Por Pedro Ribeiro e Will Ferreira

Para fazer uma gigantesca celebração de religiões afro, os Gaviões da Fiel ousaram na final de samba-enredo da escola, realizada na última sexta-feira. Com cinco sambas na disputa, a diretoria da escola optou pela junção de dois sambas: o de número 01 no concurso, composto por Grandão, José Rifai, Luciano Costa, Sukata, Dentinho do Morro, Fadico, Marcelo Paschoal JB, Gabriel Lima, Alex Biro, Morganti, Oliveira, Neck e Andrezinho; e o 12, de autoria de Cláudio Russo, Luiz Antônio Simas e Chico Poeta. A música será a responsável por embalar o desfile de “É Noite de Gira na Casa de Ogum”, assinado pelos carnavalescos Julio Poloni e Rayner Pereira. Presente em todos os grandes eventos que envolvem as escolas de samba paulistanas, o CARNAVALESCO conversou com nomes importantes da escola para saber mais sobre a obra e como a canção caiu no gosto dos Gaviões da Fiel. Nem um dos três autores do Samba 12 estavam presentes no evento.

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Fotos: Pedro Ribeiro e Will Ferreira/CARNAVALESCO

A parceria responsável pelo Samba 01 é, por si só, uma junção – e fez questão de deixar isso claro até mesmo citando o texto-base para a composição do samba: “Antes de falar da sinopse do Julio e do Rayner, vou dar um passo um pouquinho atrás. Nós fizemos uma junção esse ano com a parceria do Grandão. Eu, o Luciano e o Fadico já tínhamos uma parceria de longos anos. O Grandão não precisa nem falar, é uma referência máxima. Mas, no ato da sinopse, da explanação do enredo, ficou muito claro que eles almejavam uma noite de gira. Como é chegar num terreiro de umbanda, desde uma varrição ou de uma defumação. Isso foi trazendo inspirações para a parceria como um todo. Embora ali tenha os católicos, tenha evangélicos, tenha quem é da macumba, a gente caiu dentro da sinopse e estudou. Procuramos fazer aquilo que a gente entendeu de poesia, baseado em toda a religiosidade que a escola pedia”, destacou Alex Biro.

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O compositor destacou que o processo de criação passou pela criação de diversos trechos, filtrando o que tinha ainda mais destaque: “A nossa parceria é pura bomba atômica! Quando a gente acha que a primeira está boa, surge uma outra ideia. Mas esse samba, especificamente, aconteceu muito naturalmente. Ele aconteceu basicamente em três ou quatro encontros. A letra foi passada por uma avaliação dentro da escola”, comentou.

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Alex fez questão de exaltar um dos parceiros de parceria – que também foi ouvido pela reportagem: “O Luciano é mais antigo de casa e é muito criterioso. Ele é um cara muito meticuloso, ele analisa com os anos de Gaviões e fala que algo funciona ou não. Às vezes dá certo a opinião como um todo, como aconteceu esse ano, graças a Deus. Mas, às vezes, existe divergência na parceria. É democrático, é óbvio. Aí a gente tenta casar a música com a letra e com a história, dentro do respeito e do sincretismo das religiões. Tem toda uma crença, tem algo muito especial pra você seguir. Não adianta você começar de trás para frente, tem todo um respeito às entidades e aos orixás. E surgiu, aconteceu”, destacou.

Como resposta, Luciano Costa pontuou que o cuidado com a religião afro norteou o processo de composição e que a inspiração veio naturalmente: “Um ano é sempre diferente do outro. Para esse samba aqui, nós conseguimos fazer uns cinco refrões e umas três primeiras até chegar nessa daí, que era a mais correta num termo que se fala de umbanda. Como se abre, como se prossegue e como se termina a umbanda. Uma gira, na verdade. E deu nisso aí. A maioria gostou, ganhou porque também foi aceito aqui na quadra, pela comunidade do Gaviões”, comemorou.

Indagados pela reportagem, ambos não hesitaram em citar a parte favorita da composição: “A parte favorita é unânime na parceria: ‘a umbanda clareou, foi mandinga e oração/Cai por terra o inimigo que mexer com o gavião’. É uma preparação para o refrão, é um bis”, explicaram.

Mandatários satisfeitos

Fábio Câmara, popularmente conhecido com Fantasma, vice-presidente dos Gaviões da Fiel, defendeu a junção proposta pela agremiação: “Todos os sambas tinham algumas partes que se destacavam. A junção facilita o trabalho para ser o resultado que a gente espera. Se eu falar para você que um é melhor que o outro ou que uma parte é melhor que a outra, é um pouco injusto. Cada um tem um destaque especial. Juntando os dois dá o resultado que a gente espera”, comentou.

