Por Allan Duffes, Luiz Gustavo, Matheus Vinícius e Victor Busch
Em uma vitória incontestável a parceria de Ian Ruas, Caio Miranda e José Carlos conquistou a disputa de samba-enredo da Unidos da Tijuca para o Carnaval 2027. O triunfo ficou claro já na apresentação, quando uma pane no sistema de som fez o povo tijucano cantar firme e forte a composição inteira. Estava nítida o desejo dos presentes. A amarelo ouro e azul pavão levará novamente para Marquês de Sapucaí, como fez em 2026, a parceria entre carnaval e literatura e apresentará na segunda-feira de carnaval, “A Cabeça do Santo”, inspirado no best-seller da escritora cearense Socorro Aciolli, que esteve presente no evento.
O compositor Ian Ruas, que encabeça a parceria campeã, explicou o que sentiu com essa vitória na agremiação tijucana.
“É indescritível! É o meu primeiro ano escrevendo para a Tijuca. Cheguei aqui não sabendo muito bem o que ia encontrar, mas estava encantado pelo enredo. Desde o momento que eu começamos a escrever, foi muito rápido. Escrevemos de um dia para o outro. Eu senti que tinha uma coisa muito magnetizante, muito afetuosa, a cara da escola. Nós trabalhamos algumas semanas a mais, e sabia que tinha nas mãos algo muito especial. Não sabia se ia encaixar ou não com o carnaval da escola, mas, graças a Deus, se encaixou. Que escola faça um grande carnaval com esse samba. Eu acho que esse samba tem vários momentos, é como se ele fosse feito de refrões. Na primeira, têm dois momentos muito emblemáticos, depois tem um pré-refrão, refrão e depois uma segunda que desemboca em falso refrão. Eu acho que ele permite a escola percorrer. Ele tem um quê teatral que permite a escola trabalhar o visual dela muito em cima dos caminhos que o samba tem”.

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“A sensação é indescritível. É muita emoção. Desde que meu pai faleceu, meu irmão resolveu botar samba e fez, pela primeira vez, o samba em 2023. E isso aqui tudo é o legado dele. A gente está aqui para manter o nome do meu pai vivo. Isso uniu a nossa família e uniu os nossos amigos. A Tijuca nos abraçar dessa forma na primeira vez que a gente coloca samba aqui… A gente foi recebido com muito carinho. Eu devo muito à Tijuca. Ela está no meu coração eternamente. A parte de que mais gosto é: “Tijuca, ao lume do teu candeeiro // O sonho de um simples vaqueiro que mãe batizou, Samuel”, disse o compositor Caio Miranda, em entrevista ao CARNAVALESCO.

Como passaram os sambas na final
Parceria de Leandro Gaúcho: Hudson Luiz defendeu o samba da parceria de Leandro Gaúcho, Padre Felipe Calisto, Marcelo Moraes, Ricardo Construção e Ailson Picanço. A parceria contou com o apoio de uma torcida empolgada, apesar de não tão numerosa, fazendo coreografias e defendendo o samba com garra. Uma obra que exibiu suas boas variações melódicas em alternâncias de tom, sobretudo na primeira parte e no refrão central. O refrão principal “Santo Antonio pequenino, do sertão eu trouxe a luta…” confirmou suas qualidades, com sua facilidade para obter um canto forte e extremamente agradável. O trecho passou muito bem em todas as passadas, se mantendo firme durante os 30 minutos de apresentação, com muita naturalidade. Em outros momentos, a obra deu uma leve arrefecida com o passar da apresentação, como no refrão central, mas, no conjunto, foi uma apresentação muito boa e recebida de forma positiva na quadra, mesmo sem tanta manifestação dos segmentos.
Parceria de Arlindinho: Evandro Malandro foi o intérprete principal da obra de Arlindinho, Fred Camacho, Bruno Dallari, Igor Leal e Diego Nicolau. Uma quadrilha animada e bem ensaiada comandou a torcida da obra numa apresentação muito enérgica, que levantou a quadra e boa parte dos segmentos, que cantaram a obra com entusiasmo. Muitas pessoas do público entraram no meio da torcida e acompanharam junto. As primeiras passadas foram um frisson, com todo o samba rendendo o máximo, inclusive os trechos onde o canto é mais corrido dentro da melodia. Tudo fluiu com extrema felicidade, sobretudo o refrão principal “Êta cadência arretada, escola danada do meu coração Tijuca, vem e me vira a cabeça, que Santo Antônio abençoe o pavão”. Na segunda metade da apresentação, o samba perdeu um pouco de potência, se sustentando mais no refrão principal e nos versos “Ê rodeia ê…”, apesar de o palco seguir num ritmo mais visceral. O refrão central, que retrata os inúmeros pedidos de casamento feitos ao Santo, que na verdade era Samuel, mesmo com um rendimento menos pulsante, seguiu passando de maneira muito agradável até o fim. A apresentação terminou com forte recepção da quadra, marcando um desempenho muito bom no conjunto dos trinta minutos.
