Com a temporada de escolhas de samba-enredo a todo vapor, as redes sociais viram extensão das quadras. A cada apresentação, surgem análises, torcidas, elogios e, claro, críticas às obras que disputam um lugar na Avenida. Mas, em meio à paixão pelo carnaval, até onde vai a liberdade de opinar? Em conversa com o CARNAVALESCO, sambistas refletem sobre os limites dos comentários nas redes sociais.

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Para Rodrigo Nascimento, que torce pela Mangueira, o cuidado com o trabalho das agremiações deve estar presente mesmo quando a opinião não é positiva. Para ele, existe uma diferença entre apontar o que não funcionou em uma obra e simplesmente desqualificar um trabalho que envolve compositores, intérpretes e toda uma preparação para a disputa.

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Rodrigo Nascimento torce pela Mangueira

“Tem que ter um certo cuidado e um respeito para poder comentar o trabalho dos outros. Cada um sabe da sua opinião, mas é isso, é o respeito pelo trabalho do próximo. Mesmo com a opinião de que não gostou do samba, teve todo um trabalho, todo um projeto, todo um desgaste para apresentar aquilo para a gente. Eu acho que a crítica é bem-vinda quando serve para alguma coisa, de forma construtiva. Mas, se for só para criticar, acho que às vezes é desnecessário”, afirmou.

Já o salgueirense Kauã Gabriel defendeu que a opinião não deve ser limitada pelo receio da reação. Para ele, a disputa de samba também é um espaço de manifestação do torcedor, que deve poder defender aquilo de que gosta ou apontar o que não o convence sem deixar de participar da discussão.

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Salgueirense Kauã Gabriel

“Opinião, assim, sem medo. O importante é você expor as suas ideias e colocar para fora. É isso que eu acho”, declarou.

Para Kauã de Menezes, de 23 anos, torcedor fervoroso da Portela, a crítica também faz parte do processo de construção de um samba. Acostumado a acompanhar de perto as discussões envolvendo a própria escola do coração, o sambista considera que a exposição de diferentes opiniões faz parte da disputa e pode contribuir para o aprimoramento das obras.

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Kauã de Menezes, de 23 anos, torcedor fervoroso da Portela

“Eu acho que a crítica é boa, porque ajuda a evoluir e melhorar o samba. E, para mim, está tudo bem. Podem falar à vontade, a Portela ainda é a maior campeã do carnaval mesmo”, avaliou.

A experiência de quem acompanha o carnaval há mais tempo também mostra que a crítica pode fazer parte da relação entre sambista e escola. Maquiador e torcedor da Viradouro, Wagner Matos afirmou que não costuma “passar pano” quando não gosta de uma obra. Para ele, o vínculo com uma agremiação não impede que o torcedor manifeste discordâncias, inclusive, quando elas partem de alguém que está dentro da própria comunidade.

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Maquiador e torcedor da Viradouro, Wagner Matos

“Eu sou aquele tipo de sambista que não passa pano. Se não me agradar, se eu vir que não é aquela coisa que representa a escola, eu falo. Já fui criticado por pessoas da minha própria escola, mas falei que achava que não representava. Como muitas outras vezes, eu quebrei a cara, mas acho que vale a pena você expor, falar”, contou.

Neste ano, Wagner viveu o movimento contrário: saiu em defesa da escola do coração na escolha do samba-enredo que homenageou Ciça, mestre de bateria da própria Viradouro. Durante a disputa, o samba que embalou o enredo campeão de 2026 sofreu muitas críticas nas redes sociais.

“No ano passado, todo mundo criticou. Você vai falar de si, vai dizer: ‘Gente, é história do carnaval, é história da vida dela, tem que falar sim’. E o mais bacana é que foi lembrado em vida. É isso que importa”, relembrou.

Gustavo Lacerda, auxiliar administrativo e torcedor da Vila Isabel e da Beija-Flor, considera a crítica exagerada aos sambas como “falta de caráter”, pois, em sua opinião, “sambista mesmo tem que saber se portar legal”.

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Gustavo Lacerda, auxiliar administrativo e torcedor da Vila Isabel e da Beija-Flor

Gustavo também chamou atenção para outro efeito que os comentários nas redes podem produzir: a criação de uma espécie de rejeição prévia em torno de uma obra. Para ele, a repercussão negativa durante a disputa pode permanecer mesmo depois que um samba é escolhido, influenciando a forma como a composição será recebida pela comunidade e pela própria escola.

“A pessoa critica muito um samba, aí o samba vai sendo escolhido, mas já fica aquele estigma no samba. Tem escolas que a comunidade escolhe um, mas a presidência vem e escolhe outro…”, afirmou.