livro didático, não foi em sala de aula. Foi em um carnaval da Unidos do Viradouro. A primeira vez que eu ouvi falar da peleja do caboclo Mitavaí contra o monstro do Macobeba não foi em uma aula de Literatura. Foi em um desfile da Unidos da Tijuca. Antes de ler Lima Barreto, a Unidos da Tijuca já tinha me contado a história da vida do Lima Barreto. Antes de ler Macunaíma, a Portela tinha ensinado para mim a sua história e a Portela me garantiu o primeiro e um dos raros 10 na prova de Português. Ao invés do livro, eu usei o samba para fazer a prova e me dei bem. De certa maneira, a escola de maneira é um fenômeno múltiplo, artístico, de ancestralidade. Nunca é demais lembrar que escola de samba é uma construção de sociabilidade das comunidades afro-cariocas do pós-abolição”, argumento Simas.

Leandro Vieira, atual carnavalesco campeão pela Imperatriz, refletiu sobre sua carreira desde a Caprichosos até hoje, o papel das escolas de samba e o impacto da criação suburbana em sua obra durante o Café Literário. O carnavalesco também comentou sobre a escassez e a necessidade de ser criativo.

“Primeiro eu queria falar da falta do entendimento das pessoas do papel da escola de samba, do entendimento da escola de samba como um lugar de pensar o país. De pensar o país através do texto, através do corpo, a partir de quem veste a fantasia, de quem se apresenta dançando e de quem se apresenta tocando. É uma pena que o Brasil não tenha compreendido tanto tempo depois o poder dos corpos que dançam, o poder dos corpos que se fantasiam e o poder dos corpos que traduzem um pensamento. Eu sempre que posso trago essa reflexão, porque cada um de nós podemos aqui, para o próximo Carnaval, apresentar o desfile de uma escola de samba e o povo que vai para rua de uma outra maneira que não a maneira espetacular, televisiva e exclusivamente festiva. É preciso entender que uma comunidade que traduz um pensamento pós-abolição de homens e mulheres pretos e pretas que se reúnem para dialogar com a sociedade de uma maneira mais ampla não pode ser pensado como exclusiva e meramente uma festa. Essa festa é uma festa que pode mais e sempre pôde mais. Ela foi o caminho para negociação de pautas populares para o reconhecimento de comunidades. Há tantas comunidades que são representadas e se agigantam a partir das escolas de samba que as representam”, expressou Leandro Vieira.

O carnavalesco complementou o seu pensamento apontando o potencial intelectual das agremiações. “Busquem entender a escola de samba como um organismo tão consciente, tão intelectual quanto qualquer outra atividade comumente associada à intelectualidade. As pessoas falam de teatro como uma atividade como atividade intelectual, mas não falam de escola de samba como uma atividade intelectual da mesma forma. Porque escola de samba é corpo e as pessoas não conseguem entender um corpo que samba, o corpo de uma passista que samba, de uma baiana que gira, como a intelectualidade do corpo”, disse Leandro Vieira.

O carnavalesco nasceu no bairro da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro, seu formou na Escola de Belas Artes da UFRJ e decidiu levar a estética suburbana para os desfiles das escolas de samba. Além da Caprichosos de Pilares, em 2015, e da Imperatriz Leopoldinense, em 2020, 2023 e 2024, ele construiu seis carnavais pela Estação Primeira de Mangueira, em que foi campeão duas vezes, e foi vencedor da Série Ouro também pelo Império Serrano em 2022.

