
Em Madureira, a disputa avança em busca do hino para o Carnaval 2027. A Portela recebeu a etapa eliminatória da Chave Azul, que precede a unificação das chaves. Nesta fase, se apresentaram dez sambas, e seis permanecerão na disputa. Os quatro eliminados serão anunciados no início desta semana. No Carnaval 2027, a Portela abrirá a noite de terça-feira com o enredo “Ao Mestre, com carinho”, desenvolvido por Paulo Barros, em homenagem ao compositor e baluarte Monarco. A seguir, o CARNAVALESCO analisa as apresentações da noite.
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Parceria de Dudu Nobre: Abrindo a noite de apresentações, o samba da parceria de Dudu Nobre foi performado por Negô e Carlos Júnior. Um dos destaques líricos da noite, a composição se destaca pela poesia e criatividade na abordagem da narrativa. A obra funciona como uma carta da Águia para Monarco, sintetizando toda a saudade que a comunidade sente de seu baluarte e reverenciando seu legado gravado na história da escola. A composição tem uma melodia gostosa e cadenciada, que abraça os versos de alta sensibilidade sobre o ex-presidente de honra. Entretanto, a defesa careceu de harmonia: muito “gritada” e pouco cantada, não combinando com um samba tão melódico e emocionado. A execução acabou ficando fora do “tom” que a obra pede. O verso do refrão principal, “Assino meu sobrenome: Portela, Portela, Portela”, é contagiante e de fácil assimilação. Já “E você, compositor / Te abracei, dei colo de mãe e carinho” sintetiza a relação da agremiação com seu “filho”, em que o compositor foi nutrido e pôde render clássicos não apenas para a própria escola, mas para a música brasileira. “Ensinei e aprendi que toda Águia tem que voltar pro ninho” é um dos versos mais afetuosos da composição. A apresentação teve uma queda de rendimento da terceira para a última passada, com o próprio intérprete reduzindo a intensidade dos vocais ao longo da execução. O samba contagiou alguns dos poucos presentes na quadra.
Parceria de Jamys Ferraz: Originalmente, a parceria teria Igor Sorriso e Sandro Ferraz como intérpretes, mas apenas Sandro se apresentou nesta noite. A composição e a melodia carregam força poética ao evocar a nostalgia da infância e juventude de Monarco, profundamente ligada ao território suburbano carioca e com seu ápice em Madureira, na Portela. Como é visto nos versos “Vem sentir o vento do tempo soprar / Abrindo a janela, o quintal a lembrar / Tem cheiro de infância, de terra molhada / Onde o samba acordava na madrugada”, que apresentam uma construção poética sensível e diretamente conectada à memória de Monarco. O sentimento tem ênfase no refrão do meio: “Sonho de menino, dom de verdade / Azul e branco… identidade”. Entretanto, o trecho “Por outras bandeiras também fez história / Mas é na Portela que vive sua glória”, que finaliza o refrão, perde um pouco da força lírica construída anteriormente. Na primeira passada, o verso “Do rádio de pilha, despertou a inspiração”, que é cantado em um tom mais baixo, teve alguns desencontros na execução, com uma marca desarmônica no carro de som. Em alguns trechos da obra, a melodia também não atende bem à força lírica proposta pela composição. É o caso de “Nova Iguaçu viu Monarco crescer”, cuja construção melódica não valoriza o verso, assim como “Mestre, segue viva sua lição”, que também passa de maneira mais fraca. Além desses, o verso “Nada pode ser maior que instituição” aparece de forma desconexa em relação à composição e à própria melodia. A apresentação começou enérgica, mas o carro de som demonstrou falta de harmonia, com alguns intérpretes entrando atrasados na letra, além de diferenças de tom e afinação. O rendimento caiu já na segunda passada e foi decaindo ao longo da apresentação, que passou sem brilho e teve rendimento regular.
