A Ilha é a voz do povo preto! Com um refrão que sintetiza o clamor da luta contra o racismo, pregando justiça e respeito, o samba da parceria de André de Souza, John Bahiense, Ricardo Castanheira, Leandro Pereira, Leandro Augusto, Júlio Assis, Flávio Stutzel e Vagner Alegria foi sagrado o vencedor na final do concurso para escolher o hino oficial da União da Ilha do Governador para o Carnaval de 2024. A obra vai embalar o enredo “Doum e Amora: crianças para transformar o mundo!“, assinado pelo carnavalesco Cahê Rodrigues, inspirado livremente no livro “Amoras”, do rapper e escritor Emicida, e em contos infantis do universo da literatura brasileira negra. A proposta é através do olhar infantil debater questões antirracistas e a intolerância religiosa. A agremiação, no ano que vem, será a quarta escola a cruzar a Marquês de Sapucaí no sábado de Carnaval, dia 10 de fevereiro, segunda noite da Série Ouro.

Fotos: Allan Duffes/CARNAVALESCO

Ao CARNAVALESCO, o compositor Júlio Assis comentou o que representou a vitória na disputa de samba. “Significa muita coisa para mim ser campeão logo na primeira vez em que eu estou disputando em uma escola tão tradicional como a União da Ilha. É um máximo. Fui super bem recebido, adorei o projeto e fomos coroados sendo escolhidos. E quanto a parte do samba que mais toca o meu coração é o refrão do meio, principalmente o verso ‘Bate tambor, bate tambor pro Erê’. É muito bom, é a minha paixão”.

Cabeça da parceria, o compositor André de Souza citou que o trabalho na escola sempre acontece buscando uma melodia diferente. “A gente sempre vem com uma linha diferente. Os nossos sambas, são sambas inteligentes, com melodia, com letra forte, só que a gente não era reparado. Eu sempre falei que uma hora nossa estrela ia brilhar, e finalmente brilhou. Agora, as pessoas vão ver quem é André de Souza, quem é John Bahiense, quem é Leandro Augusto, que é Leandro Pereira, que é Júlio Assis. Estão reconhecendo a gente, que aqui tem samba. É samba feito na Ilha, com amor. Aqui não existe escritório, somos nós que fazemos. Esta é minha segunda vitória, já tinha ganhado em 2018, mas essa tem um gosto diferente, porque foi só a minha galera. Já em 2018, a gente juntou parceria. Então, vencer só com os meus é muita felicidade. Como diz o nosso refrão principal, a Ilha é a voz do povi preto. Esse verso me representa. A gente vai mostrar a força do negro, não queremos atacar ninguém, queremos é igualdade, apenas isso”.

Os compositores Ricardo Castenheira e Leandro Pereira também comentaram a vitória na Ilha. “Nós fizemos o samba por amor a arte e a nossa comunidade. Queremos respeitar a nossa ancestralidade. Com certeza, a minha comunidade abraçou e o resultado entregamos a Deus. Hoje a Ilha tá em festa. Passei 30 anos sem escrever um samba, 28 anos sem subir no palco e voltei a agora. Então, o maior presente que eu posso receber é a minha comunidade estar feliz, que é o que importa. Agora, nós vamos para a avenida para mexer com o povo carioca, com um samba que fala da batalha contra o preconceito e do apoio ao povo preto”, disse Castanheira. “O sentimento é imenso. Eu tenho 29 anos nessa comunidade e é um presentão de 30 anos ter um samba meu no desfile. A escola aderiu, a comunidade abraçou e a gente tem que comemorar muito”, completou Leandro.

Carnaval de resgate na Ilha

O presidente da agremiação, Ney Filardi, conversou com a reportagem do site CARNAVALESCO durante a final do concurso de samba-enredo e falou sobre as expectativas para o desfile do ano que vem. Segundo o dirigente, a União da Ilha pretende fazer um carnaval de resgate para além da identidade da escola, retomando a organização e o planejamento que outrora foram marcas da tricolor insulana.

“A União da Ilha irá fazer um Carnaval totalmente diferente do que foi ano passado, um Carnaval mais organizado. Espero que as autoridades municipais, estaduais e federais, já que vão dar a chamada subversão, que dêem em um prazo mais flexível, que não seja igual desfile passado. As escolas da Série Ouro receberam o dinheiro da Prefeitura muito tarde. Olha que o Eduardo Paes é meu amigo, é meu irmão querido, mas o dinheiro entrou faltando 39 dias para o Carnaval, isso é inadmissível. Mas, independente disso, já estamos nos organizando de forma que esperem um Carnaval completamente competitivo. Nosso objetivo é o título”, garantiu o presidente.

