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Foto: Mariana Santos/CARNAVALESCO

A União de Maricá deu início ao concurso em busca do hino que embalará o Carnaval 2027. A escola abrirá o primeiro dia de desfiles com o enredo “Utopia Brasil: Darcy Ribeiro”, que conta a trajetória do antropólogo e idealizador da Marquês de Sapucaí, Darcy Ribeiro. Doze sambas concorrentes foram apresentados na quadra da escola, em Maricá. Confira, a seguir, a análise do CARNAVALESCO sobre os classificados.

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Parceria de Moacyr Luz: O samba foi cantado por Tinga, Charles Silva e Matheus Gaúcho. A composição também traz uma abordagem mais descritiva, mas se distingue por suas primeiras estrofes, que resolvem imediatamente diferentes aspectos do enredo, desprendendo-se da literalidade e da cronologia fiel, dando maior profundidade criativa: “Desperta pra sonhar / Menino na janela do Divino / Já raiou sua missão / Quando o império desatino / Utopia no destino / Cai na indignação”. Em seguida, a obra toma um caminho aguerrido e de melodia pujante, com o principal destaque no refrão: “Meu país é Maricá / Utopia mãe gentil / Nunca pare de lutar / Pra mudar esse Brasil / A vitória popular / Nessa pátria tão hostil / É o educar um filho / Da mãe solo que pariu”, por sua força melódica, poética e alto potencial de identificação, que se refletiu no canto forte e no bom funcionamento do trecho em todas as passadas; e os versos “tantas peles eu vesti… para que todo favelado vá sonhar como Darcy”, bem executados pelos cantores, que trabalharam a valorização melódica e trouxeram à vida a força que o verso tem por natureza. A composição consegue trazer a utopia de Darcy para uma realidade social mais concreta, especialmente ao aproximar seu pensamento da educação e da vida da população. Outro destaque é o refrão “ergue a zambi um monumento, nessa praça um fazimento coroando Rei Zumbi”, em relação ao monumento a Zumbi dos Palmares, na Praça Onze, bem próximo ao Sambódromo, ambos criações de Darcy Ribeiro, que dialogam profundamente e trazem um peso em coerência e identificação a um samba que é candidato a ser cantado na Sapucaí. A parceria teve uma torcida numerosa e animada, com bandeiras, embora nem todos cantassem o samba, mesmo no refrão. A energia, porém, ultrapassou a torcida e conseguiu contagiar muitos dos presentes nas mesas e camarotes, tornando-se um ponto quente da noite. Passistas também estavam junto à torcida. Também trouxeram efeitos cênicos, como tiros de fumaça e fogos indoor. A performance teve um bom rendimento.

Parceria de Diogo Nogueira: O cantor oficial da parceria, Pitty de Menezes, não esteve presente na apresentação. A obra traz uma das abordagens mais diferenciadas propostas nesta safra. Também em tom aguerrido, agora o próprio Darcy é narrador na parceria de Diogo Nogueira. O trecho “De tudo isso é que eu nunca fui omisso. A feira, a festa, a cada rua o compromisso, de enxergar este país qual procissão” se destaca pela força lírica, além de uma abordagem contextualizada a passagens da infância de Darcy, que, quando trabalhadas dentro de seu significado para a narrativa e não em ordem cronológica, tomam maior força coesiva. Outro trecho que tem um potencial forte de identificação é “minha missão eu encarei de peito aberto, no lado do coração que sempre foi o lado certo”, pelos significados em entrelinhas; e vale destacar o peso lírico do refrão “se é pela nossa gente, nós não vamos recuar. Clamo ao povo brasileiro: ouça a voz da Maricá! Subversivos, nos seguimos nas trincheiras, pois a luta é a vitória de quem tem uma bandeira”, muito forte e político. A torcida era menos numerosa, também empunhando bandeiras, mas pouco expressiva ao longo da apresentação, sem cantar o samba, o que deixou a apresentação com pouca energia. A apresentação teve um rendimento regular, passando fria pelos presentes.