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Ele próprio destacou que a decisão não foi simples de ser tomada: “Quando fecha a salinha, as discussões sempre são acaloradas porque sempre a gente busca o melhor para os Gaviões da Fiel. Como conclusão, o resultado foi para o nosso povo, para a nossa comunidade. A gente decidiu pela nossa comunidade aquilo que mais chamou atenção. Trouxemos para a discussão e conseguimos fazer a junção de dois sambas bons que vão trazer um bom resultado para nós”, prometeu.

Da sinopse para a prática

A dupla de carnavalescos dos Gaviões mostrou-se satisfeita não apenas com os finalistas, mas com todo o processo de eliminatória de samba-enredo. Rayner começou: “A gente se surpreendeu com a quantidade de sambas que a gente recebeu. A grande maioria atendia além do que a gente pediu na sinopse. Isso é um motivo de orgulho, e é o motivo do porquê fizemos uma final com mais do que a gente queria inicialmente. É o resultado de que todo mundo entendeu e todo mundo acreditou na proposta que a gente tem para apresentar dentro da avenida”, comentou.

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Julio seguiu a mesma linha: “A gente tinha cinco grandes sambas na final e isso não é conversa para ser mais específico. Acreditamos que qualquer um dos cinco está pelo menos no top cinco dos melhores sambas do Carnaval. Estamos muito felizes, muito orgulhosos por termos uma feliz missão para cumprir aqui hoje. A gente está muito tranquilo porque os cinco sambas nos atendiam, os cinco estavam dentro do enredo, os cinco eram baitas sambas e tinham a potência que a gente preza para o desfile. Os sambas escolhidos a gente já sabe que vão sair daqui como uma única grande obra – e, com certeza, será o samba que a gente precisa para impactar o Anhembi em 2027”, comemorou.

O processo de escolha de samba-enredo dos Gaviões, de fato, chamou atenção de todo o universo do Carnaval paulistano. A começar pelo número de obras inscritas: vinte e sete, tido como de uma abundância rara. A escola costuma levar três sambas para a final; mas, dado o alto número de inscritos e a qualidade de muitos deles, a decisão contou com duas canções a mais.

Diretoria abrindo caminhos

Celso Ribeiro, um dos diretores de Carnaval dos Gaviões, destacou quais foram as solicitações que a escola fez para os compositores: “A gente fez alguns pedidos para as parcerias. A começar que era para seguir pela linha da umbanda mesmo, porque é o samba e porque é uma religião brasileira. Permitimos que algumas coisas entrassem nos sambas porque é uma religião que vem da África, embora ela tenha surgido aqui no Brasil. Hoje, temos um pouco dessa mistura, e, por isso, pedimos que entrasse no sincretismo da religião e que fosse um samba totalmente voltado para a umbanda. Eles podiam misturar pontos das entidades e saíram essas obras de arte. Nós tínhamos cinco obras de arte de verdade e escolhemos duas delas para nos representar”, destacou.

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Voz da Fiel feliz

Intérprete dos Gaviões da Fiel desde 1985, Ernesto Teixeira mostrou-se satisfeito com os cinco finalistas: “Primeiramente, positividade para todo mundo aí que está nos lendo. Todos os sambas que foram para a final estavam muito bem elaborados: cada um com um detalhezinho diferente. As apresentações mostraram aquilo que veio nas gravações. Eu estou muito feliz aqui. Tenho certeza que as duas obras que gente escolhei darão um grande samba para o ano que vem”, comentou.

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Ao ser perguntado sobre os cuidados para cantar uma canção que terá palavras em religiões africanas, Ernesto foi além e pontuou que outras questões também são importantes para se observar: “São vários detalhes: a questão da tonalidade, a questão da dicção. Mas, se tiver que cantar um samba em mandarim, nós cantamos também, não tem problema. É só trazer, a gente vai ensaiar e vamos levar para a avenida. Não tem sido nenhuma dificuldade cantar palavras em iorubá”, tranquilizou.

Mestre de bateria com ideias

Comandante da Ritimão, bateria dos Gaviões da Fiel, mestre Ciro Castilho destacou que já está com a cabeça fervilhando: “A gente já tem bastante coisa em mente. A gente tem uma ala que às vezes é timbau, às vezes vai de tambor. Esse ano vai ser tambor, vai ser macumba pura, mesmo. A gente vai trazer muita coisa legal. Muito toque característico e as ideias já começam depois de hoje. Com os sambas escolhidos, a gente já vai para a casa com a mente ‘a milhão’. Vamos para cima!”, energizou-se.

