InícioSão PauloEm franca evolução, Unidos de Vila Maria capricha no segundo ensaio técnico

Em franca evolução, Unidos de Vila Maria capricha no segundo ensaio técnico

O período de ensaios técnicos, já na reta final do ciclo de uma escola de samba, costuma ser marcado pela evolução das agremiações. Na noite de quarta-feira, a Unidos de Vila Maria mostrou que está no caminho certo em diversos quesitos, crescendo de rendimento no segundo ensaio técnico da instituição. Com boa parte dos itens julgáveis em grande noite, justamente o que mais identifica a apresentação teve percalços bastante sensíveis. Cantando o bairro onde está localizada a escola, os componentes defenderão o samba “Vila Maria, Minha Origem, Minha Essência, Minha História! Fonte de Amor Muito Além do Carnaval”.

Harmonia

Se a harmonia teve percalços no primeiro ensaio técnico, o segundo viu uma evolução acentuadíssima da escola no quesito. Sem irregularidade no canto, é justíssimo dizer que o samba “pegou na veia” e que a escola abraçou a canção. Quando a reportagem observava a apresentação da comissão de frente, o canto dos setores subsequentes já impressionava.

Chamou atenção o fato de staffs ligados à Harmonia da agremiação, ainda assim, pedirem mais força para os componentes. Por diversas vezes, integrantes que ficam nas laterais da avenida instigavam os componentes a soltar ainda mais a voz.

Vale destacar, também, a resposta da comunidade aos apagões propostos pela “Cadência da Vila”: quando aconteciam, os componentes cantavam bastante forte.

Mestre Moleza destacou que, agora, a bateria da azul e verde da Zona Norte quer ser ainda mais harmônica com o canto da escola: “Já temos essas bossas, o que iremos fazer está aí. Agora, estamos fazendo o entrosamento com o povo, com a escola, deixando o povo cantar, sentir, essa mesma energia que estamos sentindo a gente está transferindo para todos os componentes. Por isso, estamos entusiasmados e até mesmo ansiosos para o dia. O negócio está crescente, diferente do carnaval anterior, com a pandemia, que estava com o gás, tesão, de repente o cancelamento, agora está crescente, chega na hora e estamos vendo que está melhorando, isso nos deixa felizes”, afirmou.

O canto forte dos componentes foi elogiado por Julio Cesar Alves, o Queijo, diretor de carnaval da agremiação: “Hoje eu gostei muito do canto da escola, da compactação da escola. Acho que a gente está em um grande momento, e vamos dar muitas novidades aí”, destacou.

Samba-Enredo

O elogiado samba-enredo da Unidos de Vila Maria teve algumas peculiaridades antes do desfile começar. A equipe de som fez alguns arranjos novos na arrancada e durante o ensaio técnico. Já Wander Pires, intérprete da agremiação, falou em tom baixo enquanto nenhuma música (samba-enredo ou sambas-exaltações) era tocada. Quando a canção começava, porém, ele soltava a conhecidíssima voz, sempre afinada e com diversos cacos para chamar os componentes.

A harmonia correspondeu quase que à perfeição no ensaio, e é claro que a canção executada, de muita qualidade, tem muito mérito nisso. O carro de som idem. A “Cadência da Vila”, cada vez mais afiada com mestre Moleza, voltou a marcar algumas partes da canção com diversas bossas e paradinhas.

Vale destacar a força do canto da escola como um todo no verso “Bem mais que um caso de amor” – frase que também está presente no hino oficial da agremiação.

A canção, por sinal, foi bastante elogiada por Wander Pires: “Ponto alto é o samba, né?! No ensaio foi o samba, a euforia do povo, energia, alegria do povo, maravilhosa, coisa boa, é muito legal, e que você se contagia com a alegria do povo. Com um samba desse é muito maravilhoso”, destacou.

A integração do carro de som com a “Cadência da Vila” também mereceu elogios do intérprete: “Entrosamento com a bateria é isso que você viu, Mestre Moleza é muito fácil de se trabalhar, a Cadência é uma bateria fácil de trabalhar. Está dando tudo certo, só temos que agradecer, ficar feliz por tudo que tem acontecido. Está tudo bem, o segundo ensaio melhor do que o primeiro, e o terceiro vai ser melhor. Para ajeitar, só coisas bobas mesmo: o tom e a afinação, vamos acertando sempre”, pontuou.

Correção também foi um tema citado por Mestre Moleza: “O que corrigimos é a questão do andamento, tocar no mesmo pulso por mais tempo durante a avenida inteira. É aquilo do desgaste, hoje sentimos uma pressão maior durante toda a pista. No ensaio anterior, sentia que tinha aquilo, mas tinha hora que via o ritmista cansado, abafado. Hoje, estava com um semblante mais alegre. Isso demonstra que estavam melhores preparados”, pontuou.

