tijuca disputa3007

A Unidos da Tijuca deu início à sua temporada de escolha do samba-enredo para o Carnaval 2027 na última quinta-feira, recebendo 15 obras concorrentes que se apresentaram na quadra da azul e amarelo. A noite foi de boas apresentações, e não houve eliminação de nenhum samba. A escola trará, em 2027, o enredo “A Cabeça do Santo”, baseado no livro de Socorro Acioli, sendo a segunda escola a desfilar na segunda-feira de carnaval. Abaixo, a análise do CARNAVALESCO sobre a apresentação das parcerias.

* Seja o primeiro a saber as notícias do carnaval! Clique aqui e siga o CARNAVALESCO no WhatsApp

Parceria de Gabriel Machado: Charles Silva defendeu o samba de Gabriel Machado, Júlio Page, Hélio Porto, Serginho Motta e Orlando Ambrósio. Uma melodia gostosa de ouvir e bem construída, que sustentou um rendimento forte da obra durante as três passadas. O refrão central, “Meu Santo Antônio pequenino, auê! Amansador de burro brabo, auê! Casamento entre vozes e clamores, traz a cura para as dores, faz o sonho acontecer”, é um dos pontos altos melódicos. A segunda parte, que conta o arrependimento de Samuel e o encontro com Nossa Senhora do Rosário, é excelente em sua narrativa, como nos versos “O perdão é libertário, seu milagre é Rosário, pra que o coração aqueça, o amor se encontra na fé, onde a história tem pé e cabeça”. O refrão principal não teve tanto destaque, mas passou com correção.

Parceria de Claudio Mattos: Pitty de Menezes e Rafael Tinguinha comandaram o samba da parceria de Claudio Mattos, Gustavinho Oliveira, Anderson Lemos, Daniel Goulart e James Bernardes. Uma apresentação bem consistente nas duas pequenas passadas, com uma leve queda na passada final. O refrão principal, “Valei-me, Santo Antônio, venha me valer, abençoe a Tijuca que tem sede de vencer, arriégua, faço um pedido ao céu, chegou a hora do milagre do Borel”, teve um bom rendimento em sua totalidade. A primeira parte possui uma letra com ótimos momentos, como “Partiu, disse adeus a Juazeiro, só levou o endereço e esperança como esmola, pra cada atormento uma prece, é miragem que aparece, sol a pino na caixola”, mas a melodia não se mostrou tão forte em suas variações. Na segunda parte, o desempenho cresceu, e a virada melódica para o refrão é muito bem feita.

Parceria de Luiz Carlos Máximo: Zé Paulo Miranda defendeu o samba de Luiz Carlos Máximo e Manu da Cuíca. A obra mostrou uma letra com uma poética própria da parceria, com ótimas sacadas, uma narrativa bem-humorada e uma linguagem coloquial em trechos como “De butuca na virada, pra cumprir sua fortuna, terra sagrada, de quem não pede arrego de maneira alguma”. O refrão principal, “É, Canindé, é, boi fubá, vô rasta minha chinela 13 dias sem parar, pra donde quer que o mundo vá, eu carrego pelo chão o meu tostão de Ceará”, segue essa toada, porém não teve um bom rendimento. No geral, a melodia soou mais truncada, não acompanhou o alto nível da narrativa e acabou se arrastando, contribuindo para um desempenho irregular do samba.

Parceria de Robson Ramos: Niu Souza defendeu o samba da parceria de Robson Ramos, Gegê Fernandes, Rafael Lopes e Vinicius Xavier. O intérprete teve ótima atuação e contribuiu para uma boa passagem da obra. Sobretudo em termos melódicos, o samba fluiu bem e não cansou durante as passadas, mantendo uma regularidade. O refrão central, “Valei-me, Santo Antônio, atenda a oração, a cabeça é oca, mas quem fala é o coração, é vela, é buquê no altar, o grande matrimônio vai começar”, é um dos trechos de destaque em melodia. A letra se mostrou mais irregular, com alguns bons momentos, como no início da segunda parte, com os versos “Mas pesou no peito o pecado, e o mensageiro silenciou a voz, lá no serrote, num pranto derramado, foi desatar o mais antigo dos nós”. O refrão principal é um retrato dessa irregularidade: bem simplório em letra, mas passou bem, principalmente nas duas primeiras passadas.