Ney Filardi também falou sobre a mudança de barracão da União da Ilha para o Carnaval de 2024. A escola se mudou para um espaço localizado na Via Binário do Porto, próximo a Cidade do Samba. O local, até o desfile passado, era ocupado pela Porto da Pedra, campeã da Série Ouro em 2023.

“Quero publicamente agradecer ao meu amigo Fábio Montebelo, presidente de honra da Porto da Pedra, que muito gentilmente cedeu o barracão. Com todo respeito a todas as agremiações, nós estamos agora no melhor barracão da Série Ouro. A Viradouro esteve lá e saiu campeã. A Porto da Pedra também. É um barracão de sorte”, disse, bem-humorado, o presidente da tricolor insulana.

Cahe: ‘Enredo é junção de coisas que a Ilha ama’

A União da Ilha irá para o terceiro Carnaval consecutivo na Série Ouro. No primeiro desfile após o rebaixamento do Grupo Especial, a tricolor insulana obteve um terceiro lugar com “O vendedor de orações”, uma homenagem a Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. No ano seguinte, a agremiação decidiu fazer um tributo para a madrinha Portela em “O encontro das Águias no templo de Momo”, que terminou apenas em sexto lugar. Em busca de alcançar o campeonato em 2024 e garantir o retorno para primeira divisão da folia carioca, a escola irá apostar na mistura das temáticas africana e infantil, através do enredo “Doum e Amora: crianças para transformar o mundo”, inspirado na obra de Emicida.

“Esse enredo para 2024 é uma junção de coisas que a Ilha ama, que são os temas infantis e afro. Quando lá atrás eu comecei a perguntar para galera o que eles queriam como enredo, sempre ficavam entre esse dois temas, por isso acabei juntando os dois. É claro que é uma temática afro totalmente diferente, por ser aliada com uma temática infantil, mas que nada tem a ver com o ‘Brinquedo e Brincadeira’ como as pessoas chegaram a especular no início. A gente tem a essência do infantil no enredo, mas não é um enredo de brincadeirinha de criança, pelo contrário. Nossa proposta é muito séria, mas que vai ser contada por duas crianças. Ou seja, podem esperar uma Ilha muito colorida, uma Ilha leve, eu eliminei muito esplendor e muita coisa gigante que a gente usou no último carnaval, e com uma mensagem muito direta. O nosso desafio era encontrar uma estética pra esse Carnaval e acho que as pessoas vão gostar muito do resultado”, afirmou Cahê Rodrigues em entrevista concedida ao site CARNAVALESCO.

Programação dos ensaios

Com o samba já definido em pleno mês de agosto, a União da Ilha irá iniciar os ensaios de quadra em setembro e irá para rua em outubro. É o que revelou o diretor de carnaval da agremiação, Dudu Falcão, durante conversa com o site CARNAVALESCO.

“Antecipamos bastante a nossa final exatamente para gente ganhar a nossa matéria-prima mais cedo para poder trabalhar e transformar em uma joia. Nós tivemos uma grande satisfação de fazer uma final onde os quatro sambas finalistas caberiam tranquilamente em um desfile para gente. E escolhido o melhor, vamos trabalhar aí duas semanas em cima do samba, ensaiando o nosso carro de sol com esse samba e tentar lançar ele até antes da gravação oficial para que as pessoas conheçam melhor ainda o nosso nosso trabalho. Então, acredito que na metade de setembro nós vamos começar já com ensaio de quadra e vamos também antecipar o ensaio de rua, que é algo que é muito mais saudável para o componente da Ilha, que é muito importante e agrega muito mais. A previsão é que no mês de outubro a gente vá para rua trabalhar o nosso Carnaval”, contou Dudu.

Nêgo: ‘Eu sou pé quente’

Novo intérprete da Ilha para 2024, Nêgo citou a relação com a escola. “Foi maravilhoso esse encontro. Trabalhei aqui na Ilha, na Praia da Rosa, em um estaleiro. Cheguei aqui e me familiarizei por ser um lugar maravilhoso e ter uma escola de tradição. Eu fico muito feliz de ter vindo para a Ilha. Eu tenho a felicidade de ser intérprete oficial dessa escola, pela primeira vez. Estou vindo para cá porque sempre fui fã do Aroldo Melodia. Sou fã do Ito (Melodia), que está em outra agremiação. Abriu essa oportunidade e foi muito bom estar nessa grande agremiação”.