Parceria de Sandra Sá: Defendida por Emerson Dias, a composição também traz Darcy Ribeiro contando a própria história. Apesar de se ater a cronologia da sinopse em certo nível, não traz uma abordagem literal prezando pela poesia, como nos versos “Cresci sonhando ser coroado / Em plena Festa do Divino / A utopia no olhar de um menino/pela janela da esperança” que se destacam por trazer com beleza e criatividade uma boa síntese da proposta. A melodia que embala a composição traz a força necessária á sustentação dos versos. O principal destaque lírico está no refrão “Rodeia as matas de Tupã e da Jurema / Na pajelança aprendi o ritual / Quando o mal da covardia me condena / Eu viro flecha com veneno de coral”. A imagética criada no verso ‘flecha com veneno de coral’ mostra sua força ao condensar a experiência de Darcy junto aos povos indígenas, sua defesa dessas populações e o enfrentamento à violência política. O trecho funcionou bem durante a performance. A composição também apresenta um olhar aguerrido para a trajetória de Darcy, especialmente ao tratar de alguém que sonhou desde criança com um Brasil melhor, mas viveu justamente os conflitos e violências de um país que não realizou essa utopia. Isso se torna claro em “Sem medo vejo que não fracassei / Almejei o florescer dessa nação / E quem tentou me derrubar e me vencer / Sumiu da história e não virou enredo, não”. O trecho reescreve a história, recriando e rebatendo um pensamento famoso do antropólogo: “Fracassei em tudo o que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. (…) Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”, sendo um dos destaques criativos da composição. Outros versos que valem destaque são “É Sapucaí que me arrepia / Muito prazer, eu sou Darcy, o criador”, verso de forte potencial por apresentar ao público uma informação nem sempre conhecida sobre Darcy: sua participação na criação do Sambódromo. Além da letra de tom esperto e jocoso, tem uma boa melodia, embora seu potencial não tenha sido aproveitado ao máximo na apresentação, sem dar a força equivalente ao verso. O refrão principal é um dos mais fortes liricamente que passaram pela quadra nesta noite, aguerrido e que chama a comunidade maricaense: “Maracanandê, Maracanandê / Pisa forte, Maricá vem com sede de vencer / Maracanandê, Maracanandê / Pra fazer revolução ninguém pode se render”. Na apresentação, havia pouca torcida organizada, mas a exibição conseguiu contagiar alguns dos presentes na quadra, até mesmo integrantes do carro de som. O rendimento foi regular, com destaque para o refrão principal que começou a se fortalecer a partir da segunda passada.

Parceria de Andreia Werling: Cantado por Pixulé, a composição se constrói de forma mais livre, mesmo seguindo a cronologia proposta pela sinopse. O início já estabelece essa perspectiva: “Brasil abre a cortina do seu coração / Mostra ao mundo a sua nação / Que é o povo brasileiro / Nas gerais, no chão do sertão / Com sonho de ser imperador / Nasceu Darcy Ribeiro”. Nele também se cria uma imagética das “peles” e da Festa do Divino como forma de construir a transformação do menino Darcy: “Ecoou o canto da floresta, Kadiwéu, urubu-ka’apor. Do arco e da pena brotou o gigante, que do Xingu foi defensor. UNB, inspiração. Do exílio, a criação. Dos CIEPs fez um ideal, sonho: mãe-terra plural”. O refrão é um dos destaques, por sua força lírica e criativa: “É tambor de guerra / É tambor de axé / Embala a rede / Levanta a maré / Do som da resistência / A voz que surgiu / Maricá, Utopia Brasil”, além de ter demonstrado sua potência com o público. Durante a apresentação, a torcida levou bandeiras, e a Velha Guarda veio acompanhar na frente do palco. Apesar do bom desempenho do carro de som e de um rendimento ok, houve a impressão de que o volume do carro de som não estava bem ajustado, com o cantor de apoio muito alto, se sobressaindo. Além disso, houve uma leve quebra na fluidez da execução na primeira passada, como fruto de pouca familiaridade com a letra.

