
Há sambas que chegam na hora certa. Foi o que aconteceu com Marquinho Art’Samba quando ouviu, pela primeira vez, o refrão que a Unidos da Tijuca levaria para a Sapucaí em 2026. Intérprete de um dos mais aclamados sambas da Estação Primeira de Mangueira, Marquinho encontrou no samba da Tijuca deste ano uma metáfora para a própria vida. Depois de superar um problema sério de saúde, vive um momento de virada de chave pessoal e celebra a oportunidade de seguir construindo sua carreira como intérprete oficial, enquanto acompanha, com orgulho, o filho trilhar o mesmo caminho como intérprete de apoio do Império Serrano. Nesta edição do “Entrevistão”, Marquinho fala sobre tudo isso: a saúde, a carreira e o que significa, ainda hoje, ter fome de provar seu valor no samba.
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Hoje, você está no Especial, mas recentemente no nosso prêmio cantou com seu filho, que é do Império Serrano. O que sentiu naquele momento? E fica feliz se ele seguir a carreira?
Marquinho Art’Samba: A gente fica muito feliz e, ao mesmo tempo, preocupado. Porque a minha chegada até aqui foi uma chegada muito árdua. Quando a gente vem de família que já é do meio, as coisas ficam um pouco mais facilitadas; quando não vem, é diferente. Minha preocupação, com relação ao meu filho, é justamente para ele não passar o que eu passei. Para que, amanhã, se ele receber um “não” e ficar frustrado com alguma coisa, ele não desista. É muito bacana ver o meu primogênito seguindo o mesmo passo do pai, ainda mais hoje, com o mundo tão violento, está tão difícil criar um filho. E, graças a Deus, acho que o mais importante é que eu já criei um homem: ele já está com 24 anos, casado, já me deu uma neta. Isso é muito legal.
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Você cantou Mangueira 2019. É o samba da sua vida? O que foi aquele ano?
Marquinho Art’Samba: Costumo dizer que todas as escolas por onde passei têm os seus momentos. Desde criança, sempre dizia que um dia seria o cantor da Mangueira, por ser a escola de samba da minha família. Muita gente não acreditava nisso. Quando cheguei lá e, logo no primeiro ano, fomos campeões com um samba que, pra mim, é um dos mais importantes da Estação Primeira de Mangueira, um dos dez sambas mais importantes da escola, fico muito grato por isso, e por ter ficado nessa história da Estação Primeira.
O que sentia quando ouvia dos mangueirense que tinha a voz parecida com Jamelão?
Marquinho Art’Samba: Até hoje, já vou para o meu segundo ano de Tijuca, o mangueirense ainda não assimila me ver cantando em outra escola. Dá aquele saudosismo neles. Acho isso legal, mas já passou. E quando falam que tenho uma voz parecida com a do Jamelão, a sensação é a melhor possível. Poxa, ser comparado ao mestre… Costumo dizer que o Jamelão é o Pelé do samba. Não sei se ele gostaria de ser chamado assim, se estivesse aqui, mas ele é o nosso mestre do samba.
Você foi cantor da Unidos de Padre Miguel e viu a escola sofrer e não subir. O slogan dela é que lá se aprende a amar o samba. Aquela escola é diferente?
Maquinho Art’Samba: A UPM foi a escola que me projetou para o mundo do carnaval. Até então eu tinha passado por outras escolas, mas como cantor de apoio. Quando a UPM me deu a oportunidade de ser cantor oficial, de 2012 para 2013, ela ainda estava no Grupo B. Fiquei 2013, 2014, 2015. O carnaval em que acho que a UPM merecia mais foi o de 2015, com o enredo de Ariano Suassuna. A escola ganhou praticamente todos os prêmios daquele ano; só não ganhou o desfile. Também acho que merecia o de 2017, mas eu já não estava mais lá. O carinho que tenho por essa escola é grandioso. Sou grato a tudo.
Você cantou Zezé e Luciano na Imperatriz. Um samba maravilhoso. Por aqui o desfile não aconteceu?
