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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

A terceira maior campeã do Carnaval de São Paulo escolheu o samba-enredo para desfilar em 2027 no último domingo. A Nenê de Vila Matilde, onze vezes vencedora da disputa na cidade, escolheu o Samba 10 na eliminatória da agremiação, composto por Tonn Queiroz, Renato Machado, Fabiano Sorriso e Santaninha, históricos nomes da Águia. A obra embalará o enredo “Mulheres de Palmares – A Liberdade tem Rosto de Mulher”, assinado pelo carnavalesco Chico Ângelo. Sexta escola a desfilar no Grupo de Acesso II, a Nenê de Vila Matilde realizou a final de samba-enredo na histórica quadra da escola, na Zona Leste de São Paulo. O CARNAVALESCO acompanhou e conversou com figuras importantes da Águia Guerreira para o Carnaval 2027.

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Parceria enxuta

Ao contrário do que muitas vezes acontece atualmente, o grupo de compositores campeão é contado com os dedos de uma única mão. Um deles, por sinal, é o maior vencedor de eliminatórios na Nenê de Vila Matilde, e estava bastante emocionado ao falar do triunfo: “A vitória não é minha ou da parceria, a vitória é do samba. É de quem realmente é o samba. Tem muitas brasas queimando em mãos erradas. Eu sempre falei para eles: existe burro preto, agora preto burro nunca vi. E esse burro não somos nós. Aqui é Nenê de Vila Matilde!”, disparou Santaninha.

Fabiano, também conhecido no samba paulistano, preferiu destacar outro companheiro de caneta: “A nossa cabeça pensante é o Tonn! Ele pensa tudo, sabe tudo, sabe o que tem que por e o que tem que tirar. Ele é terrível!”, elogiou.

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Citado por Fabiano, Tonn destacou o processo criativo da obra: “Hoje em dia as coisas acontecem muito por WhatsApp, a gente foi se falando tanto pelo aplicativo quanto pessoalmente. A Nenê de Vila Matilde tem identidade e uma discografia que, se você tirar o nome do compositor, você não sabe quem fez, porque o samba tem identidade. A gente já segue isso. A gente está com o maior professor do nosso lado! Tivemos o prazer de ganhar o samba do Sal há 15 anos; e, agora, estamos de volta. Voltamos e voltamos para ficar. Na verdade, nunca saímos. A gente respira Nenê de Vila Matilde. Eu costumo dizer que tudo o que a gente faz, mesmo em outros lugares, tem cara de Nenê de Vila Matilde. A divisão é única”, refletiu.

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Fotos: Will Ferreira/CARNAVALESCO

Tonn também fez questão de exaltar os demais companheiros ao falar sobre a história de cada um deles na Nenê de Vila Matilde e no universo do samba na cidade de São Paulo: “Eu sou é aluno desses caras! Não é demagogia, não. Desde 1uando eu cheguei aqui, com 17 anos (hoje eu tenho 43), para cercar cavaco na escola, tudo o que eu aprendi foi com esses caras. Eu vi esses caras ganhando de tudo quanto foi jeito, com tudo quanto é tonalidade. Eu costumo dizer que tudo o que eu penso hoje é em função do que eu aprendi com eles. Eles são a inspiração, até por conta dessa linha melódica que a Nenê tem. Se juntar nossa parceria, só o Santaninha tem 11 sambas… agora 12 sambas na escola! É muita coisa. Fabiano deve ter para lá de cinco, Renato tem samba na escola, eu tenho samba na escola. A gente respira Nenê de Vila Matilde”, declarou.

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Último nome do grupo, Renato respondeu por todos ao falar sobre a parte favorita da obra: “É difícil escolher uma parte só. As pessoas gostam muito do nosso refrão de meio. Eu gosto muito do final da segunda. E aí é gosto! Eu me identifico muito com o final da segunda, confesso”, detalhou.

