
A Libertadores da América começou na Vila Vintém. No último domingo, a Mocidade Independente recebeu em sua quadra os 15 sambas concorrentes para a primeira semana da disputa de sambas-enredo para o Carnaval 2027. O dia foi de apresentação das obras para o público, sem eliminação. No próximo ano, a verde e branco desfilará com o enredo “Latinamente Independente – Nosso Norte é o Sul em Remanifesto”, abrindo a segunda-feira de carnaval. A seguir, o CARNAVALESCO analisa as apresentações das parcerias.
* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp
Parceria de Leo Peres: Bruno Ribas e Igor Pitta defenderam o samba de Léo Peres, Leandro Fregonesi, Felipe Pires, Rogerinho, Wilson Paulino e Bruno Serrinho. O refrão principal, “Dale Mocidade, canta, incendeia a avenida, se a latinidade é forte, o Sul vira norte, gracias a la vida”, mostrou força, puxou a apresentação para cima e a obra teve um desempenho satisfatório nas duas passadas. Toda a obra é sustentada por uma narrativa de força e resistência, como no bom refrão central: “vade retro, invasor, kaô, laroyê, ai se eu te pego no maculelê, feito a guerrilha e o raiar do sol de mayo, um outro raio pra expulsar quem se atrever”. A melodia é linear e segurou bem o samba, como na segunda parte da obra, mesmo com poucas variações.
Parceria de Valdecir Moreno: O samba de Valdecir Moreno e Jorge Luiz Job foi levado com garra pelos intérpretes do palco, e a apresentação ganhou alguma força. A melodia é simples e não levantou o nível da obra, com exceção do refrão central: “caça, caça no kanindé, bulaiê, bulaiô, Oxóssi é quem nos guia, guerreiro e protetor, Oxóssi é o rei das matas, é nosso caçador”. A letra mostrou alguns bons trechos, como os versos finais: “os Caetés revoltados, se alimentaram do opressor, e no vira virou o sabor da revolta, o bispo provou”. De resto, a narrativa não chamou maior atenção e passou mais apagada. O refrão principal, “troquei o Norte pelo Sul, criei um mapa diferente, Sapucaí vem sulear, Latinamente Mocidade Independente”, teve um desempenho correto.
Parceria de Jaci Campo Grande: Rodrigo Tinoco comandou o samba de Jaci Campo Grande, Marcelo Tchakabum, Dr. Marcelo, Alex Cruz, Elian Dias e Laio Lopes. Foi uma apresentação forte de um samba com boas variações melódicas, o que manteve o rendimento sempre firme. A letra explorou alguns termos da língua espanhola, como no refrão principal: “Estrela latina, caliente, tenho corazon independente, maracas, candombe de lá, e os terreiros de cá, faz vibrar a nossa gente”, que passou de maneira agradável. A primeira parte, que retrata as origens negras e indígenas da miscigenação brasileira, mostrou-se mais inspirada na letra, em versos como: “a Pachamama invocou ô ô, a força do matriarcado, remanso vira insurreição, faz banzeiro, meu irmão, pega o ouro saqueado”. A segunda parte soa pouco criativa, com termos mais genéricos, mas não sofreu queda de desempenho durante a apresentação.
Parceria de Beto BR: A obra de Beto BR, Luizinho Pereira, Dauri Mocidade, Tony Negão, Tony Negão, Fábio Santana e Marcio Silva teve Sandro Mota no microfone principal, que, ao lado dos seus apoios, fez uma condução animada do samba, que não acompanhou o mesmo embalo. Uma passagem morna de um samba que teve como destaque o seu refrão principal: “vira, virou, arriba Mocidade, reinventa a verdade, posta pelo opressor, mostra a sua identidade, pra provar o seu valor, latinamente independente, eu sou, sou independente, eu sou”. A narrativa do enredo soou genérica em alguns momentos e funcionou melhor na primeira parte, como nos versos “sem chances de sucumbir, com ternura lutar, rebeldia sulear, nas terras daqui, o que se planta dá, Teco-munhangaua”. A segunda parte é ligeiramente mais fraca e também teve um rendimento sem maior destaque.
Parceria de Rafael Drumond: A obra de Rafael Drumond, Pinoquio do Cavaco, Thainá do Tantan, Gil Paiva, Gilberto Paizão e Luiz Santista teve uma passagem regular, com uma queda entre a primeira parte e o refrão central, crescendo na reta final da segunda parte até o refrão principal: “eterna menina de sangue caliente, homérica latina de swing independente, amada menina de corpo caliente, homérica latina de swing independente”. A letra tem uma construção interessante em alguns versos, como “sagrada lâmina de Ogum se refletiu, num tom Pacífico das águas que emergiu, do beijo Atlântico aos pés da cordilheira, Pachamama é Pindorama, berço esplêndido gentil”. A segunda parte busca uma linguagem mais rebuscada, vide versos como “aos tópicos utópicos do Império, que reduz meu hemisfério a quintal da inexistência, remanifesto, nosso trópico regido por um signo de luz não se presta à continência”, mas falta fluidez na narrativa, apesar de o trecho possuir uma boa melodia.
