
O ‘Quilombo do Samba’ esteve presente no HZ Estudio, em Curicica, Rio de Janeiro, para realizar a gravação oficial do samba que vai embalar o enredo “Tia Ciata: Mãe do samba”, do carnavalesco Renato Lage. A escola será a terceira a passar pela Marquês de Sapucaí no domingo, 7 de fevereiro. Depois do grande sucesso do samba “Lonã Ifá-Lukumi” em 2026, a caneta segue sob responsabilidade de Claudio Russo, Luiz Antônio Simas e Gusttavo Clarão. O time de pesquisadores-compositores elaborou a obra sob encomenda. Luiz Antônio Simas destacou o desafio de construir uma obra diferente da apresentada pelo trio no carnaval anterior e compartilhou com o CARNAVALESCO que a principal emoção está na própria homenageada e na possibilidade de contar sua história por meio da música. Para ele, a homenagem a Tia Ciata representa a oportunidade de dar protagonismo a uma personagem fundamental na história do samba carioca. Embora tenha sido citada em outros sambas e enredos, ela ainda não havia ocupado esse lugar de destaque no Grupo Especial. * CONHEÇA AQUI O SAMBA DO TUIUTI
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“Eu acho que, primeiro, a importância é fazer um samba para um enredo relevante. Uma personagem como Tia Ciata, uma protagonista na história do samba do Rio de Janeiro, que curiosamente nunca tinha sido protagonista no Grupo Especial. Foi citada em vários sambas e enredos, mas nunca com esse protagonismo”, afirmou.
Já Claudio Russo relaciona a trajetória de Tia Ciata à resistência da população negra e pobre do Rio de Janeiro. A chegada dos baianos à capital e a movimentação cultural na Pequena África contribuíram para a formação do samba e de tradições gastronômicas que permanecem vivas na cidade.
“Esse samba representa que o povo do samba venceu. Tia Ciata e tudo em torno dela, os baianos que vieram para o Rio de Janeiro, aquela resistência na Pequena África. Eles começaram esse processo de fazer do samba o que o samba é hoje, de fazer da cultura gastronômica da cidade o que ela é hoje”, declarou.

O compositor lembrou ainda que essa construção ocorreu em meio às reformas urbanas que pretendiam afastar a população negra e pobre do Centro do Rio. Para ele, a permanência dessas manifestações culturais representa a vitória de quem resistiu às tentativas de exclusão.
“Hoje, muito, muito, muito tempo depois, a gente percebe que o povo preto e pobre resistiu e venceu, porque o Rio de Janeiro hoje é conhecido pela cidade do samba. De cada esquina, uma barraquinha vendendo quitutes, vendendo uma comida de rua do Rio de Janeiro. Isso está marcado como a vitória de quem lutou, resistiu, sofreu, mas está aí até hoje. Se hoje temos desfile de escola de samba, muito antes disso alguém lutou pela gente”, afirmou.
A proposta da parceria para o samba de 2027 foi construir uma obra alegre, otimista e centrada em uma Tia Ciata soberana, protagonista da própria história. Simas explicou que a composição percorre um dia da homenageada no Rio de Janeiro, desde a saída para vender doces até a chegada simbólica à Marquês de Sapucaí, onde ela é coroada como a grande mãe do samba.

“Quando o enredo foi escolhido, o Claudio, eu e Clarão queríamos fazer um samba para cima, otimista, de uma Tia Ciata soberana, protagonista, dona da própria vida, do próprio corpo, da própria cidade. O samba tem um começo, meio e fim. Ele começa com Tia Ciata acordando, é Tia Ciata num dia no Rio de Janeiro, indo para a rua, vendendo o seu doce no tabuleiro, vendo a cidade. E, no final, os tempos se fundem e já estamos na Marquês de Sapucaí com Tia Ciata sendo coroada como a grande mãe do samba, a mãe do quilombo do samba e do samba”, explicou.
A leveza da composição também foi pensada em contraste com “Lonã Ifá-Lukumi”, samba que trazia trechos em iorubá e palavras menos usuais. Segundo Simas, a nova obra tem uma construção mais direta e convida o público a cantar junto.
“Eu acho que é um samba muito solar. É curioso porque é a mesma turma que fez o ‘Ifá’, que, quando a gente fez, o pessoal dizia: ‘Pô, mas tem muita palavra difícil, tem trechos inteiros em iorubá e tal’, e o samba acabou funcionando, garantiu os 40 pontos para a escola. O Tia Ciata é bem diferente nesse sentido. Ele é um samba fácil, é um samba que você canta, ele vai. Eu acho que é isso: um samba solar, um samba para cima”, avaliou.
Entre os trechos de que mais gosta, Simas destacou a referência à casa de Tia Ciata, descrita na composição como um espaço de encontro e expressão cultural: “Eu gosto muito da parte que cita a casa da Tia Ciata, que era a casa em que aconteciam as coisas, mas sem precisar falar a casa da Tia Ciata. A gente diz que a casa dela era um terreiro, então a gente fala ‘nesse terreiro de macumbeiros artísticos’”, além do refrão do meio, especialmente pelos versos que destacam a identidade negra da cidade e os quitutes vendidos por Tia Ciata.

