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Série Barracões: Salgueiro trará a cultura dos yanomamis em seu desfile no Carnaval 2024 com muita fidelidade e respeito

O Acadêmicos do Salgueiro quer mostrar toda sua força no carnaval de 2024. Após o desfile do ano passado, em que ficou em sétimo lugar, fora do grupo das campeãs pela primeira vez desde 2007, a escola esteve determinada a corrigir seus erros. Com enredos e sambas muito contestados nos últimos tempos, a vermelho e branco perdeu pontos preciosos para melhores colocações e até títulos. Então, o presidente do Salgueiro, André Vaz, resolveu apostar em um tema de grande relevância. Com uma mensagem potente, o enredo foi desenvolvido pelo carnavalesco Edson Pereira, em seu segundo ano seguido na agremiação. E isso se refletiu com muita clareza já na disputa de samba-enredo, onde foram apresentadas diversas obras de qualidade. O concurso foi de alto nível, mas o samba vencedor desenvolveu um favoritismo desde o início por conta de sua melodia valente e, principalmente, por sua incrível letra. Contando com a manutenção de sua equipe de profissionais muito gabaritada, o Salgueiro já largava resolvendo suas principais dificuldades. Diante disso, o pré-carnaval da escola foi bastante consistente, como há tempos não se via. Tanto que, hoje, é apontada como uma das principais postulantes ao título do Grupo Especial.

No carnaval de 2024, o Salgueiro contará o enredo ‘’Hutukara’’, de autoria do carnavalesco Edson Pereira. A escola falará sobre a mitologia Yanomami, defendendo a preservação dos povos originários e da Amazônia. A agremiação será a terceira a desfilar no domingo de carnaval. Em entrevista ao site CARNAVALESCO, Igor Ricardo, o enredista da escola, confirmou que a ideia partiu do presidente André Vaz e que ficou muito feliz com o tema escolhido:

“A ideia do enredo veio do André, o presidente da escola. Eu cheguei na escola em março, depois do carnaval, então a ideia já estava rolando. Desde dezembro de 2022, se eu não me engano. Ele perguntou o que eu achava. O Edson já estava feliz com a ideia e eu também fiquei muito feliz. Não sei se foi porque ele viu na televisão o que estava acontecendo, mas eu sei que partiu dele essa ideia”, falou Ricardo.

O enredista falou sobre a importância da mensagem que o Salgueiro deseja passar no desfile e que a popularidade do samba-enredo já é uma vitória:

“Já fico muito feliz quando a gente ouve as pessoas cantarem o samba, porque ele traz palavras em yanomami e ninguém sabia que eles não falavam português. Ou seja, é a particularidade de cada povo. A gente precisa tomar conta, saber um pouco o que está aqui, que ele tem a sua cultura, o seu particular, o seu modo de vida, a sua própria língua. Eles não querem que isso morra. O Salgueiro, tendo o samba com essa língua, já deixa mais viva pelo menos essa língua yanomami. E a mensagem do enredo, eu acho que é muito isso que o Davi falou com a gente. Você só respeita aquilo que você conhece. A gente não conhece o povo yanomami. Nós só vemos uma coisa na televisão que não são eles. Nossa proposta é fazer com que todos, de certa forma, possam conhecer um pouco do que é o povo yanomami, para que a gente possa, no final, virar amigo deles. E no último setor a gente traz outros povos. Então, a gente quer virar amigo de todos os povos originários, já que eles são os donos dessa terra. Eles foram os primeiros a chegar aqui. Quando a gente chegou, eles já estavam aqui. A nossa proposta é isso, que a gente respeite eles. E respeito, a gente só tem por aquilo que conhecemos”, disse Igor.

O artista contou como foram as conversas com Davi Kopenawa, principal líder dos yanomamis, e o que foi pedido por ele:

“Ele não queria que o povo dele fosse visto pela ótica da tragédia, então a gente abre o desfile mostrando a criação pelo Deus Omama. Tem até um momento que a gente mostra isso, mas não pela nossa visão, e sim pela visão deles. O principal pedido dele foi esse. E a questão também de respeitá-los do jeito que eles são. O formato do cabelo, a vestimenta, a pintura corporal. E no carnaval tudo tem uma escala muito maior de tamanho. Então, você vai ver uma pintura em uma escultura de quase 20 metros de altura. É uma linguagem estética carnavalesca de respeito à cultura original. Ele também gosta muito de crianças, porque ele acha que as crianças têm um dom de assimilar a mensagem mais facilmente e levá-la para frente melhor do que os adultos. Então, pensando nisso, a gente retomou a ala das crianças, depois de 16 anos”, revelou o enredista.