Parceria de Leandro Gaúcho: Wantuir defendeu o samba de Leandro Gaúcho, Ailson Picanço, Padre Felipe Calisto, Marcelo Moraes e Ricardo Construção. A primeira parte tem uma melodia belíssima e com excelente fluidez, com pegadas de arrasta-pé, tornando o samba empolgante, com uma letra também em bom nível, como no trecho “Em Caridade tem fuzuê, moganga de boiadeiro, xetruá, o problema foi o santo responder, a promessa pra menina se ajuntá”. Na segunda, o samba perdeu um pouco da potência, passando de forma mais cansativa, recuperando-se no refrão principal, “Santo Antônio pequenino, do sertão eu trouxe a luta, venha abrir nossos caminhos, a vitória da Tijuca, ele é de fé! Amansador de burro brabo, se dúvida é melhor tomar cuidado”. Entre uma primeira parte excelente e uma segunda irregular, o samba conseguiu um bom rendimento.

Parceria de Arlindinho: Rodrigo Tinoco, Guto e Milena Wainer comandaram o samba da parceria de Arlindinho, Igor Leal, Diego Nicolau, Fred Camacho e Bruno Dallari. O trio mostrou uma excelente harmonia de vozes em cima de um samba com ótimas variações melódicas, com elementos do arrasta-pé e alguns versos cantados de forma mais corrida, como no refrão central, “Joana queria José, mas Zé só pensava em Maria”, que foram muito bem conduzidos. O refrão principal, “Êta cadência arretada, escola danada do meu coração, Tijuca, vem e me vira a cabeça, que Santo Antônio abençoe o pavão”, passou muito bem em todas as passadas. A letra dissecou o enredo com extrema categoria, como nos primeiros versos “Lá nas entranhas do sertão do meu Ceará, nasceu a história de um menino sonhador, as cicatrizes que a vida tentou me dar, viraram marcas que a alma não curou, sem sorte, sem eira nem beira, errante, distante do quê? O peito vazio, calado no sol de arder”. A segunda parte é um pouco mais convencional em suas soluções, mas manteve a qualidade. Um desempenho de ótimo nível da obra.

Parceria de Lico Monteiro: Wander Pires cantou o samba de Lico Monteiro, Telmo AG da Estiva, Marcelo Adnet, Marcelo Lepiane e Juca Gomes. Outra forte apresentação, com a categoria de Wander explorando a boa linha melódica da obra, como no trecho “É só rezar pra Santo Antônio ouvir, ô diacho, me esqueça, vou achar um cazuá, atender a simpatia pra Toinho descansar”. Outros momentos melódicos de destaque são o início da primeira parte e os versos finais “Chorar, chorei, toca o sino e vem a romaria, guardo no peito o amor de Rosário, meu coração se fez moradia”. A narrativa do enredo é bem feita e com criatividade. O refrão principal, “Eu digo amém, o milagre vai chegar, e muito além, faço o povo acreditar, sou nordestino que vai à luta, a missão será cumprida, Tijuca”, passou com força nas três passadas, e o samba se sustentou. No início da apresentação da parceria foram ouvidos fogos de artifício do lado de fora da quadra, algo proibido pelo regulamento da atual disputa, de acordo com o paragrafo VIII do documento.