Marquinho Art’Samba: Talvez, se fosse hoje, fosse diferente. Hoje enxergo a Imperatriz com mais pulso, com mais vontade. Aquele carnaval de 2016 tinha tudo para ser arrebatador, inclusive pelo samba: foi um sambaço. Acho que, naquela época, a Imperatriz não tinha o pulso que tem hoje. Faltou isso. Hoje a escola está mais aguerrida, mais próxima da comunidade. Embora tenha ficado em sexto lugar naquele ano, se fosse com o pulso de hoje, a Imperatriz brigaria muito firme lá em cima pelo título.

Agora chegando aqui na Tijuca: o que você sentiu quando recebeu o convite do presidente Fernando Horta para vir pra cá?
Maquinho Art’Samba: Quando o Fernando Horta me ligou, eu estava dirigindo. O telefone tocou e apareceu o emblema da Tijuca no WhatsApp. Fiquei tenso, encostei o carro e atendi. Era ele: “Marquinho, queria bater um papo, almoçar com você amanhã. Dá pra ser?”. Eu falei: “Claro, seu filho, dá pra ser. Qual o horário?”. A conversa durou uns 20 minutos; o resto foi ele contando da vida dele, da passagem pelo Vasco, de como chegou na Tijuca. É um presidente muito presente, que sabe de tudo o que acontece na escola. E tem uma coisa que eu nunca comentei com ninguém: ele não me perguntou sobre o meu problema de saúde, que foi muito grave. Ele simplesmente confiou: “vamos trabalhar”. Isso me toca muito. Sou muito grato a ele por ter confiado em mim e no meu trabalho. Hoje estou muito feliz nessa escola. Já recebi outras propostas, mas não penso em sair daqui.
Quando essa ligação aconteceu, você ainda estava na Mangueira, ou já tinha saído?
Marquinho Art’Samba: Já tinha saído, e estava quase fechando com a Barroca Zona Sul, em São Paulo. Quase, quase. Mas Deus disse assim: ‘dá uma segurada aí, encosta o carro aí, ainda tem coisa pra você aqui, o teu momento no Rio de Janeiro não acabou não’. E não acabou mesmo. Sou muito grato a essa escola. Hoje ser abraçado por toda a comunidade, por todo o Borel, só me dá a responsabilidade de trabalhar cada vez mais e de me cuidar.
E como está a saúde agora?
Marquinho Art’Samba: Graças a Deus, estabilizada. Voltei a ser um garoto. Acho que, a partir do momento em que você leva uma porrada dessas, você entende que precisa se cuidar. E hoje, graças a Deus, estou bem. Todo mundo sabe que tenho um problema no coração, insuficiência cardíaca, mas hoje é uma coisa bem acompanhada… tenho um médico que é um dos maiores cardiologistas do Brasil. Estou na mão dele e faço tudo que ele determina. Não bebo mais, já tem quatro anos. As pessoas acham que só dei um tempo, mas não: o guerreiro não para, o guerreiro dá um tempo (Risos). Cumpro tudo que o médico determina. Meu grande sentido é a minha família, em primeiro lugar, e depois é a minha carreira. Tomo os remédios todo santo dia, faço fono, aula de canto, cuido da alimentação e do horário de dormir. Isso está me ajudando muito, hoje levo uma vida normal.
Sua equipe de música tem duas mulheres e os cantores estão cada vez mais abertos. Qual sua análise do trabalho delas e acredita que o sucesso da Jéssica na Beija-Flor vai ajudar outras mulheres?
Marquinho Art’Samba: Antes da Jéssica teve a Grazzi [Brasil], de quem as pessoas falam pouco. E antes da Grazzi, lá atrás, teve a Elza Soares e a Surica. Aqui na Tijuca teve a Wic [Tavares] que também foi cantora oficial. Elas estão aí chegando, invadindo mesmo, e acho isso muito bacana. A Lissandra é muito minha amiga, de muitos anos. Eu não prendo as pessoas que trabalham comigo; coloco todo mundo para aparecer, porque fizeram isso comigo também. Para que todo mundo entre na vitrine, apareça e siga o seu caminho… e me deixar aqui na Tijuca (Risos).
Em 2026, você canta o samba “Muda essa história” aqui na Tijuca. Muitas vezes você ficou emocionado nos ensaios. Como foi esse processo todo?
