mangueira grava27 1
Foto: Thomas Reis/Rio Carnaval

A Estação Primeira de Mangueira esteve no HZ Estúdio, em Curicica, no Rio de Janeiro, para gravar o samba-enredo que integrará o álbum oficial da RioCarnaval 2027. A obra embalará “Oyá Por Nós”, enredo do carnavalesco Sidnei França. A escola encerrará a última noite de desfiles, na terça-feira, 8 de fevereiro. Às vésperas de completar 100 anos, a Mangueira escolheu homenagear Oyá em seu desfile de 99 anos. Protetora do matriarcado da escola, a orixá guerreira rege os ventos, as tempestades e as transformações. O enredo abordará os itans que compõem sua mitologia, além da força, da coragem e da determinação que recaem sobre seus filhos e filhas. A gravação marca mais uma etapa da trajetória do samba, desde a composição até a disputa na quadra e a preparação para o desfile. Para o compositor Junior Fionda, a emoção acompanha cada fase desse processo.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

“A gente já sabia,  tinha ciência de que o samba seria um samba diferenciado. Mas chegar à conclusão do que houve na disputa, para chegar aqui, é a maior emoção da vida. Já foi a final, a maior emoção da vida, e hoje mais uma”, afirmou.

A composição apresenta versos que expressam forte identificação com a proteção de Oyá, mas que não estão presentes na sinopse do enredo. Mesmo assim, seguindo o conselho da mestra Rosa Magalhães de que, em escola de samba, é o samba que manda, o carnavalesco Sidnei França deu sinal verde para a canção da parceria de Lequinho, submetendo o roteiro do desfile ao que determina a música. Dessa forma, Fionda também destacou a incorporação de questões relacionadas à intolerância e ao empoderamento feminino na construção da letra, aproximando a composição dos temas que atravessam o enredo.

mangueira fionda
Compositor Junior Fionda. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

“Para mim, são as partes que a gente acabou anexando ao enredo. Como o Sidnei (França, carnavalesco) falou sobre, que ele gosta de samba, de jeito de fazer samba, que agreguem ao enredo. E para a gente, a parte da intolerância, que não tinha, a parte também feminista que tinha sobre algumas coisas, independência, empoderamento feminino, mas não tinha sobre misoginia, essas coisas. E a gente foi agregando, agregando até chegar ao final. São as partes que eu mais adoro do samba”, explicou.

Para o compositor Paulinho Bandolim, a homenagem a Oyá torna a obra especialmente significativa no período que antecede o centenário da agremiação. O compositor chega à sua sétima vitória na Mangueira e observa a repercussão do samba para além da quadra.

mangueira paulinhobandolim
Compositor Paulinho Bandolim. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

“Não é um samba qualquer, é um samba especial, e que vem trazendo muitas alegrias para a gente. O samba vem se espalhando pelo Brasil, e as expectativas vão aumentando para o desfile. Desde o processo todo de composição com os meus parceiros, o processo também de disputa de samba na quadra, que foi muito bonito, muito intenso, e senti a escola inteira aclamando o samba, se identificando no samba. E, nesse momento agora, em que o samba se concretiza, ele ganha forma, eu acho muito bacana, muito bonito. Me emociona muito, a mim e aos meus parceiros, e nós estamos muito felizes. O resultado está sendo maravilhoso e, a cada momento, o instrumento, o coro, as cordas, o samba ganhando vida, eu sinto uma alegria imenss”, declarou.

Vitor Art destaca identidade musical da Mangueira

Diretor musical da escola, Vitor Art, que trabalha em parceria com Digão do Cavaco, avaliou o trabalho desenvolvido nos últimos anos e destacou a busca por uma identidade sonora própria. Os arranjos combinam diferentes instrumentos, recursos harmônicos, tambores e vozes, com escolhas pensadas para cada composição.

