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Foto: Reprodução/Rio Carnaval

A redução no número de etapas e a antecipação da escolha dos sambas-enredo estão mudando a rotina das escolas de samba do Rio de Janeiro. Se, por um lado, o formato mais enxuto diminui custos, encurta disputas e permite que as obras escolhidas cheguem mais cedo ao público, por outro, há quem veja prejuízos para a qualidade da safra e para o próprio processo de composição. Na última sexta-feira, durante a Noite dos Enredos, na Cidade do Samba, o CARNAVALESCO ouviu quatro sambistas e torcedores para saber o que o público pensa sobre essa nova realidade.

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As opiniões são distintas, mas convergem em um ponto: a mudança altera profundamente a relação entre compositor, escola, componente e público. Enquanto alguns defendem que concursos longos perderam sentido diante do número reduzido de obras atualmente inscritas, outros acreditam que o tempo menor para a criação pode comprometer a qualidade dos sambas apresentados.

O que você acha do formato de disputas mais enxutas?

Lucas Silva, 27 anos, historiador e torcedor da Viradouro

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“Particularmente, não me agrada. Não me agrada porque acaba refletindo na qualidade da safra, dos sambas. Infelizmente, este ano, as safras não me agradaram em conteúdo de samba, não em conteúdo de enredo. O enredo está muito bom, muito belíssimo. As duas escolas estão muito boas nas suas escolhas, só que, infelizmente, na questão da composição, não me agrada porque os compositores estão com um tempo muito curto e estão entregando 12 sambas para as duas escolas, de qualquer jeito. Infelizmente, os compositores estão tendo que escolher a escola à qual vão dedicar mais atenção, e isso acaba enfraquecendo todo o processo de escolha e de eliminatória”, afirmou Lucas.

Marcelo Macedo, 43 anos, jornalista, roteirista e torcedor da Beija-Flor

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“Eu acho legal, porque a gente, durante muito tempo, pedia por algo mais coeso, mais enxuto, porque, às vezes, a disputa era muito cansativa, mesmo você tendo 20, 30 sambas. Isso não é uma realidade de antigamente, quando a gente tinha 100, 110 sambas, como eu lembro que a Beija-Flor já escreveu uma vez. Então, não fazia muito sentido a gente estender uma disputa por três meses tendo 20 sambas, caindo um por dia, às vezes não caindo nenhum, como já acontecia. Então, eu acho que, quando você elimina algumas datas, você ajuda a escola, porque a escola gasta menos, tem uma economia de tempo e de dinheiro. Eu acho que o debate sobre os sambas fica mais quente, porque você condensa tudo num período mais curto de tempo, então você mobiliza melhor a escola, e ela tende a dispersar menos. Enfim, eu gosto desse movimento de tornar tudo mais dinâmico. Eu acho também que é uma conversa com os novos tempos. Tudo é mais urgente, tudo é mais rápido, então é bom. Acho que está funcionando legal”, pontuou Marcelo.

André Guilherme, 28 anos, advogado e torcedor da Imperatriz Leopoldinense

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“Eu acho que me agrada, sim, porque antigamente tinha, sei lá, 30 sambas, 40 sambas, e era muito complicado. Eu acho que, por um lado, perde para o compositor a oportunidade de apresentar mais obras, mas, por outro lado, eu acho que dinamiza o processo e facilita. E eu acho que, com essa divulgação que está tendo, está bem legal. Eu gostei do formato”, afirmou André.

Anderson do Nascimento Machado, 45 anos, torcedor do Salgueiro

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“Eu acredito que, para o compositor, seja mais interessante, até em função dos gastos. Tem escolas até colocando torcida já na semifinal e na final justamente para dar essa condição melhor para o compositor. Para o músico, até afeta um pouco, porque eu cheguei a tocar em disputa na Imperatriz que teve 17 semanas. Mas eu acredito que, para o bem geral, está sendo bom”, avaliou Anderson.

Escolher o samba mais cedo é uma vantagem para o público e para o componente?

Lucas Silva
“Sim, com certeza, facilita bastante, porque você ganha um mês, comparado até a anos anteriores, em que a gente tinha, no máximo, dezembro e janeiro para entender a letra e tudo mais. Inclusive, este ano o Carnaval começa no primeiro final de semana de fevereiro, então esse movimento de antecipar a escolha e a divulgação dos sambas no álbum é muito importante. Mas, em contrapartida, eu vejo que, a longo prazo, vai mudar até mesmo a questão da escolha do samba, para um futuro bem próximo, na verdade. A ver o que o pessoal da Liesa vai querer fazer com isso e se vai continuar com essa ideia de lançar álbum em outubro. Em outubro, a gente sequer pensou ainda em Carnaval. A gente, no sentido de público mais amplo, a gente que é sambista, vai pensar em Carnaval do dia 1º de janeiro até o dia 31 de dezembro”, contou Lucas.

Marcelo Macedo
“Eu acho que, este ano, a gente teve lançamentos de enredos próximos do desfile passado, mas alguns foram bem mais para cá. Eu acho que isso não muda muito. Eu acho que o componente continua tendo os mesmos desafios para aprender o samba, mas acho que é importante a gente entender que, este ano, o Carnaval é no início de fevereiro. Então, eu acho que antecipar, mais do que facilitar o canto e a memorização do samba, é permitir a fluidez da escola no trato do enredo, do desfile e do projeto. Porque a tendência é ficar acavalado quando você alarga muito. Então, condensar as disputas, escolher o samba antes, facilita os ensaios. A gente está com uma emergência, uma urgência climática que pode cancelar muitos ensaios, isso também é importante observar. Mas, enfim, eu acho que tudo isso, sendo observado, vai ajudar a festa deste ano a ser uma festa melhor, mais bonita, com todo mundo participando mais e melhor, os ingressos se esgotando cada vez mais rápido. Vai ser uma festa bonita, legal”, concluiu Marcelo.

André Guilherme
“Vejo, porque o samba circula mais pela cidade, consegue promover mais essa escola e tudo mais, então eu sou super a favor. Mais tempo para o público aprender, para o componente ter mais tempo de aprender a letra, de ensaiar também. Todo mundo se prepara, então eu sou super a favor”, afirmou André.

Anderson do Nascimento Machado
“Com certeza, isso aí é o grande boom, o grande lance. Porque, assim como o samba chega mais cedo para a escola, a gente consegue trabalhá-lo um pouco melhor, com mais tempo. E também tem hoje em dia a facilidade das redes sociais e dos streamings. Isso eu acredito que acaba atingindo o grande público”, pontuou Anderson.