Parceria de João Estevam: Igor Vianna foi a voz principal na apresentação da parceria de João Estevam, César Som Livre, Cigano e Odmar do Banjo. Foi uma boa apresentação, linear, mesmo sem um momento de maior ápice. A segunda parte tem melhores momentos em termos de letra, como nos versos “Seu pai pediu perdão, ele ouviu o coração, com Rosário se casou, se livrou da escuridão, crendo na libertação, de fé, amor e devoção”. O refrão principal, “Salve Santo Antônio, em louvação, na pura cadência do meu coração, em toda história, vale a pena sonhar, minha Tijuca vai te emocionar”, teve um rendimento correto. No geral, é um samba menos extenso, com uma melodia estruturada em poucas variações.

Parceria de Ian Ruas: Dowglas Diniz e Vitor Cunha conduziram o samba de Ian Ruas, Caio Miranda e José Carlos. Uma narrativa bastante poética e sentimental, como na primeira parte, onde são relatadas as mágoas e os medos de Samuel, em versos como “Delírios plantados em terra rachada, florescem num rastro de dor, será que a estrada esconde o segredo do amor, será que a estrada revela o segredo do amor?”. O refrão central, “Ê, batuque em terreiro de arraiá, gingado, balão, festim, panela de mungunzá, abre a roda que o cabra incorporou, cabeça do santo herdei, cabeça do santo sou”, une lirismo e um ritmo gostoso, muito funcional. O bonito refrão principal, “Em terra de fé, brotou o fruto da oração, traz viola, meu sinhô, a sanfona anunciou, tem festança no sertão (vem sambar no meu baião)”, fecha muito bem a obra, que teve um ótimo desempenho em todas as passadas.

Parceria de Rafa Hecht: Emerson Dias liderou o samba de Rafa Hecht, Schumacher Rocha Jr., Dudu Seixas e Kaleo Augustus. A melodia tem algumas variações bruscas, sobretudo na primeira parte, enquanto, na segunda, foi melhor resolvida e teve bons momentos, como nos versos “Quando a última vela, enfim, acendeu, no olhar do passado, se reconheceu”. A letra é bem construída e com boas sacadas, vide os versos “E no relicário, três santos vão alumiar, em credo e cruz, clareia o breu, na visagem, o tinhoso apareceu, vade retro, deixa o cabra caminhar, a miragem faz maré em seu olhar”. O refrão principal, “A Tijuca vai cantar, a poeira vai subir, rodeia a mim, meu Santo Antônio, rodeia, na minha fé, escolhi acreditar, o milagre mora na coragem de sonhar”, passou bem e animado. Uma apresentação inconstante, com alguns bons momentos.

Parceria de Dudu Nobre: O samba de Dudu Nobre, Totonho, Fadico, Júlio Alves e Kadu Gomes teve Tinga como voz principal. O intérprete comandou uma apresentação quente e estável nas três passadas. O refrão central é excelente, com os versos “Que som é esse que causa querência, pura cadência de se arriar, era Rosário nas mornas de dengo, era um quengo a desabafar (carcará)”. A letra, aliás, é bastante criativa e conta bem o enredo, em trechos como “Fé na bagagem, chama acesa, peregrino, de alembrar Jesus Menino, de fazer aperrear, a dor nos ombros, o assombro, cramulhão, despertar dignidade, caridade no sertão”. A segunda parte tem uma melodia mais lírica, casando bem com a redenção do personagem central do enredo. O refrão principal, “Se o mar virar sertão, vamos transbordar o amor, reerguer a nação que o Santo endireitou, Tijuca arretada é prece, é raiz, chama o povo do Nordeste pra salvar nosso país”, é forte e teve um bom rendimento.