“É difícil avaliar o próprio trabalho, mas eu acho que a gente está conseguindo construir algo bem bonito musicalmente nesses últimos anos. A gente está conseguindo implantar uma identidade. Os arranjos a gente consegue passear por tudo que a gente tem de possibilidades instrumentais, tanto as harmonias, cavaco, violão, cavaquinho com afinação de bandolim que a gente usa, o violão de sete cordas, os tambores que a gente usa dentro da bateria e os arranjos vocais”, afirmou.

Para o diretor, parte essencial desse processo está em selecionar os recursos que melhor servem à composição, sem sobrecarregar o samba com ideias que não se encaixam em sua estrutura.

mangueira vitorart
Diretor musical da escola, Vitor Art. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

“Eu costumo dizer que as ideias, a gente tem muitas, a gente tem muitas ideias. O mais difícil é conseguir deixar um monte delas de fora. E acho que o nosso maior trabalho, de um todo, é ter bom gosto para escolher as melhores opções que a música, que o samba dá para a gente. Porque, no final das contas, assim, quem constrói o arranjo é o samba. A gente tem um monte de ideia, nem tudo que a gente pensa cabe dentro do samba. A gente tem muito esse cuidado. Acho que o saldo que a gente tem é positivo pelo que a gente está conseguindo criar, deixar registrado na história da Mangueira”, declarou.

A formação da ala musical também leva em conta as características de cada enredo e os limites técnicos previstos para o desfile. Vitor explicou como a equipe distribui as vozes e os instrumentos disponíveis.

“A gente pensa muito de acordo com o enredo, o que a gente vai inserir, o que a gente vai construir. E tem, na verdade, a possibilidade técnica que a Liesa, que a Rio Carnaval possibilita para a gente. A gente tem direito a oito vozes e quatro harmonias. Dentro disso, a gente tenta equilibrar o que é mais agradável, o que é mais dentro do nosso enredo. Para esse carnaval, a gente sempre pensa em um arranjo para o disco. E a partir disso, o que vai para a Sapucaí a gente testa várias outras coisas, inclusive que a gente gravou. Se vai ficar bom num todo, pensando na comunidade, no desfile”, explicou.

Vitor também falou sobre a parceria de longa data com o intérprete Dowgllas Diniz, construída desde a infância e que se estendeu ao trabalho musical na escola. O diretor recordou o momento em que percebeu o potencial do parceiro durante um ensaio de rua, em 2009.

“Em 2009, estava eu e o Zé Paulo, o Zé Paulo fazia parte do carro de som da Mangueira nesse período, e aí ele subiu no carro de som lá no ensaio, pegou o microfone e começou a cantar. E o Zé Paulo ficou olhando para ele assim, e tipo: ‘Pô, qual é, Zé? Acho que esse moleque aí…’. Não sei nem quantos anos ele tinha, mas ele era criança ainda”, relatou.

A amizade também influencia a dinâmica profissional, segundo Vitor, que descreveu uma relação de parceria na qual há espaço tanto para brincadeiras quanto para discussões sobre o trabalho.

“A nossa relação de trabalho é muito boa. A gente brinca muito, a gente fala muito sério, a gente discute muito, mas tudo isso em prol do trabalho. Ele aceita muito bem, os esporros, entre aspas, que tanto eu quanto o Digão, que a gente está, coloca para ele, os mestres também… A nossa relação como um todo é muito positiva. Ter a amizade é um colaborador muito grande para a gente”, afirmou.

O diretor antecipou que a escola ainda trabalha em ajustes e novas possibilidades, incluindo participações que serão reveladas posteriormente.

“Até o carnaval, com toda certeza, a gente vai ter várias outras possibilidades. Mas eu digo para vocês: a nossa faixa vai ser uma surpresa muito grande pelas coisas que a gente está pensando. A gente gravou hoje a nossa primeira etapa, a gente tem ajustes a fazer e tal. Temos outra gravação. E as participações é o que mais vai deixar a gente ainda mais, o mangueirense muito mais feliz, com toda certeza”, declarou.