Parceria de Luiz Carlos Máximo: Interpretado por Wantuir, o samba apresenta uma composição simples e direta, em tom saudoso e de lembrança ao Mestre. A obra carrega a verdade de lembrar alguém querido que se foi: passeia pela memória, assume um tom mais divertido, reafirma o legado e mostra que sua presença ainda é sentida. Entretanto, a melodia, que traz algumas variações em tom mais baixo, passeia junto aos versos, mas não os exalta. Falta à música trazer para fora o brilho que a composição apresenta. Um exemplo está no refrão do meio, que traz um momento divertido: “Cocorocou, o galo já cantou / Levanta nego pra buscar o caraminguá / E você ia numa estrada dessa vida / Vender peixe pra Lili, vender peixe pra Iaiá”. A melodia, porém, não atende à energia de determinados versos que poderiam ter mais destaque. Em “Me disse: ‘Pega esse lenço sem demora / E dessa vez pode chorar / Pega esse lenço que agora vem a Portela / Do mestre Hildemar’”, o tom mais baixo e a construção melódica também não trazem a empolgação e a energia que o samba poderia alcançar; a variação melódica do refrão “A gente se encontra, Monarco / Nas estrelas do caminho / Com carinho assinado: Portela / Pra sempre seu ninho” também não chega a empolgar. O verso “São rimas do seu pai, são pipas pelo céu / Brilha mais que os antigos quintais” teve execução levemente truncada na segunda passada. Já “Meu poeta, que Oswaldo Cruz emprestou ao Brasil / Te sinto no zunzum da quadra / Na Velha Guarda, em cada azul / E no orgulho que tem de você / Até o portelense que está pra nascer” também ficou desfavorecido pela melodia. A defesa foi justa ao samba, dando-lhe a energia pedida. Teve um rendimento regular, chegando a movimentar algumas pessoas da quadra.
Parceria de Charlles André: A quarta apresentação da noite foi a parceria de Charlles André. Originalmente defendida por Emerson Dias, Celso Lopes e Charlles André, a composição contou nesta noite apenas com a presença de Celso e Charlles. A obra traz uma grande carga afetuosa, em formato de “carta” da Portela ao mestre Monarco. Entretanto, o carro de som apresentou falta de harmonia, com afinações e entradas na letra desencontradas. Já o samba tem uma melodia pouco enérgica, sem grandes destaques melódicos ou líricos, mantendo-se mais linear ao longo da apresentação. Em destaque, no refrão do meio, “Tempo voa e o pequeno sonhador / Em Osvaldo Cruz encontrou o seu lugar / Em cada passo, o bailado e a valentia / De um grito vendendo peixe, animando a freguesia”, a melodia perde força. O verso que finaliza o refrão, “Vendendo peixe, animando a freguesia”, fica um pouco solto dentro da narrativa. Em “E no meu chão tamanha emoção / A tua união foi linda”, os intérpretes deram mais ênfase ao verso, mas o público não veio junto na terceira passada. Já o verso “Hoje com os olhos rasos d’água / E na mesma fé que te guiava” aparece como um destaque melódico. Além deste, o trecho “Numa estrada dessa vida o samba te consagrou” utiliza uma composição de Monarco como recurso criativo e melódico, mas é colocado de maneira tímida, ficando solto e sem alcançar a força necessária para chamar o público. O refrão principal, “Se eu chorar ao cantar é porque / Me faltam palavras pra agradecer / Com todo carinho, por todo legado / Aplausos, eterno Monarco”, quase engata, inclusive com o público. Começa bem, mas perde força lírica ao longo da execução. A defesa dos intérpretes demonstrou segurança com a composição, porém teve rendimento decrescente. Começou enérgica e chegou à última passada se arrastando. Conseguiu animar alguns dos presentes nas primeiras passadas, como a Velha Guarda, que dançou e cantou trechos do samba.
