jorge antan salgueiro
Fotos: Mariana Santos/CARNAVALESCO

Depois de celebrar a professora Rosa Magalhães, responsável por carnavais de glória no Salgueiro noventista, é hora de saudar Xica da Silva. A história da personagem será contada novamente em 2027 com o enredo “Laroyê, Xica da Silva: a história por trás da história”, desenvolvido pelo carnavalesco Jorge Silveira e o enredista Leonardo Antan. Durante a leitura da sinopse, o carnavalesco definiu Xica da Silva como um dos personagens do ‘Orun salgueirense’, como Zumbi dos Palmares (1960), Malandro Batuqueiro (2016), que guiam a identidade da escola. Para ele, a continuidade da narrativa que se aprofunda na essência da agremiação ainda é uma busca por conexão e valorização da história da escola.

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“Desde o primeiro carnaval, lá em 2025, a nossa comissão de frente já trazia uma representação desse panteão de personagens. A Chica já estava lá na comissão de frente em 2025. É uma decisão do grupo de valorização da história da escola. Quem tem história pode contar, e o Salgueiro tem história. E como tem. O Salgueiro é uma escola fundamental no desenvolvimento da estrutura do carnaval brasileiro. Acho que falar desses personagens é louvar a ancestralidade dessa escola. A gente só vai para frente reconhecendo quem nos antecedeu e olhando para trás. Todo o nosso trabalho tem sempre esse olhar e esse valor fundamental de conexão. Todos nós temos memória com as escolas de samba pelas memórias que elas construíram a partir dessas histórias conosco”, afirmou.

Para além da comissão de frente do desfile de 2025, Xica já se fazia presente muito antes, na carreira do carnavalesco. Ter Xica mais uma vez em um enredo está em pauta desde que Jorge conheceu o enredista Leonardo Antan, autor do livro ‘Laroyê, Xica da Silva’, em que o enredo se baseia. O livro foi sua dissertação de Mestrado em História da Arte, onde aborda a Revolução Salgueirense e traz um novo olhar sobre Xica da Silva ao classificá-la como uma Pomba-Gira, um espírito ancestral feminino cultuado em religiões de matriz africana.

Mas como Antan define, tanto em entrevista quanto em seu livro, foi Xica quem determinou o momento de acontecer.
“Acho que os trabalhos que vieram antes prepararam um terreno para que a Chica pudesse chegar. A gente chega agora em um momento de maior maturidade intelectual, plástica e organizacional. A gente vai conseguir fazer um Salgueiro cada vez mais eficiente e, se Deus quiser, mais competitivo. O personagem já estava rodeando o nosso universo, mas, como o Léo diz na pesquisa, é a Xica que manda. Ela escolheu que 2027 é o ano dela e vamos trabalhar. É o ano 7 do Salgueiro desfilando em uma segunda-feira. Vem coisa boa aí”, declarou Jorge.

O pesquisador Leonardo Antan conta que já vivia Xica antes mesmo de ser enredista e não imaginava a possibilidade de que um dia sua dissertação se tornasse enredo de escola de samba.

“Foi graças ao convite do Jorge que pude me inserir no carnaval, primeiro em São Paulo e depois aqui no Rio. O destino, ou a Xica, nos trouxe para o Salgueiro muito providencialmente. Como a gente disse, era uma possibilidade desde o primeiro ano. É uma energia de poder reverenciar quem nos trouxe até aqui e a emoção de poder contar uma nova versão. Desde aquele momento da pesquisa eu percebi coisas que as pessoas não falavam. Por exemplo, a importância do desfile do Salgueiro para a construção desse imaginário da Xica. A novela, o filme, só vieram depois do desfile. Quando a gente vê pesquisas sobre a Xica que não falam sobre o desfile ou não falam da importância que ele teve, percebe o papel da escola de samba de criar imagens, criar repertório e contar histórias que a gente não conhece, algo que o Salgueiro fez tão bem ao longo da sua história”, destacou.

Xica da Silva (1963) se sagrou na história do carnaval e da agremiação como primeiro título que Salgueiro conquistou sozinho. O desfile caracteriza o auge da Revolução Salgueirense, movimento de transformação estética e narrativa encabeçado por Fernando Pamplona que dá destaque a personagens negros e marginalizados sob viés vitorioso, olhar discrepante do contexto racial do Brasil naquele momento. A importância de revisitar essa história vem também pela necessidade de atualizar a memória de um desfile com poucos registros.

“É maravilhoso porque é um desfile que tem poucas imagens fotográficas e eu tenho a possibilidade de recriar imagens e recriar uma memória. A gente vai criar para a eternidade um documento atualizado dessa memória. Também é papel da escola de samba louvar essa memória”, afirmou Jorge.

O desfile de 1963 foi inovador, mas também chocou o público. A ala do minueto é considerada uma das partes mais marcantes. Foi a primeira vez de um grupo de passo marcado no carnaval, criado pela bailarina Mercedes Baptista. A coreografia de origem francesa, dançada em ritmo de samba, gerou debates acerca da descaracterização do gênero musical. Por outro lado, foi aclamada pelo nível de elaboração artística. E para 2027, um dos grandes trunfos que caracterizou aquele momento histórico também terá seu lugar de destaque.

“Eu acho que vou ser apedrejado na rua se não tiver o minueto. Com toda certeza a gente vai recriar isso. Em cada recorte do enredo tem um momento da Xica e tem um momento grande para essa representação de 1963. A gente chegou, inclusive, ao requinte de desenhar os figurinos, pintá-los, a massa humana toda de preto, como o Arlindo fazia. É algo que ninguém vai ver no desfile, mas que, para mim, é uma forma de pedir permissão a ele para fazer esse trabalho, simbolicamente. É muito carinho, muito cuidado, porque a Xica é muito sagrada, muito especial. Todo mundo que tocou nela, ou foi tocado por ela, teve a vida transformada. Estou esperando a minha vez”, declarou o carnavalesco.

