ze marica 2
Foto: Thomas Reis/Rio Carnaval

A União de Maricá prepara mais do que um samba para apresentar Darcy Ribeiro na Marquês de Sapucaí em 2027. A obra campeã, que conquistou os compositores e foi abraçada pela comunidade, carrega uma mensagem sobre educação, desigualdade e o papel do samba como manifestação cultural e política. Durante a gravação oficial para o álbum do carnaval, o compositor Vinícius Ferreira destacou a responsabilidade de transformar a trajetória do educador em música e resumiu a visão que, segundo o compositor, também define a identidade da agremiação: “o samba tem lado”. Para Vinícius, falar de Darcy Ribeiro ultrapassa o desafio de desenvolver um enredo. O pensamento do educador também atravessa sua vida pessoal e os ensinamentos que procura transmitir aos filhos, tornando a composição uma experiência de identificação e responsabilidade.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

“Nossa, é emocionante, é muita responsabilidade e, de certa forma, é novo para mim. Falar de Darcy é uma coisa que impacta a minha vida, nos ensinamentos que passo para os meus filhos e na própria vida que levo, tendo Darcy como exemplo. É sempre uma grande responsabilidade falar de uma pessoa em quem você se espelha na vida.

vinicius marica
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Mas estamos confiantes, estamos muito felizes. A escola abraçou o samba de uma forma que eu não esperava, e é muito bonito ver e viver esse momento da União de Maricá, que é uma escola muito mais do que uma escola de samba. É uma escola que ensina a gente que o samba tem lado, que o samba tem lugar, que o samba tem uma força para além de qualquer coisa que o capitalismo queira vender.

Maricá tem um ideal, e isso também dá uma vontade muito grande de participar desse momento”, afirmou.

Entre os versos que compõem a obra, um trecho em especial concentra a dimensão humana dessa homenagem e a força da mensagem que Vinícius deseja levar para a avenida. Questionado sobre a parte que mais o toca, o compositor destacou: “Tantas peles eu vesti para que todo favelado sonhe com Darcy”.

A frase traduz a identificação pessoal do autor com a proposta do enredo e coloca no centro da narrativa a possibilidade de aproximar Darcy Ribeiro de pessoas historicamente afastadas dos espaços de acesso ao conhecimento e à educação.

Paulinho celebra trajetória da Bronze ao Grupo Especial

A gravação também representa um marco para mestre Paulinho Steves, que acompanha a União de Maricá desde o início da trajetória da escola. Depois de viver as diferentes etapas da agremiação, da Série Bronze à Série Prata e à Série Ouro, o mestre chega ao registro oficial do samba para o Carnaval 2027 com a escola no Grupo Especial.

paulinho marica
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

“Olha, eu posso falar para você que me sinto a pessoa mais realizada do mundo. E, para mim, tem um quê a mais. Estou na escola desde o início, então gravei Série Bronze, Série Prata, Série Ouro e agora o Grupo Especial. Para mim, é um prazer que eu consigo explicar com palavras, mas só quem vê, mesmo ali na frente da bateria, comandando, consegue entender o sentimento que tento passar com cada gesto para a bateria”, afirmou.

Para a gravação, a bateria trabalha com andamento entre 143 e 144 batidas por minuto (BPM). A definição para o desfile, porém, ainda será construída ao longo da preparação, considerando a resposta da escola nos ensaios.

“Agora a gente tem o nosso único carnaval de 2027, e o nosso andamento é entre 143 e 144 BPM”, explicou.

Paulinho também adiantou que a gravação contará com uma surpresa, mas preferiu não revelar o que está sendo preparado. O mestre demonstrou confiança no resultado e destacou a energia e a afinação como características do trabalho desenvolvido pela bateria.

“Tem, sim, tem, mas a surpresinha eu não posso contar agora. Quando sair a faixa da União de Maricá, você pode ter certeza de que, quando vocês ouvirem, vão pensar: ‘Caramba, olha o que o mestre falou!’. A energia é incrível, assim como a nossa afinação, que é a nossa cara. Está tudo na faixa do seu dia”.

Mauro destaca preparação e responsabilidade de levar Darcy à Sapucaí

Diretor de carnaval da União de Maricá, Mauro Amorim ressaltou a proposta da gravação ao vivo adotada pela Liga, formato que, na avaliação do dirigente, recupera características de registros marcantes do carnaval. Mesmo com pouco tempo entre a escolha do samba e a gravação, a equipe organizou uma preparação intensiva para colocar a obra em prática.

