A noite do sábado foi de muita folia na Fábrica do Samba, na Zona Oeste de São Paulo. Na data, foi realizada a festa de lançamento do CD triplo das escolas de samba paulistanas para o carnaval de 2023 com direito a uma apresentação das 34 agremiações filiadas à Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (Liga-SP). O CARNAVALESCO esteve presente e conversou com integrantes das 14 agremiações que formam o Grupo Especial, que desfilaram de acordo com a ordem a ser obedecida nas noites dos desfiles. Cada um deles avaliou a apresentação da respectiva escola.

Primeira escola a desfilar, a Independente Tricolor cantou o enredo “Samba no Pé, Lança na Mão, Isso é uma Invasão!”. Jeff Antony, mestre-sala da agremiação, destacou a garra dos componentes e a parceira de dança ao envergar o pavilhão da escola da Vila Guilherme. “Foi uma emoção muito grande voltar a estar aqui, ainda que para uma mini apresentação, depois desse tempo. Foi muito gratificante para quem prepara isso aqui com muito amor. Eu e a Taís [Paraguassu, porta-bandeira] estamos firmes e fortes. Vem uma escola aguerrida, com sede de mostrar para a própria comunidade que a gente é capaz e que, para vencer, só depende de cada um de nós”, afirmou.

Cantando forte na Fábrica do Samba, a Acadêmicos do Tatuapé apresentou o enredo “Tatuapé Canta Paraty. Patrimônio da Humanidade!”. Diego do Nascimento, mestre-sala da agremiação da Zona Leste, exaltou o conjunto da azul-e-branca. “Aqui, na verdade, a Tatuapé demonstrou que sempre está no páreo. Esse mini desfile mostra a força da comunidade, da escola, do nosso canto, do casal que a escola tem. Mais uma vez isso foi mostrado”, pontuou. Já Jussara de Sousa, porta-bandeira, focou na interação dos componentes com o samba-enredo. “Nós somos conhecidos como a ‘Escola que Canta’. Isso foi demostrado aqui, somos a ‘Escola da Emoção’. Nosso diretor de Harmonia trabalha muito o canto na quadra, nosso presidente faz um trabalho legal. E tudo isso é o resultado de tudo que está sendo desenvolvido. Esse é o nosso diferencial, é a escola que grita o samba”, orgulhou-se.

Com o enredo “Guaicurus”, a Barroca Zona Sul novamente foi elogiada pela qualidade do samba, ponto também destacado por mestre Fernando Negão, diretor de bateria da verde-e-rosa. Ele aproveitou para destacar que os ritmistas preparam surpresas para o público na noite do desfile. “Deu para executar tudo que estávamos planejando, sim. Temos algumas coisas para fazer ainda, estamos organizando, mas 80% a gente fez hoje. Vão ter algumas
surpresas. No desfile, faremos ainda mais aguerridos e mais fortes. Ajuda muita quando o samba é bom assim, quando casa com a bateria”, comemorou.

Cantando o próprio bairro no enredo “Vila Maria. Minha Origem. Minha Essência. Minha História! Fonte de Amor Muito Além do Carnaval”, a Unidos de Vila Maria utilizou o evento para fazer alguns testes, de acordo com César Calado, o Cesinha. “Nossa preocupação era com o número de integrantes. Gastamos as 400 pulseiras que foram disponibilizadas. Já sabíamos que a escola estava grande e não queríamos estourar o tempo, algumas vezes desligam até o som da ala musical com todo mundo na avenida. E cantamos o samba ao ar livre, já que ainda não fizemos o ensaio na rua. Aqui já serviu como um teste. Contar a sua própria história não é fácil, é uma responsabilidade dobrada. Ainda mais encantando e fazendo espetáculo em cima disso. Mas a nossa comunidade, que é apaixonada e devota pela escola, representou muito bem e deu uma demonstração do que estamos preparando”, destacou.

O Rosas de Ouro chamou atenção pela comissão-de-frente vibrante e que não parou de evoluir e apoiar os demais componentes mesmo após acabar a própria exibição no enredo “Kindala! Que o amanhã não seja só um ontem com um novo nome”. Helena Figueira, coreógrafa do setor, fez questão de reconhecer todo o trabalho feito pelos demais componentes. “Eu não sei se é o papel da comissão, mas eu acho que ela não existe isolada de uma escola e de uma comunidade. Ela faz parte e representa essa comunidade. É muito importante que a gente esteja completamente conectado, conhecendo e saudando a comunidade. Não somos estrelas, somos parte desse todo, um quesito a mais”, destacou. Ela também garantiu que a apresentação será bem diferente no desfile da Roseira. ”Estamos em processo. Viemos em coreografia de quadra, mais tranquila, que nada tem a ver com o projeto que vamos trazer na avenida”, finalizou.

Mestre Carlão, comandante da bateria da Tom Maior

Outra escola a vir com temática afro é a Tom Maior, que representará o enredo “Um Culto às Mães Pretas Ancestrais”. Mestre Carlão, diretor de bateria da escola, elogiou o samba-enredo da vermelho-e-amarelo. “Foi tranquilo. Ótima apresentação, é o que estamos ensaiando. Foi ótimo. É um tema que tem muita força, deixa todo mundo muito leve. Você viu hoje, a escola toda. Não é só a bateria, todo mundo cantando, um samba forte demais. É muito emocionante”, comemorou.