Parceria de Mestre Poraquê: Defendida pelo próprio Mestre Poraquê, a obra traz uma abordagem narrativa da trajetória de Darcy, com um olhar mais livre sobre a sinopse, como destaca o trecho: “Trocar de pele é nossa essência. Meu país é resistência, emana ancestralidade. Contar a história de um sonhador que foi nosso professor, ensinando brasilidade”. A melodia é igualmente vibrante. A apresentação teve muita energia, já de início. Nas duas primeiras passadas, porém, a cabeça do samba apresentou problemas de desempenho, com o carro de som desencontrado na execução, que se alinhou posteriormente. A exibição trouxe um dos destaques da noite: um dos refrões mais cantados foi o principal: “Yvy marãe, yvy marãe, o Brasil que Darcy sonhou. Yvy marãe, yvy marãe, a União de Maricá eternizou”, que ganhou força ao longo da apresentação e contagiou os presentes, até mesmo membros da equipe criativa. A performance teve um bom rendimento.

Parceria de Magnum Amado: Marquinhos Art’Samba deu voz à composição da parceria de Magnum Amado. A obra também traz Darcy Ribeiro contando sua própria história em tom sensível, como nos trechos “Fui reizinho nos golguedos, coroado em poesia. Dona Fininha em seus braços me embalava tanta ternura que guardei na travessia”. Vale destacar também a beleza poética de versos como “feito boiúna, me entranhei na mata, mergulhei nas águas”, que traz o imaginário indígena ao abordar a relação tão próxima do pensador com os povos; e “Brasil, moinho de gastar gente”, que exalta o caráter aguerrido da composição. Outro ponto alto é o refrão “Voa, acanã, pássaro guerreiro. No avesso de avá, sou Darcy Ribeiro. Canta, acanã na pura eufonia. Destrói com seu canto a extrema agonia”, que foi bem recebido pelo público, se destacando até mais do que o refrão principal, e a repetição dos versos foi responsável por intensificar o rendimento. Apesar dos destaques, a falta de intimidade geral do carro de som com a letra interferiu na fluidez e, consequentemente, na energia da performance. Sem diminuir o valor e a beleza da interpretação, a canção poderia ter sido mais valorizada. A parceria trouxe uma torcida pequena e tímida, sem canto expressivo, e teve um rendimento regular.

Parceria de Jô Borges: Com a ausência de Wander Pires e Wandinho, o samba foi defendido por Roger Linhares, Alexandre Simpatia, Jô Borges e Cacau Souza. A canção traz um dos destaques líricos da noite ao abordar o tema como o Brasil cantando para Darcy Ribeiro. Começa potente nos versos “Eu sou um pai assim / Tenho tantos filhos, mas não consigo cuidar / Tão bocado a um, mas eu reservo pra mim / Aos preferidos e não posso negar / Um deles tá aqui / Sangue de caboclo / Menino Darcy”. A composição consegue sintetizar grandes ideias do enredo em poucas imagens. “Pele Montes Claros, tatuam no Brasil / Vivos num império imaginário riscado de giz” concentra a infância, a utopia de Darcy, seu desejo de transformar o país e a educação como instrumento dessa transformação. Outro destaque está no trecho em que o Brasil reconhece aquilo que Darcy projetou para o país: “Eu seria tão melhor se andasse no seu caminho / Ajudar os seus irmãos, dar estudo e carinho / Espalhando o saber em catedrais feitas de concreto / Minha neta no cerrado / Legado de um futuro incerto / Tão perto, tão longe de mim”. A sequência ainda passa pelas “fardas e gravatas”, pela volta do exílio, pelo ensino integral e chega à avenida: “Nessa avenida, mestre imortal”. O refrão é simples, mas traz um potencial de identificação e de provocar canto da comunidade ao incluir uma frase já bem utilizada pela escola na divulgação do enredo: “O povo brasileiro vai tomar a passarela / Meu nome é Brasil e posso afirmar: / Essa utopia já nasceu em Maricá”. Mesmo com pouca torcida e debaixo de chuva, a apresentação conseguiu contagiar alguns dos presentes e teve bom rendimento. Entretanto, as variações melódicas interessantes que abraçam a composição poderiam ter sido melhor trabalhadas e valorizadas na execução, trazendo para fora o brilho que a obra carrega por natureza.