Enredo: CIATA: A MÃE PRETA DO SAMBA

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ANÁLISE DE DISCURSO

“Tu és meu sonho Tuiuti
Tens um destino a cumprir”
Paraíso do Tuiuti 2001
(Cesar Som Livre, Kleber Rodrigues, David Lima e Claudio Martins)

O Paraíso do Tuiuti, preparado para continuar indo ao encontro do seu destino, reafirma a sua posição de fazer enredos e propor questionamentos que busquem tirar fatos e personagens do apagamento dos livros oficiais para consagrá-los na eternidade do maior espetáculo da terra.

CONCEITO DO TÍTULO DO ENREDO
CIATA: MÃE PRETA DO SAMBA

Traduz de forma direta e sucinta o significado e o simbolismo da personagem de fundamental importância na criação do samba carioca, como também no enraizamento da cultura de terreiro.

A expressão “mãe preta” no Brasil Colonial é muito marcada pelo imaginário e pela violência da escravidão, não raro definindo as amas de leite submetidas à amamentação compulsória dos filhos da elite.

Desafiando o horror da escravidão, o Tuiuti propõe a ressignificação do termo, entendendo a mãe preta do samba como protagonista soberana e livre, senhora de saberes, sabores, afetos, acolhimentos, resistências e reexistências, no contexto do matriarcado gerador da cultura preta do samba.

SINOPSE

Acordou, como sempre, antes do galo cantar. De um estalo se mirou no espelho do abebé, o leque dourado de Oxum, naquela hora em que o sol, como um abre-alas, pediu passagem entre as nuvens da madrugada para anunciar a chegada de mais um dia. O cheiro bom do omolokum arriado no dia anterior ainda dominava o ambiente.

A tia preta abriu a porta do casarão, então matriz de acolhimento dos sabores e saberes de sua gente, na rua Visconde de Itaúna, número 117, Praça Onze de Junho, e saiu para o trabalho, empunhando o seu tabuleiro de doces deliciosos, vestida a caráter: pano da costa, ojá na cabeça, saia rendada, bata, guias e balangandãs.

Ela, ao lado de tantas tias, foi expoente da tradição das mulheres quituteiras trajadas de baianas nas ruas da cidade; pretas soberanas que assumiram plenamente o protagonismo sobre suas vontades, seus corpos e suas vidas.

Hilária Batista de Almeida se lembrou da Bahia e do tempo de cabeça feita pelo velho Bamboche, quando Oxum gritou por três vezes no jogo aberto: Ora iê iê ô, alafiou!

E pensou alto: este ano a festa da minha mãe vai ser linda.

Feito isso, seguiu para seu ponto comercial naquela esquina do Centro, próxima às ruas da Alfândega e do Ouvidor, sem esquecer da caminhada como primeira yaquequerê do terreiro de João Alabá, na rua Barão de São Felix, na Cidade Nova.

A região central da cidade se transformava pelas reformas urbanas que buscavam construir, desde o início da República, uma espécie de “Paris Tropical”; projeto que caminhou tentando invisibilizar as vivências e a ciência dos pretos e pobres que não faziam parte do ideal da Belle Époque carioca.

A tia ainda se lembrava dos dias da Revolta da Vacina, nos tempos do Bota Abaixo do prefeito Pereira Passos. No burburinho das ruas, era como se Omolu, o grande orixá da doença e da cura, estivesse balançando o xaxará, o cetro de búzios e palha da costa, pela cidade inteira.

A gente simples das ruas cariocas, todavia, não é de se entregar e se integrou através da luta, da ocupação do espaço público e da construção de sociabilidades cotidianas. Nelas, se atam os nós da resistência e da invenção de modos coletivos de vida.

Ciata continuou a passos firmes, cruzou com uns conhecidos capoeiras, passou pelo vizinho que escrevia o jogo do bicho, viu algumas barracas de frutas frescas e percebeu que a justa vinha descendo em disparada desde o Campo de Santana, atrás de uns malandros e de uma yaô recém-iniciada para o orixá.

Ao seu lado, dois moleques gaiatos cantarolavam baixinho:

“O Chefe da Folia pelo telefone mandou avisar…”

Pensou alto: Oxalá!

O Rio de Janeiro começava a respirar os ares do carnaval e como era bom ouvir aquele batuque que começou misturado com choro, maxixe, samba de roda e muito axé, livre da repressão urbana, no quintal de sua casa, e que estava se tornando popular em meio ao corre-corre das ruas.

Ela mesma, afinal, participara da composição daquela música que os garotos cantavam — e Donga registrou com o título de “Pelo Telefone” — além de ter a fama de ser bamba nas rodas de partido alto. Como versava!

A Tia mal podia conter a expectativa pelos dias de folia. Ela era carnavalesca das mais animadas que, não à toa, herdou o Rancho Rosa Branca e viu nascer no seio de sua família o bloco O Macaco é Outro.

De súbito, um senhor de paletó marinho, que ela conhecera quando vendia doces numa Festa da Penha, há muitos anos, perguntou:

Tem doce de coco, tia? Daquele que eu comi no dia de Cosme e Damião do ano passado, na sua casa?

Tem sim senhor! E manjar também.

Uma senhora, negra altiva, disse:

Hoje não, mas amanhã eu quero mugunzá de colher, cuscuz e pé de moleque. Hoje eu quero comer um acarajé de mamãe Oyá para ficar ventando de satisfeita! Se bem que um caruru também é boa pedida.

A Iyabassê, sem perder o sorriso do rosto, respondeu irônica:

Por falar nisso, amanhã nem sei se venho. Preciso bater umas folhas ainda hoje e fazer um banho de ervas para curar a perna de um tal Venceslau Brás, acho que é o Presidente da República! Não tem ferida que Ossanha não resolva. Ele vai ficar bom.

E as duas riram.

Fez-se depois um silêncio momentâneo, logo rompido pelo barulho da turba que continuou agitando aquela manhã carioca de mais um dia de fevereiro.

De volta ao casarão de onde saíra de manhã, a tia encontrou a festa preparada para começar. Macumbeiros, sambistas, artistas, chorões, jornalistas, mães e filhas de santo, poetas, o povo da rua, tias amigas de longa data, não paravam de chegar.

Parecia que a gente daquela pequena África encravada entre o porto, a Saúde, a Gamboa, a Praça Onze, a Cidade Nova e o bairro do Estácio de Sá, estava toda ali.

De repente, com a mesa farta, os copos cheios e os corpos livres, a celebração rompe os limites do tempo e do espaço. A casa da Visconde de Itaúna é uma avenida iluminada para saudar a matriarca.

É carnaval e o rancho da saudade vai desfilar…

O seu povo desce o morro do Tuiuti e se veste de azul e amarelo para cantar, vibrar e reverenciar a ancestral maior que abençoa o carnaval.

Cada passo de samba é como um ponto riscado na Marquês de Sapucaí transformada em terreiro.

A Yalodê, líder feminina de sua gente, está feliz!

CRIAÇÃO E PESQUISA
• Carnavalesco: Renato Lage
• Pesquisa e texto: Claudio Russo e Luiz Antonio Simas
• Consultoria e apoio à pesquisa: Gracy Moreira e equipe da Casa da Tia Ciata
• Agradecimentos especiais: Professoras Angélica Ferrarez e Cláudia Alexandre