Igor falou sobre a felicidade em ver uma disputa de alto nível na escola no concurso de samba-enredo, mas destacou que a potência da obra escolhida já era sentida desde o princípio:

“A gente teve 23 sambas. E as pessoas que foram na final sabem que a disputa foi apertadíssima. Só que esse samba já conseguiu despontar desde o início. Tanto na internet quanto fora dela. Mas a gente ficou feliz de ver uns cinco ou seis sambas que chegaram ali na reta final que tinham total condição de atender ao nosso desfile. E era tão importante saber que havia sambas de formatos diferentes, mas que atendiam ao enredo no todo. Então, quando a gente viu que esse samba foi abraçado tanto pela comunidade quanto pela internet, não tinha como não ser ele. Desde o início ele já se mostrou um favorito. A melodia dele, valente, guerreira, que era uma coisa que o Davi falava. Ele não queria nada que fosse lamentoso, porque se eles estão sofrendo, eles estão guerreando. Então, é um samba forte”, falou Ricardo.

O enredista destacou alguns pontos do desfile do Salgueiro em que acredita serem grandes destaques, por sua imponência e por sua mensagem forte:

“A abertura é bem impactante. Ano passado, o Salgueiro tinha um carro abre-alas que era imenso em comprimento. Esse ano, temos um carro menor, mas com uma escultura mega imponente, que é Omama. Eu sei que chega a quase 20 metros de altura. Então, é uma escultura imponente, com acabamento impecável. Não em termos de comprimento de carro, mas em altura de carro. Eu acho que as pessoas também vão ficar muito sensibilizadas com o setor do garimpo, que mostra o que acontece com eles hoje em dia. E acho que o último carro também, que vai trazer o Davi, e outras lideranças indígenas, que é um carro que tem uma mensagem também muito forte. Como trazemos no nosso samba, que o Salgueiro é uma raiz que nasce forte em qualquer lugar, temos ali um Salgueiro com raízes. Tem uma modernidade também que vamos trazer para o desfile, misturado a uma tradição. As pessoas ficam perguntando se tem luxo. Depende do que as pessoas consideram como luxo. Eu acho que o bom acabamento é luxo. A modernidade tecnológica é muito luxo. As pessoas não vão ver penas, plumas. Elas vão ver muito requinte, muito primor”, revelou Igor.

Por fim, Igor Ricardo mostrou muita confiança na escola pelo conjunto que possui e que deverá defender cada quesito com bastante força:

“O que vai ganhar o Carnaval é o conjunto. Eu acho que o conjunto do Salgueiro está impecável. Tem uma conjunção de frente que é impecável, tem um casal que é impecável, tem uma bateria que é impecável, tem um samba considerado o melhor do carnaval, tem uma plástica impecável. Então, acho que o Salgueiro vai entrar na Marquês de Sapucaí como sempre. O Salgueiro todo ano é muito esperado, mas esse ano eu sinto uma força muito grande, até pelo enredo que temos. Uma força muito grande de vencer mesmo, de levar uma mensagem potente, poderosa e terminar o carnaval”.

O Acadêmicos do Salgueiro irá desfilar com seis alegorias, um tripé, um elemento cenográfico na comissão de frente, e terá 26 alas.

Conheça o desfile da escola

Setor 1: “O primeiro setor, a gente chama de Hutukara, ou Chão de Omama. É um setor que a gente vai abordar toda a mitologia, a cosmologia do povo yanomami. O livro ‘A Queda do Céu’ foi o que inspirou o enredo do Salgueiro. Nesse livro, o que a lenda yanomami diz? Em um primeiro tempo, você tinha os habitantes aqui, mas era um primeiro tempo, cuja sua hutukara, ou seja, sua terra-floresta, era muito fraca, muito frágil. Então Omama resolveu fazer a queda do céu, ele derrubou o céu para refazer essa hutukara mais forte, mais sólida. Então, hoje o yanomami acredita que ele vive em um segundo tempo, em uma segunda hutukara. Nesse primeiro setor, a gente chama os espíritos xapiris, que são os espíritos que o yanomami criou, os espíritos da floresta, para apresentar essa hutukara para nós. E nos rituais xamânicos do povo yanomami, você tem que tomar um pó, que é o pó yakoana, para você entrar em um outro estado de espírito, para você poder vislumbrar esses seres de luz, esses seres xapiris. Então, é todo o primeiro setor envolvido nessa mitologia, nessa cosmologia. Também tem ali a primeira mulher yanomami, que na lenda o yanomami pega essa mulher de dentro de um rio. Tem ali a árvore dos campos. Os xapiris falam com os xamãs, eles vão até uma árvore, colhem os cantos dessa árvore e levam esses cantos até os xamãs. Então, esse primeiro setor é um setor mais mítico, é um setor mais poderoso da cultura yanomami”.

Setor 2: “O segundo setor é o Caço de tacape, danço ritual, que vai mostrar o dia a dia da aldeia yanomami. É um setor que mostra pesca, que mostra caça, que mostra as mulheres indo para a roça, colhendo os seus frutos, que traz o dia a dia de uma das festas da aldeia, então é um setor que mostra o dia a dia desse povo. E eu até rebato algumas questões que surgem, por exemplo, sobre mostrar de novo eles pescando, ou mostrar o que eles estão sofrendo. Mas se você perguntar para qualquer pessoa o que o yanomami faz, ela não vai saber. Então, a gente tem essa necessidade de apresentar para as pessoas, para o público da Sapucaí, para o grande público que assiste os desfiles, o que esse yanomami faz. O que é esse yanomami”.

