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Série Barracões: Beija-Flor quer voltar aos desfiles volumosos sem perder o foco na mensagem do enredo

Quem vai ao barracão da escola, percebe pouco espaço para se movimentar, sinal de grandiosidade para carros em um processo já adiantado, pois alguns já estão até cobertos

Quem viu a “Deusa da Passarela” da primeira década do século XXI, sabe o quanto a Beija-Flor de Nilópolis tem o poder de impressionar seja pelo tamanho de alegorias, seja pelo volume e luxo de fantasias, ou seja, o seu estilo de fazer carnaval. Por exemplo, na dobradinha 2007, 2008, o bicampeonato, quando Áfricas e Macapá foram enredos. Mas não precisa ir muito longe não, em 2015 mesmo, no enredo sobre a Guiné Equatorial, a escola já havia apresentado um grande conjunto alegórico e de fantasias. O título de 2018 passou por uma ideia diferente da escola, mais teatralizado, mais crítica. Nos últimos anos, principalmente, após o décimo primeiro lugar em 2019, há uma expectativa por esse retorno a uma produção mais volumosa e luxuosa da Azul e Branca de Nilópolis. Em 2020, a escola ainda não atingiu aquele nível, mas as expectativas se renovaram para o desfile de 2022, quando a escola decidiu levar para a Sapucaí mais do que apenas um desfile, mais do que um carnaval para competição, uma grande mensagem.

“Empretecer o pensamento, é ouvir a voz da Beija-Flor” está sendo produzido pelo carnavalesco Alexandre Louzada e por André Rodrigues, integrante equipe de criação da Beija-Flor. Em razão da visita do site CARNAVALESCO ao barracão da Beija-Flor, Alexandre Louzada explicou de que forma se colocou na produção de um enredo que é uma oportunidade, um lugar de fala para todos que sentem na pele o racismo.

“Eu tinha feito um enredo que estava mais voltado para aquele momento que a gente estava vivendo, de início de pandemia. Até que surgiu essa ideia, me propuseram, abracei de bom grado, existia já uma prévia feita pelo João Gustavo Melo, com uma linha de raciocínio muito bem escrita por sinal. E, eu não mexi na ideia central, lógico que ele me deu a liberdade de trazer para o meu entendimento, para a minha ótica sobre esse tema. Por ser branco, era um desafio para mim. Então, eu preferi me colocar em um lugar de intérprete plástico, e preferi ouvir a voz das pessoas que viveram na pele cada situação desse racismo estrutural que existe não só no Brasil, como no mundo”, explica.

O artista complementa citando também o protagonismo como lugar de fala do enredo de André Rodrigues, que também é carnavalesco da Acadêmicos do Sossego. “O que eu posso dizer como intérprete plástico de tudo isso, e porque escolhi o André que é o meu assistente como o meu lugar de fala, é porque eu não posso bater no peito e dizer uma coisa que eu não vivi de verdade. Não é um sinal de grandeza minha, mas é um sinal de inteligência e de coerência para que o enredo possa passar a verdade”, esclarece Louzada.

Com o objetivo de tentar reescrever uma história de luta e de muita contribuição intelectual e artística do povo preto para a humanidade, o desfile da Beija-Flor seguirá um fio temático bastante amarrado com cada ala sendo importante para a construção da mensagem que a escola quer passar.

“Não é um enredo de curiosidades, esse carnaval da Beija-Flor não é um carnaval de encontro de pérolas. É um desfile que tem um propósito. Eu acho que o mais interessante deste enredo foi a gente se encontrar, se enxergar dentro dele. E a gente conseguir fazer com que outras pessoas pudessem se enxergar dentro dele nesse desenvolvimento de carnaval. Toda pesquisa que a gente ia fazendo sobre cada pessoa, ou sobre o trabalho de determinada pessoa, falava muito sobre a gente. O mais importante de tudo isso, eu acho que é que a gente consiga reproduzir o mesmo processo. Da mesma forma que a gente pesquisou, conheceu, leu a produção de determinada pessoa para entender esse processo de ‘empretecimento’, a gente espera dar isso para as pessoas”, indica André Rodrigues.

