Por Gustavo Lima e fotos de Fábio Martins

O feriado foi marcado pelo aniversário de São Paulo, mas quem deu o tom no ensaio técnico do Acadêmicos do Tatuapé foi a Mata de São João, cidade da Bahia e enredo da escola para o Carnaval 2024. O canto da Zona Leste prevaleceu aos demais quesitos e foi o grande destaque no treino. Aliás, um grande teste. Todos os quesitos se mostraram bem entrosados. Também vale destacar a comissão de frente e o conjunto musical, liderado pelo intérprete Celsinho Mody. O cantor ‘pegada de africano’ interagiu com a arquibancada, especialmente no setor B (monumental) e o público foi ao delírio, pois logo em seguida veio um apagão da bateria. Grande momento do ensaio. A agremiação ainda terá outro ensaio, e será daqui a três dias, no próximo domingo.

O enredo do Tatuapé é intitulado como “Uma Joia da Bahia – Símbolo de Preservação! Entre Contos e Sabores, Viva a Mata de São João!”, assinado pelo carnavalesco Wagner Santos. O presidente Eduardo Santos fez uma avaliação. “Foi um ensaio muito bom. A gente conseguiu praticar tudo aquilo que ensaiamos na quadra, rua e ensaios específicos. Graças a Deus foi tudo bem e no próximo domingo vai ser melhor ainda”, afirmou.

Sobre o pequeno intervalo de ensaios no Anhembi, o mandatário contou que realmente é uma questão estratégica. “A gente sempre prefere fazer os nossos ensaios no Anhembi bem perto do desfile. Queríamos ter feito três, mas tivemos problemas de datas e as que estavam disponíveis nós achamos que não valia muito a pena por causa do horário e do dia. Resolvemos fazer dois bem perto do desfile, porque aí a gente consegue ver tudo aquilo que estamos praticando na rua, nossa evolução e na quadra, esse canto que nós temos. É para ver se tudo isso está funcionando e se aqui vai sair do jeito que a gente projeta e ensaia lá. Por isso nós preferimos sempre fazer ensaios técnicos sempre perto do desfile oficial”, declarou.

Comissão de frente

Uma inovação vem aí na ala comandada por Leonardo Helmer. Costumeiramente, o Tatuapé não leva tripés em sua comissão. Somente faz a sua apresentação com os bailarinos. Porém, desta vez, vai mudar. Neste ensaio, a escola levou um grande tripé. Mesmo embalado com sacos plásticos, aparenta ser uma escultura, mas mesmo assim os componentes ensaiaram de maneira satisfatória.

A comissão tem uma coreografia que é bastante baiana de fato. Tem capoeira, religiosidade e tambores. Os integrantes da ala dançavam na pista na letra do samba. Há de destacar os versos “Senhora dos navegantes, o barco já vai pro mar/e lá do mar Iemanjá me chamou”. Nesta parte, uma mulher era erguida para o alto e os demais louvavam. Aparentemente, representa Iemanjá. A coreografia tinha sua finalização com todos indo para o elemento alegórico e fazendo uma pose de estátua, sendo cada componente diferente dos demais.

Mestre-sala e Porta-bandeira

Diego e Jussara, prata da casa, estão há muito tempo juntos. Isso já é o suficiente para ambos entrarem no automático e entenderem muito bem um ao outro. Realmente foi isso o que aconteceu. Alta sincronia nos movimentos, giros e finalizações. A dupla é conhecida por sempre caprichar nas coreografias dentro do samba, mas neste ensaio se observou uma prioridade às questões citadas acima. O casal falou sobre mudanças na pista do Anhembi:

“A gente trabalha para qualquer tipo de situação, mas, falando desse novo tipo de Anhembi, para mim, achei que não ficou muito válido para o quesito de mestre-sala e porta-bandeira porque o que nós tínhamos para tapar correntes de vento, como as antigas cabines, não existem mais. Mesmo com qualquer obstáculo na pista, a corrente de vento bate. Não que seja impossível de fazer, mas com um pouquinho mais de dificuldade. Mas jogador treina para qualquer tipo de situação. Estamos vindo para qualquer tipo de situação, chuva, vento e pista. O Casal Foguinho está vindo aí para superar as expectativas”, comentou o mestre-sala.

“Concordo com tudo que ele falou e tenho um adendo: com esse novo formato de módulos, eles não estão no mesmo formato e nem na mesma altura. Isso, de certa forma, interfere no nosso trabalho. Precisamos trabalhar até o último jurado – e nós tivemos o privilégio de já saber que ele virá em cima da arquibancada, ao contrário de outros casais. Daqui para frente, eles vão ter que trabalhar em outro lugar. Agora, vamos assistir, ver o que a gente pode mudar (já que a gente sempre acha alguma coisa, pra gente nunca está bom) e trabalhar para fazer um bom desfile para a nossa escola”, completou a porta-bandeira.