Parceria de Lico Monteiro: A parceria de Lico Monteiro foi defendida por Fredy Vianna, já que Pitty de Menezes não esteve presente. Um dos destaques da noite pela beleza lírica, a composição traz uma lembrança ao mestre Monarco, puxando fortemente o sentimento de ser portelense. Isso aparece no verso “Eu sou Portela, onde todo encontro é sagrado / Quando um portelense é batizado / Canta os teus versos em oração”, que traz forte identificação com a comunidade, já que Monarco compôs grandes “hinos” de amor à escola. A composição também apresenta trechos liricamente belos, como “Vai, menino, o corpo é estandarte / Quem corteja o talabarte / Com o lenço entre as mãos / De certo, já conhece o caminho / Mesmo que em desalinho / Se aventure o coração”. O refrão tem sua beleza poética e melódica, além da fácil assimilação: “Não há nada que explique este sentimento / Por todos os tempos, por onde for / A Águia quando vê voar um filho / Lembra que lá em seu ninho / Monarco me ensinou o que é o amor / Portela me ensinou o que é o amor”. A defesa foi justa ao samba, entregando a energia que a composição pedia. Apesar do saudosismo, a melodia é um pouco mais enérgica. O rendimento foi bom, com os intérpretes mantendo a apresentação sem deixar o samba cair, embora a obra não tenha chegado a empolgar muito.
Parceria de Marcello Luz: A parceria de Marcello Luz teve Tem-tem Jr e Guto como intérpretes. A composição traz a lembrança de Monarco e se declara ao mestre. A estrofe “Portela é luz na poesia / O vento em memória floresce os quintais / Relembro onde o samba ecoava / No chão da morada / Menino a brincar / Saudosa Baixada encantada” foi bem cantada pelo povo. O refrão também foi cantado por muitos na quadra, sendo um dos mais quentes que passaram pela noite de disputa: “Oh! Minha Águia abre as asas sobre o céu / Traz o Monarco pra Portela de novo / Quem é raiz atravessa o véu / E vive eterno no canto do povo”. Em alguns momentos, o trecho “Mestre… seus versos em desalinho… / Um hino de amor feito acalanto… / A Velha Guarda abraçou entre cores e amores…” passou de forma um pouco arrastada. Ainda assim, a apresentação teve bom rendimento e crescimento ao longo da execução, tomando fôlego até o final.
Parceria de Noca Neto: Interpretada por Rodrigo Tinoco, a composição também assume um formato de carta a Monarco, tal qual a sinopse proposta. Porém, a obra traz como um de seus destaques o bom uso de composições de Monarco como recurso criativo e melódico: “‘Agora’ em meu altar se fez acalanto / A arte ‘Enxuga o Pranto’ pra ‘Retumbante Vitória’ / Glória com teu povo azul e branco / Tua voz é o encanto para o mundo ‘Vadiar’”. O verso “‘Agora’ em meu altar se fez acalanto”, em interpolação melódica de “Coração em Desalinho”, é indutivo ao canto e fácil de memorizar. Outro destaque melódico aparece no verso “Lá laiá laiá laiá / Se eu for falar de ti não vou terminar / ‘Juro que nem posso me lembrar’ / Se eu for falar de Monarco não vou terminar”, gostoso de ouvir e cantar. A melodia da obra, em geral, é muito agradável, apesar de não ser explosiva, e atende bem à composição. Entretanto, o refrão principal “Salve a Velha Guarda, salve o nosso sentinela / ‘Corre pra ver’, tua Portela! / Eterna é a minha devoção / Ao mestre, com carinho e gratidão” perdeu a oportunidade de ter a mesma força e destaque dos outros versos, passando sem brilho. A performance foi segura e teve a energia necessária à obra, com belas harmonias vocais do carro de som. Apesar do bom rendimento da apresentação, o samba foi recebido de forma fria pela quadra.
Parceria de Toninho Geraes: Um dos grandes destaques da noite foi a parceria de Toninho Geraes, defendida energicamente por Dowglas Diniz. A composição traz forte poética em mais uma carta endereçada ao Mestre, relembrando sua importância para a comunidade azul e branca de Madureira. O refrão principal, “Enxugue o pranto, diga a Deus e vem embora / Traga seu lenço pra essa gente que lhe adora / Viva Monarco! Portela canta feliz / Eternamente Hildemar Diniz”, mostrou sua força: estava na boca do povo desde o início e é um dos momentos mais fortes em melodia e letra, além de ser um dos refrões mais potentes desta noite de apresentação. Além dele, o pré-refrão, “Mestre, ‘a cor do nosso pavilhão’ / Nos conduz, é ‘a cor do nosso coração’ / É a luz, comunhão de gente bamba / A fé em Nossa Senhora e São Sebastião / Embala toda gratidão / Nos braços da Majestade do Samba”, também foi um momento quente. O refrão do meio, “Caiu no samba iaiá e a Águia chamou / Botou chapéu Panamá, ‘oh linda’ / História de amor / Poesia no quintal / Brincou o Carnaval / Com a bênção de Natal em Madureira”, é divertido e se destaca pelo jogo de palavras e por chamar um dos “ancestrais” da Portela, Natal. Evocar os nomes de Paulo, Candeia, Rufino e Natal é tocar no “centro de força” do portelense. Presentes em grandes clássicos da agremiação, esses nomes representam uma boa conexão com a memória da escola. A parceria teve ótimo rendimento, além de contar com alguns segmentos, como a presidência da escola, cantando o samba.