O grande trunfo da Beija-Flor para André será justamente aquilo que a escola vai deixar na cabeça de cada um que acompanhar o desfile. “A mensagem, o debate deste carnaval. É uma Beija-Flor novamente cutucando a sociedade, cutucando as pessoas. É um carnaval provocativo. E essa provocação que vai levar a gente aos debates. E a gente começar a debater de novo coisas que são importantes para gente”.

Grande personalidades serão citadas no desfile

A Beija-Flor não pretende trazer para Sapucaí uma grande lista de homenagens, não quer focar nas pessoas, mas sabe da importância de trazer personalidades pretas que tenham realizado grandes contribuições para humanidade, mantendo dessa forma a intenção de reescrever as narrativas e valorizar aqueles que muitas vezes tem seu lugar na história relegado a segundo plano.

“O mais importante não são as pessoas que serão citadas, nós temos muitas citações, mas o mais importante é pegar essas pessoas e fazer com que a produção delas faça sentido dentro desse carnaval. Não é uma lista de pessoas que serão homenageadas. Dentro da ideia de cada setor, existem produções de pessoas que fazem sentido com aquilo. E esse sentido junto com o próximo ou o anterior formam a gente. A linha de pensamento desse enredo é muito amarrada. Uma ala não faz sentido sem a outra. Tem pessoas que são extremamente importantes como Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, mas não é a pessoa, mas a produção dela”, define André Rodrigues.

A ideia é formar na cabeça de quem está acompanhando o desfile, o tamanho da contribuição histórica que veio dos negros e que muitas vezes foi apagada no passado por aqueles que carregavam o poder nas mãos. “A gente fala desses artistas de que nada é por acaso, a gente não deve negar nossas origens. A gente chama esse setor de atravessamento dos ancestrais. Você aceitar que você sofre influência de alguma entidade, para você ser um jornalista, é porque você se inspira em alguém e você absorve energias quem vem de alguma entidade que inspira você para uma determinada carreira. É o caso de você aceitar e se orgulhar da sua ancestralidade. Enquanto o desfile vai discorrendo, a gente na verdade está formando o pensamento das pessoas seja qual etnia que seja”, revela Alexandre Louzada.

Laíla também será homenageado como grande referência preta para o carnaval.

Falecido no ano passado, com mais de 30 anos de Beija-Flor somando suas três passagens, Laíla não poderia ficar de fora em um enredo que aborda a contribuição intelectual do negro para todas as esferas, e obviamente, uma das mais festejadas, é a cultural, especificamente, o carnaval. Nem Louzada, nem André revelam especificamente o lugar onde o grande diretor de carnaval, de harmonia, músico, e etc, virá neste desfile. Mas, Louzada dá algumas pistas do tamanho da homenagem que será realizada para Laíla.

“Ele é uma figura importante nesse contexto todo, na formação da própria Beija-Flor, e nada mais justo, eu acho que não é só a Beija-Flor que deveria homenagear o Laíla, não só pelas escolas que ele passou, mas pelo o que ele ensinou, para ter ouvido para escolher um bom samba, para fazer arranjos, eu que trabalhei com ele posso falar isso, quanto eu aprendi com ele quando eu nem trabalhava com ele. Só quem conviveu com ele é que entende bem aquela cabeça, aquele pensamento. O Laíla deu o tom da Beija-Flor. Ele terá uma homenagem explícita, não só pelo legado para a escola, mas para a posteridade de todos os diretores de carnaval”, informa o Louzada.

André Rodrigues também prefere não revelar qual o espaço destinado para a homenagem, mas coloca Laíla em um patamar filosófico dentro da festa que ele mesmo ajudou a desenvolver. “Obviamente, não posso dizer onde ele virá. Mas será homenageado. Laíla é um intelectual do carnaval, assim como outros intelectuais do carnaval serão homenageados”.