Presidente democrático

Rinaldo José de Andrade, popularmente conhecido como Mantega, presidente da Nenê de Vila Matilde, contou que a opinião dele sobre o samba vencedor ou sobre os finalistas era apenas mais uma: “Eu vou dizer o seguinte: eu gostei dos três sambas. Só que a gente tem que ir dentro do que contempla o nosso enredo. E eu tinha a minha opinião. Já falei ela aqui na pasta, meu voto estava fechado antes de nos reunirmos. Eu não sabia dos outros. E, na verdade, na salinha, juntou-se os votos de cada um e vimos o que deu”, destacou.

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O mandatário azul e branco também revelou o pedido que a escola fez para cada grupo de compositores: “O que a gente pediu foi um samba com a letra dentro do enredo. Quando você tem, de repente, uma melodia maravilhosa, você adequa o samba ao enredo que foi feliz na melodia. Foi exatamente isso que aconteceu hoje. Eu fui só um, e, quando vimos os demais votos, definimos o vencedor”, disse.

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Bruna Moreira, popularmente conhecida como Babalu, diretora de carnaval da Nenê de Vila Matilde, mostrou muita satisfação com as obras apresentadas neste domingo: “Eu estava muito contente com os três sambas da final e estou ainda mais contente com o vencedor. Nós tínhamos melodias altas e letras muito bem construídas. Os compositores conseguiram pegar bem o enredo e hoje tivemos dificuldade para escolher o samba campeão”, disse.

Rodrigo Oliveira, diretor geral da escola, foi pelo mesmo caminho: “A gente teve uma safra com bastante assertividade nas questões técnicas, em relação ao que o regulamento pede, e trazendo aquele ‘quê’ que a comunidade gosta. A gente tinha letras bem mais competitivas tanto em relação à correção com a letra quanto com as melodias, com a cara do que é a Nenê. E, por isso, a comunidade se identificou bastante com as obras, em especial com a campeã. Nessa safra, a gente viu a comunidade bem balanceada entre os três sambas, porque realmente estava uma competição bem bacana em termos de qualidade”, comemorou.

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Quando perguntado sobre os próximos passos da instituição junto à comunidade, Rodrigo destacou que as próximas semanas serão intensas na Zona Leste: “A gente vai ter um trabalho fechado nessa segunda quinzena de agosto para a gente ver a necessidade ou não de fazer ajustes na canção. Às vezes, o samba não precisa de um ajuste, mas é óbvio que vai passar por uma ala musical especializada. Tem que ter uma identidade com ela e com as lideranças da escola, que vão ser os multiplicadores para a comunidade. A comunidade já está vivenciando o samba desde que foi lançado, e automaticamente isso facilita bastante. O matidense tem muito isso, ele já se identifica com o samba desde o momento em que ele é posto na rua. E, quando ele foi definido, já facilita o nosso trabalho. E, com o que a gente vai fazer nessa quinzena, para começar em setembro com tudo para valer, eu tenho certeza que vai só crescer”, disse.

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Babalu aproveitou para trazer as datas que a comunidade matildense deve anotar no calendário: “No dia 12 de setembro nós vamos lançar nossas fantasias e iremos fazer o lançamento oficial do samba para o Carnaval. Já vai ser feito esse trabalho, a comunidade vai estar cantando o samba ao pé da letra. E teremos novidades no dia 12: além dos pilotos, devemos ter uma grande novidade especial também no dia. Depois, a partir do dia 20, os ensaios começam para valer”, revelou.

Autor em êxtase

Responsável pelo enredo e um dos nomes diretamente envolvidos na sinopse entregue para os compositores, o carnavalesco Chico Ângelo fez questão de exaltar todos os envolvidos no concurso: “Não só o nível do vencedor e nem mesmo só o dos finalistas: todos os sambas foram muito bem. A gente teve uma safra muito positiva, com 11 sambas. Foram sambas muito completos, que participaram do tira-dúvidas desde o início. A gente teve poucas falhas de letra, chegamos numa final com três sambas de nível alto e entendemos que qualquer um deles fosse capacitado para ocupar a avenida. O que definiu o vencedor foram os detalhes”, disse.

