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Foto: Allan Duffes/CARNAVALESCO

A Mocidade Independente definiu seus sambas finalistas no último sábado quando realizou sua semifinal, na quadra da Vila Vintém. Quatro sambas foram classificados: Richard Valença, um pouco à frente na disputa, travará um duelo com Paulo César Feital. O terceiro classificado é o samba da parceria de Jefinho Rodrigues, que oferece uma versão alternativa. Para compor a final, o samba de Léo Perez foi classificado. A Estrela-Guia de Padre Miguel será a primeira escola a desfilar na segunda-feira do Carnaval 2027 com o enredo “Latinamente Independente – Nosso norte é o Sul em Remanifesto”, desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos.

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Parceria de Richard Valença: O samba composto por Richard Valença, Orlando Ambrosio, Renan Diniz, Jorginho Via 13, W. Corrêa e Cabeça do Ajax traz sacadas muito inteligentes ao longo da bela letra. A começar pelo pré-refrão, que abre caminho para um refrão contagiante, para cima, totalmente dentro do enredo, e “o mapa que vira, virou” é uma sensível e espetacular referência ao lendário samba-enredo da Mocidade. Letra direta e reta. Põe o enredo na atualidade, faz conexões rápidas com a história recente da América Latina, tomando partido do enredo para defender as ameaças que o bloco enfrenta atualmente. O bom refrão do meio traz uma melodia muito bem trabalhada em “viva a revolução”, trazendo o componente de volta ao samba. Na segunda estrofe, a referência aos Estados Unidos passa despercebida no canto, mas faz presença na letra em “se alguém ‘USA’ um pé de gente”, exibindo a riqueza poética e, também, de detalhes com os quais os compositores se preocuparam ao compor o samba. A letra e a melodia vão ao encontro de um enredo manifesto, mantendo um posicionamento forte em ideias muito interessantes ao longo do samba. No início, o trecho “samba originário canibal, que tem fome de reparação” é um verso de extrema qualidade, que abre uma estrofe politicamente potente. Durante a apresentação, o samba teve um ótimo rendimento. Os cantores liderados por Tinga e Tem-Tem Jr. conduziram o canto forte e uma bela passagem pelo palco. O trecho mais cantado, além do refrão, é o ótimo pré-refrão. O trecho “viva la revolução”, no refrão do meio, também é entoado com força pela torcida. Quando o canto foi jogado para a torcida, ela sustentou o andamento, e a obra passou com vigor pela semifinal. A parceria de Richard Valença vai à final como uma das favoritas.

Parceria de Paulo César Feital: O samba composto por Paulo César Feital, Alex Saraiça, Denilson do Rosário, André Russo, Carlinho da Chácara e Fábio Bueno dá musicalidade ao tom de manifesto do enredo da Mocidade. A parceria coloca os povos originários latino-americanos como protagonistas da obra, sem deixar para trás os temas atuais do continente, ao fazer referência à soberania, no refrão do meio, e às terras raras, na segunda estrofe. Vale destacar que o samba volta à fórmula que a Mocidade tem insistido nos últimos anos, que é fazer referência ao passado da escola, embora as referências às letras de 2017 e 2022 não estejam tão no passado assim. Porém, não deixa de ser um mecanismo bastante usado na escola para ganhar a simpatia da torcida e dos componentes. O refrão principal é interessante e dialoga perfeitamente com a sinopse ao lembrar Oxóssi, quando, no texto, convoca a América Latina a organizar um levante pelas flechas do orixá caçador. No entanto, ele se desconecta do continente para fazer referência direta ao Brasil. Ao dizer “o meu norte sempre foi, nossa pátria mãe gentil”, há perda de coerência em um enredo que se refere ao sul como continente, não como país. No refrão do meio, existe referência ao Pindorama, mas ele não se desvirtua do enredo, pois trata a terra como quilombo dos saberes e não como parte principal da obra cantada. Melodicamente, a composição é fácil de cantar, tem o jeito Mocidade de desfilar e favorece o canto do componente, para momentos de explosão durante as passadas. E foi exatamente o que aconteceu durante a apresentação. O samba mais cantado da semifinal pela quadra foi conduzido no palco por Zé Paulo Sierra, que cumpriu bem o papel de levantar o público e inflamar a torcida. O público respondeu muito bem quando foi acionado para cantar o samba sem o auxílio dos cantores. Inclusive, os intérpretes foram para o meio do povo quando o canto foi jogado para a quadra. Em um ótimo andamento, não foi identificada queda de rendimento durante a apresentação. É mais uma parceria que vai à final como favorita a ser o samba da Mocidade em 2027, mas será preciso atenção à letra do refrão principal, em caso de escolha.