Carnaval volumoso, mas sem esquecer a mensagem

Como citamos no início da matéria, o mundo do carnaval sente um pouco de saudade de ver a Beija-Flor naquele patamar do início do século, ou em 2015 mesmo. É claro que nos últimos anos muita coisa dificultou essa intenção, passando pelas dificuldades financeiras causadas pela falta de apoio do governo Crivella, até a própria pandemia, e o título de 2018 que trouxe uma Beija-Flor diferente, mais teatralizada e crítica. Quem vai ao barracão da escola, percebe pouco espaço para se movimentar, sinal de grandiosidade para carros em um processo já adiantado, pois alguns já estão até cobertos. As fantasias de alas foram todas produzidas e já guardadas para o desfile. O trabalho vem sendo mais dedicado à vestimenta de destaques. Por isso, a perspectiva é muito boa, a escola parece querer voltar a esses tempos de gigantismo, mas com um enredo que traz uma mensagem social tão importante.

André Rodrigues alerta que a escola procura não só impressionar pela plástica, mas pelo envolvimento da comunidade e pelo discurso. “Existe uma realidade disso, o desfile é gigantesco. O carnaval é muito grande, acho que o Louzada é um cara que gosta de alegorias grandes, eu sou um cara que colaboro nessa criação, também gosto de carnavais grandes, gosto de peças grandes, e eu acho que isso super casa com o estilo da Beija-Flor. Eu acho que o principal fator de ver a Beija-Flor de volta, não é só a questão da plástica, mas eu acho que é um combo, de ser uma escola que faz as pessoas pensarem, de ser uma escola provocativa, de também ser escola grande, mas ser uma escola aguerrida com propriedade daquilo que está falando, eu acho que é um combo de várias coisas que a Beija-Flor sempre foi”, entende André.

Alexandre Louzada confirma a busca pelo trabalho volumoso, e também ratifica a relação entre comunidade e enredo. “Pode pensar em uma Beija-Flor volumosa com uma comunidade que já tem naturalmente uma grande força, mas que esse enredo toca muita gente. Desde que ele foi lançado, é até horrível dizer isso nesse desgaste que nós tivemos com a pandemia, deu o tempo necessário para você ver até onde pode alcançar um enredo. Até outro dia atrás mais coisas estavam sendo acrescentadas”.

Louzada e André esperam que escola possa deixar algo para a posteridade

Com um tema tão importante para a sociedade como um todo, é significativo entender e prever que o que vai passar na Sapucaí em abril quando a Beija-Flor vai fechar a primeira noite de desfiles não pode também se encerrar apenas naquele templo sagrado do samba.

“Acho que nós estamos fazendo na verdade, não vou dizer que a Beija-Flor vai fazer uma sequência, mas a gente está fazendo a parte um. O que é preciso fazer. Tomara que sempre tenha alguém para fazer a dois, e depois alguém para fazer a três. Por que tem muita coisa para contar, tem muitas vozes para serem ouvidas”, espera Louzada.

Já André Rodrigues acredita que a mensagem que a Beija-Flor vai deixar será ouvida e poderá sim mudar um pouco a mentalidade das pessoas. “Vai ser possível através do desfile porque já é possível através do samba. Esse desfile vai ser importante para a gente dar um novo marco no carnaval, na minha opinião, sobre as produções de carnavais que tenham a negritude como tema principal. Isso é um dos pontos. Outro ponto é você respeitar essas individualidades de representações negras no carnaval. Quanto mais a gente conseguir tocar as pessoas, é legal, mas, o mais interessante é ver como as pessoas vão reagir pós esse desfile. Porque não é possível que as pessoas não vão assistir esse carnaval, e aí vai ser interessante a gente enxergar depois desse desfile e pensar ‘não é possível que o fulano está fazendo isso’, entendeu?”

Entenda o desfile

Para o desfile de 2022, a Beija-Flor vai trazer 6 carros e um tripé, com 31 alas e cerca de 3000 componentes. André Rodrigues e Alexandre Louzada explicaram um pouco do que virá em cada setor.