Harmonia

Como já era esperado, o Tatuapé deu um espetáculo no canto. A comunidade se empenha muito na harmonia. Foi uma empolgação do início ao fim, em todas as partes do samba. O trabalho dos harmonias no incentivo é especial. Se percebe tudo isso no refrão principal, onde é uma grande explosão de melodia. É comprovado ainda mais quando a bateria “Qualidade Especial”, de mestre Léo Cupim, executa o apagão nessa mesma estrofe. Sem dúvidas, o ponto alto da escola no treino.

Evolução

Se destaca pelos componentes dançando de um lado para o outro entre as fileiras. Não observou nenhuma situação adversa e nenhum buraco. Dentro do samba, os desfilantes ficavam bastante soltos, sem muita coreografia. Sendo assim, a responsabilidade é menor e tudo fica leve.

Só um detalhe que vale ressaltar: Entre o tripé da comissão de frente e o casal de mestre-sala e porta-bandeira, houve alguns espaços consideráveis em determinados momentos, sobretudo em frente à cabine do recuo de bateria. Não se formou buraco, mas vale a escola se atentar, pois pode virar um empecilho.

Samba-enredo

A ala musical do Tatuapé é uma das melhores do carnaval paulistano, ou talvez a melhor. O intérprete Celsinho Mody imprimindo a sua energia e brincando com a arquibancada, somado ao fato de ser totalmente identificado com a escola, só pode ser algo satisfatório. As vozes femininas são incríveis, em especial da cantora Keila Regina, que chegou para compor o carro de som esse ano e já está rendendo bastante. O samba-enredo se destaca pelos refrões, onde é fácil de cantar e dá para pegar já na primeira passagem. Inclusive, são as partes mais cantadas.

O intéprete Celsinho Mody exaltou o samba e o canto da escola. “Senti que o canto cresceu muito, de fato. Foi muito bom, um ensaio muito produtivo. A gente usa muito o ensaio técnico, o primeiro em especial, para sentir o canto da escola, a harmonia, ver o andamento das alas e etc. É um ensaio muito específico, mesmo – para olharmos, tecnicamente, o que acontece. No carro de som, com as caixas de som, ao lado da bateria, ouvi a escola cantando todas as frases do samba. De onde eu estava, acredito que alcançamos o êxito neste primeiro ensaio, mas foi só o primeiro. Temos muito mais para somar e apresentar, com muito respeito aos jurados e às mudanças que estão acontecendo nos quesitos (estamos muito atentos a isso) e ao público de São Paulo, com um tema bem gostoso e um samba para dançar, e para agradar os jurados, trazer as notas dez e ganhar o carnaval”, declarou.

O cantor falou sobre o intervalo de ensaios e exaltou a sua ala musical. “Eu já me preparo para esses dois ensaios desde o ano anterior. É muito apertado, no meio dos dois ensaios temos ensaios de quadra e shows, então tem que tomar um cuidado muito grande para preservar a voz. Sabemos que São Paulo é mais fria, e faz diferença cantar em uma temperatura mais baixa, com muito vento. Mas estamos preparados: é um ano direto de trabalho (já que eu não parei desde o carnaval passado), sempre com fonoaudiólogo, fazendo aulas de canto, cuidando da voz, que é o diamante da minha vida… e com a equipe que eu tenho. Talvez eu nem precise cantar!”, finalizou.

Outros destaques

A bateria “Qualidade Especial”, de mestre Léo Cupim, estreou com o pé direito no Anhembi junto à sua comunidade. Foi a primeira vez que o jovem músico pisou na passarela como mestre oficial.

Léo falou sobre a sensação e avaliou o ensaio. “É uma emoção diferente, com certeza. A ansiedade e o frio na barriga bateram a semana inteira, mas estamos com um trabalho consolidado desde o mestre Higor, e demos andamento nesse trabalho. Confio muito na diretoria e nos ritmistas, e fizemos um bom ensaio. Temos algumas coisas para corrigir, mas estamos no caminho certo”, disse.

O mestre também avaliou o ensaio. “De fato é um intervalo pequeno, e teremos um ensaio, no sábado, para corrigir. Mas estamos vindo de bons ensaios de quadra e de rua para termos uma noção legal. É só dar uma lapidada no próximo sábado para arrebentar na avenida domingo”, finalizou

Falando em bateria, a rainha Muriel Quixaba marcou presença. Ao lado dela estavam a bailarina Talita Guastelli e a madrinha Carmen Reis, que veio diretamente da Bahia.

Como o destaque é o canto, as baianas também participaram forte para isso. Sorridentes e felizes, as mães do samba da agremiação participaram ativamente do ensaio.