Exaltar o próprio bairro é motivo de muito orgulho, de acordo com Queijo: “Na verdade, a comunidade entendeu que é a própria história dela. Em cada pedaço do enredo ela vai se identificando com cada momento que está acontecendo. É muito fácil você tocar no coração de quem é Vila Maria, e aquele que está chegando também consegue entender essa magia”, resumiu.

Comissão de Frente

Os integrantes, que já tinham se destacado no primeiro ensaio técnico, tiveram exibição ainda mais arrebatadora, com a coreografia bastante expressiva e pouco mais curta que as outras coirmãs. Boa parte deles ganharam jaquetas nas cores da agremiação – verde, azul e branca. Os carrinhos de supermercado foram substituídos por triciclos, que comportam dois dos bailarinos.

O que não mudou foi a simpatia, leveza e expressão de cada um deles ao coreografar. Se quatro bailarinos ficavam nos triciclos, os demais se exibiam no chão, sem a ajuda de tripé algum, tal qual nos saudosos carnavais dos anos 1990.

Vale destacar que a comissão de frente teve uma leve hesitação para entrar na avenida, levando quase uma passada inteira do samba para dar os primeiros passos na passarela. Também foram ouvidas cobranças entre os integrantes, mostrando comprometimento com questões ligadas à apresentação.

Em determinado momento, a comissão de frente abre um espaço bastante razoável para o casal de mestre-sala e porta-bandeira, que aparece logo depois dos bailarinos. Lais Moreira, porta-bandeira da escola, pontuou que haverá um ajuste em tal ato: “São duas situações. Em um momento, eles realmente se distanciam, mas as bicicletas voltam para o lugar – então o espaço acaba ficando mais ajustado. E tem a hora que eles avançam – e, aí, vamos entrar no ajuste para consertar o nosso tempo. É natural, ensaio técnico é para isso: errar e consertar para que, no dia, saia perfeito”, destacou.

Edgar Carobina, mestre-sala, frisou que tal espaço também o deixou surpreso: “Ter a noção do espaço ajuda bastante, é sempre bacana. Essa situação foi uma novidade para a gente hoje, mas é bom que esses empecilhos aconteçam para que, no desfile, se realmente acontecer, a gente já saiba como lidar”, comentou.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

O desafio para Edgar e Lais era bastante grande no ensaio de quarta-feira. A noite paulistana começou com forte ventania, e a região do Anhembi, que tradicionalmente recebe rajadas ainda mais intensas, era hostil. Dos casais mais premiados de mestre-sala e porta-bandeira, entretanto, mais uma vez impressionaram os presentes.

Para evitar quaisquer problemas, Lais, por diversas vezes, segurou o pavilhão com a mão. Ela mesma explica o motivo pelo qual tomou tal atitude: “O vento estava muito forte. Eu preferi segurar pra evitar fazer força no braço. O controle do pavilhão eu tenho, independentemente do vento, já que estamos há muito tempo fazendo isso. Porém, para evitar desgaste, já que falta tão pouco para o desfile, fiz isso. Mas, no fim, foi tudo fluido no ensaio e foi muito positivo. Comparado com o primeiro, foi muito bom”, conclui.

O vento também foi tema de palavras de Edgar após o ensaio: “Hoje foi um ensaio foi bem produtivo em relação ao primeiro. Ainda temos alguns pontos para acertar, mas o vento é embaçado no Anhembi, principalmente no Verão, quando ele chega muito forte. Ainda tem o próximo para podermos melhorar e o desfile, para executar tudo”, relembrou.

No que foi observado pela reportagem, Edgar, em um único momento, precisou de uma segunda força para desfraldar o pavilhão verde-e-azul. Como tal momento aconteceu bem no meio da Arquibancada Monumental, tal situação não acarretaria desconto na pontuação. A apresentação para as cabines, por sinal, foi repleta de giros no sentido anti-horário e com graça, leveza e sorrisos – assim como ao interagir com o público, que os aplaudia com vigor.

Além da dança, o casal, em algumas poucas oportunidades, fazia uma coreografia especial no refrão do meio do samba-enredo. Também vale destacar a apresentação para a segunda cabine de jurados, extremamente sincronizada em condições bastante adversas para ambos.

No fim das contas, o ensaio teve resultado satisfatório, na visão de Lais: “O primeiro ensaio era para sentir a energia da pista, para ver como ela iria nos receber. Temos que ter muito respeito por esse solo. Cada ano é um desafio. E, agora, já adaptados, com todos os ensaios técnicos rolando, os ensaios específicos de casais… ficamos cada vez mais seguros para que a gente passe bem”, comentou. Edgar aproveitou para resumir o sentimento de maneira simples de se entender: “Hoje foi bem de boa o ensaio, foi bom pra caramba. Temos alguns ajustes, mas vamos que vamos para o arrebento”, disse.

Evolução

Curiosamente, a escola que tanto evoluiu de um ensaio técnico para o outro pecou em alguns momentos justamente no quesito que tem justamente esse nome. Logo no começo do ensaio, quando o abre-alas passou pelo recuo da bateria, a escola ficou parada por cerca de três minutos.