Sempre empolgando as arquibancadas, a Gaviões da Fiel Torcida cantará a religiosidade no enredo “Em Nome do Pai, dos Filhos, dos Espíritos e dos Santos… Amém!”, que fechará a primeira noite de desfiles no Anhembi. Famoso intérprete da agremiação, Ernesto Teixeira aprovou a apresentação da Torcida Que Samba: “Gostei do que fizemos, nosso samba é forte e o público que estava por aqui respondeu bem. Fiquei satisfeito”, destacou.

Grande destaque da noite, a Estrela do Terceiro Milênio realizou o lançamento dos protótipos no evento, e não na quadra – como é costume das escolas. Disputando pela primeira vez o Grupo Especial, a agremiação do Grajaú cantará o enredo “Me dê sua tristeza que eu transformo em alegria! Um tributo à arte de fazer rir”, do carnavalesco Murilo Lobo – que deu a ideia para a surpresa e comemorou o resultado. “Começamos com o pé direito! Estamos ensaiando forte na nossa comunidade, mas estar nessa festa, com o povo do samba, tem um brilho diferente. Resolvemos fazer algo novo para o público acompanhar com a gente. Trabalhamos muito duro na construção dos pilotos, e eu pensei em mostrar para todo mundo ao mesmo tempo ao invés de fazer uma festa. Eu pensei que era um espaço melhor para fazer, uma festa de congraçamento”, comemorou.

Porta-bandeira da Acadêmicos do Tucuruvi, Waleska Gomes preferiu focar na própria apresentação e também destacou a dificuldade de bailar após a chuva, que caiu em dois períodos na Fábrica do Samba no dia do evento. “Amei! Nota dez! É muito difícil ter uma dimensão agora, eu venho na frente da escola e não assisti vídeos. Preciso descansar, sentar e assistir a escola inteira. Aí, não vou dar passada de pano, não: vou ser sincera. Pelo que eu vivi, no calor do momento, foi maravilhoso. Sobre o piso em paralelepípedo: muda totalmente! Prende muito, tem que fazer mais força, dependendo do calçado escorrega. Mas somos artistas de rua, temos que estar prontos para chuva, vento, chão,
público, atraso… não tem muito o que fazer”, resignou-se.

A preocupação de Waleska foi compartilhada por Miriam Acedo, segunda porta-bandeira da Mancha Verde. Ela aproveitou para destacar o contato próximo com o público e com o restante da escola. “O piso é complicado, mas a gente vem preparada. Eu venho com algum tênis, então acaba não me atrapalhando. A gente já conhece. Quanto à apresentação, eu adoro o povo perto! Eu sou interior, nosso carnaval é isso, esse povo perto, a energia, a bateria perto, é muito gostoso, é gratificante”, destacou, após apresentação do enredo “Oxente – Sou xaxado, sou Nordeste, sou Brasil”.

O carnavalesco do Império de Casa Verde, Leandro Barboza fez elogios ao canto dos componentes e, também, ao samba-enredo que conduzirá o desfile de “Império dos Tambores – Um Brasil Afromusical”. “Eu acho que o mini desfile mostra o que a escola vai apresentar, o termômetro do samba, a garra dos componentes. É a resposta do samba, e o que aconteceu hoje é o resultado disso tudo. Com esse samba, a gente já sai na frente. Pra mim, é um dos melhores de São Paulo e Rio de Janeiro. É o que a comunidade sempre
desejou e a diretoria apoiou”, ratificou.

Outra porta-bandeira a avaliar a dificuldade do bailado com o paralelepípedo escorregadio foi Natália Lago, da Mocidade Alegre. Após a apresentação do enredo “Yasuke”, ela também destacou a energia que o evento trouxe para todos os envolvidos. “Particularmente, eu não gosto. Temos que prestar bastante atenção para não torcer o pé, não machucar. Eu fico com receio, mas ele não escorrega. No Anhembi, se chover, vira um sabão. Estávamos concentrando, o pessoal já estava com a adrenalina a mil. O minidesfile coloca todo mundo para cima, uma energia muito boa”, pontuou.

Desde 1992 comandando a bateria da Águia de Ouro, mestre Juca é mais um a elogiar um dos sambas paulistanos – mas faz isso após exaltar a própria comunidade da Pompéia, que cantará o enredo “Um Pedaço do Céu”. “Pra melhorar dá sempre, mas acho que foi legal, com um andamento bacana, um ritmo legal, a escola cantando como sempre. Estamos no caminho certo. Aqui no Águia a gente não tem problema com canto, graças a Deus. A comunidade canta pra caramba, a bateria se encaixa legal. A nossa bateria toca pra escola,
principalmente durante o desfile. Tá no caminho certo. O samba é bom, é curto, tem refrões legais”, avaliou.

Nos primeiros meses na Dragões da Real, o carnavalesco Jorge Freitas foi outro profissional a elogiar os sambas-enredo. Ele, entretanto, exaltou igualmente as coirmãs, “Eu acho que, hoje, foi uma demonstração do que estamos fazendo nos últimos meses. O povo do carnaval pede o samba da Dragões, então acho que não só a Dragões se sente bem feliz como o carnaval de São Paulo, como um todo, com mais uma safra de samba bons – e da Dragões, em especial. É o meu primeiro carnaval aqui, mas tô muito animado com tudo que está acontecendo”, finalizou o hexacampeão do carnaval paulistano.