Tradicionalíssima escola de samba do carnaval de São Paulo, a Imperador do Ipiranga cantou o sincretismo religioso no ano de 2023. A escola da Zona Sul da cidade soube unir muito bem todas as pontas do enredo “Gratidão, Fé e Amor… Vem! Sou Imperador”, com destaque para a comissão de frente e com uma atuação ousada e convincente do casal de mestre-sala e porta-bandeira da agremiação, que souberam driblar a passarela molhada e a chuva que voltou a cair no final da apresentação. Fechando o desfile com 49 minutos (apenas um abaixo do limite permitido pelo regulamento), a exibição teve alguns desafios na evolução já na parte final.

Enredo

Mostrar o sincretismo religioso de um país de dimensões continentais como o Brasil é sempre uma tentação e um desafio. A Imperador do Ipiranga soube trabalhar tudo isso no desfile com o tema “Gratidão, Fé e Amor… Vem! Sou Imperador”, desenvolvido pelo carnavalesco Ivan Pereira.

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Cada setor era temático. O primeiro falava da fé cristã; o segundo, de religiões de origem africana; e, o terceiro, das crenças indígenas. Havia, entretanto, pontos de ligação entre cada um eles. O barco que encontrou Nossa Senhora Aparecido foi utilizado para saudar Iemanjá, a rainha do mar para o candomblé e para a umbanda. Os mares levaram o desfile para a Amazônia, com direito a representação dos bois-bumbá de Parintins, Garantido e Caprichoso.

Toda a evolução do enredo, por sinal, foi colocada no samba-enredo e foi perfeitamente compreendida pelos presentes.do

Comissão de frente

Ao contrário da maioria das comissões de frente do carnaval paulistano, a da Imperador do Ipiranga pôde entrar tão logo a sirene tocou. O motivo foi conhecido logo na segunda passagem do samba: os componentes não marcavam a canção – algo que se tornou tradicional em São Paulo.

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Se não era uma das coreografias mais longas do carnaval da cidade (cada passagem durava menos que um setor das arquibancadas), ela impressionava. Dividida em dois momentos, ela tinha como estrela Nossa Senhora Aparecida. No primeiro ato, pescadores buscavam peixes e não tinham sucesso. Eis que encontram a imagem da santa negra, na representação do que aconteceu no século XVIII, no Vale do Paraíba (São Paulo), e a pescaria passa a ser farta.

Logo depois, o barco levanta e o fundo da embarcação se torna a imagem da santa, com pessoas louvando a imagem e algumas representações de milagres. Certamente uma das grandes comissões de frente do ano, muito bem idealizada e coreografada por Renata Coppola.

Vale destacar que, ao contrário do que poderia ser imaginado, a descoberta da imagem da santa e/ou a mudança do ato, momentos mais marcantes da coreografia, não aconteceram na frente da segunda cabine de jurados.

Mestre-sala e Porta-bandeira

A fantasia de Naiomy Pires, porta-bandeira da escola, era um destaque à parte. Fantasiada como a própria Nossa Senhora Aparecida, com o manto azul característico, ela conduziu muito bem o pavilhão em uma passarela molhada – embora com ventos mais amigáveis.

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Mostrando muita sincronia com Vitor Barbosa, ambos souberam equilibrar bem as interações com o samba e os giros – sendo bastante aplaudidos pela Arquibancada Monumental, que valorizou a dança em meio à pista úmida. Por sinal, vale destacar o samba no pé do mestre-sala, que foi até o limite ao bailar – e não teve erro técnico algum, nem mesmo para desfraldar o pavilhão. Exibição bastante convincente da dupla, que foi saudada na Arquibancada Monumental.

Vale pontuar que o casal dançava bem próximo um do outro, sem ser observado resvalões ou algum momento de falta de sincronia. As duas fantasias tinham predominância das cores azul e dourada – que, juntamente com o branco, formam a cromia da escola.

Harmonia

Comandada por Vagner Eduardo Siqueira Salum, popularmente conhecido como Guinê, a escola teve canto destacado. O samba-enredo, é bem verdade, bastante simples e com poucas palavras desconhecidas do grande público, ajudou. Mesmo assim, o trabalho desenvolvido pelo staff foi destacado, com canto bastante regular e satisfatório em todos os setores do desfile.

