Por Marcos Marinho, Matheus Morais, Mariana Santos e Miguel Correia

Força e potência! Assim, o Salgueiro escolheu o samba-enredo da parceria de Ian Ruas, Caio Miranda, Zé Carlos, David Carvalho, Luiz Fernando, Luana Rosa, Fabiano Mattos, Carlão para o Carnaval 2027. O resultado foi divulgado por volta das 5h deste domingo. Com o enredo “Laroyê Xica da Silva: A História por Trás da História”, o Salgueiro será a terceira a desfilar na segunda-feira de carnaval.

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Foto: Victor Busch e Mariana Santos/CARNAVALESCO

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Compositores celebram vitória ‘quase’ inédita

“Eu estou muito emocionado, estou extremamente emocionado, eu não sei como reagir. O nosso samba tem um poder enorme. Ele evoca as mulheres para amar o seu poder, a sua potência. Isso com certeza vai ressoar na avenida”, disse o compositor Ian Ruas, em entrevista ao CARNAVALESCO, celebrando sua primeira vitória na Academia do Samba.

“É muito emocionante. Eu sou salgueirense desde que me entendo por gente. Meu pai está ganhando esse samba junto comigo, ele que é o compositor atualmente mais antigo da escola. É uma emoção assim, sem tamanho. É um sonho sendo realizado. Eu até agora não estou acreditando, mas eu tenho certeza de que foi a melhor escolha para a escola. Enfim, vamos juntos levar os 40 pontos. Dilacerei as vestes da servidão. Meu corpo foi invasão, fetiche da branquitude… É a minha primeira. Meu pai, sim. Meu pai é compositor do samba da ‘Rua do Ouvidor’, que é um samba superconhecido. Mas eu não. Eu comecei agora. Sim, temos três anos que eu disputo com o samba, sempre na parceria dele, com ele e com o meu irmão. É muito significativo ganhar esse primeiro prêmio junto com o meu pai e o meu irmão. É a família”, comentou a compositora Luana Rosa.

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Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

“É uma coisa emocionante por todos os aspectos. Quem é do Salgueiro, tendo seu filho e sua filha como parceiros de composição, é muita coisa que eu nem consigo descrever. Vim aqui cuidando do meu coração, para evitar qualquer problema, mas estou muito alegre, muito feliz com esse samba. Esse é o segundo que ganho no Salgueiro. O outro foi o da Rua do Ouvidor. A emoção de ganhar é sempre a mesma, parece que é a primeira vez que você está participando. Dessa vez foi ainda mais gratificante para mim, com a minha filha e o meu filho na parceria”, afirmou o compositor Luiz Fernando.

‘Chegou a dona da casa’: Salgueiro se incorpora em Xica da Silva no show da final

O Salgueiro abriu o espetáculo de sua final com um gesto de retomada: a voz de Xica da Silva, guiando o público por suas próprias multiplicidades. A mesma pomba-gira que inspirou o enredo da escola em 1963, vivida pela atriz Isabel de Valença no desfile campeão, e revivida nas telonas pela atriz Zezé Motta no filme de Cacá Diegues, de 1976, e nas telinhas por Taís Araújo, em 1996, na novela da extinta TV Manchete. Entre uma cena e outra, uma frase resume o tom do espetáculo: “chegou a dona da casa”. É a própria incorporação de Xica da Silva que assume a noite na Academia do Samba.

O show abre com um baile em trajes coloniais, e é nesse cenário que Xica da Silva surge, primeiro apresentando a dança, depois retornando com um banquete, em uma mesa farta oferecida à plateia como um convite. A proposta é olhar outras perspectivas de uma personagem histórica presente no imaginário cultural brasileiro. Se no passado tentaram embranquecer e domesticar a imagem de uma mulher preta e poderosa, agora é ela quem oferece um outro olhar sobre si mesma.

Xica da Silva assume o protagonismo de sua própria história e é reapresentada como uma força negra e feminina, estrategista social através da fé.

A mulher que se associou às irmandades brancas como estratégia de inclusão social dos negros. Xica da Silva fala em primeira pessoa e em múltiplas perspectivas para a comunidade salgueirense.