Taranta Neto define andamento e bossas

Mestre de bateria da Mangueira, ao lado de Rodrigo Explosão, Taranta Neto explicou que a escola pretende levar para a Avenida o andamento de 140 batidas por minuto, mantendo uma cadência que considera adequada à composição e ao desempenho no desfile.

“Hoje a gente vai usar o andamento de 140 BPM, que é um andamento que a gente já quer levar para a avenida, porque a gente acha que o samba não decai do que o pessoal já está acostumado na quadra. Ele continua mantendo ali um limite de andamento que a gente necessita e que a gente acha que é o necessário para o desfile”, explicou.

mangueira taranta
Mestre de bateria da Mangueira, Taranta Neto. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A bateria preparou duas bossas para a gravação, com intervenções em trechos específicos da composição. Outras duas possibilidades ainda serão avaliadas pela equipe.

“No pré-refrão, no refrão… Na verdade, tem uma pausa ali no ‘segura que o xirê vai começar’, e ela vai até o ‘Eparrey’, lá na cabeça do samba, e uma bossa na segunda do samba ‘Ela dança no ilê axé’ nessa parte que vai até ‘Porque eu sou preta, macumbeira e de Oyá’. E ali a gente retorna o ritmo. Nesse momento são só essas duas bossas, mas a gente ainda tem umas duas guardadas que a gente vai analisar para ver se vai levá-las para as meninas também, mas essas duas já são certas”, compartilhou.

Taranta afirmou que o enredo tem mobilizado a comunidade e destacou o desejo de manter a energia nos ensaios e no desfile, com a expectativa de conquistar o título.

“Esse ano está um sentimento diferente. Acho que esse enredo mexeu com o coração de todo o Mangueira. Esse é um enredo que a gente já queria, por tudo que eu já vim fazendo aí na Mangueira, sendo citado aí há alguns anos. Esse ano sendo o enredo totalmente, 100%. Então é um enredo que a gente já queria, que a gente já estava querendo há muito tempo, está mexendo com todo mundo”, afirmou.

“Eu espero que a gente passe a gravação, os ensaios de quadra, os ensaios de rua, ensaios técnicos lá com a alegria lá em cima, louvando Oyá mesmo. E que a gente, na quarta-feira de cinzas, seja campeão. O que a gente mais quer hoje é trabalhar para ser campeão na quarta-feira de cinzas”, declarou.

Explosão aposta em andamento aguerrido

Rodrigo Explosão, também mestre de bateria, explicou que o andamento de 140 BPM será usado para dar energia à composição na gravação e aproximar a experiência de quem escuta em casa da vibração do desfile.

“A gente vai usar um andamento que vai ficar legal com o samba, vai ficar aguerrido. Para a galera que ouvir de casa, vai gostar bastante. Vai conseguir pular, comemorar, como se fosse Marquês de Sapucaí”, afirmou.

Mestre Rodrigo Explosão. Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Entre os destaques preparados pela bateria está uma bossa ligada a um dos versos do samba, cuja força, segundo o mestre, será percebida pelo público na gravação.

“A bossa especial que a gente tem, que a gente gosta muito. É a bossa em ‘sou preta, macumbeira e de Oyá’. É uma bossa que remete à palavra. É uma palavra bastante chamativa e a gente enfatizou bem ela, porque vai ser uma coisa que a galera vai gostar. Espera um pouquinho que vocês vão ouvir de casa, já já”, contou.

Para Explosão, a identificação da comunidade com a composição facilita o trabalho da bateria e fortalece a expectativa para o desfile.

“Eu acho que estamos representados. Precisávamos de um enredo, de um samba desse, até para animar a nossa comunidade. É muito bom quando escolhe um samba e a gente sabe que a comunidade abraçou. Já está todo mundo gostando, já está na ponta da língua de todo mundo. Assim que terminou a escolha de samba, fomos viajar para Uberlândia e a galera já cantando lá no outro estado. A gente sabe que é um samba que vai estar na boca do povo. Se está na boca do povo, vai ser mais fácil ainda para cantar”, afirmou.