
O último sábado foi especialíssimo para o Carnaval de São Paulo, em especial para região da Pompeia, bairro da Zona Oeste de São Paulo. O Águia de Ouro comemorou o Jubileu de Ouro exatamente no dia em que a agremiação foi fundada há cinquenta anos. Para comemorar, a azul e branca fez uma grande feijoada na gigantesca quadra da instituição, na avenida Presidente Castelo Branco (trecho da pista local da Marginal Tietê), com show das bandas Encontro de Batuqueiros e Puxadores do Samba e da Batucada da Pompeia, bateria da escola. Já com enredo definido para o Carnaval 2027, “Águia na encantaria de fés, folguedos e milagres que deságuam no sertão”, assinado pelo carnavalesco Leandro Barboza, o CARNAVALESCO marcou presença em data tão importante para a agremiação e buscou mais informações sobre a temática.
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Ideia
Embora seja uma temática comum em desfiles de escolas de samba, o Águia de Ouro não costuma abordar o Nordeste em seus enredos – a última vez que a escola passeou com mais afinco pela região foi em 2014, quando cantou o ilustre cantor no desfile de “A velha Bahia apresenta o centenário do poeta cancioneiro Dorival Caymmi”. Até por isso, o título do enredo chamou atenção do universo do carnaval paulistano.

A reportagem, por conta de tal característica, perguntou para alguns nomes importantes da escola sobre a origem do enredo. Leandro começou: “A gente viu a oportunidade que o Águia deu, essa abertura incrível que o presidente deu por meio dessa parceria dele. A gente trouxe esse enredo achando que é o momento certo para o Águia, trazendo tanto uma plástica quanto uma narrativa que a gente acha muito expressiva. Quando a gente teve essa oportunidade de estar no Águia, eu falei com o Thiago e o presidente já apoiou. Vai ser incrível para a escola”, detalhou.
Rogério Figueira, popularmente conhecido como Tiguês, outro estreante na agremiação neste ciclo para o Carnaval 2027, foi ainda mais além. Ao ser perguntado sobre como era voltar a trabalhar com o carnavalesco e com o enredista Tiago Freitas, com quem atuou entre 2022 e 2026 no Império de Casa Verde: “Trabalhar com os dois é um prazer muito grande. São dois caras que procuram retratar aquilo que foi pedido até pelo presidente. A ideia começou com uma ideia do presidente, mesmo – e eles já tinham o negócio pronto. Foi um negócio legal para caramba. É fácil trabalhar com os dois. Dá uma tranquilidade para a gente poder saber e entender que a parte plástica vem. Já é uma coisa que você tira da lista de preocupações. Vai ser muito tranquilo trabalhar com o Leandro, que é um querido, sempre presente na minha vida, todo dia no barracão. É um cara que vai ser muito fácil trabalhar. Para a gente está muito tranquilo”, pontuou.

Desenvolvimento
Uma temática nordestina, por vezes, pode ser muito ampla. Leandro destacou que há um direcionamento bastante claro no trabalho: “A gente vai contar os milagres nordestinos, a gente vem com uma temática diferente nordestina. Em cada setor, a gente vem com milagre. Isso é muito incrível. No último setor, falaremos do milagre da chuva, por exemplo, mas a gente vai passar por vários milagres incríveis. A abertura toda é incrível, a gente trabalha com a jurema em relação à mística do transe, algo que o Tiago adora falar. Podem esperar uma abertura gigantesca do Águia. O Águia vai vir para o campeonato e isso é decisivo para a gente”, prometeu.
Tiago complementou: “A gente traz uma coisa muito forte: a jurema sagrada, um ritual. As pessoas acham que a jurema vem da Amazônia, mas não: é uma tradição nordestina. A jurema vem da sabedoria popular do sertanejo, do homem nordestino e da mulher nordestina, que, fazendo fogo e fumaça da árvore da jurema, também fazem o chá e a fumaça para evocar os ancestrais e a espiritualidade. A gente vem nessa viagem aí”, brincou.

