
Uma das grandes artistas do Brasil terá a revisitação de um musical. “Marrom, o Musical”, que homenageia Alcione, terá uma nova versão a partir de 11 de setembro, no Teatro Claro Mais, localizado no Shopping Vila Olímpia, Zona Sul de São Paulo. Idealizado por Jô Santana e dirigido por Miguel Falabella e Iléa Ferraz, diversos sambistas buscam uma vaga no espetáculo – que está em fase final de audições para definição do elenco. O CARNAVALESCO acompanhou algumas audições e conversou com alguns dos artistas envolvidos no espetáculo.
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De cara nova
Perguntado sobre as mudanças do espetáculo produzido em 2022 para a que será apresentado em 2026, Jô Santana destacou outros musicais que tem participação dele: “A mudança em relação a esse novo espetáculo é esse novo elenco, essa nova safra que foi criada nesses dez anos. Tanto que nós temos Gilberto Gil, nós temos Djavan… começamos com Cartola quando não existiam atores negros. Eu tenho que falar isso porque é verdade. Nós somos pioneiros. Vou fazer os cem anos da Mangueira, que é minha escola do coração, que eu amo. Também de Alcione. Quando eu comecei, há doze, quinze anos atrás, não tinham atores negros. A gente só tinha referência do musical estadounidense. E esse Brasil é uma pluralidade, uma diversidade. Tanto que agora, nesse momento, nesse teatro, estamos contando a história de Fafá de Belém, da história da região Norte. Esse Brasil é potente. As nossas histórias são potentes porque a gente fica sempre com as referências de fora”, comentou.
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O idealizar de “Marrom, o Musical’ seguiu em toada semelhante instantes depois: “Eu fui para os Estados Unidos, comprei alguns direitos, não tenho nada contra o teatro musical de lá, não é isso. Mas eu, como brasileiro, viajo por esse país e é tanta história! É sobre isso que a gente quer contar. Aí, quando passaram dez anos, esse mercado cresceu. É a indústria, a economia criativa. Hoje, nós temos esse elenco. Estiveram aqui cerca de 250 pessoas, é o créme de la créme. Canta, dança, representa. E com corpos reais que a gente encontra. Começamos com Cartola, Dona Ivone, Alcione, Martinho da Vila.. os últimos quinze anos foram de crescimento de artistas que vieram. Tanto que a gente também tem a escola, e a gente forma esses atores para esse mercado. Hoje, a gente pode ver teatro musical. A gente tem que parar um pouco de ter síndrome de vira-lata. Nós somos potência. É isso que a gente quer entender”, comentou.
Para homenagear
O idealizador de “Marrom, o Musical” fez questão de destacar alguns números importantes sobre o processo de seleção: foram cerca de 600 inscritos e serão selecionados cerca de 250 artistas para a produção. E algumas pessoas dessas inscritas são muito conhecidas por quem acompanha o universo das escolas de samba.