Parceria de Samir Trindade: Evandro Malandro e Tem Tem Jr. defenderam o samba de Samir Trindade, Sandro Nery, Kleber Rodrigues, JP Figueira e Gilberth Castro. A segunda parte é excelente em sua narrativa, com trechos como “A mesma fé que uniu destinos me envergonhou, tão pequenino eu subi a pé, ai, meu Padim Ciço, o medo me encontrou, ao perdoar, me libertei, cabeça e corpo se abraçaram, revi Rosário, milagre em que acreditei”. A primeira parte traça um paralelo entre a familiaridade da história de Samuel e a de qualquer um de nós. O pré-refrão, “Ê, Santo Antônio, em teu colo a esperança, que é toda criança do sertão e do Borel, sou Tijuca, vai ter samba e ladainha, no terreiro ou na igrejinha, lá na Rua São Miguel”, terminando no bis “Rodeia, rodeia, rodeia, meu Santo Antônio, rodeia”, foi o ápice em termos de desempenho da obra. Melodicamente, o samba também é bem resolvido e teve uma apresentação redonda.

Parceria de Paulo César Feital: Pixulé comandou o samba da parceria de Paulo César Feital, Franco Cava, Zeca do Cavaco, Jorge Mathias e Rafa Cria. A primeira parte é um primor, com belíssimos versos. A obra já começa em alto nível: “Parido do barro do chão no sertão brasileiro, do ventre divino e ofendido de Mãe Marinha, por línguas cruéis e profanas, lá de Juazeiro, resolve que um dia ele há de cumprir sua sina”. O refrão central, “Em Caridade, disse o Senhor, não se esqueça, vá se hospedar na cabeça, nos pensamentos, nos sonhos, sirva teu povo, Samuel, se compadeça, cumpra, por Deus, as promessas da ordem de Santo Antônio”, explora a relação com a religiosidade após se tornar o proprietário da tal cabeça de Santo Antônio. A letra é toda muito bem amarrada e inteligente. Por sua vez, a linha melódica tem alguns momentos em que as variações não funcionam tanto e, no geral, ficou abaixo do alto nível da escrita, resultando em um desempenho irregular do samba durante as passadas, como no refrão principal “Santo Antônio, nos dai amor, São Francisco, abençoai, com a luz de Padim Ciço lá no céu, sou a Tijuca, cabeça e corpo do Borel”.

Parceria de Henrique Badá: Bico Doce e Tarobá defenderam o samba de Henrique Badá, Jailson Tarobá, Fernando Mesquita, Marcelo Oliveira e Dionísio. Um samba com melodia convencional, bem amarrada, mas sem um ápice. O refrão principal, “Abre o livro pra contar, Tijuca, a história do menino Samuel, e na quarta-feira ver comemorar a comunidade do Morro do Borel”, é animado, porém simplório em letra. O refrão central, “O sol quente a lhe causar delírios, devaneios da imaginação, o deserto virou mar, azulzinho, vixe Maria, vá de retro, cramunhão”, já se destaca mais em seus versos. O trecho final da segunda parte, “Se arrependeu, buscou redenção, a vela acendeu, cumpriu a missão, e o menino andarilho concedeu o seu perdão”, mostra uma melodia interessante. A apresentação foi regular.

Parceria de Márcio André: Nêgo, Leozinho Nunes e Thiago Britto cantaram a obra da parceria de Márcio André, Daniel Katar, Robson Bastos, Rômulo Massacessi e Gilson Bernini. O samba fechou bem a noite com uma boa apresentação. A melodia é bem interessante, com algumas variações envolventes, vistas em trechos como “Arrependido, com mainha na lembrança, subi o monte e paguei minha promessa, pro Padim Ciço e São Francisco eu rezei, fui perdoado, o pobre homem perdoei”. O refrão central, “Vixe Maria, nunca tinha visto isso, a cidade em rebuliço, um tremendo quiprocó, e quem diria, por assombro que pareça, tem um santo sem cabeça, era um fuxico só”, tem uma melodia deliciosa. O enredo é bem retratado, com destaque para o citado refrão e o trecho “Parti do Cariri, um descrente peregrino, sol a pino, chão rachado na poeira do destino, será miragem ou coisa do cramulhão, o sertão virou o mar e o mar virou sertão”. O refrão principal não causou impacto na apresentação e passou de forma mais morna.