
“Neguinho da Beija-Flor – Musical” teve seu ensaio geral no Teatro João Caetano na noite da última quarta-feira, véspera da estreia marcada para esta quinta-feira. Assinado pelo diretor Luiz Antonio Pilar, com texto de Aydano André Motta, o musical percorre mais de cinco décadas da vida e da obra de Neguinho da Beija-Flor, sambista que emprestou a voz a quinze títulos da agremiação no carnaval carioca.
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Logo nos primeiros minutos, o espetáculo deixa entrever a trama que vai sustentá-lo até o fim: religiosidade, presença das mulheres e samba. Três fios que se entrelaçam na trajetória de Neguinho da Beija-Flor, e conduzem o público, cena a cena, pela vida e obra do sambista.
O espetáculo abre com “Laíla de Todos os Santos, Laíla de Todos os Sambas”, samba-enredo que marcou a despedida de Neguinho da avenida após 50 anos à frente do microfone da Beija-Flor, no desfile que homenageou Laíla; ao lado de Joãozinho Trinta e do próprio Neguinho. O enredo se sagrou campeão do Carnaval 2025, com Laíla homenageado, Joãozinho Trinta reverenciado pelo retorno da escultura do Cristo censurado do desfile “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia” (1989), e Neguinho como voz.

A escolha é bem-sucedida: atualiza o momento final da carreira de Neguinho celebrando-o como artista forjado dentro da escola de samba, cuja história se confunde com a da própria Beija-Flor; algo que reaparece nos encontros entre Neguinho, Laíla, Joãozinho Trinta e Anísio Abraão David ao longo da trama.
Daí o musical dá uma dobra no tempo. Nascido Luiz Antônio Feliciano Marcondes em Vila Isabel, Neguinho foi criado na Baixada Fluminense, onde ganhou o apelido de Neguinho da Vala. É nessa origem que aparece a primeira mulher da tríade: a mãe, responsável por sustentar a casa, financeira e afetivamente, enquanto o pai, trompetista, boêmio e amigo de Jamelão, vivia à parte. Ela se opõe, a princípio, ao samba do filho; depois se torna, ao lado da irmã de Neguinho, uma de suas maiores apoiadoras.
Essa presença feminina atravessa todo o espetáculo: depois de mãe e irmã, vêm as companheiras e a filha Ângela, batizada com o nome de um de seus maiores sucessos. Também a Ialorixá surge, desde o início, apontando o caminho do samba como uma caminhada confirmada pela ancestralidade. Se o samba forja Neguinho tecnicamente, são essas mulheres que sustentam sua trajetória nos momentos decisivos como enfrentamento a um câncer.

A religiosidade ganha centralidade na cena do câncer de Neguinho: o ebó feito com banho de pipoca, ritual de cura espiritual dedicado ao Orixá Obaluaê. Um dos momentos mais emocionantes do musical. A fé também comparece no cenário em guias e o cordão de ouro que carrega a imagem de um Beija-Flor.
Antes de se firmar como compositor e intérprete oficial da Beija-Flor, Neguinho colhe uma série de recusas na ala de compositores do Salgueiro, Império, Mangueira e Portela. Sequência que brinda o público com os sambas de 1969: o campeão do Salgueiro “Bahia de Todos os Deuses” e o “Heróis da Liberdade” do Império Serrano, além dos sambas-exaltação de Mangueira e Portela. Até que é levado para a Beija-Flor de Nilópolis e assume o microfone principal.
Nesse momento, o espetáculo trama a relação entre Neguinho, Joãozinho Trinta e Laíla, o mesmo trio da abertura, agora em formação, no período do tricampeonato 1976, 1977 e 1978, com uma cena carnavalizada ao som de “Sonhar com Rei dá Leão”, do Carnaval de 1976, primeiro título da Beija-Flor. Central nessa fase é Anísio Abrahão David, patrono da escola, que acolhe Neguinho após a trágica morte de Bira Quininho. À frente do microfone da agremiação e em parceria com Laíla e Joãozinho Trinta, acontece um dos momentos mais divertidos: a cena em que o carnavalesco pede a Neguinho que escreva o samba-exaltação da Beija-Flor.

O espetáculo ainda reserva espaço a marcos pessoais: o casamento na própria Marquês de Sapucaí, e os sucessos fora dos desfiles: “Ângela”, parceria de Serginho Meriti e Carlos Alexandre, muito cantado pela plateia, “Domingo eu vou ao Maracanã”, canção do próprio Neguinho.
Assim como abre, o espetáculo fecha com o samba de Laíla: um retorno que reforça seu caráter circular e reafirma Neguinho da Beija-Flor como presença viva, ícone do carnaval e uma das maiores referências do samba. Depois de cinquenta anos de trajetória, o musical leva essa figura aos palcos e conta sua história de forma envolvente, com belíssimas atuações e um figurino primoroso assinado pela porta-bandeira Rute Alves; um espetáculo que faz o público cantar, relembrar os sucessos e conhecer de perto a vida e a obra desse grande personagem da cultura popular brasileira.
SERVIÇO
Temporada: 10/09 a 01/11 de 2026
Dias e horários: Quinta, sexta e sábado, às 19h. Domingo, às 17h
Local: Teatro João Caetano (Praça Tiradentes, s/n – Centro – Rio)
Ingressos:
Plateia — R$ 80 (inteira) | R$ 40 (meia-entrada)
Balcão Nobre — R$ 70 (inteira) | R$ 35 (meia-entrada)
Balcão Simples — R$ 30 (inteira) | R$ 15 (meia-entrada)
Vendas online: funarj.eleventickets.com
Bilheteria do teatro: Terça a sexta, das 13h às 18h. Sábados, das 15h às 18h
Classificação etária: 14 anos
Duração: 110 minutos
Instagram do espetáculo: @oneguinhodabeijaflormusical