Marquinho Art’Samba: Olha, o samba de 2019 foi o meu primeiro ano de Mangueira, com toda aquela potência que todo mundo conhece; fiquei muito emocionado com aquele samba. O de 2026 foi um samba que, por tudo que passei na Mangueira, me fez ver ali também a possibilidade de mudar a minha própria história. Os compositores sempre mandam o samba pronto para a gente ouvir. De cara, quando veio o trecho “muda essa história, Tijuca, tira do meu verso a força pra vencer, reconheço seu lugar e luta, esse é o nosso jeito de viver”, comecei a chorar. Eu sou muito emocionado com esse samba. Posso dizer que foi o samba mais importante da minha vida até agora, porque foi a virada de chave. Não é só a mudança da história da escola: ali também estava mudando a minha história.
O que mudou pra você, pessoalmente, como artista e como sambista, depois de ter cantado esse samba e vindo pra Tijuca?
Marquinho Art’Samba: Voltar a acreditar no meu trabalho de novo. Não tenho vergonha de dizer que passei três anos na Mangueira dividindo o carro de som com outra pessoa, o Dowglas [Diniz], que eu adoro, isso não tem nada a ver com ele, mas eu podia ter sido um pouco mais olhado pela história. Quando venho para uma escola grandiosa como a Tijuca, é aquela sensação de que ainda tenho muito para contribuir com o carnaval. A gente não tem que provar nada pra ninguém, mas esse samba era uma coisa minha, do meu interior. E agora, no ano que vem, é fazer valer; porque a gente tem que estar sempre se provando. Já retomei as aulas de canto, o trabalho de fono, tudo de novo. 2027 já começou.
É fácil cantar com uma bateria como a da Tijuca? Como a bateria do mestre Casagrande ajuda no seu trabalho?
Marquinho Art’Samba: É uma bateria para cantor, porque tem cadência o tempo inteiro. Foi o que entendi logo de cara, embora já conhecesse a bateria do Casão há muitos anos sem tê-la vivido de dentro. No meu primeiro ensaio já comecei a entender isso, e veio um samba maravilhoso… aí foi mamão com açúcar, um casamento perfeito. E esse casamento também é a relação entre as pessoas; o ritmista olhar para o cantor e acreditar nele. Vi muito isso vindo dos ritmistas da escola, me abraçando também, sem falar do Casão e da diretoria. Foi muito legal.
Hoje existe uma rotina de cuidado da voz. Como é o seu ritmo pra aguentar essa maratona do carnaval?
Marquinho Art’Samba: Depois do carnaval a gente relaxa um pouco, porque não é o tempo todo naquela cobrança. Por incrível que pareça, já voltei para a fono e para as aulas de canto. Sou muito rígido e cumpridor do meu dever com médico, fono e aula de canto. E o resultado está sendo maravilhoso.
Você sente que os intérpretes estão mais valorizados hoje? O que pensa da análise de Harmonia estar em vocês?
Marquinho Art’Samba: Acho que, à medida que o carnaval vai tomando outro rumo, todos os setores (intérprete, carnavalesco, coreógrafo) precisam se profissionalizar mais. Hoje o quesito harmonia está muito em cima do carro de som, então a tendência é essa valorização crescer a cada ano, com mais profissionais envolvidos. Hoje, no carnaval, não cabe mais o cantor desleixado, bêbado, cantando mal. Temos que estar sempre atentos e trabalhando para continuar no páreo.
E sobre o peso do carro de som no quesito Harmonia?
Marquinho Art’Samba: É uma boa solução, mas acho que, por ser o lado artístico da escola de samba, a avaliação deveria ser um pouco mais livre. É só por isso.
Para fechar, qual é a sua análise do novo sistema de som da Sapucaí?
Marquinho Art’Samba: A melhor possível. É um sistema que valoriza o cantor. Podemos cantar em qualquer parte da avenida, com a bateria a 100 metros de distância e ainda assim trazê-la pra perto de você pelo fone. Pra mim, foi a melhor coisa que o Gabriel [David, presidente da Liesa], junto com a equipe, colocou. No início ficamos receosos, mas já no mini-desfile percebemos que o negócio ia funcionar, e deu certo. Não tem volta. Foi um presente para os cantores.