Parceria de Diego Nicolau: Thiago Brito defendeu o samba de Diego Nicolau, Arlindinho Cruz, Igor Leal, Ricardo Mendonça, Rodolfo Vale e Fabian Juarez. O refrão principal, “Latino-americano, cria da Vila Vintém, e esse molho só a gente tem, se querer é poder, podemos sonhar, é hora de contratacar”, teve um bom funcionamento e passou animado. No refrão central, “Yo soy la alma independiente, la gente que siempre cree en el sueño, revolucionar es nuestra misión, acerca de mi corazón, eu sou a alma independente da gente, que acredita no sonho, revolucionar é nossa missão, dentro do meu coração”, foi utilizada a sacada de uma repetição em espanhol e outra em português. O samba teve alguns momentos de queda durante a apresentação, como na primeira parte, muito por conta da melodia mais truncada. A partir da segunda parte, o samba subiu de rendimento.
Parceria de Richard Valença: Tinga e Charles Silva defenderam o samba de Richard Valença, Orlando Ambrósio, Renan Diniz, Jorginho Via 13, W. Corrêa e Cabeça do Ajax. Uma grande apresentação, mostrando muita força e rendimento lá em cima. A sequência do refrão “pelo sangue derramado, pelo sol da liberdade, sou o braço rebelado, manifesto a Mocidade”, com o trecho de estrutura de refrão, mas sem bis, “O mapa que vira, virou, refez o passado, independente não vai ser colonizado, o mapa que vira, virou, nos faz ir além, são outros quinhentos na Vila Vintém”, passou de forma explosiva. A narrativa é muito clara e inteligente, com versos como “quero meu povo em cada busto, nossa memória muito além do museu, nasci índio batizado, pois você brincou de Deus, vim pra retomar o que é meu”. A melodia não passeia tanto, mas é muito aguerrida e contribuiu para uma apresentação de destaque na noite.
Parceria de Jefinho Rodrigues: Wander Pires comandou o samba da parceria de Jefinho Rodrigues, Xande de Pilares, Marquinho Índio, Estevão Ciavatta, Cleiton Roberto e Prof. Renato Cunha. Wander explorou uma melodia bem feita e com bonitas variações, como na segunda parte, no trecho “ginga no samba e na salsa, pra celebrar, tem colorido pra desnortear o teu olhar”, potencializando o desempenho da obra, que passou muito bem. O refrão principal, “Arriba la Mocidade, leva mi corazón, faz valer tua verdade, teu chão, mostra pro mundo o que só a gente tem, dale ritmo caliente, o molho da Vila Vintém”, teve bom desempenho. O refrão central, “o amor serpenteou, o vento anunciou, a luz tá no saber de Pachamama, Kosi Ewé, o que será do amanhã, se não reverdejar o Pindorama”, é muito bonito e outro destaque melódico da obra. A sinopse foi bem traduzida pelo samba, sobretudo na primeira parte.
Parceria de Paulo Cesar Feital: Zé Paulo liderou o samba de Paulo Cesar Feital, Alex Saraiça, Denilson do Rozário, André Russo, Carlinho da Chácara e Fábio Bueno. Uma apresentação de muita qualidade, carregada por dois excelentes refrões e uma letra visceral que captou bem o espírito do enredo. O refrão principal, “toca o agueré, pra fazer revolução, toca o agueré e respeita essa nação, o meu norte sempre foi nossa pátria mãe gentil, Mocidade Independente do Brasil”, é forte e gostoso de ouvir, tendo grande desempenho. O refrão central, “eu sonhei com Obatalá e Tupã lá no Orum, Caetés na Casa Branca, a Colômbia e o Peru, na soberania plena todos juntos somos um, Pindorama era o quilombo dos saberes de Ogum”, é menos explosivo, mas poético e também teve ótimo funcionamento. A segunda parte teve uma fluidez menor na melodia. Outro destaque narrativo é o trecho “os sabores do amor têm punhados de alegria, preparados no calor da rebeldia, peço ao Norte não repita o amargor de tanta ausência, no Brasil, meus companheiros são heróis da resistência”.
Parceria de Tim Maia Daflon: Rogerinho comandou a apresentação da parceria de Tim Maia Daflon, Waltinho Xavier, Léo Lopes, Italo de Bangu, Darlem Morais e Lauro Sena. O samba teve um desempenho mediano, com o refrão principal, “Nos caminhos de Oxóssi, vou com meu ziriguidum, pra vencer demanda Patakori Ogum, banho de erva o ancestral me ensinou, latinamente a Mocidade chegou”, mostrando mais fôlego. A melodia é pobre em alguns momentos e não se resolve, fazendo a obra passar de forma mais truncada. A narrativa não é tão poética, mas é bem feita em determinados momentos, como nos versos “a dança é flecha contra o mal, floresta é cura, não é capital, saberes milenares são heranças culturais, e cores que inspiram carnavais”.
