Assumir uma comissão de frente na Marquês de Sapucaí nunca é apenas criar passos ou desenhar movimentos. É carregar uma história no corpo, traduzir um enredo em gesto, emoção e silêncio. É abrir caminhos. Desde 2025 à frente da comissão de frente da Unidos da Tijuca, Ariadne Lax e Bruna Lopes vêm transformando esse espaço em território de narrativa, sensibilidade e impacto. Renovadas para o Carnaval 2026, as coreógrafas agora encaram um dos enredos mais profundos e necessários da temporada: a vida e a obra de Carolina Maria de Jesus.

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Desde os primeiros esboços, o trabalho já nasce atravessado por emoção. Para Ariadne, contar a história de Carolina é mais do que um desafio artístico — é um marco pessoal, profissional e humano.

“Na carreira? É um enredaço. Não tem como não se emocionar. A gente está aproveitando cada etapa e vai fazer de tudo para entregar um trabalho com muito amor e respeito. A história da Carolina é incrível. É uma honra contar essa história em forma de balé. É importante não só para a nossa carreira, mas para a Tijuca, para o carnaval e para quem vai assistir”, afirmou.

O sentimento que guia a construção da comissão vai além da técnica. Há pertencimento, responsabilidade e consciência do lugar que essa história ocupa. Em 2026, a comissão de frente da Tijuca não apenas abre o desfile — ela abre um diálogo potente entre arte, política, memória e feminilidade.

Bruna Lopes fala desse impacto com a voz de quem se reconhece na narrativa. Carolina não é apenas personagem histórica; é espelho, é símbolo, é presença viva.

“Não tem como nós, mulheres, não nos emocionarmos com essa história. Ela toca no coração de cada Carolina que existe dentro de nós. Mexe com a nossa vivência, com a nossa luta, com a nossa trajetória. Esse trabalho é um momento muito importante não só na nossa carreira, mas na nossa vida”, destacou.

A renovação da dupla pelo segundo ano consecutivo também representa maturidade e confiança. Se em 2025 o desafio era se apresentar à escola, agora o sentimento é de pertencimento pleno, de liberdade criativa conquistada com entrega e trabalho.

“Esse é o nosso segundo ano na Tijuca. Hoje existe confiança, existe liberdade artística. Quando você chega, precisa mostrar quem é. Com o tempo, as pessoas veem o trabalho, acreditam, confiam. Este ano, a gente sente que o trabalho é nosso. A gente tem propriedade sobre o que está criando”, explicou Bruna.

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A novidade técnica da cabine espelhada, que transforma a Avenida em um espaço circular, surge como aliada da proposta artística. Para Ariadne, o novo formato amplia a potência do espetáculo.

“Eu acho que só engrandece. O desfile vira uma arena, um espetáculo em 360 graus. É para todos verem, para todos sentirem. A história da Carolina precisa ser vista de todos os ângulos”, avaliou.

O samba-enredo atua como fio condutor emocional da comissão, atravessando gênero, classe, história e política. Para Bruna, cada verso carrega uma ferida aberta e, ao mesmo tempo, um gesto de resistência.

“Toca no meu coração porque eu sou mulher. Falar de uma mulher que foi catadora de papel e se tornou escritora é falar de sobrevivência, de dignidade, de cultura. É falar de literatura, de política, de exclusão e de voz. Isso mexe profundamente com a gente”, afirmou.

Com delicadeza, força e consciência social, Ariadne Lax e Bruna Lopes constroem uma comissão de frente que não apenas inicia o desfile da Unidos da Tijuca, mas inaugura um espaço de memória e reconhecimento. Um trabalho que transforma a Sapucaí em palco de emoção, onde o corpo dança aquilo que a história nunca conseguiu silenciar.