O cantor vem de dois títulos seguidos na Série Ouro, com o Império Serrano (2022) e com a Porto da Pedra (2023). “Eu sou um cara que peço bastante a Deus, ao santos e aos orixás, que me iluminem no momento de entrar na Sapucaí. É sempre uma mágica, aquela avenida. Eu tive a oportunidade de passar por grandes escolas, e meu sonho sempre foi fazer um trabalho na União da Ilha. Estou realizando. Tenho certeza que vou entrar na avenida em busca do campeonato para a escola”.

Apesar das vitórias, Nêgo não tem conseguido voltar ao Grupo Especial. Porém, ele disse que a decisão não é sua, mas das escolas. O intérprete, um cara do bem, não polemizou. “Essa questão de subir e não ficar na agremiação é decisão da escola. As pessoas têm opção de ficar com o cantor ou não. Quando você casa com uma pessoa, a opção de ficar com ela é sua. Foi opção da diretoria não ficar comigo na escola. Mas, eu tenho certeza de que não faltei com nenhum compromisso com a nenhuma agremiação. Isso é o mais importante pra mim: ter feito o meu trabalho sem faltar, sem dar problema e sem nada. Eu fico muito feliz com isso”.

Carinho de Nêgo e Neguinho

Durante a final de samba-enredo da União da Ilha, o intérprete Nêgo chamou o irmão Neguinho da Beija-Flor ao palco. Os dois trocaram carinho. Neguinho até brincou: ‘O presidente Ney Filardi falou que o Nêgo é um Viagra. Onde ele chega levanta tudo’. Depois, o cantor da Beija-Flor fez apresentação rápida e luxuosa com o auxílio da sua nova joia Wendel Santtos.

Baterilha ainda celebra os 40 pontos de 2023

Comandante da “Baterilha”, mestre Marcelo Santos fez um balanço do desfile de 2023. “É bastante positivo. Nós conseguimos gabaritar. Não foi suficiente para a escola conseguir o acesso, mas pelo menos meu quesito se comportou muito bem. Eu fiquei muito satisfeito e os, tão sonhados, 40 pontos vieram”.

Depois, ele contou o que pode melhorar na bateria para o ano que vem. “Sempre tem algo a melhorar. Não pode se acomodar porque conseguiu os 40 pontos. A Série Ouro é muito competitiva e tem grandes baterias, então não podemos deixar a desejar em nada. E a bateria da Ilha é renomada, por isso, temos sempre que trabalhar para manter o alto nível”.

Mestre Marcelo Santos aprovou o enredo e citou o que pode render para bateria. “Muda bastante o nosso modo de trabalho de 2023 para 2024. Tem que fazer outra roupagem, já que no ano passado nós fizemos um trabalho mais tradicional. Para 2024, terá outra pegada, com instrumentos de matriz africana. Já tenho ideia do que será feito. Nas apresentações dos sambas concorrentes, fizemos umas bossas neles, visando qual se adapta mais ao nosso estilo de bateria. Não é oficial, mas é teste para ter uma ideia do que será feito no desfile. Ajuda bastante escolher o samba ainda em agosto, porque a gente passa a ter um tempo maior, até mesmo para a gravação do CD. Porque sem correria para gravar, podemos fazer o mais próximo possível do que será apresentado no desfile”.

Casal unido e feliz na Ilha

Pelo segundo ano consecutivo, Thiaguinho e Amanda, formam o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira. “Foi a realização de um desejo voltar a dançar com a Amanda, que eu esperava há muito tempo. Tudo o que eu vivi, com a minha parceira anterior na outra agremiação, foi muito especial. Mas, eu tenho uma conexão de vidas com a Amanda”, disse o mestre-sala.

“Foi incrível. Eu me considero uma pessoa muito competitiva, então ter essa responsabilidade de novo, de pontuar, estando ao lado do meu parceiro de vidas, me deu mais segurança para poder voltar a pontuar. Foi em um momento perfeito, do nosso reencontro. E, a cada dia que passa, por incrível que pareça, a gente consegue criar ainda mais afinidade, movimentos e ideias. Tudo flui de forma muito gostosa”, completou a porta-bandeira.

O mestre-sala comentou que o enredo de 2024 atende muito a dupla. “É 100% familiar. Quando foi anunciado o enredo, as nossas redes sociais ficaram cheias de mensagens de pessoas querendo saber se nossos erês irão aparecer novamente. Não quero colocar expectativas em ninguém, mas eles vão aparecer sim. Nós vamos matar saudade desses personagens que tanto ajudaram a gente. Porque foi depois de representar os erês na Renascer de Jacarepaguá, que nós tivemos a oportunidade de ir para o Grupo Especial. Quem sabe não acontece o mesmo dessa vez?”