“O modelo que a Liga está adotando agrada muito ao sambista, porque é uma gravação ao vivo, que remete a bons momentos do carnaval. Escolhemos nosso samba na sexta-feira, mas tivemos ensaios no domingo, na segunda e na terça-feira.

mauro marica
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Tivemos uma obra escolhida que não precisou de alterações na letra ou na melodia. O samba foi praticamente aclamado como uma obra que já estava pronta para a gravação. Então, hoje, viemos gravar com muito carinho e vontade de entregar um produto muito bom para o povo do samba e do carnaval. Tenho certeza de que será muito bonito. É um momento muito especial que a escola está vivendo”, afirmou.

A responsabilidade de levar Darcy Ribeiro à avenida também acompanha o trabalho da direção de carnaval. Mauro demonstrou confiança na equipe e na estrutura construída pela agremiação para enfrentar o novo desafio.

“Estou feliz, sabendo da responsabilidade de mais um processo de levar Darcy à passarela. Estou determinado e sei que, com a força do nosso time, da nossa equipe, vamos ser felizes”, declarou.

Assim como Vinícius Ferreira, Mauro apontou um verso que concentra a mensagem do samba e a reflexão proposta pelo enredo. Para o diretor, a passagem “Pra gente ser feliz, reforma o tal progresso” é a que mais o toca na obra.

Zé Paulo aposta na emoção para a gravação oficial

Intérprete da União de Maricá, Zé Paulo explicou que a preparação aconteceu em um intervalo curto, já que a escolha do samba foi concluída na madrugada de sexta-feira para sábado. Ainda assim, a equipe conseguiu organizar uma proposta musical que dialoga com o enredo e com a forma como a escola pretende apresentar a obra.

“Acho que a gente sempre prepara alguma coisa, né? Apesar de termos pouco tempo para essa preparação, já que escolhemos o samba na madrugada de sexta-feira para sábado e estamos gravando hoje, deu tempo de preparar algo.

ze marica
Foto: Juliane Barbosa/CARNAVALESCO

Ainda estamos no processo de maturação da obra, mas estamos trazendo uma proposta bem bacana, que tem a ver com o enredo. Penso muito na parte musical e também na forma como a escola atua. Então, temos uma surpresinha para a galera hoje”, afirmou.

O intérprete também destacou a diferença entre o modelo de gravação em estúdio e o formato ao vivo. Na avaliação de Zé Paulo, compreender a dinâmica do processo é essencial para encontrar o equilíbrio entre a técnica e a emoção, especialmente em uma obra que ainda está em fase de amadurecimento.

“É um tipo de gravação diferente hoje. Foi o mesmo tipo de gravação que fizemos para o carnaval de 2024, lá na Cidade das Artes. É uma coisa de estúdio, em que você monta tudo e depois coloca a voz. Hoje é praticamente ao vivo, você faz tudo em conjunto.

casal marica
Foto: Thomas Reis/Rio Carnaval

Primeiro, a gente precisa entender o processo lá dentro para ver o que vai aplicar: um pouco mais de técnica, um pouco mais de emoção e entender como tudo vai funcionar. Como se trata de uma gravação ao vivo, vamos deixar a emoção falar um pouco mais alto”, explicou.

Ao escolher o trecho que mais o emociona, Zé Paulo voltou a um dos versos destacados pelos integrantes da escola e recitou parte da letra que conecta a busca pela felicidade à crítica à ideia de progresso.

“Para gente ser feliz, reforma o tal progresso. Fracasso é o sucesso quando fala o coração. Tantas peles eu vesti…”.

Nova etapa para a União de Maricá

A gravação oficial reúne diferentes dimensões da preparação da União de Maricá para 2027. Para os compositores, a conquista do samba representa a oportunidade de transformar em música uma mensagem que também atravessa suas próprias convicções. Para a bateria e a equipe musical, o momento exige cuidado técnico, sintonia e a capacidade de traduzir a obra em uma apresentação coletiva.

A trajetória de mestre Paulinho, que acompanhou a escola desde as primeiras divisões até a chegada ao Grupo Especial, ajuda a dimensionar o significado dessa etapa. Ao mesmo tempo, a confiança demonstrada por Mauro e Zé Paulo aponta para o esforço de colocar o samba em condições de representar a agremiação na avenida.