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Riscando desde o primeiro momento

Primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira dos Gaviões da Fiel, Wagner Lima e Carolline Barbosa deixaram claro que já estão pensando tal qual participantes de um ato religioso: “A junção dos sambas vai trazer a cultura e a religião afro para dentro da pista de uma forma diferente, em formato de uma gira, mesmo. E, pensando no regulamento, a gente tem que trazer alguma coisa coreográfica que remeta ao tema. Não vou contar muitos spoilers da nossa coreografia, mas sim, pretendemos colocar alguma coisa para estar dentro do universo da umbanda e dentro da religião”, contou Carol, misteriosa.

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Ao falar do enredo, Wagner aproveitou para fazer o gancho com o clube que tem os Gaviões como principal torcida organizada: “Esse enredo a gente vive no dia a dia dos Gaviões, que é Corinthians, São Jorge, Ogum. É como a Carol disse, algumas coisas na avenida a gente tem que pincelar em cima do enredo. Imagine uma gira que tenha danças dentro dessas giras. E algumas danças serão colocadas sem tirar de vista o critério de julgamento”, explicou.

Evento completo

Como costuma acontecer em eventos especiais na quadra dos Gaviões da Fiel, o Bom Retiro estava tomado por corinthianos. O próprio acesso à final foi feito em um espaço anterior ao portão da quadra: no meio da rua Cristina Tomás, e não já na esquina com a avenida Presidente Castelo Branco, onde está localizada a quadra. Tudo para dar mais conforto à comunidade, em um recuo com food trucks e espaço ao ar livre.

Um DJ animava a Fiel até a Ritimão começar o esquenta, com cortejo e saudação ao pavilhão. O departamento de casais, a Harmonia Guerreira, a Velha Guarda, as Baianas, o Departamento Cênico, a Comissão de Frente, as Passistas, a Ala das Crianças e as Destaques de Chão se apresentaram em momentos pré-determinados. Também houve espaço para a execução do Hino do Corinthians (algo tradicional na quadra), a entrega do pavilhão de enredo ao segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira e a lembrança de sambas históricos dos Gaviões da Fiel.

Sambas marcantes

O primeiro samba a se apresentar foi o 01, um dos vencedores da eliminatória. A apresentação chamou atenção pela ausência de refrões cortando estrofes, com um falso refrão antes do refrão da cabeça e o restante da obra corrida, sem repetições. Algumas das palavras finais também não tinham rimas próximas, o que aumentava o impacto da apresentação e agradava ouvidos mais atentos.

O seguinte foi o Samba 03, da parceria de Samir Trindade, Leo Trindade, Marcelo Silva, JB Oliveira, Deco, Masterson Alves, Márcio Keleque e Armandinho do Cavaco. A repetição de alguns versos bem característicos de enredos afro, como “Ê aruanda” e “Ê ciganinha” cativou torcedores, bem como o verso “chegou a hora de ser campeão”, lembrando das boas colocações dos Gaviões da Fiel nos últimos anos (quarto em 2024, terceiro em 2025 e segundo em 2026), além de rememorar que o último título do Grupo Especial da Torcida Que Samba veio em 2003.

O segundo samba vencedor, o de número 12, foi o terceiro a se apresentar. A primeira estrofe longa, com catorze versos, contrastou positivamente com a segunda, com dois versos que se repetiam logo após o refrão do meio. O refrão de cabeça, curto e com três “saravá” em dois versos, também trouxe ótima impressão para quem acompanhava a exibição.

O Samba 07, composto por Mc Hariel, Minuettos, Renato do Pandeiro, Rica Leite, Luciano Rosa, Cacá Mascarenhas, Eduardo Regianno, Vini, Beto Cabeça, Portuga, Alves, Rafa Cria, Imperial, Biro e Willian Tadeu, chamou atenção logo de cara pela presença maciça de torcedores na quadra. O verso inicial do refrão de cabeça, “toca o xequerê”, fazia a quadra cantar um trecho do samba que, ao contrário de outros tantos sambas-enredo, tinha execução mais longa que o normal. A segunda estrofe, bastante extensa, acabava com o verso “Vai passar o terremoto Gaviões”, frase muito utilizada por Alexandre Domênico Pereira, o Alê, presidente da agremiação.

Por fim, o Samba 23, de autoria de Nelsinho Velha Guarda, Diego Nicolau, Nando do Cavaco, Dom Alvaro, Caio Ricci, Guinê, Bruno Galasso e André Filosofia, tinha como destaque o refrão do meio bastante enxuto e simples de se cantar, que fazia com que a comunidade comprasse a ideia da obra. A segunda do samba, com as saudações características de diversos orixás, aproximava quem era de religiões afro; e o falso refrão antes do refrão de cabeça mexia, em especial, com a escola protegida por Ogum, chamando-o de “guia da casa”.