Por Will Ferreira e Pedro Ribeiro

O domingo que começou com tempo aberto e viu a neblina consumir o céu do Jabaquara conforme a noite chegava reservou o lançamento de mais um samba-enredo do Grupo Especial de São Paulo. Na Arena Neguinha, o Barroca Zona Sul, terceira escola a desfilar na sexta-feira de Carnaval, revelou a obra composta por Thiago Meiners, Claudio Mattos, Sukata, Morganti, Fernando Negão, Daniel, Leonardo, Daniel Paixão, Jonathan Tenório, André Braga, Wilson Mineiro, Herval Neto, Daniel Rizzo e Tubino Valencio para o enredo “Elekô Obá Xirê – A Força da Mulher Que Não se Curva”, assinado por Pedro Alexandre, popularmente conhecido como Magoo. Sempre presente em datas importantes para as escolas de samba paulistanas, o CARNAVALESCO conversou com figuras importantes para o Barroca Zona Sul no evento de fundamental importância para o ciclo do desfile de 2027.

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Entrosamento verde e rosa

De 2017 para cá, a mesma parceria compõe os sambas-enredo do Barroca Zona Sul. Um dos integrantes mais conhecidos do grupo é Thiago Meiners (que, inclusive, foi chamado por Ewerton Sampaio, popularmente conhecido como Cebolinha, para falar à comunidade da escola). Ele destacou que a dinâmica de trabalho foi muito semelhante a dos últimos anos, que rendeu o Estrela do Carnaval (concedido e organizado pelo CARNAVALESCO) de melhor samba-enredo de 2025 para a agremiação: “Foi a mesma maneira de trabalhar que a parceria teve em relação aos últimos sambas. Não só na trilogia das mulheres de Xangô: de Tereza de Benguela em diante, é a mesma maneira de trabalhar. Todos os departamentos participam: bateria, Direção de Carnaval, Direção de Harmonia, intérprete, Direção Musical… todo mundo trabalha junto. Como eu falei nas outras vezes, a gente tem um estilo próprio que o Barroca gosta de desfilar, um estilo de samba que o Barroca já está acostumado. A gente sempre tenta manter essa linha (obviamente que não igual, não fazer sambas iguais, mas com as mesmas características) e não muda nada, é a mesma maneira de trabalhar sempre”, comentou.

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Se a dinâmica foi semelhante, existem diversos pontos que separa a canção de 2027 das obras de 2026 e 2025, anos nos quais a escola fez uma trilogia sobre as mulheres de Xangô: “O enredo de Obá não é um enredo que foca só na orixá, como foi o enredo do ano passado; e não é um enredo que conta uma história, um itan, como foi o de Iansã. Ele tem uma diferenciação com relação aos outros enredos que puxa mais para esse lado social, o lado da mulher preta, da valorização. É uma mensagem para todas as mulheres se sentirem representadas pela força da orixá. E, sim, ele vai para esse lado. É um diferencial, porque muita gente falou que o Barroca vem com três enredos iguais, mas não é a mesma coisa: cada enredo tem a sua particularidade e a sua mensagem”, destacou o compositor.

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Mais que integrante da parceria, Meiners também foi um confesso aprendiz sobre a temática a ser abordada pelo Barroca em 2027: “Num primeiro momento, o que mais me chamou atenção é a diferença dos enredos. A gente está falando de três orixás diferentes e é óbvio que tem algumas características parecidas na hora de você definir o conceito de cada orixá, mas são histórias diferentes, são momentos diferentes. A parte que mais mexeu com a gente foi falar da mulher preta, de exaltação à mulher preta. A gente também não conhecia muito sobre Obá, já tem alguns enredos que já citaram Iansã e Oxum em alguns momentos, e Obá não. Eu, particularmente, não conhecia praticamente nada sobre essa orixá. O Magoo é um cara que deixa a gente muito à vontade, dificilmente ele vai interferir e falar para não colocar algo porque não está no meu enredo: se ele acha que é uma ideia legal, que faz parte de todo o contexto, ele sempre dá um jeito de justificar e manter porque essa ideia é legal. Trabalhar com o Magoo é muito fácil, é um cara que é muito inteligente e em nenhum momento ele podou a gente em nenhum sentido”, comentou, elogiando o carnavalesco da agremiação.

