
Em 2027, a Unidos de Padre Miguel banhará a Avenida de axé com o enredo “YeYe Omo Ejá – A Coroação das Rainhas das Águas”. Desenvolvido pelos Allan Barbosa e Ricardo Hessez, o desfile apresentará uma releitura do mito do encontro entre Iemanjá e Oxum, em uma narrativa que exalta o poder das yabás. Na escola, marcada pela presença feminina em diferentes segmentos, a escolha do enredo foi recebida pelas mulheres da agremiação como um reconhecimento e um reencontro. A proposta nasce em um contexto sensível para a comunidade da Vila Vintém: a partida da matriarca Deise Mara. A presidente da agremiação e neta de Deise, Lara Mara, prometeu realizar o enredo em celebração ao amor da avó pela escola. Entre os componentes da Vermelho e Branco, o legado de Deise é lembrado, sobretudo, pelo carinho com que acolhia a comunidade e pela dedicação à Unidos de Padre Miguel. Para muitos sambistas, falar do enredo também é falar dela.
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“Quando a gente fala do enredo, a gente está falando dela também. E o sentimento é muito complicado. A gente sente muito a falta dela, a perda. Falar dela para a comunidade é falar da própria Unidos de Padre Miguel. Ela foi, é e sempre será a escola. Representa uma comunidade guerreira, uma escola com chão e tradição”, refletiu a diretora de harmonia, Renata Cristina.

A escola vem de um carnaval em que chegou muito perto do sonho de voltar ao Grupo Especial. “Kunhã-eté: O Sopro Sagrado da Jurema” alcançou o terceiro lugar e marcou o último desfile com a presença física de Deise. Em 2027, o sonho continuará com “YeYe Omo Ejá – A Coroação das Rainhas das Águas” e uma comunidade motivada pela voz eternizada na escolha do enredo. Para Mary Bastos, da ala das baianas, o desfile será também um reencontro simbólico com aquela que ajudou a construir a história da escola.

“Esse enredo nos leva diretamente para a nossa mãe, dona Deise Mara, que certamente será inesquecível para a escola. Com muita alegria e muito orgulho. Tenho certeza de que ela estará conosco, trazendo todas as energias. Ela sempre lutou pela escola, fez tudo por nós, e vamos dar essa vitória a ela, porque ela merece”, declarou.
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A escolha do encontro entre as yabás como tema carrega também um significado pessoal: Deise era filha de Oxum, enquanto Lara Mara é filha de Iemanjá, fazendo do enredo um reflexo do vínculo entre ambas. A narrativa foi recebida pelas mulheres da Unidos como um gesto de representatividade. Para Renata Cristina, o enredo valoriza a ancestralidade feminina da escola em um momento de continuidade do legado deixado por Deise.
“É um momento difícil, mas também muito especial. Como mulher preta, saber que ela deixou esse legado para nós é muito importante. Vai ser difícil, mas vamos levar esse Carnaval para a Avenida com muito amor, muito carinho e sempre pensando nela”, afirmou, emocionada.
A memória afetiva também se manifesta na forma como Deise é lembrada pelos componentes. Em conversa com integrantes da escola, a primeira imagem que surge é a de uma mulher que acolhia a comunidade como uma mãe. É assim que Alcineia Campos, do Departamento Feminino, se refere à matriarca. Declaradamente apaixonada por Oxum, orixá ligada à fertilidade, ao cuidado e à maternidade, ela vê na forma como Deise tratava a todos um reflexo dessas características e celebra a ancestralidade exaltada pelo enredo.

“Fico emocionada só de falar. Sinto saudade. Eu olho e lembro daquele rostinho. Ela era uma mãe para nós, maravilhosa. Sempre estava com aquele carinho com a gente, com o nosso Departamento Feminino”, relembrou.
O sentimento também é compartilhado por Maria Lúcia, outra integrante do Departamento Feminino. Para ela, o encontro entre Oxum e Iemanjá também representa as mulheres da Vila Vintém.

“Senti que também homenageia a gente. É uma homenagem para ela e para todas nós”, declarou Maria Lúcia, do Departamento Feminino.









