
A Biblioteca Parque Estadual do Rio de Janeiro recebeu, na última quarta-feira, a Feira Literária do Carnaval Haroldo Costa, dedicada a obras sobre o universo do carnaval e das escolas de samba, cujo grande homenageado foi o escritor, pesquisador, bailarino e ator que batizou o nome do evento. Haroldo foi lembrado em duas mesas de debate: a primeira dissecando temas retratados nos livros escritos por ele, enquanto a mesa final relembrou o legado e as características pessoais do artista, com a presença de personalidades que tinham uma relação afetiva com o homenageado, como Helena Theodoro, que o conheceu na década de 50, criando uma amizade de mais de meio século.
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“Minha amizade com o Haroldo começou nos meus longínquos 15 anos de idade. Nos conhecemos na Rádio MEC, quando eu era uma estudante de música. Ele sempre estará vivo em nossos corações”, ressaltou Helena.
Além da filósofa e pesquisadora, a segunda mesa contou com as participações dos jornalistas Aydano André Motta e Fábio Fabato, do diretor cultural da Unidos da Tijuca, Julio César Farias, e dos escritores Miguel Pinto Guimarães e Onésio Meirelles, com mediação de Rachel Valença, pesquisadora e escritora. Aydano lembrou da importância de Haroldo na mudança de paradigma dos desfiles, influenciada pelo Salgueiro e sua academia de carnavalescos na década de 60.
“Haroldo é um grande nome da revolução cultural do Salgueiro. O que a Portela inventou lá atrás, o Salgueiro revolucionou de uma forma muito sofisticada. Ele é um dos grandes responsáveis por isso”, afirmou.
Fábio Fabato sintetizou como enxergava o homenageado: “Celebremos a memória de alguém tão grande quanto Haroldo Costa, a generosidade e a simplicidade em forma humana”.

Julio César trabalhou com Haroldo na Secretaria de Cultura do Rio e criou uma relação próxima com ele, ganhando um amigo e incentivador. “Trabalhei com o Haroldo por cinco anos. Ele me introduziu na produção de um programa na Rádio Roquete Pinto, cheguei a apresentar por incentivo dele. Era um homem que acreditava demais nas pessoas, era muito amigo. No desfile do Paraíso do Tuiuti que homenageou Ricardo Cravo Albin, a alegoria na qual vinham Haroldo e outros amigos começou a dar choques por conta da chuva e, mesmo assim, ele tentou ficar lá, não queria sair, até que aceitou descer e veio no chão”, lembrou, contando uma curiosa história do artista.

Outro amigo de Haroldo, Miguel Pinto Guimarães, citou a formação intelectual do ator. “Minha relação com ele era de amizade, estava sempre em meus aniversários. Ele é um dos elos mais importantes entre o carnaval das escolas de samba e a arte erudita. Ele era um intelectual, um homem de teatro. A academia estava nele. Poucas pessoas costuraram tão bem essa relação do carnaval com a intelectualidade como ele”, lembrou.
“Durante a pandemia, eu revi inúmeros desfiles antigos e fiquei encantada pelos comentários do Haroldo Costa, pela sensibilidade e conhecimento que ele mostrava. Ele teve uma trajetória linda de vida e contava como se fosse algo banal. Me senti emocionada quando me chamaram para essa mesa, pois eu poderia contar que conheci alguém com esse tamanho, com essa história de vida”, afirmou Rachel Valença.

Único dos presentes sem uma relação mais pessoal com Haroldo Costa, Onésio Meirelles criou uma afetividade pelo exemplo que o artista era para os jovens negros como ele, num universo que parecia inalcançável para muitos deles. “Haroldo era um espelho para um jovem negro como eu, fazendo tantas coisas com imenso talento: ator, dançarino, depois escritor, produtor. O seu legado está vivo”.
A mesa que discorreu sobre as narrativas das escolas de samba através dos livros escritos por Haroldo, sobretudo a obra “História do Brasil na Boca do Povo”, catalogou diversos sambas-enredo que retratavam acontecimentos históricos do país. Deste debate participaram os jornalistas Marcelo Mello e Felipe Ferreira; os enredistas de Vila Isabel e Viradouro, respectivamente, Vinicius Natal e João Gustavo Melo; e o dançarino e mestre na arte da dança dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, Manoel Dionisio.
Entre diversos pontos abordados na mesa, foram discutidas as narrativas de sambas e enredos antigos, que sempre eram criados de acordo com a visão do status quo da época, a narrativa do poder e da classe dominante, algo de que Haroldo sempre discordou, sendo um dos primeiros negros a conseguir espaço como pensador do carnaval.

“Haroldo Costa é um dos principais representantes da intelectualidade negra no samba, que abriu muitos espaços num universo de barreiras diversas. Hoje ainda temos uma força contrária enorme, como o avanço das igrejas evangélicas que demonizam o samba e as matrizes africanas. Precisamos lutar para colocar o samba no centro da cultura brasileira”, afirmou Vinicius Natal.
O jornalista Marcelo de Mello lembrou do pioneirismo do enredo de 1963 do Salgueiro, que falou de Xica da Silva, uma personagem até então não tão conhecida do grande público, desfile que fez Haroldo se tornar torcedor da vermelho e branco. “Um legado que as escolas de samba trazem para a cultura brasileira é dar visibilidade a figuras antes não tão faladas. Xica da Silva passou a ser retratada em diversas obras após o desfile histórico do Salgueiro em 63”, declarou.

Quem participou desse desfile com a inesquecível ala do Minueto foi Manoel Dionísio, dançarino como Haroldo Costa e seu contemporâneo. “Fizemos o minueto na Presidente Vargas às 11 horas da manhã, sol quente, roupa de veludo. Na época, o único sambista que tinha uma coluna de carnaval no Jornal dos Sports era o Marco Aurélio, conhecido como Jangada. Após o título do Salgueiro, ele escreveu que o Salgueiro tinha sido campeão com uma coreografia maldita. Nos anos seguintes, passaram a aparecer duplas e trios fazendo coreografia, e ele não falava nada. Achei uma certa discriminação. É por isso que digo: eu não sou bailarino, sou dançarino afro”, afirmou Manoel, lembrando como era a visão artística da época em relação aos negros.
Haroldo Costa teve participação fundamental no último título do Salgueiro, em 2009. “O último campeonato do Salgueiro, ‘Tambor’, é uma ideia original do Haroldo Costa. O enredo em 2009 seria sobre Jorge Ben Jor, mas ele recusou. O Renato Lage procurou o Haroldo e perguntou quais ideias de enredo ele tinha. Ele citou duas ideias, e uma delas era o tambor. Renato abraçou, e o resultado foi o título”, contou João Gustavo Melo.
O evento foi encerrado com a apresentação do Salgueiro, coroando uma bela homenagem a um dos intelectuais mais populares da cultura brasileira.