“Quando a gente diz que ‘essa cidade não se mete, à francesa, ela é preta na beleza até a raspa do tacho’ e aí entra a Tia Ciata vendendo os quitutes dela. ‘Bota dendê, bota dendê, camará, no caruru do erê, no acarajé de Oyá, quem vai querer, quem vai querer, camará’. Gosto muito desse refrão do meio”, completou.
Claudio Russo também destacou a força dos refrões e concordou com o destaque dado ao potente refrão, colocando-o como uma síntese do enredo: “‘que esta cidade não se meta, à francesa, ela é preta na beleza até a raspa do tacho’. Se você perguntar o que traduz o enredo de vocês, é essa frase”.
Com a gravação oficial, o samba entra em mais uma etapa de sua construção até o desfile. Simas compara esse processo ao nascimento e à educação de uma criança: depois de composta e apresentada à quadra, a obra ganha novos contornos com o trabalho da bateria, do intérprete e dos demais segmentos da escola.
“O samba-enredo, como eu costumo dizer, é uma obra em progresso. Ele tem etapas. Tem a etapa em que a gente faz o samba, a etapa em que o samba chega na quadra, a etapa em que a bateria começa a trabalhar o samba, a encaixar a bossa, o intérprete começa a perceber o samba, começa a dar o toque pessoal dele. O samba vai se desenhando aos poucos”, explicou.
Para o compositor, a gravação marca o momento em que a obra começa a ganhar forma para o público, mas ainda há trabalho pela frente até que ela se consolide na Avenida.
“Eu confesso que dá aquele friozinho na barriga, porque, para a gente que trabalha com o Carnaval, você sabe disso, o Carnaval começa muito antes. É como se a gente dissesse o seguinte: nasceu, está aí a criança, agora vamos educar a criança nos ensaios de rua, preparar o canto da escola, a harmonia trabalhando em cima disso, para que o samba se consume na Avenida. Então é uma etapa bacana”, comparou.
Claudio Russo também demonstrou confiança no rendimento da obra. Segundo ele, a reação durante a gravação reforçou a expectativa para os ensaios de rua, que começaram no início de outubro, em São Cristóvão.
“Eu acho que esse samba vai ter um rendimento muito melhor do que eu esperava. A gente resolveu fazer um samba totalmente diferente do ano passado. O ano passado tinha uma liturgia, um clamor, tipo uma oração. Esse não. Esse é festa, porque o Carnaval é festa, é alegria. E Tia Ciata fazia festa na casa dela. É um samba solar, um samba vivo. A gente fez um samba para acontecer, e esse samba vai acontecer”, declarou.
A emoção de acompanhar a gravação também foi destacada por Russo, que ressaltou a reação dos componentes e do carro de som.
“Foi emocionante. O problema é que Deus não me deu o dom de cantar. Mas foi muito bom ver todo mundo cantando. O Pixulé está muito firme no samba, o carro de som. Não é só a bateria vibrando. Quando você olha para os componentes e vê sorrisos, brincadeiras, é que a coisa deu certo”, avaliou.
Leonardo Bessa destaca o trabalho da equipe musical
Indo para o segundo ano à frente da direção musical da escola, Leonardo Bessa fez um balanço positivo do trabalho e destacou a vantagem de ter escolhido o samba com antecedência. Para ele, o tempo disponível permite que a equipe prepare a obra com mais tranquilidade antes do desfile.
“Eu acho que o trabalho é altamente positivo, com uma equipe maravilhosa que a gente tem. A gente tem a vantagem de escolher o samba cedo, então já consegue trabalhar com mais calma, com mais tranquilidade. Mais uma vez, um grande samba. A gente espera que, a partir de agora, com essa gravação oficial, embora a gente já tenha feito uma gravação inicial, as pessoas possam ter mais conhecimento do samba ainda”, afirmou.