O próprio enredista dá mais detalhes sobre o que está sendo programado para o desfile: “No primeiro setor, a gente vem com o milagre do Sol que está forte no sertão abrandar. É o primeiro milagre a ser contado. O segundo é que, com a fé e a força dos santos católicos, eles procuram a energia para festejar – e, aí, eles encontram esse caminho. No terceiro milagre eles vão festejar e encontram a energia para acreditar que a chuva vai cair – e, no último setor, a chuva finalmente vai cair. Essa chuva é a chuva da vitória e a chuva que cai no sertão. A gente mistura essa mística da chuva do sertão com a chuva da vitória na Pompeia”, ilustrou.
Liberdade artística
Tal qual o carnavalesco com quem trabalha, Tiago também fez questão de frisar que o Nordeste retratado pelo Águia de Ouro no Anhembi será bastante diferente do que costuma ser apresentado em desfiles de escolas de samba: “A gente já está em produção e queremos fugir do senso comum. A gente não quer falar do Nordeste como todo mundo fala: com gibão, chapéu, Maria Bonita, Lampião. A gente vem com rituais e também a gente vem com encantarias, que é o nome do nosso enredo. Essas encantarias despertam milagres e esses milagres fazem com que a Pompeia retome ao seu lugar natural, de estabilidade e de protagonismo. A gente vai jogar com esses milagres que fazem brotar no sertão a vitória para a Pompeia – e a vitória da chuva para o sertanejo”, pontuou.

Para que tudo isso aconteça, é necessário que a agremiação compre a ideia da equipe de criação. E, de acordo com Tiago, isso está acontecendo: “É interessante quando uma escola abraça um projeto autoral, quando não vem com um projeto que vai ser forçado. Quando o projeto é autoral, é certeza que ele vai se desenvolver bem na avenida. O Águia abraçou de primeira hora o enredo do Leandro: quando o presidente falou que esse é o nosso enredo, já começamos a trabalhar. Isso é muito importante para os artistas do carnaval”, comentou.
Aceitação do mandatário
Principal nome do Águia de Ouro, Sidnei Carrioulo, presidente da escola, está bastante satisfeito com o que a agremiação está fazendo para 2027: “A primeira impressão ainda continua: a impressão boa, o desenrolar do enredo idem. A apresentação desse enredo em termos de fantasia também é ótima- isso é muito importante. Às vezes, o assunto é muito importante; mas, na hora que você começa a tirar do papel e colocar em prática, você não tem a mesma temática que você tinha na cabeça. Falar é uma coisa, representar é outra. Tanto em termos de alegoria (já temos os projetos dos carros) quanto em termos de fantasia, está maravilhoso. E, dando aí a pincelada final, questão do samba-enredo está ficando muito legal”, comemorou.

O dirigente, por sinal, foi elogiado por Tiago: “É importante dizer que o presidente determinou que fosse um desfile de Grupo Especial, inclusive, com quatro alegorias. Isso foi muito importante para a gente, isso é a valorização do presidente em relação ao nosso trabalho. Tenho certeza que eu escolhi certo a escola, isso me deixa muito tranquilo. Esse casamento com o Águia vai ser duradouro”, afirmou.
Daqui em diante

Perguntado sobre o andamento da produção do desfile, Leandro voltou a elogiar Sidnei: “A gente já está em produção de fantasias. A gente já está há quinze dias de produção de fantasias. A gente já está em fase de piloto, finalizando pilotos. Esse andamento acontece graças ao presidente: ele é um presidente muito empenhado, é presente em todo o trabalho. No primeiro momento em que ele falou que quer começar barracão e fantasia, começamos”, disse.
De acordo com ele próprio, o próximo passo já está dado: “A gente já está com o samba pronto. O samba já está sendo gravado, já começou a fase de estúdio. Isso deixa a gente muito confortável com a narrativa, com a criação. Está tudo muito fluido, a gente está muito tranquilo, a comunidade recebeu muito bem. A bateria, todos os segmentos. Vai ser bem feliz. A comunidade se reconheceu no enredo – e, quando a gente apresentar o samba, eles vão se reconhecer, também”, finalizou.