Primeiro setor
“É esse retorno a África, e na verdade o entendimento da grandiosidade da África. Entender que o ponto de partida da história do negro brasileiro não é a escravidão”, revela André Rodrigues.

“E, a gente mostra a grandiosidade das civilizações africanas como a Egípcia que a própria história, os filósofos gregos até mudaram o nome para Egito, em terra que se chamava ‘Kemet’, que significa ‘terra negra’”, explica Louzada.

Segundo setor
“Fala sobre produção intelectual de pensamento, fala sobre filosofia. A partir do processo de escravidão, onde o colonizador diz ‘corpo preto para ser escravizado’ como justificativa de que ele era sem alma por não ser cristão, e não era um corpo inteligente. Quando ele diz isso, ele tira da gente o poder de entender que nós produzimos pensamento”, apresenta André.

“A gente mostra através de exemplos que até mesmo a filosofia já existia na África, muito antes da Grécia ser dada como mãe da filosofia. A gente levanta questão porque os ícones gregos são esculpidos em mármore e uma escultura esculpida em ébano não tem o mesmo valor?”, questiona Louzada.

Terceiro setor
“São os atravessamentos ancestrais. É a gente aceitar como essa ancestralidade atua através da gente nas nossas produções”, aponta André.

“A gente fala desses artistas de que nada é por acaso, a gente não deve negar nossas origens. Você aceitar que você sofre influência de alguma entidade, porque você se inspira em alguém e você absorve energias quem vem de alguma entidade”, explica Louzada.

Quarto setor
“Fala sobre a gente pegar o papel e a caneta e escrever a nossa própria história. Falando principalmente sobre o apagamento e silenciamento das produções literárias pretas do país”, esclarece André.

“A gente revela quantos escritores pretos no Brasil que foram expandidos na capa de livro sobre pseudônimos, o próprio fundador da academia brasileira de letras Machado de Assis era preto, era conhecido no meio como o bruxo do Cosme Velho, e sempre com uma máscara”, conta Louzada.

Quinto setor
“Fala sobre a ocupação dos palcos. A ocupação da mídia, sobre nós estarmos ocupando lugares de visibilidade”, apresenta André.

“A gente coloca o preto como protagonista nesse teatro. Por essa igualdade. É uma disparidade de você ter as artes cênicas somente com os melhores papéis para brancos. Cada um tem o seu palco para brilhar e a gente dá luz a essas pessoas que sempre viveram na coxia do teatro”, revela Louzada.

Sexto setor
“Mesmo a gente chegando em um ponto onde nós somos vistos, ainda assim a gente vive em um país racista. O último setor fala sobre as mudanças que são necessárias para que esse país se entenda como um país preto. Isso é o ‘empretecimento do pensamento’ ”, afirma André.

“No final, a gente pergunta, será que vocês estão preparados? Será que vocês entenderam tudo isso que a gente está falando? Você está preparado para ‘empretecer’ seu pensamento? Se não tiver, a Beija-Flor vai te mostrar que ela é uma verdadeira representante desde que ela foi fundada por um preto em um lugar distante, em uma comunidade pobre que não tinha acesso a nada, e que foi formando um verdadeiro quilombo de resistência”, explana Louzada.

Ficha técnica do barracão:

Responsável de barracão: David Tigorofi
Aderecistas de fantasia: Rodrigo Pacheco , Fabinho Santos, Valéria, Simone, Bete, Michelle, Filipe Monstrinho, Aderecistas de carro: Aílton, Bebeto, Isaac, Eliseu.
Carpinteiro: João
Ferreiro: Cláudio e Paulo
Placa de acetato: Baixinho
Escultura e Movimentos: Alex Salvador
Escultura: William Mansur e João Sorriso
Fibra: Bolinha
Pintor: Leandro
Empastelação: Cara Preta
Almoxarifado: Evandro, Wagner e Pagodinho
Iluminação: Dedé
Neon: Marquinhos e Muralha
Porteiro: Edgar, Élcio, Kléber

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