Dandara Ventapane é uma delas. Primeira porta-bandeira da Unidos de Vila Isabel, ela estava presente no número feito para a imprensa presente que envolvia dança. E ela deixou claro o quanto Alcione é presente na própria vida: “Eu enquanto artista tenho bastante influência da Alcione! Minha família tem uma proximidade com ela, então tem um carinho enorme. Ela deu muita força no início da minha carreira com o meu irmão, ela sempre esteve muito junto. É uma grande referência, uma referência de voz, uma referência de presença, de mulher que foi à frente do seu tempo, que criou as escolas mirins na Mangueira do Amanhã. Tem essa coisa do legado, da continuidade, que é algo que me toca muito. Estar aqui numa audição para um musical brasileiro, para um musical que fala sobre samba, a história dos nossos personagens, é o que me motiva e é o que me fez estar junto desse projeto”, comentou. Vale lembrar que a profissional é de uma das grandes famílias de bambas do Brasil, sendo neta de Martinho José Ferreira, popularmente conhecido como Martinho da Vila.
Graziele Raquel da Silva Santos, popularmente conhecida como Grazzi Brasil, que já foi intérprete oficial de escolas como Paraíso do Tuiuti, Vai-Vai e Estrela do Terceiro Milênio, também esteve presente em uma apresentação para a imprensa – no caso, cantando “A Loba”, gigantesco sucesso de Alcione: “A Alcione é nossa mãezona! Uma mulher simplesmente musical, com uma voz sensacional, uma trajetória maravilhosa… e estou aqui, tentando ver se eu consigo contar um pouco dessa história. Tenho uma ligação com ela por conta do Carnaval: no ano em que a Mocidade Alegre falou da Alcione, eu fiz uma versão piano e voz e foi o samba que foi para a avenida. Foi muito lindo! É uma honra estar aqui com essa galera talentosa demais”, comentou.
Ajuda?
Perguntadas sobre o quanto a experiência na avenida pode ajudá-las a ter um papel no musical, ambas tiveram respostas diferentes. Dandara deixou claro que, para ela, a avaliação é algo natural: “O fato de ser porta-bandeira ajuda muito na questão da apresentação e da avaliação. O Carnaval é uma avaliação a cada ano, com quatro jurados ou seis nas cabines. A gente tem essa proximidade com a experiência de ser avaliado a todo ano. Eu trago muito esse lugar, da presença cênica mediante uma banca. Eu sou formada em dança, também trago toda essa parte da dança e de formação do samba para tudo que eu tenho. Por isso, esse lugar aqui é muito especial: por ser sobre samba. É um lugar que eu tenho uma propriedade, uma raiz para falar porque fui formada dentro desse ambiente. Isso é o que me deixa confortável de estar aqui, buscando uma vaga como cantora, como bailarina e como intérprete para representar essa grande personagem do nosso samba”, disse.
Já Grazzi pontuou que a experiência em escolas de samba é algo muito diferente de um musical: “Tanto para shows normais (como eu sempre fiz a vida inteira) quanto para a avenida, é totalmente diferente o jeito de cantar. Eu já fiz dois musicais e, se eu passar nesse teste todo, será o meu terceiro. É totalmente diferente: tem uma coisa mais de coral, às vezes um solo, é um outro lugar na voz. Como eu sou autodidata, eu não consigo falar especificamente ou muito tecnicamente, mas eu sei que é bem diferente. O jeito de emitir a voz dentro do carnaval é totalmente diferente: exige muito mais do que sambas, músicas normais ou medianas. É uma experiência maravilhosa para aprender, para saber mais sobre a nossa música popular brasileira. Eu amo demais tudo isso!”, destacou.

Mangueira presente
Das grandes torcedoras e baluartes da Estação Primeira de Mangueira, Alcione foi o enredo da agremiação em 2024, no enredo “A Negra Voz do Amanhã” e também é a presidente de honra da Mangueira do Amanhã, escola mirim da Verde e Rosa. Em 1994, ela também foi homenageada pela Unidos da Ponte no Grupo Especial, no enredo “Marrom da Cor do Samba”.
A reportagem do CARNAVALESCO perguntou se haveria espaço para a escola de samba no musical, e a resposta foi direta: “Não dá para falar de Alcione sem falar da Mangueira, sem falar do carnaval. Não tem como, está tudo aqui. De Emílio Santiago, do Maranhão, do país que está aqui. O Brasil está aqui. E o carnaval está aqui”, afirmou Jô.
Iléa foi além: “A Mangueira para a Alcione foi um grande chão – tanto que, quando ela chega no Rio de Janeiro, ela se torna a madrinha da Mangueira do Amanhã. Nós estamos fazendo o que a Alcione pensou há um tempo: pavimentou o amanhã. E nós estamos aqui: nós somos o presente. O amanhã está aqui, acontecendo no presente. Ela sonhou e a gente está realizando com esse elenco preto. É muito importante que a gente diga isso, porque os artistas pretos, que não tinham oportunidade de acontecer, não é que eles não existiram: eles sempre existiram. Nós existimos há muito tempo. Só não tínhamos a possibilidade de estar em cena, de acessar esses lugares”, comentou.
O que vem por aí?

Mesmo com “Marrom, o Musical” ainda em fase de seleção de artistas, a Fato Produções Artísticas já sabe qual será o próximo artista homenageado: Johnny Alf. Em outros momentos, Cartola e dona Ivone Lara ganharam musicais. Rafa L, coreógrafa convidada para a peça, destacou quem, na visão dela, merece uma homenagem: “Eu escolheria a Liniker, porque é muito importante que a gente use também a arte como um espaço pra ressignificar a existência de pessoas trans e travestis. A arte nos faz resistir e nos faz reconhecer o nosso valor. Por ser uma travesti ocupando um espaço, a gente precisa também pulverizar o espaço pra que outras manas possam ir ao teatro, ir ao cinema, comprar um CD e ter acessos. A Liniker é essa pessoa que está em ascensão – e, se eu tivesse a oportunidade, hoje, contaria a história dela”, finalizou.