Outro momento no qual o quesito mostrou-se bastante desafiador foi no recuo da bateria. A “Cadência da Vila” entrou no espaço já com cerca de metade do elemento à frente permitindo a passagem e da maneira mais simples possível, fazendo o giro à direita. A ala seguinte, de passistas, demorou para preencher o espaço. Depois das passistas, os componentes seguintes demoraram alguns segundos consideráveis para evoluir.

O momento da entrada dos ritmistas no recuo, tenso por natureza, pode ser traduzido em dois momentos flagrados pela reportagem. No primeiro deles, até mesmo o presidente da agremiação, Adílson José, conversava com uma pessoa com camisa da harmonia. Outro staff que representava o mesmo quesito, em conversa com outra pessoa do mesmo segmento, resignou-se: “Demorou pra c…”

Outros destaques

– Tão logo a reportagem entrou na passarela, um staff comentou com o presidente da escola, Adílson José, sobre o número de componentes que compareceram ao ensaio técnico. Ele sorriu e disse “Hoje veio grande”.

– Com roupas bastante leves, a ala das baianas cantava o samba e girava bastante, com diversos sorrisos.

– Ao longo de todo o desfile, componentes evoluíam com bexigas e fitas misturadas em cada uma das alas. Não se sabe se elas indicavam adereços diferentes no dia do desfile.

– No começo do ensaio, havia equilíbrio entre alas coreografadas e soltas; conforme a escola entrava na passarela, mais alas sem coreografias apareciam.

– A “Cadência da Vila” acentuou o número de bossas a partir dos últimos setores das arquibancadas do Anhembi.

– Vale destacar, também, o volume apresentado pela “Cadência da Vila”. Era possível ouvir os ritmistas de longe.

– Se não aparentam ser os maiores carros alegóricos do Grupo Especial, é importante pontuar que poucas escolas trazem, na média, quatro carros tão avantajados como a Unidos de Vila Maria.

– Prestes a comemorar uma marca importante à frente dos ritmistas, mestre Moleza gostou do resultado do segundo ensaio técnico: “Saio muito feliz desse ensaio. O primeiro foi 07 de janeiro, existia aquela preocupação do pessoal estar voltando de férias, Natal, Ano Novo. Sentimos um pouco do desgaste físico por ter voltado das festas e não ter tido os ensaios para nos preparar. Daí, passou aquele ensaio e analisamos todos os vídeos e áudios: independente dos elogios que recebemos, temos nossa autocrítica. Ouvindo sabemos onde podemos melhorar, a nossa disputa é com nós mesmos. Batalhando, ensaio na rua, toda quarta-feira, maçante, principalmente a coisa do desgaste, que a gente toca de fantasia no dia, e ensaiamos de bermuda, chinelo. Precisamos nos preparar muito para isso, até pelo fato da previsão ser de muito calor, com a fantasia de carnaval. Mas saio muito feliz. Lógico que preciso analisar vídeos, áudios, sou muito crítico com isso, sou um estudioso de bateria. A primeira impressão é que foi muito legal, arranjos bacanas, tem um nível de dificuldade, com excelência, uma musicalidade, e parece que a galera está gostando. Você vê a arquibancada com um frisson, principalmente no refrão do meio que ‘é o meu lugar toca samba de primeira’, a expectativa é pegar muito no dia com Anhembi lotado. Estamos trabalhando para isso, não dá para prever, mas fico imaginando, sonhando, de fazer o que fizemos aqui, e a galera cair dentro, sairmos mais uma vez consagrados pelo povo, o que é importante. Nos últimos anos somos consagrados com as notas, às vezes com o povo, e alguns prêmios inclusive de vocês. Esse ano queremos ser unânimes, entrar para comemorar nossos 10 anos de Cadência da Vila e nossa história”, pontuou.

– Moleza, por sinal, foi bastante elogiado por Queijo: “A escola veio mostrando a garra dela. Veio cantando muito, e o andamento a gente conseguiu compactar melhor. O desenvolvimento da bateria do Moleza é impecável. A gente falar de Mestre Moleza é difícil. Mas acho que está mostrando um pouco da garra de Vila Maria, mostrando o que é ser Vila Maria nesse grande momento”, elogiou.

– Logo após falar de novidades, Queijo deixou no ar que a escola ainda pode trazer surpresas: “Sempre falta algo. A gente vai acertando. Estamos no caminho, e falta aquela pincelada para o último ensaio. Se Deus quiser, no dia 17 a gente vai mostrar o porquê de a gente estar ensaiando, conversando bastante, podendo acertar dentro de casa, assistindo bastante vocês. A análise de vocês é muito importante para nós do Carnaval. Só falta esse último detalhe, que fica como surpresa”, destacou.

Colaboraram Gustavo Lima e Lucas Sampaio

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