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A qualidade da obra vencedora e a confiança do carnavalesco em tal canção foi expressa quando a reportagem perguntou sobre as possíveis mudanças pelas quais o samba pode passar, processo natural em qualquer agremiação: “Qualquer que fosse o vencedor, a gente praticamente não teria nem uma mudança. Tínhamos três sambas muito próximos da sinopse final e o vencedor, obviamente, está nesse meio. Na minha humilde opinião de carnavalesco, que tem que ser compartilhada com a direção e com todos da escola, a gente tem um samba que não precisa mexer para ir para a avenida”, surpreendeu.

Competentes com visões diferentes

Dois dos principais músicos da Nenê de Vila Matilde deram declarações que mostram a pluralidade pela qual a escola é conhecida. Mestre Matheus Machado, comandante da “Bateria de Bamba”, começou falando sucintamente sobre as obras que se apresentaram no domingo: “Gostei do nível dos sambas, em especial do campeão. A gente estava fazendo uma eliminatória legal, o nível dos sambas estava bacana também. Três sambas bonitos e bons, foi tudo muito competitivo. A gente estava trabalhando com três sambas bacanas. O samba vencedor foi o melhor para a nossa escola levar para a avenida e, se Deus quiser, buscar o título tão desejado pela comunidade”, afirmou.

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Alessandro Jorge Theófilo de Souza, popularmente conhecido como Tiganá, intérprete da Águia, foi além: “Eu tinha pedido para o presidente executar uma ideia: por mim, iriam quatro sambas! Até por isso, para falar do nível dos três finalistas, posso dizer que eram quatro que eu queria, esses três e mais um que não veio, mas está tudo bem. O presidente quis assim, três sambas para não estender muito o evento. O nível dos sambas que foram apresentados na disputa desde o começo foi excelente, foram muito bem escolhidos pelo presidente e pela diretoria. Vocês presenciaram, a disputa foi maravilhosa e os três sambas de hoje eram excelentes sambas. Venceu o melhor, e na avenida, pode ter certeza, vocês vão ver a Nenê de Vila Matilde pronta”, prometeu.

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Quando a reportagem comentou sobre pensamentos prévios para cada uma das obras, os músicos mostraram visões distintas. O mestre de bateria esperou a decisão: “Até minutos atrás eu não estava pensando em nem um samba específico, sempre espero sair o vencedor para só depois começar a pensar nas possibilidades de bossa e de desenhos rítmicos que têm dentro do samba. Agora, sentindo o samba campeão, já estou com várias ideias que vamos começar a executar logo no nosso primeiro ensaio”, disse.

Já o cantor mostrou-se disposto a estudar cada uma das obras, independentemente do vencedor: “Eu já tenho uma linha pronta, pô! É porque a gente, desde a escolha, já ouve os sambas e já vai imaginando quem pode chegar na final. O intérprete da escola de samba, quando a gente ouve os sambas entregues, a gente senta com calma em casa (eu, pelo menos, sento em casa e ouço todos) e já vou botando parâmetro, vou pontuando o que que eu posso fazer em um, o que que eu posso fazer em outro. Desses três que estavam aqui, eu já sabia o que eu poderia fazer em cada um deles. Escolhemos o samba, vamos sentar com a diretoria, fazer as correções, ver o português, as partes das letras que podem ser mudadas pelo carnavalesco, alguma coisa ou outra que ele quer que encaixe no samba para entrar totalmente no enredo dele. E, a partir disso, eu começo a trabalhar 100% no samba. Mas eu já tenho algumas ideias já do que eu posso fazer com esse grande samba vencedor”, disse.

Chegada triunfal

Ao invés dos tradicionais shows de segmentos, a Nenê de Vila Matilde focou em uma grande novidade para o Carnaval 2027 na final de samba-enredo. Após a saída de Edgar Carobina e Taiene Caetano, o posto de primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da escola estava vago até a decisão da obra vencedora. No terreiro da agremiação, foi anunciado que a dupla que defenderá o pavilhão principal da azul e branco é Patrick Vicente e Thayla Trentin.