É Xica da Silva saindo de dentro de um grande bandeirão vermelho e branco a imagem que sintetiza bem a proposta. O Salgueiro é incorporado na saia de Xica da Silva, que gira, reconfigurando a figura histórica em energia vital para 2027 e falando diretamente às mulheres do Morro do Salgueiro.

O espetáculo reforça essa presença em outras cenas, como na apresentação da Bateria Furiosa, sob o comando dos mestres Gustavo e Guilherme, que fez um superaquecimento. Xica também fala através dos tambores do Salgueiro. Até o mascote da escola surge com trajes de Xica, reforçando a incorporação da agremiação.

Outro momento muito esperado da noite foi a apresentação do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira, Sidclei Santos e Laryssa Victoria. Ele, todo de preto, e ela, em vestido vermelho e preto, performaram a escola em seu novo momento para 2027. Ainda que recém-formada, a dupla já mostrou entrosamento e uma defesa clássica do pavilhão.

Outro ponto alto da noite foi a chegada de Viviane Araújo, rainha de bateria, que foi recebida pelos mestres Guilherme e Gustavo ao tamborim, em uma exibição aclamada pela quadra.

A escola segue com clássicos do samba, entre eles “Explode Coração”, de 1993, “Templo Negro em Tempo de Consciência Negra”, de 1989, “Xangô”, de 2019, “A Ópera do Malandro”, de 2015, e “Salgueiro de Compor Fechado”, de 2025. Destaque também para a exibição da ala de passistas do Salgueiro, reafirmando sua atuação como uma das grandes defensoras do samba no pé do carnaval carioca.

Xica da Silva, que abriu a noite como voz e narrativa, se multiplica ao longo do espetáculo até se tornar o próprio corpo do Salgueiro. Ela se incorpora no samba que se canta, no ritmo que os tambores marcam, no corpo que dança em cada passista e na defesa do casal de mestre-sala e porta-bandeira. Incorpora-se, por fim, na própria festa.

Como passaram os sambas na final

Parceria de Xande de Pilares: Abrindo a noite do duelo de gigantes do Salgueiro, o samba foi defendido por Charles Silva. A performance enérgica teve um ótimo rendimento, com um desempenho crescente. O potente refrão principal funcionou muito bem em todas as passadas. Já a cabeça do samba enfrentou perdas de intensidade, que se recuperavam no verso “Não estou de volta porque sempre estive aqui”, que foi cantado com toda força pelos presentes. Apesar da torcida numerosa, animada e cheia de coreografias, o samba não estava consolidado na boca da torcida, pois nem todos entoavam a obra completa. Entretanto, mantiveram a animação ao longo da exibição.

Parceria de Marcelo Motta: Interpretada por Tinga, a performance encarnou toda a identidade salgueirense. Se iniciou com o canto da torcida sendo levado de forma potente, embalado por atabaques. A performance, com rendimento excelente, se desenrolou de forma intensa para um samba intenso. O ponto alto foi o refrão do meio, que mostrou sua força lírica e melódica. Os versos demonstraram mais efetividade em sua identificação com o público, transmitidos em gestos e interpretações físicas dos presentes. A alusão ao samba de 1963 no verso “apesar da dor” brinda o ótimo desempenho dos versos anteriores. A torcida apresentou um canto mais geral, firme e consolidado, com mais presentes cantando o samba por completo, se mostrando menos interessados em performances ensaiadas e mais em um canto espontâneo. Na última passada, sofreu uma leve queda de energia, que se recuperou no refrão principal.

Parceria de Ian Ruas: Encerrando a noite, Vitor Cunha e Dowglas Ruas performaram a obra. A composição se destaca por sua força lírica, defendida em uma performance aguerrida, tanto por seus cantores como por sua torcida. O público presente, por sua vez, estava em volume menor, mas expresso de forma mais orgânica. Com isso, o canto não estava consolidado de forma completa entre todos, mas não faltou energia. O canto enfrentou dificuldades, com leve queda de rendimento na segunda passada, mas recuperado pelo poderoso refrão do meio. Este demonstrou sua força melódica e lírica na exibição, sendo cantado de forma emocionada pelos presentes em todas as passadas. A performance teve um ótimo rendimento, desempenhando de forma crescente: a torcida, que começou pequena, contagiou e reuniu mais torcedores até o final da apresentação.