Amanda disse que a dupla ainda não viu a fantasia de 2024. “Ainda não. Ele (carnavalesco Cahe Rodrigues) só circulou as ideias. Ele faz mistério até o dia de mostrar o figurino, mas só do que ele falou, a gente já ficou bem empolgado. Agora, estamos só aguardando ele mostrar”.

Análise das parcerias na final

Parceria de Márcio André: O primeiro samba a se apresentar na final da disputa realizada pela tricolor insulana foi o composto por Marcio André, Marquinhos do Banjo, Gugu das Candongas, Vitor Lajas, Junior Nova Geração, Rafinha da Ilha, Romeu D’Malandro, Lobo Junior, Bigode e Marcio André Filho, com as participações especiais de Arlindinho Cruz, Inácio Rios e Igor Leal. A obra, defendida pelo intérprete Tinga, teve um bom desempenho, mas perdeu força ao longo dos 25 minutos destinado para cada parceria. O ponto alto do samba foram os dois refrões, com destaque para o refrão principal que tinha os versos “Oh minha Ilha! Rufam os tambores/Teu arco íris tem todas as cores/O mundo no olhar de um coração infantil/Um amor que jamais existiu”. A torcida veio ornamentada com bandeiras e balões nas cores da agremiação, além da utilização de bastões de luzes coloridas. Houve ainda a utilização de um elemento cenográfico que de um lado representava Amora e do outro Doum. Também teve a performance de dois artistas circenses em pernas de pau. No começo da apresentação, os torcedores entoaram o samba a plenos pulmões, mas o canto sofreu uma queda gradual a partir da terceira passada até perder força. Quanto ao restante da quadra, se observou uma reação tímida com poucas pessoas cantando e sambando.

Parceria de André de Souza: O samba assinado por André de Souza, John Bahiense, Ricardo Castanheira, Leandro Pereira, Leandro Augusto, Júlio Assis, Flávio Stutzel e Vagner Alegria foi o segundo a se apresentar na noite de decisão. Com a condução do intérprete Evandro Malandro, a obra teve um excelente desempenho e a torcida manteve o canto forte ao longo de todos os 25 minutos de apresentação. Foram utilizadas bandeiras e balões nas cores azul, vermelha e branca, que são as da escola, além da cor preta. Em comparação a primeira parceria, houve maior receptividade da quadra ao samba. Novamente, os destaques foram dois refrões. Porém, no caso da obra da parceria encabeçada por André de Souza, o que mais despontou foi o do meio, com os versos “Bate o tambor, bate tambor pro Erê/Sacode o canjerê, é festa no terreiro/Tem brincadeira, bolo e guaraná/No toque do adjá/É samba mandingueiro”.

Parceria de Noca da Portela: A parceria de Noca da Portela, Almir da Ilha, Ciraninho, Queiroga, Milton Carvalho, Playmobil, Rafael Carvalho, Marcelo Martins, REP e Marcinho M2 foi a terceira a ocupar o palco na final da disputa promovida pela União da Ilha. O intérprete Gilsinho foi o responsável por defender o samba. Com bandeiras e balões nas cores da escola, a torcida demonstrou bastante animação e cantou o samba durante os 25 minutos de apresentação, principalmente nos refrões. No restante da quadra, a tendência se repetiu, sendo os refrões os trechos de maior aderência também. Além deles, outro destaque da obra foi os versos “Axé… Ergue o punho e solta a voz/Essa luta é de todos nós/As correntes vão quebrar”, presente na segunda estrofe.

Parceria de Régis: A obra criada pela parceria de Régis, Kadinho da Ilha, Deco, Victor Rangel, Jb Oliveira, Camila Lúcio, Wagner Zanco, Almeida Sambista, Sérgio Alberto Romano e Samir Trindade encerrou as apresentações na final da União da Ilha do Governador. O intérprete Wander Pires comandou o microfone principal, tendo o reforço do também intérprete Tiganá. O samba melodioso e aguerrido conseguiu ter uma alta performance pelos 25 minutos, tendo como ponto o refrão do meio com os versos: “E lá vai nosso menino/No Cavalo de Ogum (Ogunhê, Ogunhê)/Salve nossas realezas/Cosme, Damião, Doum (Erê rê rê rê rê)”. A torcida cantou, sambou e pulou durante toda a apresentação. Assim como ocorreu nas demais parcerias, houve uso de adereços como balões e bandeiras nas cores azul, vermelha e branca. Também teve o uso de chuva de serpentina. Apesar do show feito pela torcida e da interpretação de Wander Pires, a obra não conseguiu conquistar por completo o restante da quadra, que só mostrava maior reação durante os refrões.