Do papel à prática

Outro dos compositores ouvido pelo CARNAVALESCO foi Fernando Negão, que também é mestre da “Tudo Nosso”, bateria verde e rosa. O ritmista-mor destacou que o processo tem, ao menos, duas etapas bem definidas: “A gente divide toda essa dinâmica. O Thiago é um dos outros compositores. Ele já manda o esqueleto do samba e a gente vai adaptando do jeito que a escola gosta, do jeito que a bateria se encaixa. Todo mundo vai se organizando e se adaptando ao samba”, explicou.

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Já antecipando a manutenção de um instrumento na Tudo Nosso, Negão elogiou a identificação de Meiners com o Barroca: “A divisão rítmica não é difícil, porque o Thiago já entendeu mais ou menos a linhagem da escola. Ele procura sempre adaptar o samba à linha que nossa bateria tem. A gente está trabalhando bastante aqui os tambores. Um naipe que a gente já colocou no último ano, e decidimos continuar por conta do tema afro e religioso. Daremos bastante atenção neles e eles vão fazer a diferença na bateria”, prometeu.

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Escola unida

Outros nomes importantes da agremiação também, de alguma maneira, colaboram com a composição. Magoo, por exemplo, prefere focar na adequação da obra ao que será exibido no Anhembi: “Esse é o quarto ano que estou trabalhando com a escola e a gente tem um entrosamento com essa parceria. Fazem o samba e a gente tem uma Comissão de Carnaval; o presidente, o vice, os diretores de carnaval. Daí, damos a nossa opinião do que achamos melhor aqui, muda ali e tal. A gente vai mexendo no samba até chegar na versão que vai para a avenida. Os diretores de carnaval, o presidente, o vice-presidente, o mestre de bateria que faz e participa bastante. Eu vou mais na parte de enredo: isso está fora do enredo; isto está dentro. É um entrosamento muito bom e que está dando certo”, comemorou.

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Já Angélica Barbosa, integrante da Comissão de Carnaval da escola, retomou o começo do trabalho para explicar o trabalho que coube aos integrantes de tal grupo: “Cada um dá uma opinião dentro de uma temática e aí começamos a ver e analisar o que seria melhor para nossa comunidade. A gente sempre faz essa troca de ideias. Só que esse ano, especificamente, nós já tínhamos esse enredo na proposta, porque a ideia seria falar de Iansã, de Oxum e depois de Obá. Já sabíamos que era Obá, só que a gente não sabia ainda qual seria a linha de pensamento que a gente ia trabalhar. Nessa construção que a gente faria de Obá, cada um deu a sua opinião, e esse ano foi dessa forma”, disse.

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Cebolinha, por sua vez, não escondeu que dialogou bastante com o compositor sobre a obra: “A gente tem uma parceria muito forte com essa parceria, principalmente com o Thiago Meiners. A gente passa umas madrugadas trocando um papo, viu? Eu dou umas opiniões, a gente coloca impressões… acerta a letra aqui, acerta ali, muda o tom aqui e ali. E o Thiago é um cara muito prestativo: toda hora está mexendo, muitas vezes eu peço algo e ele fala para deixar com ele. Ele é o pilar da questão do samba-enredo, mas nós dois trocamos várias informações”, confessou.

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Felicidade estampada

Responsáveis por interpretar o samba-enredo do Barroca pelo segundo ano consecutivo, Dodô Ananias e Rafael Tinguinha não escondiam o alto grau de satisfação com a obra.

O primeiro citado no parágrafo anterior iniciou: “O samba e as encomendas do Barroca já são feitas pelo Thiago Meiners, em parceria, há muito tempo. Vêm praticamente pronto. A gente muda uma coisinha ou outra, que são pequenos detalhes para voz, pensando no povo. A gente alinha o samba pensando no julgamento. Hoje, em São Paulo, a gente tem um julgamento um pouco mais burocrático do que em outras praças. A gente ajusta o samba pensando no julgamento, em não sermos despontuados. Mas é ‘sambaço’ atrás de ‘sambaço’. A parceria é muito boa, e a sintonia deles com a escola é gigante, comprovada com o passar dos anos e a quantidade de sambas que já têm e são bem comentados. Acho que a gente tem mais um grande samba para o Carnaval com um potencial muito grande. A gente vai trabalhar bastante!”, prometeu.

