
A última quarta-feira foi marcada por emoção, ancestralidade e sentimento de pertencimento na explanação do enredo da Nenê de Vila Matilde para o Carnaval 2027. Com presença da imprensa, compositores e integrantes da comunidade, a azul e branca da Zona Leste apresentou oficialmente “Mulheres de Palmares – A Liberdade Tem Rosto de Mulher”, enredo que será desenvolvido pelo carnavalesco Chico Ângelo no Grupo de Acesso 2. O evento também marcou o lançamento oficial do concurso de samba-enredo da escola e reuniu diferentes segmentos da comunidade matildense em uma noite de forte conexão com a identidade afro.
Clima de emoção
A explanação foi acompanhada com atenção e emoção pelos presentes. Enquanto a narrativa do desfile era apresentada, alguns integrantes da escola se emocionaram nos trechos que abordavam ancestralidade e o protagonismo das mulheres negras dentro da história de Palmares. O sentimento era de identificação imediata com um enredo afro que vinha sendo pedido há algum tempo pela comunidade.
A apresentação começou com a leitura detalhada da sinopse do desfile, que será dividido em quatro atos: Acotirene, Aqualtune, Dandara e as Herdeiras de Palmares. Durante a explanação, Chico Ângelo reforçou diversas vezes que o projeto não pretende resumir mulheres negras à dor da escravidão, mas exaltar protagonismo, liderança e continuidade histórica.

“Eu não quero falar de mulheres acorrentadas. Quero falar de mulheres livres, fortes, inteligentes e que construíram Palmares. A história dessas mulheres vai muito além da dor”, afirmou o carnavalesco.
Ao CARNAVALESCO, Chico definiu o tom que pretende levar para a avenida. “Acho que será um desfile com um tom emocional muito forte, como um grito de liberdade preso na garganta, com mulheres empoderadas desfilando na avenida. Será um desfile potente e com uma carga emocional elevada”, declarou.
Narrativa ancestral
A construção do desfile vai atravessar ancestralidade africana, formação do Quilombo dos Palmares, espiritualidade, maternidade, luta coletiva e resistência negra contemporânea. O primeiro ato será centrado em Acotirene, personagem ligada à formação de Palmares e aos saberes ancestrais. O segundo apresentará Aqualtune como símbolo de organização, proteção e afeto coletivo. Já o terceiro setor será dedicado à força de Dandara como mulher de combate, liberdade e resistência.
O encerramento do desfile será voltado às “Herdeiras de Palmares”, conectando as mulheres quilombolas às mulheres negras da atualidade que seguem ocupando espaços políticos, culturais e sociais.

Segundo Chico Ângelo, o último carro alegórico deverá reunir homenagens a mulheres pretas que ajudaram a construir o país em diferentes áreas.
“Quero homenagear toda mulher preta que ajudou a construir este país e que merece reconhecimento. A lista é enorme, mas o carro tem limites, então vamos escolher esses nomes com muito carinho. São mulheres que merecem nossos aplausos eternos”, declarou ao CARNAVALESCO.
Durante a explanação, o carnavalesco convidou a ex-secretária municipal de Cultura de São Paulo, Aline Torres, e a histórica porta-bandeira da Mancha Verde, Adriana Gomes, para representarem o espírito do setor final do desfile, dedicado às herdeiras contemporâneas de Palmares.
“Várias mulheres pretas do carnaval me inspiraram e me ajudaram a construir o carnavalesco que eu sou”, contou.

Professora emocionou comunidade
Após a apresentação da sinopse, Chico Ângelo chamou à frente a professora Adriana Vasconcellos, responsável por auxiliar na pesquisa do enredo. A participação da educadora transformou a explanação em um momento de reflexão sobre ancestralidade, negritude e matriarcado negro.
O carnavalesco destacou a importância da professora em sua formação dentro da luta antirracista.

“Ela é professora, e eu acho que esse é o papel principal da Adriana: ensinar. Muita da minha bagagem na luta antirracista veio daqui. Então, essa é a minha grande incentivadora”, declarou.
Durante sua fala, Adriana relacionou o conceito de matriarcado às estruturas presentes nas escolas de samba, nos terreiros e nas rodas de capoeira, além de destacar a importância de resgatar histórias apagadas da população negra.
“As mulheres negras já carregavam essa estrutura antes mesmo do sequestro. E é importante lembrar que matriarcado não tem nada a ver com disputa ou oposição aos homens. Matriarcado é a mulher como coluna da sociedade”, explicou.
A professora também emocionou a comunidade ao falar sobre pertencimento e acolhimento nos espaços negros.
“Esse resgate que está sendo feito é algo ímpar porque é verdadeiro. Precisamos resgatar as nossas histórias e a nossa negritude. A escola de samba é um espaço sagrado, de resistência, de liberdade e de libertação”, comentou.
Retomada da identidade
A diretora de carnaval, Bruna Babalu, revelou ao CARNAVALESCO que o projeto foi escolhido entre três propostas enviadas por Chico Ângelo. Segundo ela, o enredo representa uma retomada da essência histórica da azul e branca.
“Quando vi o enredo das Mulheres de Palmares, ainda no começo, quando era ‘Mulheres do Quilombo’, já senti que esse era o caminho. Esse enredo é a cara da Nenê. A Nenê precisava desse enredo afro. A comunidade está em êxtase e abraçou completamente o enredo”, afirmou.

A dirigente ainda relacionou o projeto ao momento vivido pela escola após os últimos carnavais, em um ambiente de reconstrução da identidade matildense.
Concurso de samba-enredo
A noite também marcou o lançamento oficial do concurso de samba-enredo da escola para o Carnaval 2027. A apresentação foi conduzida pelo diretor-geral Rodrigo Oliveira, com presença do diretor musical Tonn Queiroz, do diretor da Ala de Compositores, Cassio de Oliveira, e do diretor de Harmonia, Douglas Neto.
Durante a apresentação, Tonn reforçou a tradição musical da azul e branca e pediu atenção dos compositores à identidade da escola.

“A Nenê é a escola que mais tem prêmio de samba-enredo em São Paulo. A fórmula já existe. Ninguém precisa inventar nada”, declarou.
O diretor musical também destacou que os compositores precisam compreender profundamente a essência musical da escola e a narrativa do enredo.
“É fazer um samba com a cara da Nenê. A escola já tem hoje um enredo com a cara da Nenê, que é um enredo afro, do jeito que a comunidade gosta. Agora, a gente precisa de um samba com a cara da Nenê. Procurem construir um samba em que a história tenha um fio condutor. Vamos trabalhar letra, vamos fazer poesia”, afirmou.
A escola informou que não realizará eventos até o dia 25 de julho, quando acontecerá a tradicional Feijoada das Alas Reunidas, marcando o reencontro com a comunidade. Os sambas concorrentes serão apresentados em formato de roda de samba, e os finalistas serão definidos no mesmo evento.
A grande final acontecerá no dia 2 de agosto. O samba vencedor receberá premiação de R$ 3 mil. Em caso de parceria entre compositores, o valor será dividido entre os vencedores.