Parceria de Ian Ruas: Vitor Cunha e Dowglas Diniz foram as vozes principais do samba de Ian Ruas, Caio Miranda e José Carlos, o escolhido para ser o hino tijucano em 2027. A primeira passada, assim como na semifinal, foi feita num ritmo mais lento, valorizando toda a qualidade melódica e poética da obra, que conta com perfeição a história proposta na obra de Socorro Acioli. Uma passada que impressionou pelas nuances que o samba possui e contou com o apoio da torcida bem ensaiada e com o samba na ponta da língua. A obra vinha numa excelente toada, com os dois refrãos em fluência absoluta, até que um problema com a fase do palco deixou os intérpretes sem som algum. Em compensação, o que se viu na torcida da composição foi uma apoteose para ficar guardada na memória de quem estava na final. Chegou-se a cogitar interromper a apresentação, mas a ordem foi para a parceria seguir, com concordância dos compositores e intérpretes, que queriam aproveitar o clima de devoção absoluta dos torcedores ao samba, e assim foi. O som não voltou mais, e a simbiose entre intérpretes, torcida e quadra foi crescendo a cada passada, com mais pessoas se rendendo ao samba. Um daqueles momentos que ocorrem para deixar tudo maior. O encerramento com aplausos de toda a quadra fechou mais uma das grandes histórias do carnaval.
Parceria de Lico Monteiro: Wander Pires liderou a apresentação da parceria de Lico Monteiro, Marcelo Adnet, Marcelo Lepiane, Telmo AG da Estiva e Juca Gomes. A parceria contou com uma torcida coreografada que não acompanhou o samba todo, mas se mostrou empolgada. Essa animação também foi a toada do palco, que realizou uma apresentação leve e descontraída, com ótimo trabalho harmônico dos intérpretes. O refrão principal “Eu digo amém, o milagre vai chegar…” teve ótimo rendimento durante boa parte da exibição, mas, nas últimas passadas, a torcida não acompanhou com a mesma valentia. A primeira parte, com suas interessantes variações melódicas, apresentou um desempenho inconstante, com algumas quedas durante a apresentação. O refrão central “corre o fuxico no ar…” é curtinho e, com sua facilidade no canto, passou sem cansar em momento algum. O início da segunda parte segue essa fluência interessante, com nova irregularidade nos trechos seguintes. Uma apresentação boa, com momentos de queda, de um agradável samba.
Grande show na final de samba
O grande show da final da disputa de samba da Unidos da Tijuca, organizado pela diretora artística Flávia Leal, exaltou a história tijucana e imergiu no enredo “A Cabeça do Santo” em cinco atos. O espetáculo foi guiado por um mestre de cerimônias trajado de maneira folclórica.
O primeiro ato contou com o samba-exaltação acompanhado por um violinista, conduzindo o 1º casal de mestre-sala e porta-bandeira, Marcinho Siqueira e Cristiane Caldas. Além disso, teve como ápice a apresentação da comissão de frente inesquecível de “É Segredo”, do campeonato de 2010. Outro samba campeão que não poderia faltar foi “Acelera, Tijuca!”, apresentado junto às passistas.
O segundo ato evocou a tradição e a memória amarelo-ouro e azul-pavão. Aqui, foi possível ver a beleza da velha-guarda evoluindo em uma versão de gafieira de “O Dono da Terra” (1999), cantar ao som do samba sobre o Vasco da Gama, acompanhado de batidas de funk, e ver o 3º casal, Breno Rodrigues e Daphny Mirelly, dançar sob o samba de 1981, “Macobeba, o que dá pra rir, dá pra chorar”.
Para exaltar a brasilidade que tanto será celebrada no enredo de 2027, o Ato 3 trouxe mais um samba campeão: “O dia em que toda realeza desembarcou pra coroar o Rei Luiz do Sertão”, de 2012. “Agudás”, de 2003, contou com a performance de orixás e uma bela apresentação das baianas. O samba de 2025 sobre o orixá Logun-Edé foi apresentado com a participação do 2º casal, Emanuel Lima e Thainara Matias.
Antes de entrar no ato de apresentação do enredo, a escola se despediu de “Carolina Maria de Jesus”, e a quadra celebrou efusivamente o ano que passou. Para finalizar o último carnaval, houve a encenação do emocionante desfile, com pessoas vestidas como trabalhadores, e Marcinho Siqueira e Cris Caldas bailaram lindamente até o encerramento do ato.
A exibição do enredo contou com a apresentação do protagonista Samuel, a cabeça do santo, a fé das mulheres em Santo Antônio e as festas populares. O ato final passou pela música “Força Estranha” para retratar o “dom” de Samuel, pelo sincretismo religioso entre o santo e o orixá Exu e finalizou com um grande arraiá. No fim, o protagonista se apaixonou pela Unidos da Tijuca.
Tijuca paga 100% da premiação
Como iniciativa para valorizar o trabalho dos poetas, a escola reafirma, como justa medida, novamente o compromisso do pagamento de 100% da premiação destinada aos compositores campeões do concurso de samba-enredo. Uma medida pioneira entre as agremiações que realizam disputa de samba no Carnaval do Rio de Janeiro. Outras medidas adotadas a fim de tornar a disputa mais justa economicamente para todas as parcerias foram: a não autorização da produção de vídeo clipe do samba por parte das parcerias; apenas três microfones para os cantores no palco; proibição da confecção e distribuição de camisas próprias dos sambas; proibição de bandeiras, bolas e demais artefatos utilizados nas disputas e entrada das grandes torcidas durante o processo de disputa, exceto na semifinal e na grande final.









