Por Gustavo Lima e Will Ferreira

Tipicamente paulistana, a noite de sexta-feira foi agitada no Limão, bairro da Zona Norte de São Paulo. Com garoa e vento frio, a Praça Canaã foi a concentração da bateria da Mocidade Alegre, que fez ensaio de rua pelas vias da localidade. Defendendo o enredo “Brasiléia Desvairada: A busca de Mário de Andrade por um país”, concebido por Jorge Silveira e que será apresentado no Anhembi no sábado, 10 de fevereiro, no terceiro horário. A Morada do Samba, como a agremiação é popularmente chamada, volta a ensaiar no domingo.

Diretor de carnaval da Mocidade Alegre, Junior Dentista comentou que o projeto está em bom andamento. “O ensaio da Mocidade Alegre é um diferencial que a gente tem. Não é um evento, é um calendário da escola. Toda sexta-feira tem – até o carnaval. Ali eu vou fazendo por etapas o trabalho. Primeiro eu valorizo o canto, depois o andamento, coreografia e espaçamento. Agora, estou ajustando o andamento e o espaçamento entre as alas para chegar no ensaio técnico tudo certo”, destacou.

Após reestruturação da escola, que não conta mais com diretores de Harmonia, a Morada do Samba passou a trabalhar com lideranças para o quesito. Um deles é Roberto Zangado, há 27 anos na instituição. “A Evolução foi muito boa. Nós tivemos um andamento constante. Não teve parada, buracos e isso já é uma evolução muito grande para nós. Foi constante no caminhar, não teve nem mais e nem menos. Foi sempre na mesma pegada. O canto também está muito bom. Podemos dizer que está no meio do caminho, já. Lógico que precisamos fazer acertos, problemas de letra que a galera não pegou. Muita gente ainda está chegando, mas para agora está bom. É um negócio que, na verdade, nunca vai estar bom. O nível de exigência aqui é um pouco alto. A gente quer sempre melhorar, mas hoje na rua sem o carro de som, deu para ver a escola cantando”, pontuou.

Aprovando o evento, Solange Cruz Bichara Rezende, presidente da escola, pontuou que a Mocidade da Alegre está em ótimo momento. “Ensaio é para isso: fazer correções. Hoje, a gente está fazendo o trabalho de canto. Por isso, semana sim e outra não a presença do carro de som. É importante ver a comunidade cantar, ver o som com a bateria. É importante a gente saber que, se o som falhar lá no dia, como é que a gente vai. O primeiro ensaio foi sem carro de som e a gente quase fez todos os carros alegóricos, porque lotou muito. A gente quer ver é realmente o canto, a desenvoltura do pessoal, essa coisa de sair um pouco da fileira e ter um pouco mais de descontração. Como não existe vitória sem treino, bora treinar! A escola já está muito condicionada a essa Evolução. O samba, diferente dos outros, a gente não criou nada. O próprio levante de braço (no refrão do meio), foram eles. A escola falou: ‘poxa, vamos deixar livre’. Aconteceu espontaneamente e a gente deixou”, relembrou.

Vale também destacar o longo percurso do ensaio técnico. Iniciado na esquina das ruas Rocha Lima com a Madalena Madureira, a Morada do Samba desceu a segunda via até a avenida Engenheiro Caetano Álvares, importante logradouro da Zona Norte Paulistana. O trajeto, com cerca de um quilômetro e meio, foi encerrado na quadra da escola, na rua Samaritá – terceira e última via do cortejo. Vale pontuar que integrantes da própria agremiação faziam o isolamento momentâneo dos locais em que os componentes passavam, garantindo segurança e organização a todos os envolvidos.

Comissão de frente

Com camisetas destacando o segmento, os componentes executaram coreografias envolvendo pulos e acrobacias até a saída da avenida Engenheiro Caetano Álvares. Ao chegar na rua Samaritá, elas ocuparam o espaço e fizeram danças mais contidas, sem grandes saltos ou movimentos bruscos, por conta da largura diminuta da via. Um dos integrantes, em determinado momento, precisou deixar o grupo por conta de um machucado; mas, ainda mancando, voltou para o segmento no final do ensaio.