O enredo dá a oportunidade de saudar não só a memória da própria escola, como também o legado do carnavalesco Arlindo Rodrigues. E mais uma vez, Jorge se vê na missão de honrar a memória de um grande artista.

“Eu só arrumo sarna para me coçar porque, no passado, foi a Rosa no meu cangote, agora é o Arlindo. Esses personagens estão sempre rodeando. Mas que bom que eles estão por perto porque a gente ama muito o trabalho deles e, de alguma forma, é uma continuidade da existência desses artistas no mundo por meio do legado deles. A Xica, como a gente conhece, é fruto dessa intervenção do Arlindo e que bom revisitar isso”, ressaltou.

Mesmo que uma releitura do desfile, Leonardo Antan destaca que a proposta para 2027 é um novo olhar, sob a leitura artística de Jorge e equipe. Neste ano, a escola saudará Xica como entidade, relembrará as interpretações da personagem na cultura brasileira e abordará Francisca da Silva de forma histórica, se aproximando dos fatos e olhando também para seu testamento, que foi disponibilizado em 2025 e soma a narrativa dessa figura tão discutida.

“O Jorge é um outro artista, o carnaval é um outro carnaval. Tanto na Rosa quanto agora, a gente reverencia esses personagens, mas traz a nossa leitura, o nosso desejo e a nossa vontade de que novas gerações conheçam essa personagem e conheçam o Salgueiro, que é essa pedra fundamental da história do carnaval também”, completou.

Para o enredista, é um trabalho diferente traduzir a linguagem acadêmica de seu livro para a Avenida, e acessibilizá-la para as pessoas de forma que entendam as diversas camadas do enredo. Mesmo desenvolvendo o papel de pesquisador há alguns anos, a escrita do enredo de 2027 chega de forma diferente em sua carreira, em comparação aos anos anteriores, como 2026.

“A Rosa foi um sonho que eu nem sabia que era possível sonhar. Ela surgiu de uma maneira muito espontânea para a gente. Foram cinco enredos desenvolvidos antes dela. A Rosa foi quase um chamado. Esse ano a Xica já é diferente. Desde que o Jorge me ligou. Eu fui a primeira pessoa para quem ele ligou depois que foi contratado pelo Salgueiro, literalmente. Quando ele me ligou, eu olhei para um desenho da Xica que ele tinha feito para mim na época da dissertação. Hoje ele está no barracão, mas antes ficava na minha casa. Eu olhei para a Chica imediatamente e pensei: “obrigado por ter me dado isso”. Agora é a chance de devolver para ela toda essa oportunidade que nos fez chegar até aqui”, relembrou.

Pensar em Xica, também é pensar em Zezé Motta e Taís Araújo, que foram “cavalos” de Xica na cultura brasileira, e responsáveis pela imagética contemporânea da personagem. Quando o enredo foi lançado, Taís Araújo prontamente comemorou a escolha da escola através das redes sociais. A ideia é que o desfile também seja uma homenagem às “Xicas”, Isabel Valença, Zezé e Taís.

“É óbvio que é um desejo que elas estejam, porque estamos homenageando elas. Não estamos só homenageando a Xica. Estamos homenageando Isabel Valença, Zezé Motta, Taís Araújo e as várias outras mulheres que nos trouxeram a Chica. É muito mais do que trazer a Zezé para representar a personagem. É uma homenagem a essa mulher que, com mais de 80 anos, segue produtiva, ativa e é um pilar fundamental da arte negra no Brasil. Ter a Thaís, ter a Zezé – a Isabel infelizmente não está mais entre nós, mas queremos trazer familiares, pessoas do próprio Salgueiro que viveram aquele desfile. É homenagear todo esse universo que compõe a Xica e trazer a força dessas mulheres para o desfile”, concluiu.

Expectativas para o samba-enredo de 2027

Para Leonardo Antan, o samba de 2027 deve fazer jus ao sucesso do samba de 1963, segundo contam os historiadores, que não há registro oficial da época, apesar de regravado posteriormente. Além da força natural que a vermelho e branco do Andaraí carrega, e a ‘temperatura quente’ da agremiação.

“É uma escola que tem uma cor quente, uma temperatura ‘exusíaca’, digamos assim. Para evocar aquela ancestralidade, a gente precisa dessa força de um ‘Malandro Batuqueiro’, dessa força de uma ‘Candaces’, desses sambas que se tornaram hinos do Salgueiro. Que a gente possa, mais uma vez, trazer essa temperatura e fazer um desfile com a energia forte do Salgueiro e que o samba traduza essa personagem de maneira tão brilhante”, explicou.

Em concordância com Leonardo, Jorge afirma que é fundamental ter a energia do Salgueiro, além da elegância de Xica. “O Salgueiro é uma escola que gosta de se ver com garbo, com elegância, com sofisticação. Não seja o melhor ou o pior, mas diferente. Seja luxuoso, requintado. Esse elemento também faz parte do universo do desfile. É uma personagem com tantas camadas. Acho que é um desafio enorme para o compositor, que tem muita coisa para dar conta em um samba só. Desejo a eles boa sorte e tenho esperança de que virá, porque, se a Xica fez tanta coisa para virar enredo novamente, eu não tenho dúvida de que ela vai mandar um sambão para a gente”, avaliou.