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Fotos: Will Ferreira e Pedro Ribeiro/CARNAVALESCO

Tinguinha foi pela mesma linha: “Essa é a receita que o Thiago traz para a gente! Porque a gente não espera um samba ruim, sempre esperamos bons sambas do Thiago, que é um grande compositor. Quando vem para a gente, vem praticamente pronto. Como o Dodô falou, a gente só dá aquele pitaco de tom. Vamos abaixar, vamos aumentar o tom, vamos mexer uma notinha aqui, uma notinha ali, ficar confortável aqui para cantar daquele jeito aqui ou ali: vamos ajustando. Tudo em prol da comunidade e da nossa escola”, refletiu.

Preferências

Cada um dos ouvidos pela reportagem do CARNAVALESCO elencou partes favoritas da canção que foi executada pela primeira vez neste domingo. Como compositor, Meiners deu uma informação bastante interessante sobre a obra: “Minha parte favorita é o refrão de cabeça. Foi a primeira coisa que ficou pronta de fato, que a gente falou que não poderia mudar. Mexemos no resto e não mexemos no refrão de cabeça. Fizemos a adaptação de tom, adequamos ao regulamento… mas o que a gente em nenhum momento cogitou mexer foi no refrão de cabeça pela mensagem que ele traz. É um refrão que, diferentemente do samba do ano passado, é em tom maior, que o povo gosta mais de cantar. É um samba que mescla momentos mais densos, como o de Oxum, mas também momentos mais abertos, mais explosivos, como o samba de Iansã. Esse samba é uma mescla dos dois”, refletiu.

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Sempre sucinto, Negão elencou outro trecho: “A parte que eu mais gosto do samba é o refrão do meio. Acho que é tem bastante balanço”, comentou.

Magoo destacou o quanto a obra está em sintonia com a orixá: “Eu gosto bastante do refrão, mas a segunda parte do samba me pega bastante. A segunda do samba é uma coisa bem para frente e bem para cima, que no final já puxa para o refrão. É uma coisa bem guerreira. Obá é guerreira! Vem aquela coisa bem forte. A gente fez um ensaio aqui na sexta-feira de canto com a comunidade e apenas mulheres da escola. O samba fluiu bem e deixou a gente empolgado”, comemorou.

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O presidente do Barroca foi outro que ficou empolgado com a potência da música: “Minha parte favorita é a do refrão de cabeça. Deixa acontecer, o mundo inteiro do samba vai entender. Tem uma parte num ponto que vocês vão entender, que também já é característica da escola. A gente fez dois ensaios específicos aqui com a bateria e com a Ala Musical que deu um gás que até me surpreendeu”, disse. Vale destacar que Cebolinha, nas entrelinhas, citou os falsos refrões que os sambas-enredo de 2025 e 2026 também tinham. A diferença é que os dos anos anteriores tinham falsos refrões de dois versos, enquanto o de 2027 tem dois versos logo após o refrão de cabeça que se repetem antes de iniciar a primeira estrofe de fato.

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Tinguinha valorizou não apenas a voz, como também a expressão corporal para elencar o verso predileto: “Essa parte do ‘obayê’ é a minha favorita. A gente abre os braços e canta a plenos pulmões. Eu acho que essa parte emociona demais”, disse.

Dodô concordou com o parceiro de carro de som, mas abriu também para outro trecho: “Eu tenho duas! A cabeça do samba ‘das folhas de palmeira, vem cantar para a mãe Obá’ e a parte ‘Obayê, revolução em forma de mulher’”, citou.

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Por fim, Angélica falou sobre o espírito da agremiação, sem necessariamente citar uma parte da canção: “O que eu mais gostei foi valorizar essa parte da Obá guerreira. Porque conta a história de Obá desde da sua origem. Não só da parte que ela se tornou orixá, mas da parte da luta, da trajetória dela até se tornar orixá. Acho que essa parte de falar de como ela foi guerreira, persistente e uma mulher de luta, isso se compara com a nossa comunidade; isso faz a gente ter esse pertencimento maior com o enredo”, finalizou.

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