Enredo: Yèyé Omó Ejá – A Coroação das Rainhas das Águas

PRELÚDIO
Os Itans nascem da palavra viva. Correm de boca em boca, mudam de corpo, ganham novas águas na voz de quem conta e na memória de quem escuta. Por isso, não cabem em uma única versão. São caminhos de Axé, narrativas que atravessam o tempo sem perder o fundamento.
É dessa ancestralidade que a Unidos de Padre Miguel parte para levar à Sapucaí uma releitura dos Itans das divindades africanas que habitam as águas, abrindo caminho para celebrar o encontro sagrado de duas Yabás. A escola transforma mitos em canto e conto, reverenciando Yemanjá e Oxum como águas de mistério e força.
Nesta travessia, a Vila Vintém homenageia suas filhas, suas mães, suas avós e todas as mulheres que carregam no corpo, na voz e na memória a correnteza do Axé.
“Mergulhei
A Unidos foi além da imaginação
O reino das águas de Olokun…”
SINOPSE
A avó acolheu a neta no colo, no chão sagrado do terreiro. Conhecia o Axé, o peso das guias no pescoço, o cheiro da quartinha lavada. Sabia que história de fundamento nunca vem de uma boca só. É rio feito de muitas versões.
A menina, ainda miúda, ouvia com os olhos acesos, embalada pela doçura de quem já testemunhou muitas partidas:
“Escuta, minha neta. No tempo em que o Infinito era a única morada, Olodumare-Olofin soprou o fogo e inventou o começo. Mas a solidão é deserto e, do peito do Senhor do Princípio, brotou o mar que engoliu o mundo. Lá embaixo, onde o sol não alcança, Olokun fez seu trono de mistério. Mas, acima, onde o sal corta a espuma e nina o balanço dos barcos, quem reina é sua filha, Yemanjá, mãe de tudo o que o mundo ainda haveria de conhecer.
A Rainha se casou com Olofin-Odudua e pariu dez filhos. Guardava consigo um frasco sagrado, além de conchas, pentes e búzios — lembranças do mar dados por sua mãe Olokun. Mas até a água salgada se cansa quando lhe querem impor margens demais. Triste nas terras de Ifé, Yemanjá buscou o horizonte e partiu.
Foi parar em Abeocutá. Lá encontrou Okerê, o Rei de Xaci. Desse encontro nasceu um amor. O casamento foi selado por um pacto de silêncio: ele jamais zombaria de seus seios sagrados, fonte perene de nutrição e amor; e ela jamais revelaria as fraquezas que ele escondia quando a noite lhe tirava a compostura.
O pacto é fundamento. Quem rompe o segredo desperta a fúria.
Um dia, Okerê voltou tomado pela bebida. A cachaça lhe incendiou a língua e ele passou a cuspir fogo dentro do próprio lar. Yemanjá ergueu a voz. Não aceitaria a afronta nascida da quebra do pacto. Okerê, ferido no orgulho, zombou do corpo da Rainha e afrontou sua grandeza.
Yemanjá, soberana como o oceano, não aceitou a traição e decidiu partir. Levava consigo a força e a certeza de seu poderio. Queria voltar ao colo de Olokun, reencontrar a ancestralidade profunda.
Na pressa da fuga, o frasco sagrado que trazia consigo, presente de sua mãe, partiu-se ao chão. A água doce rasgou a terra e abriu um rio caudaloso. Ali, minha neta, desabrochou a força de Oxum. Ela surgiu no brilho das águas doces e caminhou lado a lado com sua mãe Yemanjá.
Okerê, cego de soberba, tentou barrar a passagem e transformou-se em uma imensa montanha. Ergueu-se em muralha de pedra, o grande Oquê, para represar Yemanjá e Oxum.
Mas a bravura das Yabás não conhece cabresto. Yemanjá evocou a justiça do fogo e convocou seu sangue: Xangô. O céu virou breu. O couro do mundo respondeu ao chamado da Mãe. Sob o comando de Yemanjá, o trovão anunciou o acerto de contas: o raio de Xangô e a correnteza furiosa partiram a soberba de Oquê. A montanha cedeu à força das águas, rachou-se em duas, e o rio encontrou caminho.
Yemanjá seguiu. Oxum seguiu com ela. Quando enfim chegaram ao colo de Olokun, o mar se abriu como ventre antigo para receber e coroar suas filhas. Daquele encontro, minha neta, ficou o ensinamento: água de Rainha não se barra. Yemanjá é mãe de amor imenso. Oxum é ouro vivo na correnteza doce. Quando o rio beijou o mar na foz sagrada, o Axé passou de uma mulher para outra e nunca mais deixou de ser encontro.”
A neta ouviu tudo em silêncio.
A menina cresceu, os anos passaram, mas a voz da avó permaneceu guardada, ressoando como atabaque. Mais tarde, descobriu-se Filha de Yemanjá e compreendeu que sua avó era Filha de Oxum. Entre as duas havia uma foz: o encontro de uma avó-rio que banhou a vida de uma neta-mar.
A neta prometeu que aquela voz atravessaria a Avenida em forma de Escola de Samba. Na Sapucaí, a Unidos de Padre Miguel desfilará o encontro de Yemanjá e Oxum, inspirada pelos Itans das águas e pela memória desse Axé. Hoje, a neta não caminha sozinha. Carrega a avó na fúria das águas que lavam o Pavilhão do Boi Vermelho.
A Vila Vintém, pedindo licença apenas ao Sagrado, abre seus caminhos para contar que nenhuma mulher se curva diante de montanha alguma. Onde a avó ensinou amor, a neta conduz o destino.
O Boi Vermelho brada na Sapucaí: a história de uma mulher pode abrir passagem para muitas.
No Carnaval de 2027, a voz da avó correrá na neta. A Coroa de Yemanjá e o amor de Oxum romperá a pedra e o Boi Vermelho atravessará a Sapucaí levado pela força das águas…
A Unidos de Padre Miguel, banhada em Axé, deságua na Sapucaí como a eterna correnteza da ancestralidade da Vila Vintém.
Carnavalescos: Allan Barbosa e Ricardo Hessez
Enredistas: Clark Mangabeira e Victor Marques