Parceria de Jefinho Rodrigues: O samba da parceria de Jefinho Rodrigues é um feijão com arroz muito bem temperado e oferece o melhor refrão principal entre os concorrentes. A obra assinada por Jefinho Rodrigues, Xande de Pilares, Marquinho Índio, Estevão Ciavatta, Cleiton Roberto e Prof. Renato Cunha carrega a alma latino-americana em cada verso. Sem perder o tom de manifesto, a letra consegue oferecer fluidez ao tema, conversando com a sinopse sem ser um copia e cola dela. O refrão principal é um sabor. Ele oferece a musicalidade e a latinidade que o enredo pede. Na primeira estrofe, o convite à revolução é feito com potência, seguido de um grito de liberdade quando diz “e não seremos mais o seu quintal…”. O verso “ai, se se te pego aqui, volto a te devorar”, ainda que esteja na sinopse por seus motivos, destoa da beleza da letra do samba e poderia ter sido dispensado na composição. Irreverente, tem boa resposta, mas parece que está ali encaixado. O refrão do meio e a segunda parte são excelentes para cantar. No refrão do meio, há uma reflexão de futuro. A falta de explosão do canto e a linearidade entre a primeira estrofe e ele, por vezes, comprometem o rendimento do samba, porque não dão elementos para chamar a atenção do componente. Na segunda estrofe, a essência latino-americana está praticamente desenhada. Com poesia rica e muito capricho na composição, a letra casa com a melodia para oferecer uma leveza ao enredo. No fim, a obra não é das mais complexas, nem da poesia mais rebuscada. No entanto, o samba traz a alma do enredo, mas falta a essência de desfile. Melodicamente, o samba apresenta uma confusão no canto no início da segunda estrofe. O compositor trabalhou demais para enriquecer o canto, mas a impressão é de que passou do ponto. Até ali, o samba apresenta uma melodia linear demais; o excesso na segunda estrofe faz falta no restante do samba. A apresentação, entoada por Wander Pires, foi boa. A torcida respondeu bem, e foi o samba que algumas baianas e alguns passistas acompanharam. Mas parece correr bem por fora nesta final.

Parceria de Léo Peres: O samba da parceria de Léo Peres, também assinado por Leandro Fregonesi, Felipe Pires, Rogerinho, Wilson Paulino e Bruno Serrinho, mostra um refrão principal interessante. Mas falta força e, sem ela, não cativa muito quem não está na torcida. Não é questão de explosão, que falta também. Mas falta força para abrir um samba. É linear e calmo demais. O refrão do meio é bom. Ele tem força, tem letra com excelência poética, usa o “ai se eu te pego” de maneira lúcida e ainda oferece bossa à bateria. É um ótimo refrão de meio. No mais, a letra não vai convocando ao manifesto, não provoca o público. Ela descreve uma América Latina a partir de um inconformismo. O destaque é para o pré-refrão principal. É um trecho que termina muito bem a obra, traz consigo a tônica do samba, que busca, no rebuscado da melodia, a simpatia do ouvinte. Diga-se também que é muito bom ouvir esse samba na quadra, mas o refrão principal e a descaracterização política do manifesto do enredo deixam-no um passo atrás em relação aos favoritos. Durante a apresentação, a torcida tentou, o palco tentou, Bruno Ribas, que conduziu o samba com a excelência de sempre, também tentou, mas a virada do samba não dá energia para o componente. A apresentação foi boa para a quadra, mas este não deve ser o hino da Mocidade em 2027.