Mestre-Sala e Porta-Bandeira

Diego Motta e Natália Lago venceram o desafio de encarar as irregulares ruas da Zona Norte paulistana. Com movimentos contidos a partir da avenida Engenheiro Caetano Álvares (que tinha uma faixa para circulação dos veículos, diminuindo o espaço para o bailado), o casal teve atuação segura, com ótimos giros na rua Madalena Pereira e coreografias já ligadas a versos do samba. Natália, inclusive, estava com o saiote tradicional da fantasia do segmento – tal qual a segunda porta-bandeira da Morada do Samba; ambos estavam com cintas no corpo para treinar troncos e pernas ao peso do figurino. Vale destacar, também, a presença dos guardiões da dupla, que cantaram forte a canção durante todo o evento.

Harmonia

Conhecida popularmente como “cabeça”, os primeiros setores da Mocidade Alegre surpreenderam com um canto bastante forte e alto. Com até componentes da comissão de frente cantando, as primeiras alas tinham ótima presença no quesito – que, inclusive, se mantinha até a ala das baianas. A partir do tradicionalíssimo grupamento, porém, o canto ficou irregular, com componentes dentro das próprias alas tendo atuação díspare ao cantar. Também vale pontuar que, nos primeiros momentos, os harmonias cobravam os desfilantes, algo que não era visto com tanta frequência no final da apresentação.

Aqui, é importante pontuar um detalhe bastante importante: a Mocidade Alegre alterna a utilização do carro de som em ensaios – e, no dia 08, foi a vez da agremiação não utilizar o veículo, o que, obviamente, impacta no desempenho do samba. Apesar do apontamento, representantes da escola mostraram-se satisfeitos com o que viram. “A ausência do carro de som pesa bastante, porque ali a gente passa a responsabilidade de eles entenderem que, se o canto falhar, eles que devem continuar. O percurso é longo, o casal de saiote, baianas de saiote… é uma questão de condicionamento físico. Porque a gente sabe que quando coloca a fantasia e, dependendo de como o tempo estiver, baixa a adrenalina e sobre aquele calor. Então o nosso treino é para isso”, pontuou Solange.

Junior sintetizou a força do canto da Morada com uma informação sobre os bastidores da escola. “Graças a Deus a escola não tem mais fantasia para vender” Como o povo está chegando, eu estou testando o canto no ensaio de rua – por isso a bateria está voltando no meio para compactar a escola e valorizar o canto. Claro que tem algumas pessoas chegando ainda, mas está muito satisfatório”, comemorou.

Evolução

Grande destaque do ensaio de rua, a escola manteve uma impressionante passada inteiramente uniforme do começo ao fim do trajeto. Sem atropelos e nem momentos de queda no ritmo, a Mocidade Alegre mostrou-se extremamente organizada, passando longe de embolar alas e com componentes que mais parecem veteranos de avenida, ajudando uns aos outros em diversos momentos. Um momento inusitado aconteceu já no final do caminho, na rua Samaritá: um carro de bombeiros com sirene ligada passou em alta velocidade, obrigando todos a irem para a direita. Tão logo o veículo passou, a agremiação inteira ocupou seus lugares imediatamente, em um movimento nada ensaiado e que foi a confirmação de um trabalho perfeito realizado pela Morada do Samba no quesito.

Na visão de Roberto, o trabalho realizado há quase duas décadas ajudou a escola nesse sentido. “Na quadra, a gente vai trabalhar a parte de canto e pegar esse ritmo. Na rua, a gente faz um pré-desfile. Aqui, principalmente na Madalena Madureira, a gente simula um desfile mesmo, com recuo, parada e temos noção do que vai ser na avenida. É uma coisa que a Mocidade faz há mais de 15 anos. Por isso que é muito importante”, ratificou.

Samba

Sem carro de som, muitos devem imaginar que o rendimento da canção foi muito prejudicado. Não para a atual campeã do carnaval paulistano. Cantado fortemente pelos primeiros setores da escola, a canção teve ótima condução ao longo de todo o trajeto por parte da Ritmo Puro, bateria da Mocidade Alegre, comandada por mestre Sombra desde 1995 de maneira solo. Os ritmistas, por sinal, executaram algumas paradinhas (uma no refrão do meio, outra na segunda estrofe da canção) que foram muito bem recebida pelos demais componentes, que aumentavam o volume do canto em tais momentos.

Outros destaques

Na corte da bateria, reinou absoluta Aline de Oliveira, há onze anos no posto de rainha. Cria da casa, ela foi ritmista da agremiação, aprendendo a tocar tamborim e surdo de terceira antes de vir à frente de quem faz a Mocidade Alegre pulsar.