Setor 3: “Esse dia a dia é interrompido pelo terceiro setor, que a gente chama de Falar de amor enquanto a mata chora. É um setor que mostra a chegada do garimpo ilegal na terra pelo humano. Então, se você tinha no segundo setor essa harmonia deles convivendo plenamente com a natureza, nesse terceiro setor a gente vai ter essa interrupção com a chegada do garimpo no período da ditadura militar no Brasil. Os planos de integração nacional, de construção de estados na Amazônia, que os yanomami acabaram tendo esse primeiro choque epidemiológico, a chegada da malária, das doenças. Mas é importante ressaltar que a visão desse desfile é uma visão indígena. É por isso que falo que ‘A Queda do Céu’ é a nossa Bíblia, nosso livro-mãe, porque ele é um livro que, por mais que seja o Bruce Albert que escreveu, é o Davi Kopenawa falando, é ele narrando. E a mesma coisa é o desfile do Salgueiro, porque nesse setor, não é simplesmente mostrar a chegada do garimpo. É mostrar também que na lenda deles, como eu expliquei do Omama, que é o Deus da criação, eles acreditam que existe o Deus da morte, que é o Ioasi, e é ele que dá ao homem branco, ao napê, o conhecimento de que debaixo da terra você tem metal precioso. Então, a partir disso, o homem branco vai à terra dos yanomami, começa a explorar o subsolo e retirar esses metais preciosos da terra. E à medida que isso vai acontecendo, eles acreditam que são lançadas fumaças que saem pela terra, que são fumaças da morte, então é dentro dessa cosmologia também que você vai ver essa tragédia yanomami”.

Setor 4: “Esse setor é o que a gente chama de Pra postar no seu perfil. São acontecimentos, fatos históricos culturais relevantes, mas que pouquíssimas pessoas sabem do que se trata e está lá na terra yanomami. Por exemplo, a terra yanomami é a maior terra indígena do Brasil. O ponto mais alto do Brasil fica dentro da terra yanomami, o Pico da Neblina. Você tem, dentro da terra yanomami, cineastas que estão com filmes expostos em outros países, mas que no Brasil ficam restritos nesse círculo muito mais intelectualizado. Você tem artistas clássicos yanomamis que também estão com exposições em São Paulo. Teve a exposição no MASP do Joseca, mas são artistas que estão mais valorizados lá fora do que aqui dentro. Então, a gente traz isso. Nesse segundo, nesse quarto setor. São fatos relevantes, mas que pouca gente conhece, pouca gente sabe. E parafraseando o samba, no dia 19 de abril as pessoas costumam postar sobre salvar, sobre proteger os indígenas. Mas a sociedade indígena quer que a gente reconheça eles da forma como eles verdadeiramente são. Então, é uma crítica que a gente faz. Quando chegar o dia 19 de abril, vamos postar algo que seja relevante para eles”.

Setor 5: “E a gente fecha o desfile no quinto setor, que é o Pelo povo da floresta, que são outros povos indígenas que existem no país, que sofrem o que o povo yanomami passa, só que tem pouquíssima divulgação, fica limitada a sua região. Mas é uma questão diferente. O Salgueiro, quando faz esse enredo, a proposta é mostrar o yanomami do jeito que ele é verdadeiramente, que é respeitar o seu formato de cabelo, respeitar a sua pintura corporal, respeitar o seu cocar, respeitar a sua vestimenta, respeitar os seus adornos. Porque a gente tem uma visão equivocada de que todos os indígenas são iguais, eles não são. Cada um tem sua particularidade. Então, nesse último setor, a gente traz esses povos indígenas, respeitando a sua particularidade, seja um formato de um adorno da orelha, seja uma pintura corporal, seja um artesanato diferente. A gente quer mostrar para as pessoas o que cada povo tem de bonito, mas que o homem branco está matando, que o garimpo está matando, que o tráfico está matando. Então, nesse setor, a gente traz os povos que vivem no Vale do Javari, que foi onde Bruno e Dom morreram. A gente traz o povo Xokleng, que é o povo que está envolvido nessa questão do marco temporal. É um setor que a gente pede para as pessoas olharem por esses povos, mas não pela ótica da tragédia. Isso foi até um pedido que o Davi fez para a gente. Porque nós só conhecemos o que mostram na televisão, e aquilo ali não é o povo yanomami, aquilo ali é o que a gente está fazendo com eles. Então, o nosso propósito é desconstruir tudo isso, para que a gente possa ter uma outra visão do povo yanomami. Nesse último setor, a gente quer mostrar uma outra visão dos outros povos indígenas. A gente quer mostrar a visão da particularidade deles”.

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