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Com o canto sem problema algum, os staff ficaram mais atentos ao alinhamento de componentes em cada ala. Por vezes, é bem verdade, havia algum deslize – logo corrigido pelos harmonia no corredor. Vale destacar, também, que os próprios componentes orientavam foliões que estavam à frente ou ao lado caso sentissem algum desalinhamento. paulistano”

Samba-Enredo

É nítido observar que o samba-enredo caiu no gosto do ipiranguense. Muito bem conduzido por Rodrigo Atração (vestido de índio para a apresentação) e pelo carro de som da escola, o canto de toda a escola foi regular e em bom tom.

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Como dito anteriormente, também vale destacar que a associação da canção escolhida pela escola com as alas, carros alegóricos e com tudo que era visto na passarela era evidente e imediata – facilitando a leitura de quem estava na arquibancada e, por tabela, gerando mais identificação e canto.

Alegorias

O abre-alas da Imperador do Ipiranga era inteiro trabalhado na fé cristã. Além da coroa, símbolo da escola, a imagem de Nossa Senhora Aparecida era vista no segundo carro, acoplado, à frente de uma imagem de Jesus Cristo bem destacada. No meio do desfile e de uma ala, aparecia um tripé com a imagem de Iemanjá (ou Janaína), rainha do mar. Por fim, quase encerrando o desfile, uma alegoria com um índio e um afrodescendente cercado de animais silvestres, como tigres e onças, e com diversos elementos remetendo à flora amazônica – e com direito a um telão com uma cachoeira. Todas as alegorias estavam muito bem acabadas e com cores bastante fortes.

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Fantasias

Sempre com adereços como tiras e costeiros, as fantasias da Imperador do Ipiranga para o carnaval 2023, quando comparadas às coirmãs anteriores, eram de bom para ótimo nível de materiais mais caros. Com cromias bastante diferentes de acordo com o setor em que estavam (amarelo e azul no primeiro setor; amarelo e vermelho no segundo e verde no terceiro), praticamente todas estavam com bom acabamento.

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Uma única ala, majoritariamente rosa e com temática mais infantil, tinha alguns detalhes em azul no costeiro que sentiam o efeito da chuva, prejudicando os detalhes em azul.

A chuva, por sinal, foi um fator importante para as fantasias, como dito anteriormente. Mais pesadas e já com um luxo destacado na concepção, elas tornaram-se mais pesadas – e prejudicaram a mobilidade dos componentes em alguns momentos.

Evolução

Se a chuva deu uma trégua na primeira metade do desfile, ela caiu nas escolas que desfilaram antes da Imperador – e deixaram as fantasias mais pesadas. A passarela úmida também foi um fator que prejudicou a Evolução dos componentes, com receio de escorregões e movimentos mais bruscos.

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O retorno da chuva, já na metade final da apresentação, confirmou a impressão de que a escola, embora cantasse bem o samba-enredo e correspondesse plenamente na Harmonia, teve movimentos mais discretos, não sendo uma das escolas mais leves ao longo da noite.

O recuo da bateria teve movimentos ousados. Os ritmistas da Só Quem É avançaram até além da Arquibancada Monumental, viraram e entraram. O buraco foi ocupado por uma única pessoa, um dos destaques do carnaval 2023: Rhawane Izidoro, Rainha da bateria e também do carnaval paulistano no ano. Ela foi até além do espaço destinado aos ritmistas, voltando tão logo a ala subsequente ocupou o espaço. Vale destacar que a ala que estava à frente seguiu avançando, a despeito do espaço deixado.

O grande contratempo não apenas no quesito, mas, também, em toda a apresentação, foi a aceleração nos instantes finais do desfile para encerrar a exibição dentro da cronometragem permitida.

Outros destaques

A escola entrou motivada no Anhembi por conta de um discurso mais do que especial: quem falou aos componentes foi seo Larte Toporcov, um dos fundadores da agremiação. Falando em tradição na escola, a tradicionalíssima ala de ciganas da Imperador do Ipiranga veio coreografada – por sinal, a única que utilizou tal artifício na escola.

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Sem executar grandes convenções, a Só Quem É, comandada por Mestre Thiago Praxedes, conduziu bem o ritmo do samba-enredo, com grande sintonia com o carro de som e sem mudança de andamento – apesar do encerramento da apresentação já no adiantado da hora.