Com fantasias coloridas e irreverentes, que destoavam do restante da escola, a ala 17 do Salgueiro, intitulada “Tutti-multinacional”, levou ao desfile um olhar pop e bem-humorado sobre a globalização e o consumo cultural que marcam o tempo presente. Misturando a Estátua da Liberdade, a águia norte-americana e a bandeira dos Estados Unidos a cores vibrantes que remetem ao chiclete, a proposta foi construir uma crítica leve, porém provocadora, à americanização dos costumes brasileiros.

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Hercules e Angelo
Hércules e Ângelo. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Rosa Magalhães tornou-se conhecida por articular sátira e comentário social em seus enredos. Em referência a essa marca autoral, a ala embarcou na “bagunça” simbólica de sua bagagem cultural.

Marcelo Fonseca
Marcelo Fonseca. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Para Marcelo Fonseca, de 47 anos, a diversidade é a chave de leitura do setor.

“Eu poderia dizer que a Rosa era uma camaleoa, que gostava de diversidade. Aqui tem figuras orientais, tem a águia norte-americana levando bandeiras dos Estados Unidos, mas também tem nordestino, tem de tudo. Essa ala fala sobre a globalização em sua forma mais pura”, afirmou.

Ele reconhece a crítica presente na fantasia, embora admita que a identificação não seja automática para todos.

“A gente vive em um mundo capitalista, não tem como escapar. Eu me sinto representado, sim, mas não sei se todos vão se sentir. Depende do ponto de vista de cada um”, disse.

Hercules Angelo
Hércules Ângelo. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

Já o companheiro de ala, o pedagogo Hécules Ângelo, acredita que o visual não será imediatamente compreendido pelo público em geral. Para ele, a leitura depende do conhecimento prévio da trajetória da carnavalesca.

“Quem conhece a obra da Rosa entende que isso é referência a um samba muito conhecido, mas que pouca gente lembra. Pode causar impacto por esse lado irônico, mas é diferente de lugares que deixam a mensagem mais explícita. Só vai entender quem já estudou a história dela”, declarou.

Diretora Cassia Novelle 1
Cássia Novelle, diretora da ala. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

A diretora da ala, Cássia Novelle, confirmou essa chave de interpretação ao explicar o conceito da fantasia.

“Representamos uma síntese das viagens que ela fez pelo mundo, das culturas que trouxe para o carnaval do Rio. Por isso a fantasia tem um avião. Essa ala resume bem essa mistura. Para quem conhece a obra da Rosa, é uma referência importante a um samba muito conhecido. O que marca sua criação é justamente a antropofagia: chegar, pegar outras culturas e ressignificar a partir da nossa brasilidade”, explicou Cássia.

Melvin e Wellington. Foto: Carolina Freitas/CARNAVALESCO

O casal formado pelo porto-riquenho Melvin Pagam, 45 anos, funcionário de aeroporto, e por Wellington Lousada, 47, morador de Boston e trabalhador de um sindicato nos Estados Unidos, vive na prática a globalização retratada na fantasia. Desfilando há oito anos, eles enxergam no setor um reflexo da própria trajetória.

“Tem cores diferentes, pessoas diferentes. Eu sou porto-riquenho. Essa mistura ajuda a fazer a ala e a escola brilharem”, afirmou Melvin, mesmo sem se deter na ironia proposta.

Wellington destacou que o visual pop deve chamar atenção pela grandiosidade.

“Primeiro pelo brilho e pelo tamanho da fantasia. A Rosa sempre gostou de glamour, de coisas grandes. E isso combina com a identidade da escola, que vem para arrasar na avenida”, comentou.

Para eles, representar o “tititi” e o consumo contemporâneo não é apenas crítica, mas também celebração da mistura cultural que atravessa a ala.

“Acho interessante porque marca essa antropofagia: pegar outras culturas e ressignificar de acordo com a nossa brasilidade. Essa ala mostra exatamente isso”, finalizou Wellington.