Parceria de Gerson PM: O penúltimo samba da noite foi interpretado por Paulo Bispo, Antônio Carlos, Joãozinho e Cecília D Preto. A obra traz a trajetória do mestre Monarco, destacando seu destino traçado pela música desde a infância. A composição apresenta uma melodia empolgante e foi defendida de forma enérgica. Entretanto, a performance careceu de fluidez, começando já atravessando a melodia e ficando desordenada durante boa parte da primeira passada. Os intérpretes também não pareciam muito seguros com a letra. Na terceira passada, o intérprete chegou a demonstrar fortemente falta de sustentação, parando os trechos com cansaço. Também merece destaque o trecho “Tendo fé no padroeiro e na loteria / Com o amor de Dona Olinda a cantar na boemia”, que apresenta uma melodia pouco coesa. O refrão “Olha o peixe, olha o peixe, freguesia! / Pelas feiras da cidade no dia a dia / Olha o peixe, olha o peixe, freguesia! / Cantando, ele vendia” é um recurso criativo que traz descontração e certa “bossa” à letra, apesar da repetição excessiva, que tira um pouco de sua força. O rendimento foi decrescente. A apresentação passou sem brilho, com a energia caindo ao longo da performance, com um público desconectado e desengajado.
Parceria de Wanderley Monteiro: Um dos grandes destaques da noite foi responsável por encerrar a disputa. A obra da parceria de Wanderley Monteiro foi defendida por Wander Pires, Wandinho e Charles Silva. Em sua composição, traz uma bela exaltação ao legado de Monarco e sua permanência na alma portelense. Tem seu ápice em “Eu sou a sua eterna continuação”, verso que sela a ideia de continuidade e da presença eterna de Monarco na “cultura portelense”. A performance teve um início de arrepiar, tamanha sua força, sustentado pelos versos, pela força poética e pela defesa brilhante do trio e de seu carro de som. Em destaque, o verso “A bênção, meu velho”, apresentado nessa mesma estrutura de início de estrofe, bate como uma memória recente para os sambistas e funciona muito bem, remetendo a uma construção lírica recentemente consagrada no Carnaval, sem perder a identidade da própria composição. O trecho “Pra entender tem que ter um ‘a’ / De amor, e um ‘quê’ / De Madureira na alma / Tem que ter a luz / Carregar no peito Oswaldo Cruz” foi fortemente cantado na quadra, além de carregar um dos destaques melódicos e criativos da obra. É um dos versos mais fortes da composição. Já o trecho “Agora uma enorme saudade devora”, alusão a “Coração em Desalinho”, está bem encaixado na canção, bem executado e indutivo ao canto. O refrão principal, “E por falar de amor, dos que não vão terminar / Falar de Monarco, meus olhos vão marejar / A Velha Guarda, teu sorriso na lembrança / Eu sou Portela desde os tempos de criança”, tem sua força especialmente no verso final. “Sou Portela desde os tempos de criança” bate forte no peito do portelense, trazendo um ponto de identificação ainda maior para uma relação que já é profundamente existente entre o torcedor e o enredo. O samba foi cantado do início ao fim pela quadra, de “cabo a rabo”, com pouca necessidade de “cola” da letra. A apresentação encerrou a noite levantando a quadra. Empolgou a Velha-Guarda e os baluartes, que se aproximaram do palco para cantar e dançar.









