
Nem o mau tempo que atingiu o Rio de Janeiro durante todo o dia afastou o público da quadra da Mangueira no último sábado. Com a casa lotada, quatro sambas-enredo foram apresentados em mais uma etapa da disputa para o Carnaval 2027, em uma noite marcada pelo alto nível das obras e pela forte participação da torcida. Ao fim da eliminatória, três parcerias avançaram para a próxima fase, enquanto o samba 09, da parceria de Gustavo Louzada, foi eliminado. Abaixo, a análise do CARNAVALESCO sobre as apresentações das obras classificadas.
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Parceria de Arlindinho: Defendido por Evandro Malandro, Bruno Ribas e Vitor Cunha, o samba da parceria de Arlindinho, Pedro Terra, Tomaz Miranda, Herval Neto, Paulo César Feital e Igor Leal já começou a disputa em alta. Antes mesmo de os intérpretes assumirem o comando da apresentação, a torcida já cantava a obra, mostrando a força que o samba conquistou junto ao público. Ao longo das passadas, a conexão entre cantores e torcida se manteve em alto nível, com uma interpretação firme e constante. O grande destaque ficou para o refrão principal, de forte apelo popular e que encontrou resposta imediata na quadra. A estrutura da obra contribui para esse efeito, especialmente no diálogo entre os diferentes momentos do samba. O trecho “Dobra o adarô, rufa o alujá, no toque de guerra a Mangueira vai passar” funciona como preparação para a retomada do refrão, criando dinâmica e mantendo a apresentação em movimento. Outro ponto alto foi justamente o momento em que os intérpretes entregaram o canto para a torcida, conforme determinou a regra da disputa. A quadra respondeu à altura, transformando a passagem em um dos momentos mais fortes da apresentação e evidenciando a capacidade de comunicação do samba para além da própria parceria. Na construção da letra, a obra encontra caminhos poéticos para apresentar características de Oyá e sua relação com Xangô, com imagens como “na fúria de um furacão a fera vai se transformar, asas de labá-labá”. O samba também estabelece uma conexão interessante com a própria Mangueira ao citar a quarta-feira, dia dedicado à orixá, justamente como a data em que a escola encerrará os desfiles do Grupo Especial. A melodia possui força e poucas oscilações que comprometam sua condução. Mais do que apostar em um único momento de explosão, o samba consegue manter um rendimento elevado durante toda a apresentação, sustentado pelo trabalho dos intérpretes e pela adesão da torcida. Por fim, foi um samba que mostrou grande capacidade de funcionar na quadra, teve um excelente desempenho e saiu fortalecido da disputa.
Parceria de Chacal do Sax: Defendido por Pixulé e Tinguinha, o samba da parceria de Chacal do Sax, Verônica dos Tambores, Laura Roméro, Rafael Capiberibe, Giovani e Ronnie Machado teve nos intérpretes um de seus principais trunfos nesta apresentação. A dupla conduziu a obra com segurança, mantendo a letra bem compreensível e imprimindo energia ao canto durante toda a passagem. Mesmo com uma torcida numericamente menor em relação às demais parcerias classificadas, a resposta na quadra foi positiva e constante. O refrão principal aparece como um dos grandes pontos de força da obra. “Ô ô ogã, bate o aro ogã, eu sou Mangueira, ventania de Yansã, iluminando essa favela inteira, Oyá por nós da Estação Primeira” possui uma melodia de assimilação imediata, com um canto simples de acompanhar e forte capacidade de envolver o componente. A resposta da torcida confirmou essa característica, com o refrão funcionando bem nas diferentes passadas. Antes dele, a obra constrói uma sequência de crescimento que passa pelo trecho “Quando ela passa, nada fica no lugar! / Incendeia, mãe! Incendeia! / Eu não seria nada sem Oyá! / Quem é do fogo tem dendê na veia!”. Os versos reforçam a imagem de uma Oyá em movimento, associada ao fogo, à força e à transformação, e entregam ao refrão uma carga de energia que favorece a apresentação. Outro momento que merece destaque foi o canto da torcida à capela. Ela respondeu com potência quando chamada a participar, mostrando que a obra conseguiu estabelecer uma relação efetiva com quem estava presente na quadra. A participação foi animada do começo ao fim e ajudou a sustentar o rendimento do samba. Na letra, a parceria percorre diferentes aspectos ligados a Oyá, passando pelos caminhos, pela religiosidade e pelos ritos do Candomblé, sem abandonar a relação direta com a Mangueira. Musicalmente, a obra alterna passagens de maior intensidade com momentos mais cadenciados, mas encontra no refrão principal seu ponto de maior comunicação. Foi uma apresentação segura, valorizada principalmente pela força dos intérpretes e pela facilidade com que seus principais momentos chegaram à quadra.
Parceria de Lequinho: Fechando a noite, a parceria de Lequinho, Júnior Fionda, Gabriel Machado, Orlando Ambrósio, Guilherme Sá e Paulinho Bandolim teve uma recepção que impressionou desde antes do início da apresentação. Tinga, Charles Silva e a equipe de cordas ainda se preparavam no palco quando a quadra já cantava o refrão principal em alto volume. A torcida sustentou o samba durante toda a passagem e, em determinado momento, chegou a cantar uma passada inteira, com a participação de diferentes segmentos da escola, especialmente das baianas, que se posicionaram à frente da torcida organizada. Tinga teve papel importante para manter o samba em alto rendimento. O intérprete conduziu a obra com segurança e intensidade, mas encontrou uma quadra que já conhecia e cantava a letra inteira. Essa adesão não ficou restrita à torcida da parceria: o samba também foi bastante entoado por quem estava na quadra sem integrar o grupo organizado, um indicativo da facilidade de comunicação que a obra apresentou nesta noite. O refrão do meio, “Iyá mesan orun, treme-terra, desce o morro, sobe o run, é guerra, bate o Oguê que o sangue tem Dendê, tá pra nascer quem manda nela”, concentra uma das características mais marcantes do samba: a linguagem direta e afirmativa. O trecho cresceu nas passadas e encontrou forte resposta da quadra, funcionando como um dos principais pontos de sustentação da apresentação. A letra também se destaca por aproximar os atributos de Oyá de questões que ultrapassam a narrativa religiosa. O verso “O Brasil da intolerância eu despacho no ebó” aborda a intolerância religiosa, enquanto “porque não existe macho que levante a mão pra mim, é que eu sou preta, macumbeira e de Oyá” traz uma afirmação de identidade que encontrou forte identificação no público e foi cantado com uma emoção especial por diversos componentes, com pessoas batendo no peito ao entoá-lo. É um verso de grande força semântica e que, na quadra, mostrou capacidade de criar pertencimento. O refrão principal, “Oyá Tetê Oyá Tetê Oyá, Oyá Tetê Oyá Mangueira Yabá, Ê mamãe, traz de novo teu axé, relampejou pra vitória, Motumba Lè”, confirmou a força popular da obra. Cantado em alta intensidade pela torcida e pelos intérpretes, levantou a quadra em todas as passadas e encerrou a disputa em clima de grande empolgação. É um samba que se apresentou com muita força e capacidade de comunicação, especialmente pela combinação entre uma torcida extremamente participativa, um intérprete em alto rendimento e versos que encontraram identificação imediata. No mais, a parceria fechou a noite como uma das grandes forças da eliminatória.