“Eu gosto da escola de samba porque sou um homem do subúrbio. O gosto que tenho, o artista que sou é um artista forjado nas ruas do subúrbio, pela música do subúrbio, pela comida do subúrbio, pelas minhas tias suburbanas, pelos meus primos e primas suburbanos, pelo território que vivo ainda hoje. Eu não seria o artista que sou, eu não produziria a visualidade que produzo e não teria os argumentos que tenho para fazer o carnaval que apresento, se eu não fosse um homem desse meio. E a única coisa que eu fiz ao longo de dez carnavais foi tratar o subúrbio com visualidade. O desfile da Mangueira de 2017 é uma devoção à moda suburbana. O desfile do Império Serrano sobre o Besouro foi uma construção à moda suburbana. O Lampião da Imperatriz é à moda suburbana. Foi no subúrbio que eu conheci o meu país. O que eu tenho feito nos meus carnavais é fazer valer imagens que continuam frescas e vivas na minha memória. Quem assiste um desfile meu, seja para o Império, seja para a Mangueira, seja para Caprichosos ou agora para Imperatriz Leopoldinense, assiste um pedaço do subúrbio que desfila, assiste um pedaço de cores suburbanas que desfilam. O subúrbio é a imagem que está na minha retina há 40 anos”, explicou Leandro.

Luis Antonio Simas pergunta ao carnavalesco da Imperatriz sobre inventividade a partir da escassez no carnaval e Vieira explica como criar beleza a partir disso.

“Essa ideia de lidar com a escassez e ainda assim gozar a vida eu acho que é de todos nós. Todos nós somos insatisfeitos com aquilo que nos traz infelicidade. É do humano não se conformar com aquilo que é ruim. No carnaval, é uma questão de não se conformar em produzir algo ruim, com a possibilidade de fazer algo que seja inferior. Diante das dificuldades para um artista, para alguém ligado à produção visual, é preciso buscar caminhos para produzir beleza e satisfação. É isso que eu faço ao longo do meu trabalho, é um pouco disso que fiz ao longo das dificuldades que foram aparecendo para a produção estética”, argumenta o artista.

A esta fala, o mediador Simas acrescenta um comentário sobre o erro de se pensar que não se pode festejar mesmo na pobreza.

“O Beto Sem Braço dizia que quem espanta a miséria é a festa. Isso é interessante. As pessoas têm uma certa ideia, que eu acho perigosa, preconceituosa, que a festa é um sinônimo de alienação. E não é sinônimo de alienação. A boa comida, o prazer de servir as pessoas, até a tradição dos grandes gurufins, essas celebrações são interessantes. Essa ideia de transgredir a nossa precária produção pela invenção de mundos novos na culinária, nas rodas de capoeira, no fenômeno educativo, na saia da baiana que gira, tudo isso se fundamenta na construção de sociabilidade que ocorre, essencialmente, na rua”.

Em suas considerações finais, Leandro Vieira fala sobre criar e celebrar mesmo nos momentos difíceis. “Essa ideia de fazer sorrindo o que a maioria das pessoas fazem aborrecidas eu acho que tem a ver com um aprendizado que a vida nos impõe. Quando o Simas fala sobre festa enquanto alienação, eu lembro de uma vez conversei com Milton Cunha sobre as pessoas durante a pandemia que falavam ‘não sei quantas pessoas mortas e vocês falando de carnaval’, ‘o desemprego e vocês falando de carnaval’, ‘a situação do país como está’. As pessoas têm a falsa impressão de que nós fazemos carnaval porque a vida vai bem e, na verdade, ninguém nunca fez carnaval porque a vida é boa, senão estaríamos sempre adiando o carnaval com a expectativa da vida boa. Nós fazemos o carnaval porque a vida não é boa. Nós fazemos carnaval porque cremos e sabemos diariamente que a vida não é boa. A vida da maior parte dos brasileiros é marcada pela escassez. E nós fazemos carnaval, nos alegramos por determinadas situações porque nós somos inconformados. Nós fazemos carnaval, produzimos beleza, comemos, dançamos, brincamos porque somos inconformados por um sistema que muitas vezes nos oprime e nos coloca em posições que a gente não se conforma. E, por sermos inconformados, insistimos na festa com a expectativa de que ela nos alegre e ocupe os lugares daquilo que nós não temos”, concluiu Leandro Vieira.