Patrick tem passagens como primeiro mestre-sala na Mocidade Unida da Mooca (2023), Unidos do Peruche (2025) e Império de Casa Verde (2026). Já Thayla é conhecida da comunidade, tendo defendido o primeiro pavilhão matildense entre 2022 e 2024, deixando a agremiação para se tornar mãe.

Além da dança, ambos também mostraram sintonia ao falar do samba escolhido pela escola: “Gostamos muito do samba-enredo, de coração mesmo! Foi bem difícil a escolha. Você via a comunidade torcendo um pouquinho para um, um pouquinho para outro… mas, com toda a certeza, eu sei que a Nenê vai fazer uma boa escolha para a comunidade e para a gente ser feliz em 2027 e sair da pista sendo campeão do Carnaval de São Paulo”, destacou.

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Thayla destacou que, além da obra, também é muito simpática à temática que será levada para o Anhembi pela agremiação: “O enredo é muito forte, é a cara da Nenê de Vila Matilde. É um enredo afro, de gente preta. Eu gostava de todos os sambas, mas eu tenho certeza que a diretoria escolheu o melhor para que a gente seja campeão do Grupo de Acesso II mais uma vez”, comentou.

O mestre-sala relembrou que, em 2025, ele também trabalhou com Chico: “Bom, o tema afro é muito… é muito importante pra gente. Nós que é preto, sambista, né, favorece muito que a gente já vem da religião, do Candomblé, ela também. Então facilita pra gente criar nossa coreografia para quem já é do meio. Tô muito feliz, um tema muito forte. Conheço os carnavalescos de outros carnavais, trabalhamos junto no Peruche, então tenho certeza que vai fazer um belo Carnaval para todos nós”, finalizou.

As obras

Ao todo, eram três os finalistas na eliminatória na Nenê de Vila Matilde. O primeiro a se apresentar foi a parceria campeã, com a marcante voz de Tinga como intérprete. O começo do refrão principal, com letra simples e curta, permitia o canto simples e espaçado, que ecoou com força pela quadra da Águia. A exaltação direta, com nome citado, das mulheres de Palmares foi outro ponto forte da obra, que tinha uma característica interessante na segunda estrofe: tal trecho começa com versos curtos e, conforme chega ao refrão, tem mais palavras. Vale destacar que, após o anúncio da obra campeã, a quadra teve uma queda de energia e a comunidade levou a canção à capela.

A segunda parceria a se apresentar na decisão foi o de número 03, da parceria de Liso, Tales Queralt, Sérgio Gabriel e Chanel, com a presença dos intérpretes Elci Souza e Vaguinho. Com um refrão forte e de letra e rima simples, a canção angariou adeptos de imediato na apresentação. O falso refrão no final da segunda estrofe também agradou, com o inspiradíssimo verso “Vila Matilde dos Palmares”, unindo o terreiro da escola com o quilombo que serve de cenário para o enredo, como destaque. Vale pontuar que a canção em questão é mais longa que a média dos sambas-enredo de safras anteriores, em tendência vista em algumas escolas para o ciclo do Carnaval 2027.

Por fim, o último samba-enredo a ter exibição foi o de número 11, assinado por Leandro Neguinho, Victor Rangel, Herval Neto, Wagner Guerra, Gigi da Estiva, Alexandre Reis, Renne Barbosa, Robson Moratelli, Marcello Batista, Maurício Rocha Jr., Jonathan Tenório e Zé Mauro do Império Serrano. Com formato bastante incomum, a obra caiu no gosto dos presentes aos poucos. O início sem ser em um refrão e os falsos refrãos antes de cada um dos refrãos de fato (e o último deles com ritmos diferentes em cada uma das passadas) contrastavam com um refrão de cabeça mais adaptado ao que comumente se ouve em sambas-enredo, com uma exaltação interessante à escola no verso “De fala sempre fui a pioneira”.