Parceria de Ricardo Simpatia: Tem Tem Jr. defendeu a obra de Ricardo Simpatia, Rodrigo Medeiros, Cristiano Placido, Guto Listo, Flavinho Avellar e Samir Trindade. O desempenho foi irregular, com alguns momentos de arrastamento, como na segunda parte. O refrão central, “meu Brasil curumim, nosso verde em protesto volte a ser tupiniquim no meu canto manifesto”, segurou com mais qualidade, seguido de um lalalalaiá com melodia em alusão ao samba de 1987 sobre Tupinicópolis. A letra também seguiu a irregularidade presente na melodia, com algumas boas soluções, como na primeira parte, em versos como “a estrela da revolução segue a direção que Fernando Pinto sonhou, não me curvo a ninguém, vai Vila Vintém”. A segunda parte juntou soluções mais triviais com o curioso verso “Tia Nilda é melhor que Tio Sam”. O refrão principal passou sem maior brilho.
Parceria de Franco Cava: Tuninho Junior foi o cantor principal do samba da parceria de Franco Cava, Juca, Nito de Souza, Marcinho.com, Anderson Migão e Gule Machado. Um samba dolente que teve uma boa apresentação. O refrão principal, “de punhos cerrados pro céu, na boina, a estrela de Padre Miguel, alma latina de quem não se rende, avante, Mocidade Independente”, passou com boa fluência. O refrão central, “evoco os donos da mata, Jurupari é quem manda, enquanto o branco desmata, Tupana vence demanda, o sol de maio na pele marrom, Guantanamera é revolução”, teve um rendimento satisfatório, além de possuir uma melodia forte. O samba focou bastante nas ancestralidades negra e indígena que permeiam a maior parte da obra.
Parceria de Sandra Sá: Pixulé comandou o samba de Sandra Sá, Trivella, Tamyres Ayres, Bachini, Marquinho Lessa e Gordo de Muriqui. Outra apresentação de qualidade na noite, potencializada pelo desempenho do intérprete, que explorou as nuances melódicas que o samba possui. O refrão principal, “entra na roda, baiana, é o balanço no xirê, Vila Vintém nas cores latinas do Ará Ilê, perdoar é libertar, sem esquecer a ferida, Àse, ayô, vou lutar, dar a volta por cima”, é swingado e passou muito bem. O refrão central, “Ibà Onilê, Ibà Òrisà, o mistério sagrado reluz a riqueza da vida, como o curso de um rio que deságua na existência, cosmovisão ancestral, herança, vida, resistência”, tem variações melódicas bem interessantes. A narrativa abordou bem todos os pontos da sinopse, apesar de ter um foco maior na herança africana. A segunda parte disseca bem o enredo de forma mais diversa, como no trecho “quem não honra as raízes, não enxerga o amanhã, encontrei no chão da minha Mocidade o retrato da latinidade”.
Parceria de Beto Corrêa: Emerson Dias foi o intérprete principal da obra de Beto Corrêa, Piter Corrêa, Giacomo Gavazzi e Moleque Silveira. O samba tem uma estrutura narrativa mais coloquial, mas conseguiu retratar com alguma correção o enredo, principalmente na segunda parte, vide os versos “é a justiça invertendo a história, e que a labuta só nos dê prazer, deixar de lado essa força bruta, e aprontar tudo para o renascer”. A primeira parte acaba não tendo uma narrativa bem amarrada, com versos mais jogados a esmo. O refrão central, “ê fuzuê, fuzuê, fuzuá, nossa terra é Pindorama, onde canta o sabiá, ê fuzuê, fuzuê, fuzuá, sob a flecha de Oxóssi, Pachamama a nos guiar”, é um destaque do samba, que teve uma boa passagem.
Parceria de Santana: Dowglas Diniz e Leonardo Bessa defenderam o samba de Santana, Paulo Senna Poeta, Carlos Augusto, Saulinho, Edvaldo Lucas e Everaldo Silva. Uma apresentação que fechou bem a noite, com garra e uma melodia que sustentou a obra com valentia, bem conduzida pelos intérpretes. O refrão principal, “sangue latino revestido de alegria, até o fim demonstro minha identidade, o sol que brilha, amanhã, um novo dia, virei o mundo pela minha Mocidade”, passou com correção, mas o destaque maior foi o refrão central, “Okê, okê, okê arô, okê, okê, arô, se ontem eu fui a caça, hoje eu sou caçador”, cuja última frase traduz a ideia do enredo. O trecho passou com muita força. A narrativa tem um forte tom de bravura e resistência, misturando pitadas de irreverência, como nos versos “em cada canto um guardião, se quer me levar, vai ficar no cheiro, na essência de um batuque verdadeiro”.