Sobre a formação da ala musical, o diretor disse que a escola manteve boa parte da base que já trabalhava junta. As mudanças foram pontuais, feitas de acordo com as necessidades do projeto.
“Fiquei dois anos como cantor de apoio. A gente tinha mais ou menos uma base, procurou manter essa base e fazer uma mudança ou outra pontual de acordo com o que precisava para o trabalho. Tranquilidade, na equipe todo mundo se conhece há bastante tempo. É um trabalho bem tranquilo”, relatou.
A parceria com Pixulé, intérprete oficial do Tuiuti, também recebeu elogios. Bessa destacou o talento do cantor e a abertura para o diálogo entre os dois durante a preparação musical.
“O Pixulé é uma grande estrela do carnaval. A gente procura administrar da melhor maneira possível. É um cara que tem, graças a Deus, um talento maravilhoso e sabe ouvir a gente também, é um trabalho muito bacana. É praticamente cantor para cantor, diretor para cantor, de amigo para amigo. E a gente vai tocando o trabalho”, disse.
Para o diretor musical, o reconhecimento que Pixulé vem conquistando nos últimos anos faz jus ao trabalho desenvolvido ao longo da carreira.
“Graças a Deus, chegou num momento bacana da carreira dele. Embora que tardio, ele já vinha fazendo grandes trabalhos há muito tempo. E agora, de dois anos para cá, desde que ele chegou ao Tuiuti, o trabalho dele começou a ser mais visto pela grande mídia, pela bolha, por todos. Ele merece”, afirmou.
Rio Antigo na Sapucaí
Responsável pelo arranjo, Chanel Rigolon explicou que buscou uma sonoridade que remetesse ao samba antigo, em diálogo com a história de Tia Ciata e com a atmosfera musical da época.
“Como é um arranjo de Tia Ciata, de samba mais para trás, meio maxixado, eu pensei nessa levada, nessa praia, para tentar remeter ao samba de antigamente. Foi isso que eu pensei nesse sistema”, contou.
Entre suas referências estão o samba maxixado de Sinhô e a produção musical de Donga e Pixinguinha, associados à casa de Tia Ciata. A partir dessa inspiração, Rigolon trabalhou com respostas instrumentais e contrapontos. Na gravação, o arranjador utilizou violão tenor e bandolim, além de outros instrumentos que dialogam com o violão de sete cordas. Segundo ele, o tenor contribuiu para a sonoridade antiga e alegre que pretendia alcançar.

“Na gravação eu gravei com violão tenor, bandolim e outras coisas respondendo com sete cordas. O tenor dava essa cara mesmo de mais antigo, de alegria, porque o tenor também é alegre”, afirmou.
A construção harmônica também foi um dos pontos que chamaram a atenção do arranjador. O samba percorre tonalidades como “Mi menor, Dó, Lá menor e Sol, chegando a um trecho em Sol menor no final”. Para Rigolon, as mudanças acontecem de forma natural, sem provocar rupturas na escuta.
“Ele vai caminhando, mas também não tem nada de choque harmônico. Tudo que vai acontecendo, vai acontecendo naturalmente. Para mim, acho que o ponto mais alto da composição, pensando assim, é isso. Você vê que não tem choque, você canta, canta, canta e, quando vê, está passando por tonalidades diferentes, mas você não sente”, detalhou.
Ao avaliar o resultado, Rigolon destacou o caráter alegre da obra, que orientou a concepção do arranjo e marcou a gravação.
“Foi uma gravação legal, bem para cima, porque o samba é isso mesmo. Ele joga para cima, ele tem essa característica alegre”, concluiu.
Mestre Marcão aposta na potência dos ensaios
Mestre Marcão confirmou o andamento de 142 BPM (batidas por minuto) para a gravação e explicou que a escolha levou em conta a dinâmica de uma gravação com boa parte da equipe reunida, em um formato mais próximo de uma apresentação ao vivo.
“Estúdio é para quando você vai ouvir uma obra bem delicada. Como aqui é quase todo mundo, fica uma coisa mais ao vivo. Então, acho que 142 vai ficar perfeito. Ficou bom para ambas as partes, para o samba e, principalmente, para a gente que está fazendo as nuances”, afirmou.

Sobre as bossas e novidades para o desfile, o mestre adiantou que a escola pretende aproveitar o que já foi ensaiado, mas sem revelar todos os detalhes antes da hora.
“No decorrer dos nossos ensaios, a gente vai passando, vai pesando. Ainda pode ter até uma outra novidade, que tem um negocinho aí debaixo da mão também para a gente. Isso, mais lá para frente, lá para meio de novembro, dezembro”, revelou.
Para Marcão, cada carnaval exige uma preparação própria, ligada à pesquisa e às particularidades do enredo. Ele lembrou que a gravação do samba já havia sido realizada meses antes, mas o trabalho só pôde avançar publicamente depois da apresentação oficial.
“Cada ano é um ano, cada ano é um sentimento, é um enredo. A gente tem que pesquisar o que vai falar. Principalmente para nós, que ainda não paramos nessa corrida. De junho para julho, a gente já tinha gravado o samba. Também não podia nem comentar, e estava a sete chaves. Depois que o presidente fez a festa, foi que a gente começou a tocar o barco”, concluiu.









